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domingo, 20 de novembro de 2016

Francisco, um pensador em acto à escuta do mundo


O Papa Francisco a encerrar, ontem, a porta do ano jubilar 
dedicado à misericórdia (foto reproduzida daqui)

No dia em que se conclui o Ano da Misericórdia, o Papa Francisco assinou uma carta apostólica sobre o tema, que será divulgada esta segunda-feira. Seguramente, essa carta insistirá em algumas das ideias-chave deste pontificado – e, nomeadamente, na misericórdia como seu conceito definidor. A 30 de Abril último, publiquei na Revista E, do Expresso, um texto com o título acima, no qual tentava fazer uma leitura das principais ideias do Papa Francisco e do modo como essas ideias são uma tradução do seu modo de agir – e vice-versa. Fica a seguir o texto, devendo as datas ser lidas tendo em conta a data de publicação.


Há pessoas reconhecidas pelo pensamento, outras admiradas pelo que fazem. Há ainda quem seja respeitado pelo que pensa e por aquilo que faz. O Papa Francisco estará neste último caso. Há quem o menospreze dizendo que ele é apenas uma pessoa simpática. Mas percebe-se, pelos seus textos e decisões que, pelo contrário, ele é um pensador, em relação permanente com a realidade. Neste trabalho, analisam-se os seus documentos e propostas, bem como algumas das suas decisões, tentando ler como pensa e como age o Papa. 

Tudo começa numa escolha aparentemente pouco importante: depois de eleito, quando o levaram aos aposentos de Papa, Jorge Mario Bergoglio comentou que o espaço era demasiado grande e que precisava de pessoas na sua vida. Preferiu, por isso, ficar a residir na Casa de Santa Marta, onde estão alojados dirigentes e funcionários de serviços da Santa Sé, e que serve também de hotel para pessoas de passagem.
Santa Marta tem mulheres e homens a trabalhar na recepção, na limpeza, no serviço de mesa. Pessoas que não vivem apenas fechadas no círculo do Vaticano e se cruzam diariamente com o Papa Bergoglio. Seja nos corredores, na capela, no átrio de entrada ou à mesa.
Os antecessores de Francisco só contactavam, no dia-a-dia, com os funcionários mais próximos – secretários, cardeais e bispos, religiosas. Ao contrário, o facto de este Papa estar numa residência “normal” permite-lhe aproximar-se dos funcionários, conhecer os seus problemas, as pequenas alegrias ou grandes dores.
Há dois meses, por exemplo, Francisco foi rezar durante um tempo largo junto do corpo de Miriam Wuolou, recepcionista de Santa Marta com 34 anos, de origem eritreia, grávida de sete meses, que morrera vítima de diabetes. Ver o Papa num velório de uma funcionária do Vaticano seria, até há pouco, muito pouco provável.
Se Bergoglio já era, por temperamento, próximo das pessoas, a decisão de residir em Santa Marta permite que, enquanto Papa, ele parta do quotidiano e da provocação da vida dos outros para reflectir sobre factos e acontecimentos. Depois, num movimento permanente e circular, a sua reflexão propõe novas visões do mundo, dos modos de estar da Igreja e da relação dos crentes com a sua fé.
Um pensador, portanto. Mas, ao invés da escultura de Auguste Rodin, Francisco não se inclina sobre si mesmo. Antes se coloca à escuta do que o envolve.
Esse modo de estar reflecte-se quer nas homilias que faz todos os dias, na missa matinal, quer em documentos importantes como o que publicou, a 8 de Abril, sobre a família – Amoris Laetitia (A Alegria do Amor), e no qual fala de todas as situações de alegria ou tensão no contexto familiar. Ou ainda em situações tão diferentes quanto o discurso perante os refugiados de Lesbos ou as referências a questões de economia ou emprego, a decisões no campo do combate à pedofilia do clero ou da reforma da Cúria Romana.
O padre jesuíta Antonio Spadaro, que fez a primeira grande entrevista a Francisco já depois de eleito, nota, no livro Temos de Ser Normais: “É significativo que, como declara o Papa, o discernimento espiritual guie as suas opções quotidianas, à primeira vista imediatas e espontâneas. Um exemplo: quando me falou da decisão de ficar a morar em Santa Marta, utilizou o termo ‘eleição’. Impressionou-me o facto de o Papa ter usado esta palavra, típica da linguagem de Santo Inácio [de Loiola, fundador dos jesuítas], para indicar uma escolha que é fruto de um atento discernimento sobre a vontade de Deus.”

O conceito: misericórdia

No centro do pensamento e da acção do Papa, está o conceito de misericórdia, que o levou a proclamar um ano dedicado a esse tema. O cardeal Walter Kasper, autor de um livro sobre o assunto que o Papa citou logo no primeiro domingo depois de eleito, não tem dúvidas: “A misericórdia é o centro, o fulcro da mensagem bíblica” e é “a trave-mestra da Igreja”, afirma, no livro-entrevista Testemunha da Misericórdia. Francisco, acrescenta o cardeal alemão, “fala da ‘hierarquia da verdade’, e diz que o cerne da verdade bíblica é a caridade de Deus. Por isso, a misericórdia constitui a hermenêutica das outras verdades e dos próprios mandamentos”.

À Procura da Palavra – Mais um...


Ilustração de Bernadette Lopez, Berna, reproduzida daqui

Crónica

No comentário aos textos da liturgia católica deste domingo, Vítor Gonçalves escreve a propósito do filme O Herói de Hacksaw Ridge. A crónica À Procura da Palavra tem o título Mais um...:

Culminamos o Ano da Misericórdia na festa da realeza de Cristo, o Deus connosco a “entrar” em todas as “guerras” humanas para salvar todos, e sempre “mais um”. Este “um” é cada um de nós e também os que encontramos em perigo. Não esqueçamos a feliz imagem do Papa Francisco a comparar a Igreja a um “hospital de campanha”: “Essa é a missão da Igreja: curar as feridas do coração, abrir portas, libertar e dizer que Deus é bom, que perdoa tudo, que é Pai, é terno e nos espera sempre.” Quantos continuam sem ouvir isto?

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Voltar a Jesus no ano da misericórdia

Agenda

Voltar a Jesus no ano da misericórdia é o título geral dos Encontros de Santa Isabel deste ano, organizados pela paróquia de Santa Isabel, em Lisboa.
O ciclo, iniciado já na semana passada com uma conferência do patriarca de Lisboa, continua na próxima quinta-feira, dia 14 (21h30), com uma intervenção de Juan Ambrosio, professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica, sobre Porque voltar a Jesus?
No dia 21, sempre às 21h30, o tema é Como voltar a Jesus? Intervêm Maria Cortez de Lobão (Um sonho missionário: caminho para o Sínodo Diocesano), Joana Caiado (Projecto Majune)
e Olga Pinheiro (grupo “Para a Sabedoria do coração”). No dia 28, o ciclo termina com uma conversa sobre o tema Perdi o meu coração por esse Jesus de Nazaréno centenário da morte do beato Carlos de Foucauld. Intervêm Maria de Fátima de Jesus, das Irmãzinhas de Jesus, e José Manuel Pereira de Almeida, pároco de Santa Isabel. No final, haverá um breve tempo de oração diante da Eucaristia.
Os encontros de dia 14 e 21 decorrem no auditório da Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa (R. Saraiva de Carvalho 41, a cem metros da Igreja de Santa Isabel) e o de dia 28 decorre na própria igreja paroquial.
O tema deste ano fica a dever-se ao livro Voltar a Jesus do teólogo espanhol José Antonio Pagola, cuja obra Juan Ambrosio conhece bem. Inspirados nesse livro, têm surgido na paróquia lisboeta, desde Outubro, vários “Grupos de Jesus”, constituídos por pessoas que querem fazer a experiência de escutarem e reflectirem juntas o Evangelho. Nesses grupos, não se pede que as pessoas tenham uma prática religiosa regular, nem que se reconheçam como cristãs, mas que se sintam em atitude interior de busca, que andem inquietas, que não se conformem com o estado de coisas que encontram no mundo em que vivem.
José António Pagola é autor do livro Jesus – Uma abordagem históricaum livro que fez polémica quando foi publicadoe do mais recente Ide e curai, que tem prefácio de José Manuel Pereira de Almeida.
(Ilustração: Ícone da Misericórdia, de Taizé, representando cenas da parábola do bom samaritano)

Texto anterior no blogue
O crente e o não-crente para quem Jesus sabe bem - uma conversa entre frei Bento Domingues e Frederico Lourenço sobre Jesus e a Bíblia


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A revolução franciscana (4) – O outro nome do Papa é misericórdia

Sob o título genérico A revolução franciscana, publiquei no Jornal de Notícias, durante o mês de Dezembro, oito trabalhos sobre o Papa Francisco, que tentam fazer um balanço do que tem sido este ainda curto mas intenso pontificado. Este é o quarto trabalho da série. 

Um homossexual? "Quem sou eu para julgar?" Uma mãe solteira? O próprio Papa baptiza-lhe o filho. Refugiados a morrer no Mediterrâneo? Não podemos ceder à "globalização da indiferença". Pessoas sem-abrigo a dormir à volta do Vaticano? Providenciem-se duches e um barbeiro.

"Miserando atque elegendo". No lema do Papa, escolhido quando Jorge Mario Bergoglio foi nomeado bispo, está a síntese da mensagem central que ele considera dever ser anunciada pela Igreja: "Olhou para ele com misericórdia e escolheu-o", diz aquela frase, em latim.
Por ter esse entendimento, o Papa Francisco decidiu convocar um ano jubilar destinado a celebrar a ideia da misericórdia. A palavra, mesmo usada com frequência na Igreja, tinha sido esvaziada de muito do seu conteúdo concreto e o Papa argentino quer tornar a sua utilização mais real para a vida das pessoas.
(continuar a ler aqui, de onde também foi reproduzida a foto à direita)

14 obras para a generosidade: um tema central, mas ausente da teologia católica

sábado, 19 de dezembro de 2015

Visitas inesperadas, a revolução do Natal e os negócios sagrados

Crónicas

No comentário aos textos da liturgia católica deste domingo, Vítor Gonçalves escreve sobre Visitas inesperadas:

Jesus pode ser esperado por poucos. A sua visita tornou-se data de calendário e grande acontecimento comercial. Nas múltiplas realidades familiares Ele até poderá ser pouco lembrado, mas tenho a certeza que visitará os corações de todos. E estará em cada gesto de carinho e bondade, de verdade e de esperança. Não será Ele também a visitar quando formos visita inesperada e feliz para alguém? Não será tambem parte do seu desejo que nos tornemos mais visíveis e mais amáveis (simpáticos, sim, e também mais cheios de amor!) entre nós?
(texto na íntegra aqui)


Hoje, no DN, Anselmo Borges escreve sobre Natal: a revolução:

Custa-me a entender como é que os europeus parecem menosprezar a sua herança cristã, como indicam, por exemplo, a proibição de um anúncio, porque contém o Pai Nosso, ou a política de acabar com sinais cristãos da nossa cultura, como a presença de presépios em espaços públicos. Seja como for, é Karl Rahner, talvez o maior teólogo católico do século XX - tenho a honra de ter sido seu aluno -, que tem razão, quando escreveu: "Quando dizemos "é Natal" estamos a dizer: "Deus disse ao mundo a sua palavra última, a sua mais profunda e bela palavra numa Palavra feita carne". E esta Palavra significa: amo-vos, a ti, mundo, e a vós, seres humanos." Boas Festas!
(texto na íntegra aqui)


Ontem, no CM, Fernando Calado Rodrigues escrevia sobre Negócios sagrados:

Apesar do esforço da Igreja para expurgar a sua atividade de todo o mercantilismo, ele prevalece no seu interior. É normal as pessoas dizerem que vão pagar a missa, o batizado ou o casamento. (...)
Ainda que no contexto de alguns sacramentos se possa receber uma oferta, não se aceita qualquer quantia pela Confissão ou pela Unção dos Enfermos para sublinhar a gratuidade da salvação. Todavia, ainda muito há a fazer para expurgar a Igreja de algum “consumismo religioso”.
(texto na íntegra aqui)

Texto anterior no blogue
Violência no islão, alegrias e misericórdias - crónicas de Anselmo Borges, Faranaz Keshavjee, Bento Domingues, Vítor Gonçalves, Fernando Calado Rodrigues e Paulo Terroso