Mostrar mensagens com a etiqueta Holocausto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Holocausto. Mostrar todas as mensagens

domingo, 28 de janeiro de 2018

Os que “resgataram da morte” as vítimas do ódio nazi



Padre Joaquim Carreira, um dos portugueses  
Justos Entre as Nações” ontem evocados pelo Governo

O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal divulgou ontem, sábado, 27, um comunicado assinalando o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, que se assinala anualmente desde 2005, no dia em que o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, “expoente máximo da barbárie nazi”, foi libertado.
Com este texto, o Governo pretendeu afirmar que “Portugal evoca, também, aqueles que impediram o extermínio de pessoas perseguidas pelo regime nazi. Homens e Mulheres que, pela sua coragem e altruísmo, resgataram da morte milhares de judeus e outras vítimas do ódio nazi. São disso exemplo os diplomatas portugueses Aristides de Sousa Mendes, Alberto Teixeira Branquinho e Carlos Sampaio Garrido, bem com o padre Joaquim Carreira.”
O texto acrescenta: “Para manter viva a memória daqueles que padeceram durante o Holocausto e para garantir que nunca mais venha acontecer, é preciso continuar a investir na educação, no respeito pelos direitos humanos, na defesa intransigente da dignidade de todas as pessoas e na luta contra o ódio, a intolerância, a xenofobia, o racismo, o antissemitismo e o preconceito. Este é um dever de todos.
O comunicado afirma ainda que enquanto membro observador da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto, “Portugal reitera hoje o seu firme compromisso de manter viva a memória do Holocausto contribuindo para que não se repita nunca mais”. Por isso, o Governo quis juntar-se “a todos os que se recusam esquecer e que prestam homenagem às vítimas do extermínio e da desumanidade nazi”.

A propósito do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, a historiadora Irene Pimentel destacou a actualidade dos acontecimentos que levaram ao Holocausto, referindo o que se passa na Europa, nomeadamente em países como a Polónia ou a Hungria. E recordou a afirmação do historiador inglês Ian Kershaw: “Se o crime foi cometido por nazis, o caminho que levou a ele foi pavimentado pela indiferença.”
A crónica pode ser ouvida aqui.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Padre Joaquim Carreira: o quarto português “Justo entre as Nações” por ter salvo judeus em Roma

O Yad Vashem, o Memorial do Holocausto de Jerusalém, decidiu outorgar o título de “Justo entre as Nações” ao padre Joaquim Carreira, vice-reitor e reitor do Colégio Pontifício Português, de Roma, entre 1940 e 1954. Este título distingue não-judeus que, durante o Holocausto, tenham arriscado as suas vidas para salvar judeus.
A declaração do Yad Vashem, a que o RELIGIONLINE teve acesso em primeira mão, recorda alguns dados biográficos do padre Carreira: nascido em 1908 numa aldeia próxima de Fátima, um famoso lugar de peregrinação católica, ordenado padre em 1931 e formado na pilotagem de aviões; em 1940, mudou para Roma, onde viria a tornar-se vice-reitor e reitor do Colégio Pontifício Português, que alberga padres portugueses a estudar na capital italiana.


Quando Roma foi ocupada pelos nazis em Setembro de 1943, recorda ainda o texto do Yad Vashem, monsenhor Carreira ofereceu abrigo a várias pessoas perseguidas pelos nazis, incluindo três membros da família Cittone: Elio, o seu pai Roberto e o seu tio Isacco. No relatório da actividade do colégio, Carreira escreveu: “Concedi asilo e hospitalidade no colégio a pessoas que eram perseguidas na base de leis injustas e desumanas.”
Apesar de o colégio ter à porta um aviso do comando militar alemão proibindo quaisquer buscas no seu interior, por ser território da Santa Sé, os militares alemães entraram uma vez no edifício, à procura de refugiados. Todos os que estavam ali ocultados – resistentes, antifascistas, partiggiani, judeus – conseguiram esconder-se em sítios previamente combinados e sugeridos pelo reitor. Mas a família Cittone considerou mais seguro procurar outro abrigo, deixando o colégio pouco depois. O que não impede Elio Cittone, sete décadas depois, de admitir: “Estou-lhe muito grato e recordo sempre o facto de ele me ter salvo a vida.”
A decisão do Yad Vashem foi tomada a 4 de Setembro pelo seu Departamento dos Justos mas só agora divulgada. E deixa muito contente o sobrinho de monsenhor Carreira. o também padre João Carreira Mónico, dos Missionários Espiritanos, que em declarações à SIC revelou ter ficado surpreendido, acrescentando que "esta distinção significa o reconhecimento do trabalho, percurso e atitude caritativa, de risco, por parte de monsenhor Joaquim Carreira", mobilizado pela "diplomacia informal" do Vaticano que, nos anos da ocupação nazi de Roma, permitiu o acolhimento de refugiados nas casas religiosas. 
O título de Justo entre as Nações (Chasidei Umot HaOlam, em hebraico) é retirado da literatura sapiencial da tradição judaica, explica-se no sítio do Yad Vashem na internet. O título designa os não-judeus que ajudaram judeus em tempos de perigo ou que observam sete regras básicas do judaísmo estabelecidas na Bíblia – entre as quais a proibição de derramamento de sangue. O Yad Vashem tomou o conceito para designar as pessoas que salvaram judeus durante o Holocausto, arriscando as suas próprias vidas.
Joaquim Carreira passa a ser o quarto português a ser declarado Justo. Além dele, já tinham sido declarados Aristides de Sousa Mendes, o cônsul português em Bordéus que, desobedecendo às ordens de Salazar, atribuiu vistos a mais de 10 mil judeus que fugiam dos nazis; Carlos Sampayo Garrido, embaixador de Portugal na Hungria, que terá salvo uns mil judeus, atribuindo-lhes documentação portuguesa e colocando-os a salvo em casas da embaixada; e José Brito Mendes, operário português casado com uma francesa e residente em França, e que salvou uma menina, filha de judeus.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Auschwitz: lembrar para quê?

Crónica

(foto reproduzida daqui)

No Público, Esther Mucznik escreveu ontem, a propósito do Dia Internacional de Memória das Vítimas do Holocausto:

Em Auschwitz-Birkenau foram assassinados 1,1 milhão de judeus, 70 a 75 mil polacos, 15 mil prisioneiros de guerra soviéticos, 21 mil ciganos e cerca de 10 mil prisioneiros de origem diversa. Mas estes números, relativos apenas ao complexo de Auschwitz-Birkenau, estão longe de contar o imenso sofrimento de seres humanos a quem, antes da morte com o gás, a tiro ou na mesa de operações, despojaram de tudo aquilo que fazia a sua humanidade: família, pátria, língua, nome, integridade física e psicológica…
Para quê lembrar tudo isto, para quê um Dia de Memória? Será que somos capazes de tirar algum ensinamento de tudo isto? Sinceramente, não sei. Mas sei que embora a memória seja falível, o conhecimento é indispensável. Não para termos “pena” das vítimas, mas para entendermos os sinais da tragédia nas nossas sociedades actuais. Por isso, são de saudar as inúmeras iniciativas de escolas, da Assembleia da República, o flashmob de homossexuais em Lisboa, lembrando o sofrimento específico deste grupo durante o Holocausto, e tantas outras. De uma forma ou de outra, estas “comemorações” despertam para a necessidade de saber e de conhecer. Parafraseando Imre Kertész no seu discurso de atribuição do prémio Nobel em 2002: “O problema de Auschwitz não é o de saber se devemos manter a sua memória ou metê-la numa gaveta da História. O verdadeiro problema de Auschwitz é a sua própria existência e, mesmo com a melhor vontade do mundo, ou com a pior, nada podemos fazer para mudar isso”.

(O texto completo pode ser lido aqui)

Numa carta enviada ao rabino argentino Abraham Skorka, seu amigo, também a propósito deste 27 de Janeiro, o Papa Francisco recordou a perseguição aos judeus durante a II Guerra Mundial (1939-1945) como uma “vergonha para a humanidade”. Notícias da carta aqui e aqui.

Um artigo sobre “Judeus e cristãos: crentes de boa memória”, da autoria de Enzo Bianchi, prior da comunidade monástica de Bose (Itália) pode ser lido também nesta ligação do título.

No Parlamento, decorre amanhã, dia 29 uma sessão evocativa do Dia da Memória, com o seguinte programa: 




sábado, 25 de maio de 2013

Imãs muçulmanos rezam em Auschwitz

Um grupo de imãs muçulmanos esteve em Auschwitz quarta-feira passada, para rezar pelas vítimas do Holocausto. Oriundos da Bósnia, Índia, Indonésia, Jordânia, Palestina, Arábia Saudita, Turquia e a Estados Unidos, os líderes religiosos rezaram segundo a forma tradicional muçulmana, descalços e voltados para Meca. Junto do Muro do campo de concentração, onde milhares de prisioneiros forma mortos e as marcas das balas são ainda visíveis, os imãs confessaram-se comovidos. “O que se pode dizer? Ficamos mudos. O que se vê está para lá da imaginação humana”, afirmou Mohamed Magid, presidente da Islamic Society of North America (ISNA), citado pela AFP, que deu a notícia, também reproduzida no Huffington Post.

Conhecidas as teses negacionistas que se registam em alguns sectores do islão, esta notícia é deveras importante – esta notícia é uma verdadeira notícia, no conceito básico de qualquer manual de jornalismo. Por isso, é pena que ela não seja mais reproduzida noutros meios de comunicação, para contrariar aquelas que dizem respeito à violência inter-religiosa.
(Foto AFP/ Janek Skarzynski, reproduzida daqui)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Duas notas fundamentais na chegada do Papa a Israel

O Papa Bento XVI chegou a Israel há duas horas e a Jerusalém há menos de uma hora. Duas mensagens essenciais no discurso de chegada: a homenagem aos "seis milhões de vítimas da Shoah" e o carácter "intolerável" do antisemitismo; e a importância de uma pátria para "ambos os povos" - israelitas e palestinianos - com "fronteiras seguras e internacionalmente reconhecidas". O essencial deste importante discurso está aqui.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Para quem quiser reflectir

"A todos aqueles que querem mesmo reflectir". Assim se intitula uma carta-aberta que o vice-presidente da conferência episcopal da Igreja Católica em França acaba de publicar no site do jornal La Croix. Podemos não partilhar da visão conspiracionista relativamente ao modo como os integristas e os media lidaram com o caso do levantamento da excomunhão dos quatro bispos da Fraternidade de Pio X. Mas merece atenção a clareza de posições e o registo do discurso, longe da "langue de bois" de muitos hierarcas.

A ler, no mesmo jornal, a coluna da primeira página "Une mine dérivante"

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Pode-se ser bispo e negacionista?

A parte final da crónica de hoje, de Vasco Pulido Valente:

"(...) Convém agora explicar (para quem não saiba) que o "negacionismo" não é parte de uma polémica histórica: historicamente, não há menor dúvida que houve campos de extermínio, onde a SS assassinou entre quatro e cinco milhões de judeus. O "negacionismo" é uma pura tentativa de reabilitar Hitler e o nazismo; e uma tentativa que, pela sua natureza, implica um extremo fanatismo. Talvez se possa discutir se, numa sociedade democrática, o "negacionismo" deve ou não deve ser criminalmente punido. Mas não se pode discutir se um "negacionista" deve ou não deve ser bispo da Igreja Católica Apostólica Romana, sob pena de retirar qualquer espécie de autoridade moral à referida Igreja. Não basta obrigar; como o Vaticano obrigou, o sr. Williamson a pedir desculpa. Se o Papa não afastar o sr. Williamson diminui sem remédio o seu pontificado."

Vasco Pulido Valente in Público, 6.2.2009

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Um tiro no porta-aviões

Incompetência? Imprevidência? Erro estrondoso? Exploração mediática? Tudo junto? Talvez seja, mas a coincidência da decisão do papa de levantar a excomunhão que impendia sobre quatro bispos da integrista Fraternidade S. Pio X com as declarações negacionistas e anti-judaicas de um desses bispos não podia ter trazido piores efeitos. A ponto de raramente se ter visto, na Europa e na América, uma tal agitação e incómodo (se não mesmo descontentamento) com uma posição da Igreja. Assim como raramente se terá visto uma tal multiplicação de posições de reafirmação da posição oficial do Vaticano acerca do holocausto, desde o papa a vários cardeais de grande destaque na Cúria, como tem acontecido há mais de uma semana, a um ritmo quase diário.
É interessante notar que o bispo em causa, que entretanto pediu desculpa pelas declarações que fizera (antes do levantamento da excomunhão), nunca negou o que tinha declarado, mas apenas se disse arrependido dos problemas causados a Bento XVI.
Os estragos da medida da Santa Sé não são despiciendos, incluindo dentro da Igreja Católica.
É caso para perguntar que unidade da Igreja quer Bento XVI refazer. A medida tomada acabou por ser um verdadeiro tiro no 'porta-aviões' da própria Igreja.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Lembrar as vítimas do Holocausto

Hélène Berr nasceu em 1921 e morreu em 1945 no campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, onde, semanas antes, morrera Anne Frank. Esta rapariga francesa escreveu, entre 1942 e 1944, um diário que dá conta de como Paris foi mudando em consequência da ocupação nazi. Até ao início do ano passado, altura em que foi publicado, sob o título de Journal d’Hélène Berr, apenas um reduzido número de pessoas conhecia este impressionante documento e a sua autora. A Portugal, o Diário chegou em Outubro, trazido pela Dom Quixote.

Sendo judia, Hélène Berr não parece simpatizar com o ideal sionista, que julga “demasiado estreito”. Não consegue, aliás, ter o sentimento de pertença a qualquer grupo. “Sofro por ver o mal abater-se sobre a humanidade; mas como não sinto que faça parte de nenhum grupo racial, religioso, humano (porque isso implica sempre orgulho), não tenho para me sustentar senão os meus debates e as minhas reacções, a minha consciência pessoal”, escreve ela no dia 31 de Dezembro de 1943.

O Diário testemunha eloquentemente a ferocidade crescente do ocupante da capital francesa. No dia 10 de Julho de 1942, por exemplo, Hélène Berr regista que os judeus deixaram de ter o direito de atravessar os Champs-Élysées. O impedimento resultava da nona ordenança alemã, que estabelecera, no dia anterior, que os judeus não poderiam, doravante, entrar em cinemas, teatros, museus, bibliotecas, estádios, piscinas, jardins públicos, restaurantes e salões de chá. Nos grandes armazéns ou nos estabelecimentos comerciais, haveria uma permissão de acesso, mas apenas entre as 15 e as 16 horas.

Esta rapariga de vinte e poucos anos vai também anotando a reacção dos parisienses ao terror que se vai instalando, à tragédia pressentida. Num sábado de Julho, observa “a simpatia das pessoas na rua, no metro” ou “o olhar franco dos homens e das mulheres, que enche o coração de um sentimento inexprimível”. O que vê dá-lhe a consciência de ser superior aos “brutos” que a fazem sofrer e de estar unida “aos verdadeiros homens e às verdadeiras mulheres”.

Nesse sábado, o pai de Hélène Berr encontrava-se detido. O pretexto tinha sido a circunstância de a estrela amarela, que todos os judeus, desde os seis anos de idade, eram obrigados a usar desde 29 de Maio de 1942, não se encontrar bem cosida. Tinha sido fixada com o recurso a agrafes e molas para poder ser colocada em todos os fatos, não se cumprindo assim a oitava ordenança alemã que estabelecia que a estrela contendo a inscrição “Judeu” teria de ser solidamente cosida.

No dia 18 de Setembro, Hélène Berr refere uma nova detenção por causa da estrela: “O Dr. Charles Mayer foi preso porque usava a estrela demasiado acima...” As leis alemãs, “ilegais e obra do capricho”, anota a jovem francesa, são “um pretexto para prender, é este o seu único objectivo”. Todavia, a estrela colocada demasiado acima do sítio indicado suscita a uma senhora que repara no que se passa um comentário de uma elucidativa estupidez: “Isso prova verdadeiramente a má-fé deles!!!”. A tal senhora, numa curta afirmação, invertia a realidade e transformava uma vítima inocente num culpado por premeditação e tendência. Se a crueldade do ocupante alemão não é causa de espanto, o comportamento dos parisienses é, amiúde, surpreendente, umas vezes, pelos gestos bondosos e inesperados; outras, pelas atitudes mesquinhas ou vis.

Às vezes, Hélène Berr sente-se incomodada com a indiferença de certos católicos perante o sofrimento dos judeus. Uns acreditam na vinda do Messias, outros continuam à espera dele, escreve a jovem, acrescentando: “Mas o que fizeram eles do Messias? Continuam tão maus como antes da sua vinda. Crucificam Cristo todos os dias. E se Cristo voltasse, não teria ele de responder com as mesmas palavras? Quem sabe se a sua sorte não seria a mesma?”

O Diário termina no dia 15 de Fevereiro de 1944, mas a vida da autora prossegue. Por pouco tempo, é verdade. Em 27 de Março, no dia em que celebrava 23 anos, é deportada com os pais para o campo de concentração e de extermínio de Auschwitz. Após a execução do pai e, a seguir, da mãe, conduzida à câmara de gás no dia 30 de Abril, Hélène Berr é remetida para Bergen-Belsen, onde morre no início de Abril de 1945, dias antes da libertação do campo pelas tropas britânicas. Auschwitz-Birkenau havia sido libertado pelo exército soviético no dia 27 de Janeiro de 1945. No aniversário desta data, por iniciativa da Organização das Nações Unidas, assinala-se, desde 2005, o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

A efeméride este ano foi marcada pelo eco de uma entrevista de um bispo integrista ao programa Uppdrag gransning (Missão investigação), da televisão pública sueca, exibida dois dias antes de Bento XVI ter anunciado a anulação da excomunhão desse e de mais três bispos ordenados por Marcel Lefebvre. Na ocasião, o prelado negou a existência das câmaras de gás e reduziu absurdamente o número de judeus assassinados nos campos de extermínio ou em outras execuções em massa, tentando, assim, diminuir o carácter hediondo do Holocausto.

No início semana que passou, Bento XVI considerou necessário vir pedir que o Holocausto “seja para todos uma advertência contra o esquecimento, contra a negação ou o reducionismo”, lembrando que “a violência feita contra um só ser humano é violência contra todos”. Ontem, a imprensa revelava que o bispo integrista tinha apresentado “sinceras desculpas” pelo “sofrimento” causado ao Papa pelas suas “declarações imprudentes”. O bispo teimou, portanto, na má-fé. Pediu desculpa pelo incómodo causado a Bento XVI, mas não pela ofensa à memória das vítimas do Holocausto e adjectivou com uma generosidade imprópria as suas infames declarações.

Hélène Berr, que atravessou uma época terrível com uma admirável “doçura de coração”, teria talvez julgado oportuno reler o que escrevera no dia 11 de Outubro de 1943: “Por vezes pensava que estava mais perto de Cristo do que muitos cristãos, e disso eu tive a prova”.

Eduardo Jorge Madureira
[Diário do Minho. 1 de Fevereiro de 2009]

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Bento XVI, os integristas e a Shoah

Papa explica por que revogou excomunhão dos bispos lefebvristas
Augura que por parte deles «continue o empenho» de «chegar à plena comunhão com a Igreja»

Por Inma Álvarez

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 28 de janeiro de 2009 (ZENIT.org).- O Papa pessoalmente explicou hoje, durante a audiência geral, por que decidiu revogar a excomunhão dos bispos ordenados em 1988 por Dom Marcel Lefebvre, tal como a Santa Sé deu a conhecer no sábado passado, 24 de janeiro.

Foi, explicou, um «ato de misericórdia paterna», em cumprimento do «serviço à unidade» próprio do «ministério do Sucessor de Pedro», e acrescentou que «espera um empenho» por parte destes bispos «para chegar à plena comunhão».

Ao término da audiência geral, e em meio às saudações aos diferentes grupos de peregrinos reunidos na Sala Paulo VI, o próprio Papa leu três comunicados, o primeiro sobre a eleição do novo patriarca de Moscou.

No segundo, o Papa se referiu à revogação da excomunhão dos quatro bispos, recordando algumas palavras da primeira homilia de seu pontificado, nas quais afirmou que é «explícito» dever do pastor «o chamado à unidade».

Referiu-se a suas próprias palavras comentando a passagem evangélica da pesca milagrosa: «’ainda que havia tantos peixes, a rede não se rompeu’, e prossegui após estas palavras evangélicas: ‘Ai de mim, amado Senhor, esta – a rede – agora está arrebentada, queríamos dizer com dor’. E continuei: ‘Mas não – não devemos estar tristes! Alegremo-nos por vossa promessa que não decepciona e façamos todo o possível para percorrer o caminho rumo à unidade que vós prometestes... Não permitais, Senhor, que vossa rede se rompa e ajudai-nos a ser servidores da unidade’».

«Precisamente em cumprimento deste serviço à unidade, que qualifica de modo específico meu ministério de Sucessor de Pedro, decidi há dias conceder a remissão da excomunhão em que haviam incorrido os quatro bispos ordenados em 1988 por Dom Lefebvre sem mandato pontifício», declarou.

O Papa explicou que o motivo deste «ato de misericórdia paterna» foi que «repetidamente estes prelados me manifestaram seu vivo sofrimento pela situação na qual se encontravam».

Contudo, recordou que este ato não supõe ainda a reintegração à comunhão plena e confiou em que, «a este gesto meu siga o solícito empenho de sua parte por levar a cabo ulteriores passos», entre eles «o verdadeiro reconhecimento do magistério e da autoridade do Papa e do Concílio Vaticano II».

Sobre a Shoah

Logo depois, o Papa leu um terceiro comunicado no qual expressou sua firme condenação do Holocausto, e expressou sua solidariedade com o povo hebreu. Nele expressou seu desejo de que «a Shoah seja para todos advertência contra o esquecimento, contra a negação ou o reducionismo».

Com estas palavras, ainda que sem mencionar explicitamente, o Papa saia ao passo das polêmicas declarações de um dos quatro bispos a quem se levantou a excomunhão, Dom Richard Williamson, que havia negado a existência do Holocausto em uma entrevista concedida à televisão sueca.

O próprio Papa quis dar seu testemunho pessoal, recordando «as imagens recolhidas em minhas repetidas visitas a Auschwitz, um dos lugares nos quais se consumou o brutal massacre de milhões de hebreus, vítimas inocentes de um cego ódio étnico e religioso».

As declarações de Dom Williamson haviam sido comentadas nestes dias como «inaceitáveis» e «ignominiosas» por vários cardeais da Cúria Romana, assim como pela Conferência Episcopal Suíça.

Precisamente ontem, Dom Bernard Fellay, superior geral da Fraternidade de São Pio X, emitia um comunicado no qual pedia perdão ao Papa por tais declarações.