domingo, 5 de abril de 2015

Ressurreição: quando o amor de Deus é um fogo

Domingo de Páscoa, celebrar a luz nova


Teófanes o Grego, Transfiguração do Senhor 
(início do século XV; ilustração reproduzida daqui)


A experiência do ressuscitado é, para os primeiros seguidores de Jesus, semelhante a um fogo misterioso e intenso. Dois deles, que iam a caminho de uma aldeia chamada Emaús, são disso testemunhas. Pelo caminho, o próprio Cristo ressuscitado junta-se a eles, sem ser reconhecido, e explica-lhes os textos bíblicos que a ele mesmo se referiam.
Os dois discípulos só o reconhecem quando Jesus se senta à mesa com eles. Ao regressarem a Jerusalém, para dizer aos companheiros que tinham visto o ressuscitado, comentavam: “Não nos ardia o coração, quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as escrituras?”
Esse fogo já antes o tinham experimentado outros três discípulos – Pedro, Tiago e João – quando Jesus se transfigura perante eles, mudando-se o rosto e resplandecendo as vestes. Sem entenderem plenamente o que acontece, os três intuem que o acontecimento prenuncia algo mais forte – que viria a ser a ressurreição.
Não se sabe o que terá sido a experiência da transfiguração – como a representada no ícone aqui reproduzido – nem, muito menos, a da ressurreição. Sabe-se, apenas, que elas mudaram a vida de um punhado de mulheres e homens. Dentro deles, descobriram de repente, por causa de um homem que se afirmava filho de Deus, potencialidades ignoradas.
“Quando a noite se torna espessa” – escreve o irmão Roger, da comunidade monástica de Taizé – o amor de Deus “é um fogo que vem atear o que sob as cinzas permanecia todavia incandescente”.
A experiência do fogo dá lugar a um dos símbolos mais importantes da liturgia católica. Na noite que passou, a Vigília Pascal começou com a bênção do lume novo. A oração do Precónio Pascal fala dessa noite diferente, que contém em si a força da luz na história bíblica: o inicial “Faça-se luz” rompe as trevas dominadoras; o pecado dissipa-se pela coluna de fogo que conduz os israelitas através do deserto, fugindo à escravatura egípcia; a ressurreição, acontecimento fundador do cristianismo e vitória sobre a morte, dissipa “as trevas de todo o mundo”; a terra rejubila “inundada por tão grande claridade”.
Esta foi a noite de prenúncio de uma aurora nova. “Esta noite santa afugenta os crimes, lava as culpas; restitui a inocência aos pecadores, dá alegria aos tristes; derruba os poderosos, dissipa os ódios, estabelece a concórdia e a paz.”

Hoje, Domingo de Páscoa, é essa luz nova que os cristãos celebram.

(Texto publicado no Público a 27 de Março de 2005)

sábado, 4 de abril de 2015

A água que brota do grande silêncio

Sábado Santo e a água como símbolo de fecundidade plena


Fédor Zubov, O Profeta Elias no Deserto 
(1672), Museu de Arte de Jaroslavl


Hoje, Sábado Santo, as liturgias cristãs – de modo especial a católica – assinalam o dia do grande silêncio. Os crentes contemplam o Cristo sepultado, mas experimentam, na aparência de uma derrota, a confiança na ressurreição. Como quem sabe que, mesmo no meio do deserto, há água que brota.
O profeta Elias – representado no ícone O Profeta Elias no Deserto, de Fédor Zubov – foi um dos que, na história bíblica, entendeu essa realidade. A seca atormentava o povo de Israel. Elias é então convocado por Deus, que queria “mandar chuva sobre a terra”, para manifestar que só ele era o verdadeiro Deus. E, depois de um despique com os sacerdotes de Baal, a chuva sobrevém e o povo volta-se de novo para o seu Deus. Antes, já o mesmo Elias recriara alimento na casa de uma pobre viúva que sofria asperamente os efeitos da seca e não tinha pão nem farinha.
Em ambas as histórias, Elias é aquele que acredita contra toda a lógica. A água virá, a fome acabará, mesmo se o deserto é que nos envolve – tal é o sentido da acção do profeta, narrada no livro bíblico de Reis.
A água é, na Bíblia, esse sinal da fecundidade plena. No início, conta o livro dos Génesis, já o Espírito de Deus pairava sobre as águas. No dilúvio de Noé, a água é o sinal da destruição mas também da purificação. Para fugir da escravatura no Egipto, os hebreus atravessam a pé enxuto o Mar Vermelho. Para os egípcios que tentarão perseguir os antigos escravos, a água será o seu cemitério, tornando-se sinal de liberdade plena.
Esta noite, na Vigília Pascal – a mais importante celebração do calendário litúrgico católico – os crentes recordam a água que fecunda a terra, que dá “frescura e pureza aos nossos corpos”. É dessa ideia que nasce o rito do baptismo. Na Vigília Pascal, celebra-se muitas vezes o baptismo de alguns e todos os crentes são aspergidos, recordando o dia em que cada um foi introduzido, pela água, na comunidade dos crentes. Como o viajante que passa por uma fonte: pára, refresca-se, descansa e retoma forças para o caminho. Como quem acredita que, entre os sinais da desesperança, é possível perscrutar o que os olhos não vêem.

(texto publicado no Público a 26 de Março de 2005)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A cruz, sinal do desarmamento divino, símbolo de Deus ‘todo-amoroso’

Primeiro identificativo cristão era um peixe desenhado com dois traços



Marc Chagall, Ressurreição
óleo sobre tela, 1937-1948
(ilustração reproduzida daqui)

No princípio, não era a cruz. O primeiro e grande símbolo dos cristãos foi um peixe desenhado com apenas dois arcos cruzados. O sinal remetia para a actividade piscatória que envolvera boa parte dos discípulos de Jesus. Ao mesmo tempo, a palavra grega para designar peixe, ictus, correspondia ao anagrama de Iesus (Jesus) Christos (Cristo) Theou (Deus) Uios (Filho) Soter (Salvador).
Com o tempo, a cruz foi tomando o lugar desse identificativo inicial. Jesus morreu depois de torturado e pregado numa cruz, passando esta a simbolizar, para os cristãos, o dom total de Cristo pela salvação de todos os homens e mulheres. Se ela traduz, assim, um terrível sofrimento, adquire também, para os crentes, o significado simultâneo de despojamento e plenitude.
“Não posso responder nada aqueles que dizem: ‘Há demasiado mal no mundo para que eu possa acreditar em Deus’”, escreve o filósofo Paul Ricoeur. “O único poder de Deus é o amor desarmado. Deus não quer o nosso sofrimento. De todo-poderoso, Deus torna-se ‘todo-amoroso’. Deus não tem nenhum outro poder para além de amar e de nos dirigir, quando sofremos, uma palavra de auxílio. O que é difícil para nós é poder ouvi-la.”
A cruz é símbolo desse despojamento quase absurdo, sinal do desarmamento divino. Mas que assume em si quotidianos de sofrimentos, alegrias, lutas e júbilos, como tão bem representam os crucifixos das pinturas populares latino-americanas ou esta Ressurreição de Chagall.
No decorrer da história, a cruz acabou por ganhar, para muitos cristãos, uma dimensão totalitária, esquecendo que ela testemunhava outro sinal maior – o da vitória sobre a morte como o último dos limites da humanidade. Acentuou-se o pietismo, o sofrimento pelo sofrimento, a “recompensa” do vale de lágrimas presente numa vida futura…

No seu sentido profundo, a cruz assume os fardos de cada um. Nela, cada um assume os fardos dos outros. Com esse horizonte, a liturgia católica criou, para a Sexta-feira Santa, a celebração da Adoração da Cruz. Para recordar que, no auge da tortura e do sofrimento, o próprio Jesus perdoou aos que o executavam. No século VI, escrevia Isaac de Nínive: “Deus só pode dar o seu amor.”

(texto publicado no Público a 25 de Março de 2005)

Religião e arte, memória e saudade do Paraíso perdido e o cinema como espelho da vida


Manoel de Oliveira com Bento XVI, a 12 de Maio de 2010, 
no Centro Cultural de Belém (Lisboa)
(foto reproduzida daqui)

No encontro de Bento XVI com o mundo da cultura, durante a sua visita a Portugal em Maio de 2010, Manoel de Oliveira foi convidado a dirigir ao Papa as palavras de saudação. Na sua curta intervenção, o cineasta falou da relação entre religião, artes e cinema:  

Considerando, porém, a religião e a arte, ambas se me afiguram, ainda que de um modo distinto é certo, intimamente voltadas para o homem e o universo, para a condição humana e a natureza Divina. E nisto não residirá a memória e a saudade do Paraíso perdido, de que nos fala a Bíblia, tesouro inesgotável da nossa cultura europeia? Acossados pelas especulações da razão, sempre se levantam terríveis dúvidas e descrenças, a que se procura opor a fé do Evangelho que remove montanhas. E os seres humanos caminham na esperança, apesar de todos os negativismos. Como diz o padre António Vieira: «Terrível palavra é o “Non”, por qualquer lado que o tomeis é sempre Non...»,  terminando por lembrar que o “Non” tira a Esperança que é a última coisa que a natureza deixou ao homem.
Se as artes nada mais aspiram a ser que um reflexo das coisas e acções vivas dos procedimentos e sentimentos humanos do universo real ou em fantasias imaginadas, pode aceitar-se o que um realizador mexicano, Artur Ripstein, classificou dum modo magnífico e surpreendente o cinema como sendo o espelho da vida. E é-o de facto.
(o texto pode ser lido aqui na íntegra; o vídeo da intervenção de Manoel de Oliveira pode ser encontrado no final desta galeria.)

Numa nota a propósito da morte de Manoel de Oliveira, o presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, bispo D. Pio Alves, escreveu ontem: “Sentimos concretizado na obra de Manoel de Oliveira, e de outros protagonistas da nossa cultura, aquilo que o Concílio Vaticano II deixou bem vincado: as artes são um componente necessário do património de cada comunidade humana e ajudam a pessoa humana a chegar a uma autêntica e plena realização”, diz, numa referência ao texto conciliar da Gaudium et spes, sobre a relação da Igreja com o mundo.

Num texto biográfico sobre Manoel de Oliveira, a cineasta Inês Gil escreve:

“Católico confesso, defendeu sempre o cinema como arte de exprimir o religioso, questionando o mistério do mundo e a complexidade humana, por vezes, não poupando críticas a uma instituição que considerava demasiado fechada relativamente a certos assuntos e temas.”

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Comer juntos, o gesto da memória de Jesus

A refeição, um importante ritual em várias religiões



Johannes Vermeer, Cristo em casa de Marta e Maria (1654-56)
(ilustração reproduzida daqui)


Depois da celebração do Domingo de Ramos, em que se recorda a entrada de Jesus em Jerusalém, poucos dias antes de morrer crucificado, os cristãos (católicos, protestantes e anglicanos; pela diferença de calendários, os ortodoxos só celebram a Páscoa daqui a uma semana) evocam hoje a última ceia que Cristo come com os seus mais próximos.
A importância da refeição no ritual religioso não nasce com Jesus e o cristianismo. A ceia que acabou por ser ritualizada pelos cristãos em memória de Cristo era, ela própria, a celebração da Páscoa judaica: à volta da mesa e de um cordeiro ou cabrito, os judeus recordavam o tempo em que tinham saído do Egipto, fugindo à escravatura dos faraós.
Na primeira Páscoa, aquela que preparou a fuga aos exércitos do faraó, juntaram-se as famílias vizinhas, com sandálias nos pés e cajado na mão. “Comê-la-eis à pressa. É a Páscoa em honra do Senhor”, diz o texto bíblico do livro do Êxodo, que pede “um memorial (…) ao longo das gerações”.
A última ceia de Jesus ficou, no cristianismo, e por pedido do próprio – “Fazei isto em memória de mim” ­– como a celebração maior. Mas o valor bíblico da refeição não se resume à Última Ceia e alguns dos ensinamentos decisivos de Jesus ligam-se ao acto de comer juntos: é durante uma refeição em casa de um fariseu que Jesus causa escândalo ao perdoar os pecados da mulher que aparece a chorar e a lavar-lhe os pés; Jesus faz multiplicar os pães quando coloca a multidão faminta a partilhar o que cada um tem; depois da ressurreição, é à mesa que dois discípulos o reconhecem e Jesus aparece várias vezes junto dos amigos mais próximos para comer com eles; e, em casa de Lázaro e das suas irmãs Marta e Maria, Jesus parava várias vezes a repousar e a comer do pão que as mulheres lhe preparavam – como Vermeer representa no quadro aqui reproduzido.
O valor religioso do acto de comer junto com outros não se limita ao cristianismo e ao judaísmo. É com uma refeição festiva que os muçulmanos assinalam o final do Ramadão, o mês do jejum e da purificação. E os sikhs recordam o seu primeiro mestre espiritual: em 1649, Guru Nanak pegou em vinte rupias – uma fortuna que o pai lhe dera para gastar e, ao ver alguns homens santos que não tinham que comer, decidiu comprar alimento para partilhar com eles.
No acto de comer juntos, quebram-se barreiras, celebra-se a igualdade da mesa, transfiguram-se alimentos – o pão, o vinho – num ágape de amizade. Foi com esse gesto que Jesus iniciou a sua Páscoa. E se o tempo, muitas vezes, sacralizou e preencheu de rituais quase mágicos essa memória, o sinal maior continua a ser o do pão que se reparte. 

(texto publicado no Público a 24 de Março de 2005)

Quinta-Feira Santa: um lugar vazio à mesa?

E porque não um lugar vazio à mesa? Nesta Quinta-Feira Santa, a irmã Irene Guia propõe um lugar vazio à mesa, para trazer à mesa as “vítimas inocentes”, os que hoje não têm mesa e estão em situação de “últimas palavras”. Uma reflexão a propósito do dia de Quinta-Feira Santa, que hoje os cristãos assinalam.  


Músicas que falam com Deus (35) - Um "Golgotha", a força criativa dos contrastes, a sede de reconciliação

Música para o tempo de Páscoa


Rembrandt, As três cruzes (1653?), a ilustração 
que inspirou Martin a compor a peça Golgotha
(imagem reproduzida daqui)

Depois de ter sido apresentada na Sé de Braga, a obra Golgotha, do suíço Frank Martin, será apresentada Sexta-feira Santa na igreja de Nossa Senhora da Lapa, no Porto, a partir das 21h30. O concerto será interpretado pelo Coro da Sé Catedral do Porto e a Orquestra das Beiras. Num texto sobre a peça, o compositor cónego António Ferreira dos Santos escreve, na edição de 25 de Março da Voz Portucalense:

Uma dimensão peculiar merece ser destacada no Golgotha de Frank Martin: a força criativa dos contrastes: dia-noite, luz-sombras, culpa-inocência, céu-terra, humano-divino, sepulcro-vitória. Como na gravura de Rembrandt, a pessoa de Cristo está no centro dos acontecimentos: o sacrifício de Cristo e a sua Ressurreição constituem as condições da salvação da Humanidade sedenta de reconciliação. Esta é a libertadora e alegre mensagem do Libreto e, ao mesmo tempo, a vivência cristocêntrica do compositor do Golgotha.
(O texto completo pode ser lido aqui)