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sexta-feira, 1 de julho de 2016

Cristãos da Europa vão ao circo para defender integração dos muçulmanos

(Este blogue estará com um ritmo intermitente até Setembro)


O Circo Krone, em Munique, onde decorre o congresso Juntos Pela Europa, 
quinta-feira de manhã, antes da intervenção do cardeal Kasper

As luzes do Circo Krone, em Munique (Alemanha) acendem-se e piscam, a arena está montada, a orquestra dá o tom, mas as acrobacias que se aplaudem são outras: depois da “tragédia” da II Guerra Mundial e de os antigos inimigos se terem transformado em amigos, é preciso continuar a mostrar que os 70 anos de paz na Europa não foram “sonho, mas realidade” e que “a economia é a base da vida mas não é o sentido da vida”.
Foi o cardeal católico alemão Walter Kasper que, na abertura do congresso Juntos Pela Europa, que congrega dois mil participantes de uns 40 países, alertou: “A Europa precisa de mais do que de economia.” Kasper tem sido uma das vozes que, na Igreja Católica, mais tem apoiado o Papa Francisco no seu desejo de reforma – por exemplo, na questão da integração dos divorciados na Igreja Católica.
Uma Europa que integrou celtas, normandos e outros povos deve ser capaz, hoje, de integrar os muçulmanos, sublinhou Kasper, na sua curta intervenção na abertura do congresso. “Os problemas do mundo vêm ter connosco; e não são estatísticas, são pessoas com rosto”, acrescentou.
“Enquanto cristãos, católicos ou evangélicos, temos de mostrar que somos capazes de mostrar que o amor é mais forte do que o ódio, para que seja possível vivermos em conjunto na Europa, sem medo”, disse ainda o cardeal.
No início do congresso, que se prolonga até amanhã, sábado, foram várias as vozes a insistir na urgência de uma nova alma na construção europeia. “Depois do ‘brexit”, da semana passada, não podia haver um melhor momento para dar um testemunho de unidade”, disse Gerhard Proß, um dos responsáveis da iniciativa.
“Depois do ‘brexit’, o que devemos fazer a partir do Evangelho?” – perguntava o bispo luterano alemão, Heinrich Bedford-Strohm, que já presidiu ao Conselho Nacional das Igrejas Evangélicas (protestantes) da Alemanha.
“A Europa tem necessidade de uma nova força espiritual, porque não é só a economia que dá força” ao continente, acrescentou. “Devemos ser capazes de continuar a colocar no centro a dignidade da pessoa humana e é por isso que devemos continuar a falar de refugiados”, acrescentou.
A presidente do Movimento dos Focolares, Maria Voce, acrescentava, na conferencia de imprensa de apresentação da iniciativa, ontem de manhã: “A tendência para o aumento dos nacionalismos e do racismo são fruto de uma Europa que esqueceu os seus valores”. Por isso, acrescentou, é importante os cristãos darem testemunho desses valores.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A revolução franciscana (4) – O outro nome do Papa é misericórdia

Sob o título genérico A revolução franciscana, publiquei no Jornal de Notícias, durante o mês de Dezembro, oito trabalhos sobre o Papa Francisco, que tentam fazer um balanço do que tem sido este ainda curto mas intenso pontificado. Este é o quarto trabalho da série. 

Um homossexual? "Quem sou eu para julgar?" Uma mãe solteira? O próprio Papa baptiza-lhe o filho. Refugiados a morrer no Mediterrâneo? Não podemos ceder à "globalização da indiferença". Pessoas sem-abrigo a dormir à volta do Vaticano? Providenciem-se duches e um barbeiro.

"Miserando atque elegendo". No lema do Papa, escolhido quando Jorge Mario Bergoglio foi nomeado bispo, está a síntese da mensagem central que ele considera dever ser anunciada pela Igreja: "Olhou para ele com misericórdia e escolheu-o", diz aquela frase, em latim.
Por ter esse entendimento, o Papa Francisco decidiu convocar um ano jubilar destinado a celebrar a ideia da misericórdia. A palavra, mesmo usada com frequência na Igreja, tinha sido esvaziada de muito do seu conteúdo concreto e o Papa argentino quer tornar a sua utilização mais real para a vida das pessoas.
(continuar a ler aqui, de onde também foi reproduzida a foto à direita)

14 obras para a generosidade: um tema central, mas ausente da teologia católica

domingo, 6 de setembro de 2015

Taizé: Cardeal Kasper diz que irmão Roger foi «verdadeiro teólogo»

Antigo responsável do Vaticano pelo diálogo ecuménico falou perante 300 novos teólogos católicos, protestantes e ortodoxos


Irmão Roger, de Taizé (foto reproduzida daqui)

O irmão Roger, fundador e primeiro prior da comunidade de Taizé não foi um teólogo profissional, “mas foi um verdadeiro teólogo ou seja, alguém que sabe falar de Deus”, disse o cardeal Walter Kasper.
O ex-presidente do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos (Santa Sé) encerrou este sábado o colóquio internacional sobre o contributo do irmão Roger para o pensamento teológico, promovido pela comunidade ecuménica na pequena localidade francesa.
O cardeal Kasper acrescentou que o irmão Roger “sabia falar de Deus de modo existencial”.
“Era um teólogo de joelhos, que no silêncio escutava o que o Espírito lhe queria dizer, um teólogo que vivia o que dizia”, afirmou, perante cerca de 300 participantes, na maioria teólogos e teólogas com menos de 40 anos.
Nos horizontes do irmão Roger, sublinhou, estavam a esperança, a reconciliação entre os cristãos e a paz no mundo.
O fundador de Taizé, oriundo da tradição calvinista, chegou à aldeia da Borgonha há 75 anos, a 20 de Agosto de 1940, para aqui fundar uma comunidade monástica.
Três décadas depois, a comunidade acolheu o primeiro monge católico; hoje, a centena de membros que a compõem inclui católicos e de diferentes igrejas protestantes.
Tratando o tema “A misericórdia e o caminho ecuménico do irmão Roger”, o cardeal Kasper disse que “a misericórdia é a verdade sobre Deus, revela a soberania de Deus no seu amor”.
(o texto pode continuar a ser lido aqui)

Texto anterior

Texto anterior sobre as celebrações de Taizé 2015






terça-feira, 4 de março de 2014

Vencer o abismo entre as convicções dos cristãos e a doutrina da Igreja sobre o casamento e a família

A intervenção do cardeal Walter Kasper no consistório de cardeais; o debate sobre o acesso dos divorciados à comunhão; mulheres à frente de organismos da Cúria Romana e um casal a presidir ao Conselho Pontifício para a Família?


(Michelangelo, Queda e Expulsão do Éden; ilustração reproduzida daqui)

“Devemos ser honestos e admitir que, entre a doutrina da Igreja sobre o matrimónio e sobre a família e as convicções vividas por muitos cristãos criou-se um abismo.” A afirmação, sem rodeios, é do cardeal Walter Kasper, ex-presidente do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos, no último consistório convocado pelo Papa Francisco, e que reuniu dias 20 e 21 de Fevereiro, antes da cerimónia formal de entrega do anel e barrete cardinalícios a 19 novos cardeais.
Na sua intervenção, que mereceria depois um profundo agradecimento e elogio do Papa, o cardeal Kasper enuncia cinco situações em que se poderia ultrapassar a proibição da comunhão para os divorciados que voltaram a casar: “Não basta considerar o problema só do ponto de vista e da perspectiva da Igreja como instituição sacramental; precisamos de uma mudança de paradigma e devemos – como fez o bom samaritano (Lc 10, 29-37) – considerar a situação também a partir da perspectiva de quem sofre e pede ajuda.”
A intervenção pode ser lida aqui na íntegra (ou aqui, num resumo dos seus pontos essenciais). Nela, Walter Kasper considerou que o ensino da Igreja aparece hoje, para muitos cristãos, como  “distante da realidade e da vida”. E citou a exortação Evangelii gaudium, do Papa Francisco: “A família atravessa uma crise cultural profunda, como todas as comunidades e vínculos sociais. No caso da família, a fragilidade dos vínculos reveste-se de especial gravidade, porque se trata da célula básica da sociedade.” (EG 66).

Grandes dificuldades”, polémica entre cardeais

O cardeal alemão acrescentou que muitas famílias se confrontam hoje com “grandes dificuldades”, referindo especificamente situações como a “migração, fuga e afastamento”, as “condições de miséria indignas do homem”, o “individualismo e o consumismo”, as “condições económicas e de trabalho”. Para concluir: “O número daqueles que têm medo de fundar uma família ou que fracassam na realização do seu projeto de vida aumentou de modo dramático, como também o das crianças que não têm a sorte de crescer em uma família ordenada.”, tal como há um “rápido crescimento das famílias desagregadas, [que] parece ser uma tragédia ainda maior”. E por isso a Igreja “é desafiada por essa situação”, disse.