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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

O Papa Francisco e a usura que mata



(foto reproduzida daqui)

No JN de segunda-feira passada, Fernando Calado Rodrigues escreveu sobre o Papa e a usura, sugerindo que as instituições católicas de solidariedade promovam, além da luta contra a pobreza, também a luta contra a usura e o apoio às vítimas dessa prática:

Pedir dinheiro emprestado e pagar juros pelo empréstimo passou a ser algo normal e deixou de ser considerado usura. Ficou reservada esta classificação para empréstimos ilegais com juros altíssimos. No entanto, por vezes, algumas condições de crédito estão no limiar da agiotagem, tal como certas comissões e taxas que os bancos estão continuamente a introduzir e a ampliar.
(O texto pode ser lido aqui na íntegra)

terça-feira, 24 de maio de 2016

Sobre a boa economia

Livro

Na sua crónica Os dias da semana, publicada no Diário do Minho de Domingo passado, Eduardo Jorge Madureira Lopes escreve sobre o livro de Luigino Bruni, Redescobrir a Árvore da Vida. Um economista lê o Livro do Génesis. Aqui fica o texto, com o título Sobre a boa economia:

Ao contrário do que sucede com os astrofísicos, cujas teorias não modificam a órbita dos planetas, os economistas e as suas teorias condicionam fortemente as escolhas económicas e, portanto, a vida de cada um. A constatação é do economista italiano Luigino Bruni, coordenador do projecto Economia de Comunhão. O autor de Redescobrir a Árvore da Vida. Um economista lê o Livro do Génesis – obra apresentada na terça-feira, na comunidade de leitores de S. Lázaro, pelo seu tradutor, José Alberto Bacelar Ferreira – estabelece, por isso, uma correlação entre a crise financeira e económica que temos vivido e as teorias económicas em voga nos últimos decénios.
Luigino Bruni, professor de Economia Política e editorialista do jornal Avvenire, constata que, nos anos mais recentes, os melhores departamentos universitários de Economia do mundo foram-se enchendo de economistas cada vez mais matemáticos e, simultaneamente, com uma formação humanística cada vez mais escassa. Esses economistas – contra os quais deveriam estar imunizadas as universidades católicas – podem perceber de modelos hiper-especializados, mas são, geralmente, incapazes de ter uma visão de conjunto do sistema económico; não conseguem, portanto, articular os modelos com a realidade económica e social.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

A revolução franciscana (7) – Um Papa que se mete na economia e na política

Sob o título genérico A revolução franciscana, publiquei no Jornal de Notícias, durante o mês de Dezembro, oito trabalhos sobre o Papa Francisco, que tentam fazer um balanço do que tem sido este ainda curto mas intenso pontificado. Este é o sétimo trabalho da série. 




O Papa Francisco no II Encontro Mundial dos Movimentos Populares, 
que decorreu em Julho de 2015, na Bolívia (foto reproduzida daqui)

Para o Papa Francisco, o Evangelho de Jesus exige  o compromisso com os outros. Por isso ele vai buscar o pensamento social cristão desde os primeiros séculos para defender que, hoje, os problemas estão todos relacionados e propor os caminhos alternativos que passam pela centralidade da pessoa na actividade política.

“Devemos dizer ‘não a uma economia da exclusão e da desigualdade social’. Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão.”
A frase foi cunhada pelo Papa Francisco na exortação Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho), de Novembro de 2013, e sintetiza a preocupação por recolocar as pessoas no centro da actividade política, em detrimento de uma “economia sem rosto”.
Estamos perante um Papa mais político do que os anteriores? Nem tanto. Desde os primeiros séculos do cristianismo, os mais importantes teólogos são violentamente críticos do poder político e económico, chegando alguns a defender a possibilidade de roubar matar a fome. No século XIX, com a encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, que funda a moderna doutrina social da Igreja, continuou a defesa prioritária dos que sustentam, com o seu trabalho, a pirâmide social.
Mesmo se esse pensamento foi evoluindo, as ideias fundamentais foram sempre a prioridade da pessoa sobre o capital, do bem comum sobre o bem privado, do direito ao trabalho, à habitação e a condições de vida dignas (ver texto ao lado).
A diferença com os pontificados anteriores é que Francisco aponta exemplos concretos para traduzir essas ideias. E não se inibe de usar circunstâncias simbolicamente fortes – participando num encontro de movimentos populares ao lado do Presidente boliviano, Evo Morales, entrando numa favela do Rio de Janeiro, visitando um campo de refugiados do Quénia ou indo a um bairro de muçulmanos cercado por milícias cristãs, numa República Centro-Africana em guerra civil.
Francisco fala mais vezes destas questões e coloca-as como prioridade sobre outras. Ainda no dia 30 de Novembro, a regressar da viagem a África, e perguntado sobre o preservativo, ele repetiu o que Bento XVI já dissera: “Sim, é um dos métodos” de prevenção do contagio da sida, por exemplo.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Sociedade desigual ou sociedade fraterna?

Agenda

No próximo sábado, 7 de Novembro, a Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP) promove a sua conferência anual sobre o tema Sociedade Desigual ou Sociedade Fraterna?
O encontro, que decorre entre as 10h e as 17h30 no auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, tem como intervenientes a economista Elena Lasida, do Instituto Católico de Paris, o investigador Carlos Farinha Rodrigues, do ISEG, e ainda três ex-presidentes da CNJP: Alfredo Bruto da Costa, António Bagão Félix e Manuela Silva. O bispo espanhol Juan José Omella, da Comissão de Pastoral Social da Conferência Episcopal Espanhola, encerrará a conferência, cujo programa pode ser consultado aqui.

Sobre o tema da conferência, pode ouvir-se aqui, a partir dos 19’40”, um curto debate, incluindo uma reflexão do presidente da Comissão, Pedro Vaz Patto.

Acerca de Elena Lasida, pode ler-se aqui um perfil desta economista de origem uruguaia mas que trabalha em França, onde, além da actividade académica, colabora em redes de apoio a imigrantes, desde há vários anos. A economista já esteve em Lisboa a convite da Fundação Betânia e do Projecto CasaVelha.


Texto anterior no blogue
Taizé: falar de Deus com a vida - reportagem no colóquio sobre o contributo do irmão Roger para o pensamento teológico 

terça-feira, 15 de julho de 2014

Desperdício; Papa, novidades e família; e interior e desertificação

Crónicas

No comentário aos textos da liturgia de domingo passado, Vítor Gonçalves escreve na Voz da Verdade, a propósito do desperdício e sob o título Semear é multiplicar:
Segundo dados de 2012, “em Portugal cerca de um milhão de toneladas de alimentos por ano (17% do que é produzido) vai para o lixo, e nos 27 Estados Membros da UE a produção anual de resíduos alimentares ronda os 89 milhões de toneladas, estimando a UE que possa chegar a 126 milhões de toneladas em 2020. 30% dos produtos horto-frutícolas na Europa vão para o lixo!” (...) Não se trata de desvalorizar o trabalho e alimentar a preguiça mas de promover uma justa partilha e reconhecer que a abundância de uns pode colmatar a penúria de outros.
(texto completo aqui)


No Público de Domingo, frei Bento Domingues escreve o terceiro texto sobre Que trouxe de novo o Papa Francisco:
O ser humano é considerado como um bem de consumo que se pode usar e deitar fora. É a promoção da cultura do descartável. (...) Os excluídos nem explorados são, mas resíduos, sobras. Esse é o facto. Quais são as causas? 
O argentino tenta responder. Uma das causas desta situação está na relação estabelecida com o dinheiro (...). A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. 
(texto completo aqui)


No DN de sábado, Anselmo Borges dedica o seu segundo texto ao tema Família em crise, desejo de família, a propósito do texto preparatório do Sínodo dos Bispos sobre a família, que decorrerá em Outubro. O artigo cita as referências do documento à poligamia “natural” em certas regiões, ao “feminicídio”, promiscuidade sexual em família e incesto. E acrescenta:
Uma linha de fundo perpassa o texto: mesmo mantendo, no essencial, a doutrina tradicional católica, há uma nova atitude pastoral de compreensão e misericórdia para quem está em situação de irregularidade canónica (...)
há concretamente dois pontos que precisam de mais reflexão (...) será preciso aprofundar toda a questão da “lei natural”. O que é a natureza? Dever-se-á ir também mais fundo no referente à chamada gender theory.
(texto completo aqui)


No CM de sexta, Fernando Calado Rodrigues escrevia sobre o empenhamento da Igreja para combater o Despovoamento do interior:
A complexidade do problema exige um envolvimento supradiocesano e a cooperação entre diversos organismos eclesiais. Foi a essa conclusão que chegaram algumas dioceses no sul de Itália, confrontadas com problemas semelhantes. Identificaram como principal causa para essa situação o desemprego juvenil.
(texto completo aqui)

quinta-feira, 1 de maio de 2014

A degradação das relações laborais põe em causa o modelo de economia e de sociedade em que vivemos"

25 de Abril de 1974



      O Grupo Economia e Sociedade divulgou há dias no seu blog A Areia dos Dias uma tomada de posição intitulada "Por uma economia justa e inclusiva ao serviço da Vida", que vale a pena ler, neste Dia do Trabalhador. O documento surge motivado por "preocupações éticas e de responsabilidade cívica pela construção de uma sociedade mais justa, mais inclusiva, mais solidária e onde o ser humano seja o primeiro sujeito de um desenvolvimento sustentável".
      Logo na parte inicial, os autores fazem notar:
     "A árvore reconhece-se pelos seus frutos e vemos que ela se encontra carregada de frutos de empobrecimento que se reflectem numa vida pior para as pessoas, na destruição ou alienação dos recursos materiais e no esvaziamento de capacidades que o país já deteve para dar resposta às suas necessidades essenciais e afirmar condições de competitividade numa situação de economia aberta. A crise está instalada e as suas causas mais próximas são de carácter financeiro".
    A tomada de posição debruça-se, depois, sobre "a matriz financeira da crise e o seu impacto em Portugal", "As desigualdades no gozo dos bens e no exercício do poder" e passa a analisar a situação e a apontar caminhos relativamente àquilo que entendem dever ser feito para promover o desenvolvimento e o bem-estar em diversos setores da vida pública.
      Sobre a situação laboral, o texto sublinha o seguinte:
     "Um dos factores mais relevantes para a dignificação da pessoa humana é o trabalho. A legislação que tem vindo a ser aprovada e aplicada retirou direitos aos trabalhadores e sobretudo tornou mais frágeis as relações de trabalho; destrói-se o seu valor, através do desemprego, da sua precariedade e das suas condições de remuneração. Há que rever a situação, sem esquecer a necessária conciliação entre vida pessoal, familiar e vida profissional, não se devendo adoptar como norma a instituição de horários de 40 horas semanais ou superiores.
      As situações de desemprego, tanto pela sua dimensão como pelas suas características, conduzem a condições de aviltamento pessoal dos que lhe estão sujeitos. É o caso dos jovens que depois de realizarem a sua formação não encontram emprego, têm de emigrar e não reúnem condições para formar família; a baixa da taxa de natalidade encontra aí uma das suas raízes principais. É, ainda, o caso dos que têm idade superior aos 40 anos, que são relegados, definitivamente, para uma situação de não empregabilidade sem que, simultaneamente, lhes seja dada a possibilidade de reforma, que lhes permitiria viver uma vida mais digna e não dependente. Depois de ter sido anunciado que a taxa de desemprego tinha baixado para cerca de 16% em fins de 2013, em Abril, o Eurostat vem anunciar uma nova subida para os 17,8%. O desemprego jovem atinge um nível ainda não alcançado anteriormente, de 42,5%. (...)
    A degradação, progressiva, das  relações laborais, constitui não somente uma ameaça para a população em idade activa mas põe claramente em causa o modelo de economia e de sociedade em que vivemos. A necessidade de todos possuírem um trabalho digno não pode dispensar um empenhamento activo de todos."

Ler o documento integral: AQUI

sábado, 1 de março de 2014

A economia que mata

Crónica


(ilustração: Olhai os lírios do campo; reproduzida daqui)

No seu comentário à liturgia católica deste domingo, Vítor Gonçalves fala d’ “a economia que mata”:

Uma constante nas palavras do Papa Francisco tem sido a denúncia “da ditadura de uma economia sem rosto”, “uma economia da exclusão e da iniquidade”, e que “essa economia mata”. A 20 de Fevereiro, numa mensagem à Academia Pontifícia da Vida escrevia: “Nas nossas sociedades existe um domínio tirânico de uma lógica económica que exclui e por vezes mata, da qual hoje muitíssimos são vítimas, a começar pelos nossos idosos.”. Os quatro “nãos” da “Alegria do Evangelho interpelam as nossas atitudes: “Não a uma economia de exclusão (…) Não à nova idolatria do dinheiro (…) Não a um dinheiro que governa em vez de servir (…) Não à desigualdade social que gera violência.” Como podemos fazer a economia que dê vida a todos?

(o texto completo da crónica pode ser lido aqui)


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Contra certos factos, há argumentos!

Crónica



Num tempo que cruza a rapidez necessária com a precipitação a evitar, constrói-se uma semântica dominante. E assim se confunde o argumento com a proposição, a argumentação com a demonstração. Parte-se para a demonstração sem o cuidado dos argumentos. Argumenta-se como quem demonstra. (...) Há que assumir, claro, a regra e as leis inquestionáveis, porque absolutamente demonstráveis e provadas. Quem não come, morrerá de fome. Mas como quantificar o sofrimento de quem experimenta a fome. Com que tabela se quantifica a dignidade humana? E o amor? A felicidade? A beleza? É nesta janela de ambiguidades que sobrevivem ou são esquecidos os valores sem preço, desenhados no aprofundamento da ética. Como o invisível não é quantificável diante do visível, assim os argumentos humanos não são automaticamente aplicáveis num padrão financeiro. Por isso – fazendo eco das palavras do papa Bergoglio –, sem a adequada ética, refém de uma lógica meramente capitalista e desumana, “esta economia mata”!

O mesmo se aplica às religiões. O Princípio é da demonstração e não da argumentação sujeita às múltiplas variáveis das relações e emoções reais. Assim, se a força motriz da fé é a dúvida, capaz de construir convicções, um dogma elevado à categoria de Princípio pode ser um contra-senso, porque no campo da interpretação é contra argumentável.

Num tempo em que tudo se debate, tudo se questiona, como assumir a dinâmica de uma Verdade - que se quer infalível -, numa plataforma global e plural de verdades, conceitos e preconceitos discutíveis - que redefinem padrões e resgatam mistérios? E, já agora, como redesenhar o acolhimento na diversidade? Como lidar com a diversidade ampliada mediaticamente?

Não sabemos que trilho percorrerão as religiões na saída deste labirinto, mas as últimas décadas indicam possibilidades nunca antes percorridas.
(texto publicado na SIC Notícias, que pode ler na íntegra aqui)




sábado, 18 de janeiro de 2014

Arriscar o quê? – e mais duas perguntas

Crónicas - À Procura da Palavra



(ilustração reproduzida daqui)

No seu comentário à liturgia católica deste domingo, (II do tempo comum no calendário litúrgico), pergunta Vítor Gonçalves, sob o título “Arriscar o quê?”:

(...) deixo uma sugestão de aprofundamento para um estudo apresentado esta quinta-feira sobre “Literacia social: os valores como fundamento de competência” onde se constata que “86,4% das pessoas que ganham até 500 euros considera muito importante ajudar os outros, percentagem que vai baixando à medida que os rendimentos aumentam e que atinge o valor mais pequeno – 46,7% – quando chega ao grupo dos que ganham mais de 4 mil euros por mês” e se conclui: “Os portugueses com mais habilitações e mais rendimentos são os que dão menos importância à solidariedade, à justiça e aos valores democráticos.”

(O texto completo pode ser lido aqui)

No domingo anterior, em que se celebrava o baptismo de Jesus, escrevia o mesmo autor, com o título “Descoberta ou ritual?”:

Hesitei demoradamente em iniciar estas palavras semanais com a experiência forte do filme “12 anos escravo” que relata o drama da escravatura nos meados do século XIX nos Estados Unidos. Baseado na vida real de Solomon Northup, que vivendo livre em Nova Iorque em 1841, com a esposa e os filhos, se viu reduzido à condição de escravo por 12 anos nas grandes propriedades do sul esclavagista. O momento em que pôde, de novo, assumir o seu nome e a sua condição livre, sem medo de chicotadas, tem o sabor de um renascimento. E não consigo desligá-lo desta identificação de Cristo com a humanidade decaída, na fila dos pecadores para o baptismo de penitência de João, e com a voz de Deus que Lhe diz (e nos diz): “Este é o meu Filho muito amado!”


Antes, no domingo da Epifania, Vítor Gonçalves perguntava: “Que estrela?”

Numa belíssima parábola sobre o propósito da vida o recente filme de Bem Stiller, “A vida secreta de Walter Mitty” apresenta a história de um homem instalado que vive sonhos de aventura sem nunca os realizar. E ainda que trabalhe numa revista de fotografia que tem como lema, “Ver o mundo e os perigos que virão, ver por trás dos muros, chegar mais perto, encontrar o outro e sentir. Esse é o propósito da vida”, só a muito custo irá experimentar o risco e a mudança. Claro que não é um mago à procura do presépio mas o brilho que lhe nasceu nos olhos abre caminhos novos. Como é tão verdade a palavra insistente de Jesus:“Procurai e achareis!”

domingo, 5 de janeiro de 2014

O homicídio deste sistema económico e o papel das universidades católicas: uma pergunta de Bento Domingues



«Bergoglio criou um problema que não sei como o irá resolver: não se cansa de denunciar a economia que mata. Que poderá ele fazer para que nas instituições universitárias católicas, o ensino no campo da economia, da finança, da gestão, da política não só denuncie e recuse qualquer tipo de participação nesse homicídio, mas sobretudo, que poderá ele fazer para que os professores e alunos dessas instituições investiguem e façam propostas que sirvam a fraternidade como fundamento e caminho da paz?» 
(Bento Domingues, Público, 5 de janeiro de 2014)

O que diz a Evangelii Gadium sobre esta matéria:

"Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. (...) Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída. O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. Assim teve início a cultura do «descartável», que aliás chega a ser promovida. Já não se trata simplesmente do fenómeno de exploração e opressão, mas duma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na própria raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são «explorados», mas resíduos, «sobras». (Evangelii Gaudium, 53)

Neste contexto, alguns defendem ainda as teorias da «recaída favorável» que pressupõem que todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismos sacralizados do sistema económico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar. Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com este ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe. A cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espectáculo que não nos incomoda de forma alguma (n.54).

Uma das causas desta situação está na relação estabelecida com o dinheiro, porque aceitamos pacificamente o seu domínio sobre nós e as nossas sociedades. A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. Criámos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32, 1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura duma economia sem rosto e sem um objectivo verdadeiramente humano. A crise mundial, que investe as finanças e a economia, põe a descoberto os seus próprios desequilíbrios e sobretudo a grave carência duma orientação antropológica que reduz o ser humano apenas a uma das suas necessidades: o consumo (n.55).

Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras. Além disso, a dívida e os respectivos juros afastam os países das possibilidades viáveis da sua economia, e os cidadãos do seu real poder de compra. A tudo isto vem juntar-se uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais. A ambição do poder e do ter não conhece limites. Neste sistema que tende a fagocitar tudo para aumentar os benefícios, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta (n.56).


Hoje, em muitas partes, reclama-se maior segurança. Mas, enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos será impossível desarreigar a violência. Acusam-se da violência os pobres e as populações mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há-de provocar a explosão. Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade. Isto não acontece apenas porque a desigualdade social provoca a reacção violenta de quantos são excluídos do sistema, mas porque o sistema social e económico é injusto na sua raiz.(...) (n.59)".

Complemento (6.1.2014):
"Na exortação, não há nada que não se encontre na Doutrina Social da Igreja. Eu não falei de um ponto de vista técnico. Eu tentei apresentar uma fotografia do que acontece. A única citação específica foi sobre as teorias da "recaída favorável", segundo as quais todo crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue produzir por si só uma maior equidade e inclusão social no mundo. Havia a promessa de que, quando o copo estivesse cheio, ele transbordaria, e os pobres seriam beneficiados com isso. O que acontece, ao invés, é que, quando está cheio, o copo magicamente se engrandece, e assim nunca sai nada para os pobres. Essa foi a única referência a uma teoria específica. Repito, eu não falei como técnico, mas segundo a doutrina social da Igreja. E isso não significa ser marxista."
(Fonte: IHU-Unisinos)