Sob o título genérico A revolução franciscana,
publiquei no Jornal de Notícias, durante o mês de Dezembro, oito
trabalhos sobre o Papa Francisco, que tentam fazer um balanço do que tem sido
este ainda curto mas intenso pontificado. Este é o sétimo trabalho da
série.
O Papa Francisco no II Encontro Mundial dos Movimentos Populares,
que decorreu em Julho de 2015, na Bolívia (foto reproduzida daqui)
Para o Papa Francisco, o Evangelho de Jesus exige o compromisso com os outros. Por isso ele vai
buscar o pensamento social cristão desde os primeiros séculos para defender
que, hoje, os problemas estão todos relacionados e propor os caminhos
alternativos que passam pela centralidade da pessoa na actividade política.
“Devemos dizer ‘não a uma economia
da exclusão e da desigualdade social’. Esta economia mata. Não é possível que a
morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a
descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão.”
A frase foi cunhada pelo Papa
Francisco na exortação Evangelii Gaudium
(A Alegria do Evangelho), de Novembro de 2013, e sintetiza a preocupação por
recolocar as pessoas no centro da actividade política, em detrimento de uma “economia
sem rosto”.
Estamos perante um Papa mais
político do que os anteriores? Nem tanto. Desde os primeiros séculos do
cristianismo, os mais importantes teólogos são violentamente críticos do poder
político e económico, chegando alguns a defender a possibilidade de roubar
matar a fome. No século XIX, com a encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, que funda a moderna doutrina
social da Igreja, continuou a defesa prioritária dos que sustentam, com o seu
trabalho, a pirâmide social.
Mesmo se esse pensamento foi
evoluindo, as ideias fundamentais foram sempre a prioridade da pessoa sobre o
capital, do bem comum sobre o bem privado, do direito ao trabalho, à habitação
e a condições de vida dignas (ver texto ao lado).
A diferença com os pontificados
anteriores é que Francisco aponta exemplos concretos para traduzir essas
ideias. E não se inibe de usar circunstâncias simbolicamente fortes – participando
num encontro de movimentos populares ao lado do Presidente boliviano, Evo
Morales, entrando numa favela do Rio de Janeiro, visitando um campo de
refugiados do Quénia ou indo a um bairro de muçulmanos cercado por milícias
cristãs, numa República Centro-Africana em guerra civil.
Francisco fala mais vezes destas
questões e coloca-as como prioridade sobre outras. Ainda no dia 30 de Novembro,
a regressar da viagem a África, e perguntado sobre o preservativo, ele repetiu
o que Bento XVI já dissera: “Sim, é um dos métodos” de prevenção do contagio da
sida, por exemplo.




