domingo, 15 de março de 2015

Jean Vanier, companheiro de excluídos e fundador d'A Arca, recebe Prémio Templeton

Jean Vanier, que dedicou a vida a favor das pessoas com deficiência, foi distinguido quinta-feira passada com o Prémio Templeton, um dos mais importantes, a nível internacional, na área da religião. Esta distinção junta-se a muitas outras já recebidas ao longo da vida pelo fundador de L’Arche (A Arca), onde pessoas com e sem deficiência vivem juntas, em comunidade. Com esse pretexto, recorda-se aqui o seu itinerário, num texto de Alice Caldeira Cabral, ex- responsável do Movimento Fé e Luz em Portugal e agora numa comunidade do mesmo movimento, criado por Jean Vanier.


Jean Vanier (foto reproduzida daqui)

Texto de Alice Caldeira Cabral

Nascido a 10 de Setembro de 1928, Jean Vanier é o quarto e penúltimo filho do casal Pauline e Georges Vanier. O pai foi governador-geral do Canadá entre 1959 e 1967, depois de uma carreira como diplomata que levou a que Jean tenha nascido na Suíça e crescido em França e em Inglaterra.
De regresso ao Canadá, quando começa a II Guerra Mundial, Jean, com apenas 13 anos, pede ao pai para integrar a Marinha inglesa. O pai manifesta confiança nele, o que o marca de forma importante. Integra primeiro a Marinha inglesa e, mais tarde, a canadiana.
Aos 22 anos, Jean compreende que a vida militar não o preenche. Vive uma intensa procura espiritual. Entra para o Centro Internacional de Ensino de Teologia dos Leigos, L’Eau Vive, dirigido pelo padre dominicano Thomas Philippe, que se torna seu director espiritual. Pensa tornar-se padre, o que não chega a concretizar. Estuda Filosofia, faz um doutoramento sobre a Ética em Aristóteles e inicia uma carreira académica na Sorbonne. A sua tese, apresentada em 1962, será publicada mais tarde, numa versão simplificada, com o título Le Gout du Bonheur (O gosto da felicidade), ed. Presses De la Renaissance, Paris 2000.

“Quando voltas?...”

Em 1964, Jean foi professor de filosofia na Universidade de Toronto (Canadá). O seu amigo padre Thomas fora entretanto nomeado capelão da Val Fleuri, instituição com cerca de 30 pessoas com deficiência intelectual, situada em Trosly-Breuil, perto de Compiègne (na região de Oise, em França). Thomas Philippe convidou-o a ir conhecer essas pessoas porque, dizia, “são as pessoas marginais e excluídas da vida duma sociedade que podem melhor revelar-nos o sentido da vida humana.” (1)

sábado, 14 de março de 2015

Vítor Gonçalves: O vício do amor; o templo e o corpo

Crónicas

No seu comentário aos textos da liturgia católica deste Domingo, Vítor Gonçalves escreve sobre O “vício do amor”:

Foi a última frase do Evangelho que se colou no meu pensamento quando li a entrevista a José Mujica, o presidente cessante do Uruguai, na revista do Expresso de sábado passado. É difícil ficar indiferente a alguém que diz: “Eu defino que a liberdade humana, do ponto de vista individual, é ter tempo para gastar nas coisas que nos gratificam. Sou um inimigo da sociedade de consumo, e sou amigo da sobriedade, de viver com pouco. (…) Tenho pouco apego material, porque isso me garante ter tempo para me dedicar ao que mais me realiza”.
(texto completo aqui)

Na semana passada, o tema era O templo e o corpo:

É bom lembrar que o substantivo “igreja” designa, em primeiro lugar e na sua etimologia, a “assembleia”, a “reunião daqueles que foram chamados por Cristo”. Foi aos poucos que passou a designar o lugar desse encontro, vindo a tornar-se esse o seu significado mais comum. Os espaços que habitamos revelam-nos. O filósofo Martin Heidegger dizia que “habitar é o traço essencial do ser de acordo com o qual os mortais são”, e Saint-Exupéry descobria que “os homens habitam e que o sentido das coisas varia para eles em função do sentido das suas casas”. 
(texto completo aqui)

Anselmo Borges: Dois anos de Francisco; sexo e género

Crónicas

No seu artigo de hoje no DN, Anselmo Borges escreve sobre Dois anos com Francisco Papa:

Essencial é a desclericalização, a democratização na Igreja, voltando à Igreja-Povo de Deus, e a presença das mulheres em igualdade de direitos com os homens.
Mas a questão decisiva mesmo é o próprio papado como instituição. De facto, como está, há sempre o perigo, escreve o teólogo José Arregi, de "tudo ficar à mercê do próximo Papa".
(texto completo aqui)

Na semana passada, Anselmo Borges publicara o segundo texto com o título Sobre sexo e género:

Também penso que "as mulheres devem preservar a sua diferença, porque ela é enriquecedora", como diz Maria Antónia Palla. Mas a potenciação do acesso das mulheres ao poder e aos lugares de decisão, também na Igreja, não poderia, por isso mesmo, facilitar e enriquecer a vida da própria Igreja?
(texto completo aqui)


In Memoriam. Madalena Cabral (Porto, 1922-2015) – a arte da paramentaria

Texto de João Alves da Cunha*


Madalena Cabral, Autoretrato

Madalena Cabral nasceu no Porto em 1922, mas foi na Escola António Arroio em Lisboa que realizou o curso de Artes Decorativas. Começou por dedicar-se à pintura, com maior destaque para a aguarela, que a levou a realizar algumas exposições no Porto e em Lisboa. Em 1948 recebeu o Prémio Henrique Pousão e, quatro anos depois, o Prémio José Tagarro. A sua aguarela Leitura foi adquirida para o acervo do então Museu de Arte Contemporânea de Lisboa. Ensaiou também alguns cartões para tapeçarias para a Manufactura de Portalegre. Em 1952 começou a trabalhar no Museu Nacional de Arte Antiga, onde lançou no ano seguinte as bases do pioneiro Serviço de Educação, orientado para a formação artística e cultural das crianças.
Em 1964, a sua experiência no trabalho com crianças associada à sua participação ativa na vida católica – Madalena Cabral pertenceu à União Noelista Portuguesa, cuja revista Étoile Noeliste foi presença constante em sua casa durante a infância – levou-a a desenvolver uma iniciativa com numerosas crianças que resultou numa exposição, em Lisboa, de desenhos infantis que se destinaram a ilustrar um Evangelho oferecido ao Papa Paulo VI.
Entretanto, os seus conhecimentos sobre têxteis levaram-na a envolver-se na fundação do MRAR (Movimento de Renovação da Arte Religiosa) em 1953, por intermédio de Maria José de Mendonça (1905-1984), também noelista e responsável pela organização da 1ª Exposição de Arte Sacra Moderna que se apresentou, em 1945, no Palácio Galveias, em Lisboa.
Enquanto sócia fundadora do MRAR, Madalena Cabral manteve ao longo dos anos uma participação intensa na vida do Movimento, apresentando conferências, escrevendo artigos e organizando exposições, de que se destaca a intitulada Paramentaria Moderna, realizada em 1964 na Sé de Lisboa.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Um grande bispo e a missa em vernáculo

Crónicas

Depois de, na semana passada, ter evocado a figura de D. Abílio Vaz das Neves, bispo de Cochim (1934-39) e Bragança (1939-65), intitulando-o de Um grande bispo, Fernando Calado Rodrigues escreve hoje sobre a Missa na própria língua: 

Se Jesus se esforçou para falar uma linguagem que todos entendessem, então a Igreja deve fazer esse mesmo esforço. O Vaticano II deu um passo significativo, há cinquenta anos, para tornar mais acessível a sua liturgia e a sua pregação. Ora, é uma incumbência de todos, sobretudo os que presidem às celebrações, dar continuidade a este desígnio do concílio. E estimular nas comunidades uma participação mais ativa na liturgia e na vida da Igreja.
(texto integral aqui)

quinta-feira, 12 de março de 2015

BD e cartoons: Será que Tintin é católico e o Papa arranjou um papagaio?

Tintin é católico pela sua “lealdade, fraternidade, amizade e disponibilidade para os mais débeis e necessitados”, e Hulk, a “incrível coisa verde” da Marvel, é representado com um rosário em algumas cenas, casa com a noiva numa igreja e o matrimónio é celebrado por um padre católico.
Há personagens católicos na banda desenhada? O suplemento Igreja Viva, do Diário do Minho, publicou hoje um trabalho sobre o tema, onde recorda também alguns textos publicados pelo L’Osservatore Romano acerca da mesma questão.
O texto recorda que, nos últimos anos, surgiram vários livros sobre este tema. E cita declarações de Tomás de Zárate, criador da tira semanal Weekly Angelus, na qual recria e resume as palavras do Papa na alocução semanal dos domingos. “Vivemos num mundo que corre velozmente, que está sempre com pressa. É assim para todos. A banda desenhada é uma comunicação veloz, pode representar uma maneira ‘fácil’ para introduzir aquilo de que fala Francisco”, diz o artista.

(clicar sobre a imagem para aumentar)

Recorde-se que há pouco mais de um ano, o National Catholic Reporter, dos Estados Unidos, começou a publicar a tira Francis, the comic strip (Francisco, a tira cómica). No desenho do passado dia 12 de Fevereiro, o papagaio do irmão Leo repete: “Sou infalível, sou infalível..” Perante o pedido do Papa para que o bicho diga outra coisa, o papagaio aparece, uma hora depois: “Quem sou eu para julgar? Quem sou eu para julgar?”... Da autoria de Pat Marrin, a colecção das tiras pode ser vista aqui.
Também Cortés, cartoonista da revista espanhola Vida Nueva, que publica muitos dos seus desenhos aqui, é bem conhecido em Portugal, por algumas das suas obras, entre as quais Um Deus Chamado Abba, terem sido publicadas no país. Nos seus desenhos, Cortés tanto fala do Concílio Vaticano II como dos tempos litúrgicos (Advento, Natal, Quaresma, Páscoa, Pentecostes), da Igreja como do Reino de Deus, dos sacramentos como do Credo. Uma das suas últimas criações são os Universículos. 

“Tu quantos votos crês que teria tido Francisco de Assis, 
se ele se tivesse apresentado?”

quarta-feira, 11 de março de 2015

Papa pede que teologia se faça na fronteira, nos conflitos e com a misericórdia no centro


(ilustração reproduzida daqui)

O Papa Francisco quer que a teologia se baseie na Revelação e na Tradição, mas que acompanhe também “os processos culturais e sociais, especialmente as transições difíceis”.  
Numa carta enviada ao cardeal Mario Aurelio Poli, magno chanceler da Universidade Católica da Argentina, a propósito dos 100 anos da sua Faculdade de Teologia, o Papa escreve: “Ensinar e estudar teologia significa viver numa fronteira, na qual o Evangelho encontra as necessidades das pessoas às quais se anuncia, de maneira compreensível e significativa”. E acrescenta: “Devemos guardar-nos de uma teologia que se esgota na disputa académica ou que contempla a humanidade a partir de um castelo de cristal. Aprende-se para viver: teologia e santidade são um binómio inseparável.”
Recordando que os 100 anos da Faculdade coincidem com os 50 anos do Concílio Vaticano II, o Papa diz que este significou uma “actualização, uma releitura do Evangelho na perspectiva da cultura contemporânea” e que produziu um “movimento irreversível de renovação que vem do Evangelho”.
Sobre o papel da teologia, o Papa Francisco diz que ele deve tratar também dos conflitos: “Não só dos que experimentamos dentro da Igreja, mas também os que afectam todo o mundo e que se vivem pelas ruas da América Latina. Não se conformem com uma teologia de gabinete. Que o lugar das vossas reflexões sejam as fronteiras. E não caiam na tentação de as pintar, perfumá-las, acomodá-las um pouco ou domesticá-las.”
O Papa diz ainda que a teologia deve ser expressão de uma Igreja “hospital de campanha” que vive a sua missão para a cura do mundo, centrada na misericórdia. “Animo-vos a estudar como, nas diferentes disciplinas – dogmática, moral, espiritualidade, direito, etc. – se pode reflectir a centralidade da misericórdia”, sem a qual a teologia, o direito e a pastoral “correm o risco de cair na mesquinhez burocrática ou na ideologia”.
O texto da carta pode ser lido aqui na íntegra, em castelhano.