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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Mulheres e homens para 2018



Capas de Le Monde des Religions e Psychologies
duas das publicações citadas no texto

Na sua crónica semanal no Diário do Minho, Eduardo Jorge Madureira propõe um conjunto de mulheres e homens que vale a pena conhecer durante este ano:
“Por esta altura, multiplicam-se os balanços. Podem servir para selecionar as palavras ou os números do ano; os acontecimentos; os concertos, as exposições, os filmes e os livros; as personalidades. Entre o fim de um ano e o início de outro, foram várias as publicações que quiseram chamar a atenção para mulheres e homens do passado e do presente que poderão ser inspiradoras em 2018.
(...)
Não falta gente que vale a pena conhecer, mulheres e homens exemplares, que ajudam a construir um mundo melhor.”

Na crónica, que pode ser lida na íntegra aqui, citam-se as revistas Psychologies, que publicou um segundo número extra sobre “20 mestres da vida”, Le Monde des Religions,
que dedica um número extra a “22 mestres da sabedoria, e Geo, que escolheu “estes heróis que mudam o mundo e o sítio digital Aleteia, que escolheu “dez casos de testemunhas da caridade”. 


terça-feira, 24 de maio de 2016

Sobre a boa economia

Livro

Na sua crónica Os dias da semana, publicada no Diário do Minho de Domingo passado, Eduardo Jorge Madureira Lopes escreve sobre o livro de Luigino Bruni, Redescobrir a Árvore da Vida. Um economista lê o Livro do Génesis. Aqui fica o texto, com o título Sobre a boa economia:

Ao contrário do que sucede com os astrofísicos, cujas teorias não modificam a órbita dos planetas, os economistas e as suas teorias condicionam fortemente as escolhas económicas e, portanto, a vida de cada um. A constatação é do economista italiano Luigino Bruni, coordenador do projecto Economia de Comunhão. O autor de Redescobrir a Árvore da Vida. Um economista lê o Livro do Génesis – obra apresentada na terça-feira, na comunidade de leitores de S. Lázaro, pelo seu tradutor, José Alberto Bacelar Ferreira – estabelece, por isso, uma correlação entre a crise financeira e económica que temos vivido e as teorias económicas em voga nos últimos decénios.
Luigino Bruni, professor de Economia Política e editorialista do jornal Avvenire, constata que, nos anos mais recentes, os melhores departamentos universitários de Economia do mundo foram-se enchendo de economistas cada vez mais matemáticos e, simultaneamente, com uma formação humanística cada vez mais escassa. Esses economistas – contra os quais deveriam estar imunizadas as universidades católicas – podem perceber de modelos hiper-especializados, mas são, geralmente, incapazes de ter uma visão de conjunto do sistema económico; não conseguem, portanto, articular os modelos com a realidade económica e social.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O efeito do Papa Francisco na crise da Europa a propósito dos refugiados

Há um “efeito” do Papa Francisco na crise da Europa a propósito dos refugiados, a avaliar pelos resultados de uma sondagem publicada há dias em França pelo semanário católico La Vie: 54 por cento dos católicos interrogados no final de Abril são favoráveis ao acolhimento dos refugiados chegados recentemente à Europa. Um mês antes, apenas 38 por cento manifestavam essa disponibilidade. Entre as duas sondagens, o Papa realizou a sua viagem a Lesbosa ilha grega onde têm chegado milhares de pessoas em busca de auxílio, e levou consigo, para Roma, três famílias sírias que tinham fugido da guerra.


Uma das famílias de refugiados sírios, já em Roma 
(foto reproduzida daqui)

Jérôme Fourquet, um dos responsáveis do instituto que fez o inquérito, diz, citado por La Vie, que “o Papa desperta as consciências dos católicos praticantes e provoca um electrochoque, ou seja, um sobressalto.”
No total, revela ainda a sondagem (mais informações e resultados aqui), 46 por cento dos franceses é favorável ao acolhimento de refugiados.

Na semana passada, o Papa recebeu o Prémio Carlos Magno, que uma associação sediada na cidade alemã de Aachen (Aix-en-Chapelle) atribui a quem se distinga no trabalho em favor da paz e da unidade na Europa.  
No seu discurso, o Papa criticou a corrupção e os muros que se erguem contra os refugiados. E perguntou: “Que te sucedeu, Europa humanista, paladina dos direitos humanos, da democracia e da liberdade?” Citou ainda Robert Schuman, para afirmar: “‘A Europa não se fará duma só vez, nem através duma construção de conjunto; far-se-á através de realizações concretas que criem, antes de tudo, uma solidariedade de facto’. (...) é preciso voltar àquela solidariedade de facto, à mesma generosidade concreta que se seguiu à II Guerra Mundial, porque ‘a paz mundial – continuava Schuman – não poderá ser salvaguardada sem esforços criativos à altura dos perigos que a ameaçam’. Os projetos dos Pais fundadores, arautos da paz e profetas do futuro, não estão superados: inspiram-nos hoje, mais do que nunca, a construir pontes e a derrubar muros. (O discurso pode ser lido aqui na íntegra; duas notícias com excertos podem ser encontrados aqui e aqui). 
Uma das famílias de refugiados que foi para Roma, e que deixou a sua casa depois de um bombardeamento, afirmava há diasao Religión Digital, que o Papa lhes ofereceu “um sonho” e “uma nova oportunidade com esperança de um futuro seguro”.

Precisamente sobre o sentido da viagem do Papa a Lesbos (e também sobre a forma como o assunto foi noticiado nas televisões portuguesas), Eduardo Jorge Madureira escreveu, na sua crónica Os Dias da Semana, no Diário do Minho de 17 de Abril:

Doze sírios no Vaticano

O filósofo Emmanuel Lévinas e, depois, o ensaísta Jacques Julliard encontram-se entre os que indicaram o correcto modo de combinar a caridade e a justiça. “A caridade é impossível sem a justiça e a justiça deforma-se sem a caridade”, explicou Emmanuel Lévinas, em Entre nous. Essais sur le penser à l’autre (Paris: Grasset, 1991). Em O fascismo que se avizinha (Lisboa: Instituto Piaget, 1996), Jacques Julliard sustentou que “a justiça sem caridade é uma ilusão, a caridade sem a justiça é uma impostura”. Praticar a caridade e lutar pela justiça são, pois, acções que se devem associar. O Papa Francisco conjugou-as ontem na ilha grega de Lesbos.

domingo, 28 de junho de 2015

O ecumenismo de sangue, a democracia na Igreja e a entrevista de Edgar Morin sobre a encíclica do Papa

Crónicas

No seu texto deste domingo, no Público, frei Bento Domingues escreve sobre o ecumenismo de sangue. Sob o título Só para depois do juízo final, diz:

A teologia vive bem na oração, como consciência do mistério insondável de Deus. Este não cabe em nenhuma definição. Quando a teologia se torna soberba, pensa que tem Deus na mão e transforma-se em juíza das expressões da fé das outras confissões cristãs. Não concebe a importância de procurar os pontos de convergência no caminho para uma Realidade que não é propriedade das Igrejas Ortodoxas, da Igreja Católica Romana, ou das Igrejas Protestantes.
(texto completo aqui)


No DN de sábado, Anselmo Borges escreve sobre Democracia na Igreja, citando um livro de Karl Rahner:

"Só quando tivermos um Sínodo nacional que eventualmente (iure humano) adopte decisões normativas que possam ser chocantes para um bispo; só quando, se for o caso disso, um bispo se submeter a um árbitro imparcial; só quando os conselhos presbiterais, os conselhos pastorais, etc., tiverem autonomia e eficiência frente aos bispos..., é que a relação entre liberdade e manipulação na Igreja será tranquila e ao mesmo tempo estará num movimento contínuo, que dissolverá, sempre de novo, o anquilosamento do meramente tradicional".
(texto completo aqui)


Hoje, no Diário do Minho, na sua crónica Os Dias da Semana, Eduardo Jorge Madureira regressa à entrevista de Edgar Morin sobre a encíclica do Papa. Sob o título Laudato si’, o acto número um para uma nova civilização, escreve:

Embora se use em demasia, a expressão “não deixa ninguém indiferente” é acertada para aplicar a Laudato Si’. A carta encíclica do Papa Francisco Sobre o cuidado da casa comum não só não suscita indiferença, como se tem mostrado capaz de mobilizar a adjectivação mais veemente dos que teriam preferido que ela não tivesse sido escrita ou dos que a aplaudem sem reservas.
O Papa Francisco é “a pessoa mais perigosa do planeta”, disse Greg Gutfeld, comentador da Fox News, uma conhecida cadeia de televisão dos Estados Unidos da América. Poderá tratar-se apenas de uma frase de efeito, um daqueles sound bites que servem para alguém se fazer notar, mas é portadora de um incontornável valor sintomático. Será muito pouco menos do que isso o que uns quantos pensarão sem coragem para o afirmarem em voz alta.
Os encómios a Louvado Sejas (editada em Portugal pela Paulinas Editora) foram subscritos por gente de dimensão superior, como é o caso de Edgar Morin, um sociólogo e filósofo francês com vida e obra. Se a autoridade intelectual se medisse por honrarias, os 27 doutoramentos Honoris Causa que foram concedidos a Edgar Morin por universidades de todo o mundo garantiriam uma óbvia mais-valia aos elogios.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Páscoa, sistema financeiro e cristãos do Médio Oriente

O tempo de Páscoa dominou as crónicas de fim-de-semana, a partir de diferentes perspectivas. No DN de sábado, Anselmo Borges escrevia, sob o título É em Sábado que vivemos:

Aparentemente, no horror daquela Sexta-Feira Santa, foi o fim. Mas, lentamente, reflectindo sobre a experiência que Jesus fez de Deus, sobre o modo como viveu, como agiu, como morreu, os discípulos fizeram a experiência avassaladora de que o Deus-amor, a quem Jesus se dirigia como Abbá, Pai-Mãe querido, não o abandonou nem sequer na morte. Jesus não morreu para o nada, mas para Deus. Na morte, não encontrou o nada, mas a plenitude da vida de Deus.
(texto integral aqui)


Vítor Gonçalves, com A corrida pascal, comentava deste modo os textos da liturgia católica de domingo de Páscoa:

A Páscoa de Jesus desinstala-nos e “despantufa-nos” das rotinas e da preguiça. E também desfaz o medo, esse um autêntico “colesterol mau”, a entupir as artérias e veias por onde quer correr o sangue da vida abundante de Deus. Sem a Páscoa tornamo-nos obesos, cheios de mil e uma justificações para ficar no quentinho de uma “vidinha” religiosa, bem medida e suficiente, de livro de “Deve e Haver” que havemos de apresentar a Deus com saldo a nosso favor. Mas a “Igreja em saída”, de que tanto fala o Papa Francisco, pode comparar-se a esse dinamismo que convida à simplicidade de calçar uns ténis e vestir uns calções e percorrer os caminhos habituais ou desconhecidos com uma presença mais fraterna e disponível para o encontro com outros
(texto integral aqui)


No Público de domingo, frei Bento Domingues escrevia sobre a Páscoa de muitas páscoas, terminando a evocar Pedro Meca, já aqui referido aquando da sua morte:

Entrou, aos 21 anos, em França, para a Ordem dos Pregadores. Viveu a partilha das múltiplas dimensões do Evangelho na cidade que o seu confrade e amigo (P. Blanquart) investigava e da qual, ele Pedro Meca, vivia a rua e a noite, a companhia dos “contrabandistas da esperança”, os marginalizados, com os quais morria e ressuscitava todos os dias. Para mim, dizia o Pedro, a rua não é um lugar de passagem, mas um lugar de vida que amo e que, desde sempre, me é familiar. Na rua, as noites escuras são mais escuras do que as dos místicos e quantas não são precisas para “uma só manhã” (H. Michaux)! Não se passa uma noite de Páscoa, confessa Pedro Meca, sem que eu não esteja num café ou na rua e, de repente, exclame: é a Páscoa!
(texto integral aqui)

  
Sexta-feira, no CM, Fernando Calado Rodrigues escrevia sobre a Crítica ao sistema económico:


O Secretário de Estado do Vaticano e o Presidente do Senado Italiano uniram as suas vozes na crítica ao sistema económico vigente, que promove a exploração dos mais fracos e a promiscuidade ente a finança e o poder, durante a apresentação de um volume da revista italiana “Limes”, dedicada ao tema “Moeda e império” , na passada terça-feira em Roma.
O cardeal Parolin denunciou que “os grandes capitais tendem a financiar os poderes estabelecidos e as atividades mais rentáveis”, enquanto o povo se vê arredado do acesso ao crédito.
(texto integral aqui)


Na crónica Os dias da semana,  que mantém aos domingos no Diário do Minho, Eduardo Jorge Madureira escreveu, sob o título Eu sou um cristão do Oriente:

O mundo tem-se mostrado impassível perante o extermínio dos cristãos do Oriente. Um certo sentido das proporções ditaria que o vasto desinteresse pelo destino destas vítimas dos islamistas não contrastasse tanto com a compaixão e indignação que amplamente provocam, por exemplo, as notícias de maus-tratos de animais domésticos. Em Portugal, em favor dos cristãos do Oriente, quase só se escuta a voz da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que tem evocado a via-sacra que eles têm sido forçados a percorrer. Em França, controvérsias de interesse secundário opõem pessoas respeitáveis que não se entendem sobre o termo certo para classificar o que se está a passar. Genocídio, garantem uns. Erradicação, contrapõem outros, como se fosse preciso poupar palavras perante uma realidade que se tem imposto com tanta e tão continuada brutalidade.

domingo, 16 de novembro de 2014

Elogio das “pessoas desimportantes” e das “coisas que não levam a nada”

Crónica


Ilustração de Manoel de Barros, reproduzida daquionde também 
se pode ver o trailer do filme sobre o poeta Só Dez Por Cento é Mentira 
e aceder a ligações para poemas do autor de Arranjos para Assobio


Hoje, na sua crónica d’Os Dias da Semana, no Diário do Minho, que a seguir se transcreve, Eduardo Jorge Madureira Lopes escreve sobre Manoel de Barros, cuja morte já foi referida aqui no blogueOs interessados podem ler as quatro páginas do caderno especial que o jornal brasileiro O Povo dedicou ao poeta que “deu voz ao ínfimo da vida”.


Texto de Eduardo Jorge Madureira

Os negócios com humanos estão em tempos favoráveis. Entre os mais lucrativos, encontram-se os relativos ao tráfego (de tráfico falaremos noutra ocasião) de pessoas. No hemisfério sul, os lugares nos barcos, que, quando não naufragam, a Europa enxota, têm preços cada vez mais elevados. Até para escapar à miséria – da fome, umas vezes; da guerra, outras; das duas, frequentemente –, é preciso dispor de dinheiro em abundância e quase sempre, todavia, insuficiente. Para ser admitido na casta gold de cidadania, que se inventou no lado norte ocidental do planeta, é requerida riqueza muito maior ou muito maior astúcia. O mundo parece de feição para quem fomenta, beneficia e gaba o comércio de pessoas.
Mas há quem dedique uma vida inteira a valorizar o que não tem valor. É o caso de Manoel de Barros, que morreu na quinta-feira, com 97 anos, um dos mais originais criadores da literatura de língua portuguesa contemporânea. Na sexta-feira, os jornais brasileiros deram a notícia na primeira página e, em alguns casos, como o de O Povo, de Fortaleza, publicaram cadernos especiais com textos de Manoel de Barros. Um título acertado, de O Popular, do município de Goiânia, dizia: “O país perde um dos seus maiores poetas”. Não erraria se tivesse acrescentado que a perda é da língua portuguesa.
O poeta brasileiro foi um dos mais singulares cultores de “pessoas desimportantes”, de “coisas que não levam a nada”, do “que você não pode vender no mercado”, para referir alguns exemplos que se encontram na lista do que importa à poesia. Do que é, pois, verdadeiramente importante. “Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam / a Deus / Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!”, diz Manoel de Barros numa parte de um poema.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

A vaca e o burro - era então verdade?


Na sua crónica “Os Dias da semana” no "Diário do Minho" deste domingo, Eduardo Jorge Madureira escreve ainda sobre a vaca e o burro do presépio, a partir de um texto de Aquilino Ribeiro.

“Muito se tem ventilado também se no estábulo assistiam a burra e a vaca”. A constatação não surgiu por causa do que, desde o mês passado, tem sido dito na sequência da publicação de A infância de Jesus, o mais recente livro Joseph Ratzinger. A afirmação, de facto, não evidencia a perplexidade de um leitor da imprensa portuguesa recente, em resultado de ter encontrado numa primeira página do Correio da Manhã a notícia de uma sentença inapelável: “Papa afasta burro e vaca do presépio” e no topo de uma página interior do Diário de Notícias a informação de uma decisão de sentido inverso: “Vaca e burro continuam no presépio”. Também não resulta da audição de um spot sobre “um presépio sem vaca nem burro”, a anunciar uma entrevista emitida pela TSF ontem e hoje de madrugada.
Quem disse que “muito se tem ventilado também se no estábulo assistiam a burra e a vaca, como ideou S. Francisco no primeiro presépio, e, após ele, quantos poetas souberam pegar em pincéis, e quantos rapsodos vazaram a rude palavra do romance nas ledas estancias dos autos e dos mistérios” foi Aquilino Ribeiro, um dos mais relevantes escritores portugueses do século XX. 
Num artigo intitulado “Controvérsias à margem da Natividade”, publicado há cinquenta anos, no Diário de Lisboa de 24 de Dezembro de 1962, o autor de, entre muitas outra obras, S. Banaboião, anacoreta e mártir, A casa grande de Romarigães, Quando os lobos uivam e O romance da raposa, notando que “no Natal tudo é mistério, embora florido com roseirais de esperança”, fazia uma espécie de ponto da situação sobre certos desencontros a propósito de alguns pormenores históricos. Referia as opiniões em confronto e dizia com quais se encontrava mais em conformidade. Entre as “controvérsias”, citava, por exemplo, a de Maria ir ou não a cavalo num burrinho e a de no presépio haver ou não “a burra e a vaca”.
Se veio de burra, não admira que o animal apareça “a bafejar o inocentinho intanguido nas palhas nuas”, escreve Aquilino Ribeiro, perguntando: “Mas donde saiu a vaca?”. A resposta vai o autor de O Malhadinhas buscá-la ao que diz a religiosa Maria de Jesus de Agreda, considerada uma das mais importantes figuras espirituais da Espanha do século XVII. “A admirável vidente de Agreda resolve o problema sem dificuldade de maior: Vino luego por voluntad divina de aquellos campos un buey, y entrando en la cueba, se junto al jumentillo, que la misma reyna avia llevado. Tal asserto tem o entusiástico aplauso das almas crentes”. Na verdade, questiona Aquilino: “Que custava ao poder de Deus, tocar para ali um bezerro dos campos limítrofes ou das lezírias do Nilo?”.
O escritor enumera, a seguir, quem concorda com esta opinião e quem dela discorda. “O doutíssimo Ayala defende este ponto de vista com irada e altiva facúndia. E quase se não compreende que espíritos pautados de teólogos como Calmet, Tillemont, Serry, expulsem do presépio a boa bicharada e remetam com desdém antropocêntrico ás fábulas de Esopo”. Por fim, alinha o que pensa: “Sendo assim, ficaria inane e vã a profecia de que nessa noite prodigiosa o boi conheceria o seu dono, o asno a cara do azemel, só o homem se envergonharia de servir e conhecer àquele servem e conhecem os brutos”.
Com, pois, o burro ou burra e a vaca presentes, “enfaixou a mãe ao seu Menino nos panos de baetilha com que viera preparada e chegou-o ao peito. Foi mamando, agora já de beicinhos roxos pelo frio, que os pastores o vieram encontrar com as oferendas”. Afirma Aquilino que “traziam queijinhos de seus bardos. Braçadas de flores, fruta e aves de capoeira. É com a natureza da dádiva que argumenta este ácido e peguilhento Escalígero quando pretende sustentar que o Natal foi imprópriamente fixado na quadra de Inverno. Os pastores entraram de surrão, com as suas mocas debaixo do braço, seus chapeirões contra o sol, a gaita a espreitar da algibeira. E, dobrando o joelho, o adoraram”.
Repartido entre a primeira página e a segunda, o texto, que acabaria por ser um dos derradeiros escritos de Aquilino Ribeiro, que morreria poucos meses depois, em consequência de uma doença repentina, cita a voz de um vulto que, na noite, incentiva: “Ide á corte dos gados, á entrada de Belém no caminho da cisterna de David, que nasceu lá o Messias!”. O anúncio inspira ao escritor quatro perguntas: “Era então verdade? Os coxos e os trôpegos iam saltar como cervos? Ia raiar o sol da justiça para todos? Nunca mais o forte espancaria o fraco, nem o rico poderia jantar duas vezes enquanto ao pobre só restava o direito de morrer a louvar o Senhor?”.
“Era então verdade?” A resposta é também dada, continuamente, no coração de cada um. Afirmativa, impõe que nunca o forte abuse do fraco; reclama “justiça para todos”.

(Nota: As citações respeitam a grafia do texto de Aquilino Ribeiro)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Lembrar as vítimas do Holocausto

Hélène Berr nasceu em 1921 e morreu em 1945 no campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, onde, semanas antes, morrera Anne Frank. Esta rapariga francesa escreveu, entre 1942 e 1944, um diário que dá conta de como Paris foi mudando em consequência da ocupação nazi. Até ao início do ano passado, altura em que foi publicado, sob o título de Journal d’Hélène Berr, apenas um reduzido número de pessoas conhecia este impressionante documento e a sua autora. A Portugal, o Diário chegou em Outubro, trazido pela Dom Quixote.

Sendo judia, Hélène Berr não parece simpatizar com o ideal sionista, que julga “demasiado estreito”. Não consegue, aliás, ter o sentimento de pertença a qualquer grupo. “Sofro por ver o mal abater-se sobre a humanidade; mas como não sinto que faça parte de nenhum grupo racial, religioso, humano (porque isso implica sempre orgulho), não tenho para me sustentar senão os meus debates e as minhas reacções, a minha consciência pessoal”, escreve ela no dia 31 de Dezembro de 1943.

O Diário testemunha eloquentemente a ferocidade crescente do ocupante da capital francesa. No dia 10 de Julho de 1942, por exemplo, Hélène Berr regista que os judeus deixaram de ter o direito de atravessar os Champs-Élysées. O impedimento resultava da nona ordenança alemã, que estabelecera, no dia anterior, que os judeus não poderiam, doravante, entrar em cinemas, teatros, museus, bibliotecas, estádios, piscinas, jardins públicos, restaurantes e salões de chá. Nos grandes armazéns ou nos estabelecimentos comerciais, haveria uma permissão de acesso, mas apenas entre as 15 e as 16 horas.

Esta rapariga de vinte e poucos anos vai também anotando a reacção dos parisienses ao terror que se vai instalando, à tragédia pressentida. Num sábado de Julho, observa “a simpatia das pessoas na rua, no metro” ou “o olhar franco dos homens e das mulheres, que enche o coração de um sentimento inexprimível”. O que vê dá-lhe a consciência de ser superior aos “brutos” que a fazem sofrer e de estar unida “aos verdadeiros homens e às verdadeiras mulheres”.

Nesse sábado, o pai de Hélène Berr encontrava-se detido. O pretexto tinha sido a circunstância de a estrela amarela, que todos os judeus, desde os seis anos de idade, eram obrigados a usar desde 29 de Maio de 1942, não se encontrar bem cosida. Tinha sido fixada com o recurso a agrafes e molas para poder ser colocada em todos os fatos, não se cumprindo assim a oitava ordenança alemã que estabelecia que a estrela contendo a inscrição “Judeu” teria de ser solidamente cosida.

No dia 18 de Setembro, Hélène Berr refere uma nova detenção por causa da estrela: “O Dr. Charles Mayer foi preso porque usava a estrela demasiado acima...” As leis alemãs, “ilegais e obra do capricho”, anota a jovem francesa, são “um pretexto para prender, é este o seu único objectivo”. Todavia, a estrela colocada demasiado acima do sítio indicado suscita a uma senhora que repara no que se passa um comentário de uma elucidativa estupidez: “Isso prova verdadeiramente a má-fé deles!!!”. A tal senhora, numa curta afirmação, invertia a realidade e transformava uma vítima inocente num culpado por premeditação e tendência. Se a crueldade do ocupante alemão não é causa de espanto, o comportamento dos parisienses é, amiúde, surpreendente, umas vezes, pelos gestos bondosos e inesperados; outras, pelas atitudes mesquinhas ou vis.

Às vezes, Hélène Berr sente-se incomodada com a indiferença de certos católicos perante o sofrimento dos judeus. Uns acreditam na vinda do Messias, outros continuam à espera dele, escreve a jovem, acrescentando: “Mas o que fizeram eles do Messias? Continuam tão maus como antes da sua vinda. Crucificam Cristo todos os dias. E se Cristo voltasse, não teria ele de responder com as mesmas palavras? Quem sabe se a sua sorte não seria a mesma?”

O Diário termina no dia 15 de Fevereiro de 1944, mas a vida da autora prossegue. Por pouco tempo, é verdade. Em 27 de Março, no dia em que celebrava 23 anos, é deportada com os pais para o campo de concentração e de extermínio de Auschwitz. Após a execução do pai e, a seguir, da mãe, conduzida à câmara de gás no dia 30 de Abril, Hélène Berr é remetida para Bergen-Belsen, onde morre no início de Abril de 1945, dias antes da libertação do campo pelas tropas britânicas. Auschwitz-Birkenau havia sido libertado pelo exército soviético no dia 27 de Janeiro de 1945. No aniversário desta data, por iniciativa da Organização das Nações Unidas, assinala-se, desde 2005, o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

A efeméride este ano foi marcada pelo eco de uma entrevista de um bispo integrista ao programa Uppdrag gransning (Missão investigação), da televisão pública sueca, exibida dois dias antes de Bento XVI ter anunciado a anulação da excomunhão desse e de mais três bispos ordenados por Marcel Lefebvre. Na ocasião, o prelado negou a existência das câmaras de gás e reduziu absurdamente o número de judeus assassinados nos campos de extermínio ou em outras execuções em massa, tentando, assim, diminuir o carácter hediondo do Holocausto.

No início semana que passou, Bento XVI considerou necessário vir pedir que o Holocausto “seja para todos uma advertência contra o esquecimento, contra a negação ou o reducionismo”, lembrando que “a violência feita contra um só ser humano é violência contra todos”. Ontem, a imprensa revelava que o bispo integrista tinha apresentado “sinceras desculpas” pelo “sofrimento” causado ao Papa pelas suas “declarações imprudentes”. O bispo teimou, portanto, na má-fé. Pediu desculpa pelo incómodo causado a Bento XVI, mas não pela ofensa à memória das vítimas do Holocausto e adjectivou com uma generosidade imprópria as suas infames declarações.

Hélène Berr, que atravessou uma época terrível com uma admirável “doçura de coração”, teria talvez julgado oportuno reler o que escrevera no dia 11 de Outubro de 1943: “Por vezes pensava que estava mais perto de Cristo do que muitos cristãos, e disso eu tive a prova”.

Eduardo Jorge Madureira
[Diário do Minho. 1 de Fevereiro de 2009]