Mostrar mensagens com a etiqueta Evangelii Gaudium. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Evangelii Gaudium. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

A revolução franciscana (7) – Um Papa que se mete na economia e na política

Sob o título genérico A revolução franciscana, publiquei no Jornal de Notícias, durante o mês de Dezembro, oito trabalhos sobre o Papa Francisco, que tentam fazer um balanço do que tem sido este ainda curto mas intenso pontificado. Este é o sétimo trabalho da série. 




O Papa Francisco no II Encontro Mundial dos Movimentos Populares, 
que decorreu em Julho de 2015, na Bolívia (foto reproduzida daqui)

Para o Papa Francisco, o Evangelho de Jesus exige  o compromisso com os outros. Por isso ele vai buscar o pensamento social cristão desde os primeiros séculos para defender que, hoje, os problemas estão todos relacionados e propor os caminhos alternativos que passam pela centralidade da pessoa na actividade política.

“Devemos dizer ‘não a uma economia da exclusão e da desigualdade social’. Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão.”
A frase foi cunhada pelo Papa Francisco na exortação Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho), de Novembro de 2013, e sintetiza a preocupação por recolocar as pessoas no centro da actividade política, em detrimento de uma “economia sem rosto”.
Estamos perante um Papa mais político do que os anteriores? Nem tanto. Desde os primeiros séculos do cristianismo, os mais importantes teólogos são violentamente críticos do poder político e económico, chegando alguns a defender a possibilidade de roubar matar a fome. No século XIX, com a encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, que funda a moderna doutrina social da Igreja, continuou a defesa prioritária dos que sustentam, com o seu trabalho, a pirâmide social.
Mesmo se esse pensamento foi evoluindo, as ideias fundamentais foram sempre a prioridade da pessoa sobre o capital, do bem comum sobre o bem privado, do direito ao trabalho, à habitação e a condições de vida dignas (ver texto ao lado).
A diferença com os pontificados anteriores é que Francisco aponta exemplos concretos para traduzir essas ideias. E não se inibe de usar circunstâncias simbolicamente fortes – participando num encontro de movimentos populares ao lado do Presidente boliviano, Evo Morales, entrando numa favela do Rio de Janeiro, visitando um campo de refugiados do Quénia ou indo a um bairro de muçulmanos cercado por milícias cristãs, numa República Centro-Africana em guerra civil.
Francisco fala mais vezes destas questões e coloca-as como prioridade sobre outras. Ainda no dia 30 de Novembro, a regressar da viagem a África, e perguntado sobre o preservativo, ele repetiu o que Bento XVI já dissera: “Sim, é um dos métodos” de prevenção do contagio da sida, por exemplo.

sábado, 31 de maio de 2014

Evangelii Gaudium – Anunciar a luz em tempos de escuridão porque somos bem-aventurados

texto de Jorge Wemans
Texto de intervenção na paróquia de Santa Isabel (Lisboa), 12 de março de 2014; o autor deste texto desafiara os leitores do Religionline a comentar a exortação do Papa; o resultado foram vários textos publicados neste blogue, em Novembro e Dezembro de 2013, sob o título A Alegria de Ler Francisco)


(imagem reproduzida daqui)

Não sou perito em análise de documentos do Vaticano nem tenho qualquer outra competência específica para me debruçar sobre a exortação Evangelii Gaudium. Reajo a ela na minha qualidade de católico comum. Tal como qualquer outro. Embora, ao contrário de uns quantos, sentindo que estamos perante um documento de uma novidade inescapável. Um documento que nos exige definir com urgência e convicção as prioridades da nossa comunidade para os próximos anos.
Partilho estas minhas reflexões sem esquecer os muitos “comentários” já tornados públicos com aquele objetivo referido pelo Papa Francisco (nº 271): desenvolver interpretações que despojam a exortação da sua força interpeladora, do seu caráter claro e contundente!
Por nada deste mundo gostaria de fazer parte desse grupo, mas tenho algum receio de o integrar, mesmo não o querendo. E o problema não será meu, é, isso sim, da própria exortação. Ela é, sem dúvida nenhuma, um texto claríssimo e contundente, mas também profundamente interpelador e muitíssimo exigente. Não admira que, dentro e fora da Igreja, se tenham multiplicado os comentários tentando tornar velho o que ela tem de novo (e tem tanto!), ou nebuloso o que ela tem de límpido como água – na realidade, ninguém gosta de ser questionado nas suas autojustificações e de ser desassossegado do doce remanso em que todos tendemos a nos deixar adormecer. Espero com este comentário nada retirar à exortação no que ela tem de direto, contundente e de convite à mudança!

Inesgotável

A primeira caraterística da Evangelii Gaudium que quero salientar é a de ela ser inesgotável, assim como um imenso banquete que convida a que seja lida devagar e a ser meditada em cada um dos seus 288 pontos.
Talvez mais do que um banquete, possamos comparar a exortação a uma paisagem em que descobrimos sempre coisas novas de cada vez que a voltamos a contemplar, uma paisagem em que vislumbramos em diversos lugares os mesmos verdes, ou os mesmo tons de azul, os quais, embora repetindo-se não são repetitivos, pois em enquadramentos diferentes acabam por não ser exatamente os mesmos verdes ou os mesmos azuis.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Contra certos factos, há argumentos!

Crónica



Num tempo que cruza a rapidez necessária com a precipitação a evitar, constrói-se uma semântica dominante. E assim se confunde o argumento com a proposição, a argumentação com a demonstração. Parte-se para a demonstração sem o cuidado dos argumentos. Argumenta-se como quem demonstra. (...) Há que assumir, claro, a regra e as leis inquestionáveis, porque absolutamente demonstráveis e provadas. Quem não come, morrerá de fome. Mas como quantificar o sofrimento de quem experimenta a fome. Com que tabela se quantifica a dignidade humana? E o amor? A felicidade? A beleza? É nesta janela de ambiguidades que sobrevivem ou são esquecidos os valores sem preço, desenhados no aprofundamento da ética. Como o invisível não é quantificável diante do visível, assim os argumentos humanos não são automaticamente aplicáveis num padrão financeiro. Por isso – fazendo eco das palavras do papa Bergoglio –, sem a adequada ética, refém de uma lógica meramente capitalista e desumana, “esta economia mata”!

O mesmo se aplica às religiões. O Princípio é da demonstração e não da argumentação sujeita às múltiplas variáveis das relações e emoções reais. Assim, se a força motriz da fé é a dúvida, capaz de construir convicções, um dogma elevado à categoria de Princípio pode ser um contra-senso, porque no campo da interpretação é contra argumentável.

Num tempo em que tudo se debate, tudo se questiona, como assumir a dinâmica de uma Verdade - que se quer infalível -, numa plataforma global e plural de verdades, conceitos e preconceitos discutíveis - que redefinem padrões e resgatam mistérios? E, já agora, como redesenhar o acolhimento na diversidade? Como lidar com a diversidade ampliada mediaticamente?

Não sabemos que trilho percorrerão as religiões na saída deste labirinto, mas as últimas décadas indicam possibilidades nunca antes percorridas.
(texto publicado na SIC Notícias, que pode ler na íntegra aqui)




quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Vaticano traduz mal o Papa



Traduttore, traditore. Tradutor, traidor. A expressão italiana parece ajustada quando se olha para textos recentes vindos do Vaticano, com diferenças notórias nas diversas línguas. O caso mais grave é o da exortação apostólica Evangelii Gaudium, do Papa Francisco, publicada a 24 de Novembro, onde a “violação” da mulher, do original espanhol, deu lugar à “violência” sobre a mulher em italiano, francês, alemão e português. Entre as línguas ocidentais do site do Vaticano, apenas o inglês manteve a expressão “violação”.
Os problemas de tradução dos documentos do Vaticano já tinham aparecido a propósito do inquérito de preparação do Sínodo dos Bispos sobre a Família, que decorrerá em Outubro deste ano. O questionário, divulgado em Outubro passado, tinha várias perguntas pouco claras e mal formuladas. Mas a versão portuguesa chegava a transformar uma pergunta – “Onde é conhecido, o ensinamento da Igreja é aceite integralmente?” – numa afirmação, na qual o ponto de interrogação desaparecia.
O texto da exortação Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho), do Papa Francisco, foi escrito originalmente em espanhol e, depois, vertido para italiano, de acordo com a informação que RELIGIONLINE recolheu junto de uma fonte bem colocada no Vaticano, que pediu o anonimato. No parágrafo 214 do original espanhol, a frase diz, de acordo com o texto que está no sítio do Vaticano: “No es progresista pretender resolver los problemas eliminando una vida humana. Pero también es verdad que hemos hecho poco para acompañar adecuadamente a las mujeres que se encuentran en situaciones muy duras, donde el aborto se les presenta como una rápida solución a sus profundas angustias, particularmente cuando la vida que crece en ellas ha surgido como producto de una violación o en un contexto de extrema pobreza.
Na tradução para italiano, caiu o termo “violação”, substituído por “violência”: “...particolarmente quando la vita che cresce in loro è sorta come conseguenza di una violenza o in un contesto di estrema povertà.O erro parece ter estado logo nesta primeira tradução para italiano, que serviria de matriz para as diferentes línguas, incluindo o português: “Não é opção progressista pretender resolver os problemas, eliminando uma vida humana. Mas é verdade também que temos feito pouco [a Igreja] para acompanhar adequadamente as mulheres que estão em situações muito duras, nas quais o aborto lhes aparece como uma solução rápida para as suas profundas angústias, particularmente quando a vida que cresce nelas surgiu como resultado duma violência ou num contexto de extrema pobreza.”
O erro foi mantido em francês: “en particulier quand la vie qui croît en elles est la conséquence d’une violence, ou dans un contexte d’extrême pauvreté.” E também a versão alemã repete a mesma opção: “besonders, wenn das Leben, das in ihnen wächst, als Folge einer Gewalt oder im Kontext extremer Armut entstanden ist.
Das línguas ocidentais em que o texto está traduzido no site do Vaticano, apenas a língua inglesa mantém a palavra inicial: “especially when the life developing within them is the result of rape or a situation of extreme poverty.

domingo, 5 de janeiro de 2014

O homicídio deste sistema económico e o papel das universidades católicas: uma pergunta de Bento Domingues



«Bergoglio criou um problema que não sei como o irá resolver: não se cansa de denunciar a economia que mata. Que poderá ele fazer para que nas instituições universitárias católicas, o ensino no campo da economia, da finança, da gestão, da política não só denuncie e recuse qualquer tipo de participação nesse homicídio, mas sobretudo, que poderá ele fazer para que os professores e alunos dessas instituições investiguem e façam propostas que sirvam a fraternidade como fundamento e caminho da paz?» 
(Bento Domingues, Público, 5 de janeiro de 2014)

O que diz a Evangelii Gadium sobre esta matéria:

"Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. (...) Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída. O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. Assim teve início a cultura do «descartável», que aliás chega a ser promovida. Já não se trata simplesmente do fenómeno de exploração e opressão, mas duma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na própria raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são «explorados», mas resíduos, «sobras». (Evangelii Gaudium, 53)

Neste contexto, alguns defendem ainda as teorias da «recaída favorável» que pressupõem que todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismos sacralizados do sistema económico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar. Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com este ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe. A cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espectáculo que não nos incomoda de forma alguma (n.54).

Uma das causas desta situação está na relação estabelecida com o dinheiro, porque aceitamos pacificamente o seu domínio sobre nós e as nossas sociedades. A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. Criámos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32, 1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura duma economia sem rosto e sem um objectivo verdadeiramente humano. A crise mundial, que investe as finanças e a economia, põe a descoberto os seus próprios desequilíbrios e sobretudo a grave carência duma orientação antropológica que reduz o ser humano apenas a uma das suas necessidades: o consumo (n.55).

Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras. Além disso, a dívida e os respectivos juros afastam os países das possibilidades viáveis da sua economia, e os cidadãos do seu real poder de compra. A tudo isto vem juntar-se uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais. A ambição do poder e do ter não conhece limites. Neste sistema que tende a fagocitar tudo para aumentar os benefícios, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta (n.56).


Hoje, em muitas partes, reclama-se maior segurança. Mas, enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos será impossível desarreigar a violência. Acusam-se da violência os pobres e as populações mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há-de provocar a explosão. Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade. Isto não acontece apenas porque a desigualdade social provoca a reacção violenta de quantos são excluídos do sistema, mas porque o sistema social e económico é injusto na sua raiz.(...) (n.59)".

Complemento (6.1.2014):
"Na exortação, não há nada que não se encontre na Doutrina Social da Igreja. Eu não falei de um ponto de vista técnico. Eu tentei apresentar uma fotografia do que acontece. A única citação específica foi sobre as teorias da "recaída favorável", segundo as quais todo crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue produzir por si só uma maior equidade e inclusão social no mundo. Havia a promessa de que, quando o copo estivesse cheio, ele transbordaria, e os pobres seriam beneficiados com isso. O que acontece, ao invés, é que, quando está cheio, o copo magicamente se engrandece, e assim nunca sai nada para os pobres. Essa foi a única referência a uma teoria específica. Repito, eu não falei como técnico, mas segundo a doutrina social da Igreja. E isso não significa ser marxista."
(Fonte: IHU-Unisinos)

domingo, 15 de dezembro de 2013

A alegria de ler Francisco (9) - Uma vontade intrínseca de partilhar


Depoimento de João Gonçalves, mestrando em Ciências da Comunicação na Universidade do Minho:

Não é uma tarefa fácil comentar uma exortação tão vasta como a Evangelii Gaudium. Vasta não pela sua extensão textual, mas pela reflexão e paixão latente em cada palavra de Francisco que desperta com a leitura. Assim, em vez de ambicionar comentar as diferentes vertentes desta Exortação, procurarei antes expor aquela que me pareceu ser a natureza deste texto e forma como a encarei.
A natureza da alegria não é individual, é partilhada. A Evangelii Gaudium é uma alegria e somos impelidos a partilhá-la. Não tanto pelo apelo que o texto faz à partilha e à vivência do cristão com o outro, mas porque, tal como uma conquista pessoal ou uma notícia feliz, ao lê-lo sentimos uma vontade intrínseca de partilhar a experiência com outros. Durante a leitura, não consegui evitar fazer algumas interrupções para ler e comentar passagens da Exortação com os que estavam comigo naquele momento.
A segunda particularidade deste texto é a sua ligação à realidade. Encontrei lá uma abordagem direta a muitas das questões que me inquietam enquanto cristão. Sem ser um texto que pretende substituir os outros e abordar todos os temas exaustivamente, o diálogo que Francisco enceta connosco tem o mérito de oferecer orientações claras quanto à situação em que nos encontramos e a posição da Igreja sobre ela. Este é um texto “em saída”, que traz muito não só aos cristãos mas a todos os que se inquietam com a injustiça no mundo. É um texto que evangeliza pelo coração e pela razão.
Por fim, saliento a relevância que Francisco atribui aos “pequeninos” e à missão. São estes os dois pontos fulcrais para a jornada evangelizadora da Igreja, num mundo de desafios. Mostrar ao mundo a alegria através do exemplo e da humildade, essa não é apenas a proposta da Evangelii Gaudium, é a experiência que a missão nos oferece. Falo disto como alguém que se aproximou da Igreja pelo exemplo e que vê neste texto uma esperança contra a indiferença de muitos que comigo têm em comum a idade. Não é possível ficar indiferente a esta Exortação.

sábado, 14 de dezembro de 2013

A alegria de ler Francisco (8) - Crítica ao capitalismo e as "derrapagens" do Papa

Três crónicas sobre a exortação apostólica Evangelii Gaudium.

No DN de hoje, Anselmo Borges, que já escrevera sobre o documento na semana passadadiz:

A causa de Deus é a causa do ser humano, de todo o ser humano, feliz e pleno, começando, evidentemente, pelos mais pobres e marginalizados, os das periferias. Essa tem de ser também a causa da Igreja. Por isso, escreve [o Papa]: para quem quer seguir o Evangelho “há um sinal que nunca deve faltar: a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e deita fora”. “Estamos chamados a descobrir Cristo neles, a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas.” Por isso, hoje devemos dizer “não a uma economia da exclusão e da desigualdade social. Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento de um idoso sem-abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Hoje tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, em que o poderoso engole o mais fraco”, e a consequência é que “grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas” e os excluídos não são “explorados”, mas resíduos, “sobras”. (...)
Francisco: um perigoso esquerdista? Enquanto uma certa esquerda faz aproveitamento político-partidário, a ultradireita, como o Tea Party, acusa-o de marxismo. Mas ele apenas anuncia o Evangelho, cujo único interesse é a vida plena para todos. “Não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado.” Assim, pede a Deus que “nos conceda mais políticos que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres.”

O artigo pode ser lido na íntegra aqui.

No Jornal de Letras de terça-feira, dia 10, Teresa Toldy escreve sobre “Uma crítica profunda ao capitalismo”:

(...) Concentrar-me-ei, contudo, aqui, apenas na crítica profunda que o Papa faz às sociedades capitalistas, de consumo, e ao próprio capitalismo. E começarei por dizer que me parece importante destacar que o Papa não perspetiva as suas críticas à sociedade capitalista e de consumo no quadro de um pensamento que não põe em causa o próximo sistema. Por isso, será, no mínimo, redutor e “silenciador” da novidade do documento dizer que Francisco se limita a repetir o que a Igreja, na sua Doutrina Social, diz desde Leão XIII, ou que é “maravilhoso” termos tido uma sequência de Papas que vêm sempre dizendo o mesmo. (...)
É que do que Francisco fala é da necessidade de mudar o sistema estruturalmente. (...) Ora, segundo Francisco, o crescimento em equidade, portanto, respeitador da dignidade e do bem comum, exige “decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição do acesso, uma criação de fontes de trabalho, uma promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo” (nº 204). (...)
Não creio que estas afirmações estejam em linha com as críticas demolidoras de Papas anteriores às teologias da libertação. Parece-me mesmo possível ler nas entrelinhas deste documento uma crítica à crítica e perseguição às teologias da libertação. De contrário, como interpretar estas palavras do Papa Francisco, referindo-se à opção da Igreja pelos pobres, inscrita em textos bíblicos?: “É uma mensagem tão clara, tão direta, tão simples e eloquente, que nenhuma hermenêutica eclesial tem direito de relativizar. A reflexão da igreja sobre estes textos não deve obscurecer ou debilitar o seu sentido exortativo, mas sim ajudar a assumi-los com coragem e fervor. (...)” (nº 194).

O texto completo está disponível aqui.

Do Brasil, chega o texto do bispo de Dourados, Redovino Rizzardo, com o título “As derrapagens do Papa Francisco”, criticando uma afirmação de dois padres católicos que falam das “derrapagens doutrinais” do Papa.
Escreve o bispo Rizzardo:

As críticas dos padres demonstram que, para acolher a novidade trazida pelo Evangelho, não apenas os leigos, mas também as suas lideranças, precisam da sabedoria do coração, que só vinga em pessoas que colocam o bem da Igreja e da humanidade acima de seus interesses e traumas. (...)
A reforma da Igreja vai muito além da mera atualização das suas estruturas. Ela concretiza-se numa fé e numa espiritualidade que demonstram o amor de Deus pela humanidade. Por isso, uma Igreja que atrai, motiva e converte pela compreensão e benevolência de seus pastores, jamais pela imposição e prepotência.

O texto pode ser lido aqui na íntegra.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A alegria de ler Francisco (7) – The Tablet: Uma Igreja mais participativa, aberta, descentralizada e fluida

O modelo da Igreja de Francisco é de uma Igreja mais participativa e aberta, mais descentralizada e fluida, mais disposta a assumir riscos, menos preocupada com a conformidade doutrinal, menos clerical. Mas acima de tudo, centrada em Cristo. É este o tom do editorial de 28 de Novembro da revista católica britânica The Tablet. A tradução para português do Brasil, a partir da versão italiana do editorial, é de Moisés Sbardelotto, no site da Unisinos. Eis o texto:

O plano que o Papa Francisco quer que a Igreja Católica siga tem aparecido peça por peça desde a sua eleição em março, mas agora ele o definiu em detalhes. Ele quer uma mudança da cultura e do caráter da Igreja, uma mudança de suas prioridades e uma mudança de suas estruturas. Ele quer uma Igreja que não seja sonâmbula, nem que marche na cadência dos outros, mas que vá para fora, para o mundo, sujando seus sapatos com a lama das ruas, para entregar a mensagem do cuidado infinito de Deus para cada pedacinho do mundo.
Naquela que não é tanto uma reversão do "nós" papal da tradição, mas sim uma exclamação de alegria em nome de toda a Igreja, ele declara: "Nós amamos este magnífico planeta onde Deus nos colocou…". É um exemplo da exuberância contagiante através da qual, por inúmeros gestos eloquentes, ele já tocou os corações de milhões de pessoas em todo o mundo.
Tecnicamente chamada de exortação apostólica, a Evangelii gaudium é literalmente isto também: o papa que exorta alegremente o seu rebanho a repensar quase tudo o que faz em busca de seu objetivo-chave, a evangelização. Mas ao fazê-lo, ele redefine isso não como um processo de "igrejificação", mas como quase o oposto. Velhas certezas e formas familiares, todas caem sob o chicote de sua prosa, às vezes, fulminante. "Mais do que como peritos em diagnósticos apocalípticos ou juízes sombrios que se comprazem em detectar qualquer perigo ou desvio, é bom que possam nos ver como mensageiros alegres de propostas altas, guardiões do bem e da beleza que resplandecem em uma vida fiel ao Evangelho".

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A alegria de ler Francisco (6) - Fr. Bento Domingues: O discurso do método do Papa Francisco

1. O Papa está a tornar-se a referência dos que precisam de energia espiritual para resistir à idolatria do dinheiro, à tirania dos mercados, à especulação financeira, à economia que mata, às políticas que consideram os doentes e os velhos um estorvo e o desemprego uma fatalidade.
Como não há coragem, nem dentro nem fora da Igreja, para o mandar calar de vez, os seus adversários encomendaram a jornalistas e comentadores de serviço, a sua desvalorização: este Papa não diz nada de novo; repete o que está dito e redito, desde o séc. XIX, na Doutrina Social da Igreja, não passa de um populista.
Os desconsolados com o Papa Francisco não são contra a solidariedade. Sabem o que fazer para que nunca haja falta de pobres. Insuportável é o método do seu discurso e actuação: convocar toda a Igreja a olhar este mundo a partir dos excluídos, mudar o centro da sua missão para a periferia e organizar-se a partir daí.
Sonho, diz o Papa na Exortação Evangelli Gaudium, com a opção missionária capaz de transformar os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial num canal de evangelização e não apenas um instrumento da sua auto-preservação. Pertence ao Bispo promover uma comunhão dinâmica, aberta e missionária na sua diocese. Deverá estimular e procurar um amadurecimento dos organismos de participação propostos pelo Código de Direito Canónico e de outras formas de diálogo pastoral, com o desejo de ouvir todos e não apenas alguns, sempre prontos a lisonjeá-lo.
“Dado que sou chamado a viver aquilo que peço aos outros, devo pensar também numa conversão do papado. Compete-me, como Bispo de Roma, permanecer aberto às sugestões tendentes a um exercício do meu ministério que o torne mais fiel ao significado que Jesus Cristo lhe deu e às necessidades actuais da evangelização” (n. 32).
O Papa pede o abandono de um critério pastoral muito cómodo e muito usado: “fez-se sempre assim”. Convida todos, sem contemplações, a serem ousados e criativos na tarefa de repensar os objectivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades. Vai mais longe: ”Uma identificação dos fins, sem uma condigna busca comunitária dos meios para os alcançar, está condenada a traduzir-se em mera fantasia” (n.33).

domingo, 8 de dezembro de 2013

A alegria de ler Francisco (5) - Rui Pedro Vasconcelos: Uma Alegria que Desperte



Mais do que comentar a «A Alegria do Evangelho», apetece apenas reter no ouvido algumas das suas passagens, e repeti-las lentamente enquanto se espera na paragem do autocarro. Da minha curta experiência de vida, isto só me aconteceu (com documentos do Ministério Católico) com passagens da Gaudium et Spes e da Dignitatis Humanae.
Por exemplo: 2. «Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes.» 
Ou então: 3. Volta uma vez e outra vez a carregar-nos aos seus ombros. Ninguém nos pode tirar a dignidade que este amor infinito e inabalável nos confere. Ele permite-nos levantar a cabeça e recomeçar, com uma ternura que nunca nos defrauda e sempre nos pode restituir a alegria.» 
24. «A Igreja ‘em saída’ é a comunidade de discípulos missionários que ‘primeireiam’, que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam. Primeireiam – desculpai o neologismo – tomam a iniciativa!»
54. «A cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espectáculo que não nos incomoda de forma alguma.»
102. «A tomada de consciência desta responsabilidade laical que nasce do Batismo e da Confirmação não se manifesta de igual modo em toda a parte; em alguns casos, porque não se formaram para assumir responsabilidades importantes, em outros por não encontrarem espaço nas suas Igrejas particulares para poderem exprimir-se e agir por causa de um excessivo clericalismo que os mantém à margem das decisões.» 
A tendência dos documentos ministeriais é lançar o Evangelho numa letargia, multiplicando os textos, os debates e as discussões – os ‘entes’, na imagem de Tomás de Aquino. Pelo contrário, a Evangelii Gaudium ajuda-nos a acordar desta letargia e re-encontrar a Alegria do Evangelho. Nota-se que é escrito por um Bispo de origem latino-americana: onde não se espera pelo Estado para abrir um furo de água comunitário, onde não se espera pelo pároco para iniciar reuniões eclesiais de base, onde não se espera pela apple para nos trazer o último tablet.
Ao nível hierárquico, é de esperar algumas mudanças nas relações entre a cúria romana e as conferências episcopais. Ao nível de imagem, já se está a ganhar, com uma nova linguagem positiva da Igreja para com a sociedade. Mais do que isto, parece-me, Francisco não poderá fazer: só poderá, no bom espírito latino-americano, dar o pontapé, para que os adormecidos e instalados cristãos europeus – penso na Igreja que está em Portugal – se voltem a re-unir, a re-descobrir o prazer de ler o Evangelho, a questionar os seus critérios e hábitos de relações, consumo e pensamento, e a procurar novos caminhos – sempre pequenos – de mudança da sociedade e da Igreja.

(Foto: o então arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, no metropolitano da capital argentina, 2009; foto reproduzida daqui)

(RELIGIONLINE está a publicar comentários sobre a Evangelli Gaudium, a partir do desafio lançado por Jorge Wemans)