quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (9) - Árvore de Natal: A utopia messiânica e os protestantes


(Ilustração: A Criação, de Barbara Garrison, colagem e aguarela, in “La Creazione, Seconda Rassegna Internazionale di Illustrazione per l'Infanzia”, Ed. Messagero, Padova)

Símbolo importado do Norte da Europa e dos países protestantes, a árvore de Natal remete também para um tema bíblico relevante: a árvore do Paraíso, a árvore de Jessé. Esta última é a imagem da utopia messiânica e, mais tarde, da de Jesus Cristo.

“Ainda que os montes sejam abalados e tremam as colinas, o meu amor por ti nunca mais será abalado, e a minha aliança de paz nunca mais vacilará. Quem o diz é o Senhor, que tanto te ama.” (Profecia de Isaías 54, 10)

É em volta da árvore que a expectativa do Natal vai crescendo: ali se vão colocando os presentes destinados a ser abertos entre alegrias e esperanças. Ali ganham cor sonhos de laços coloridos, desejos de promessas sempre renovadas.

A alegria começa antes: na construção da árvore de Natal, como do presépio, ganha expressão o comunitário: estrelas construídas pelos mais novos, anjos feitos na escola, iluminações que cantam. Ensaia-se o gosto, aprende-se a beleza. A alegria celebra o quotidiano ou o extraordinário.

Num dos textos da profecia de Isaías, lida pelos cristãos durante o Advento, proclama-se o inesperado: “Exulta de alegria, estéril, tu que não tinhas filhos, entoa cânticos de júbilo, tu que não davas à luz, porque os filhos da desamparada são mais numerosos do que os da mulher casada. É o Senhor quem o diz” (Isaías 54, 1).

Diariamente, ilumina-se a árvore, símbolo da época de Natal mais ligado ao Norte da Europa e aos países protestantes. Daí terá vindo, mesmo se a sua origem será ainda mais remota: possivelmente estará ligada a rituais de ornamentação ou a jogos na Idade Média.

Símbolo maior de uma vida que nasce e se renova, a árvore é também um tema bíblico relevante. No Paraíso, era a árvore do conhecimento do bem e do mal a que marcava a fronteira entre Deus e a humanidade. Na profecia de Isaías, nasce de um tronco de árvore a utopia messiânica: “Brotará um rebento do tronco de Jessé” (11, 1).

Utopia de um mundo justo, equitativo e pacificado, a profecia de Isaías fala do tronco de Jessé. Refere-se ao pai daquele que viria a ser o rei David, de Jerusalém e que, para os cristãos, é o início da árvore genealógica de Jesus. Esse texto prenunciador da utopia de um mundo diferente que os cristãos lêem como profecia da boa nova que Jesus irá anunciar:

“Brotará um rebento do tronco de Jessé,
e um renovo brotará das suas raízes.
Sobre ele repousará o espírito do Senhor:
espírito de sabedoria e de entendimento,
espírito de conselho e de fortaleza,
espírito de ciência e de temor do Senhor.

Não julgará pelas aparências
nem proferirá sentenças somente pelo que ouvir dizer;
mas julgará os pobres com justiça,
e com equidade os humildes da terra;
ferirá os tiranos com os decretos da sua boca,
e os maus com o sopro dos seus lábios.
A justiça será o cinto dos seus rins,
e a lealdade circundará os seus flancos.

Então o lobo habitará com o cordeiro,
e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito;
o novilho e o leão comerão juntos,
e um menino os conduzirá.

A vaca pastará com o urso,
e as suas crias repousarão juntas;
o leão comerá palha como o boi.
A criancinha brincará na toca da víbora
e o menino desmamado meterá a mão na toca da serpente.

Não haverá dano nem destruição em todo o meu santo monte,
porque a terra está cheia de conhecimento do Senhor,
tal como as águas que cobrem a vastidão do mar.”
(Isaías 11, 1-10)


Símbolos e ritos protestantes
Mais depurada que no universo católico, nem por isso a celebração protestante do Natal deixa de ter símbolos. Além da árvore, cuja tradição terá começado no Norte da Europa, protestante, outras tradições acabaram também por se universalizar. Na coroa do Advento, as quatro velas acendem-se, cada domingo, marcando o ritmo da espera; na Escandinávia, as igrejas enchem no primeiro domingo do Advento, mesmo se durante o resto do ano estão vazias. Dias depois, a 13 de Dezembro, na festa de Santa Luzia (mártir cristã do fim do século III ou início do século IV), as raparigas vestem-se de branco e levam uma coroa com quatro velas acesas. S. Nicolau (6 de Dezembro) é muito festejado no Norte da Europa, em alguns casos com a troca de presentes a ser feita nesse dia. E o presépio, apesar de menos usado, marca também presença. Em vez da Missa do Galo há um culto especial no dia de Natal após o qual, em muitos casos, se abrem os presentes. Na véspera, a consoada é festa de família. “Senhor Deus, damo-nos conta de quanto nos amas e ‘desde há tanto tempo”, reza-se, numa pequena liturgia doméstica.


Poema – Rosas de Inverno, de Camilo Pessanha

Corolas, que floristes
Ao sol do inverno, avaro,
Tão glácido e tão claro
Por estas manhãs tristes.

Gloriosa floração,
Surdida, por engano,
No agonisar do ano,
Tão fora da estação!

Sorrindo-vos amigas,
Nos ásperos caminhos,
Aos olhos dos velhinhos,
As almas das mendigas!

Desse Natal de inválidos
Transmito-vos a bênção,
Com que vos recompensam
Os seus sorrisos pálidos.

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público
)

1 comentário:

Helena disse...

Só um pequeno detalhe a propósito da coroa do Advento: no primeiro domingo do Advento acende-se uma vela. No segundo domingo, acende-se a primeira e a segunda, e assim sucessivamente, até haver 4 velas acesas. Dá um efeito bonito: uma coroa com velas com tamanhos diferentes.
As famílias (mesmo as não cristãs) costumam ter uma coroa de Advento em casa, geralmente em cima da mesa onde fazem as refeições, e as velas são acendidas frequentemente (não apenas ao domingo).
Em volta da coroa com as velas a arder decorrem não apenas as refeições e as conversas, mas também a leitura do livro antes de meter as crianças na cama, etc.
É todo um ambiente de mistério e expectativa que se cria.
E porque as tradições de Advento são tão fortes, ninguém diz, já no princípio de Dezembro "feliz Natal", mas "bom Advento".
(Na semana passada esteve aqui uma amiga portuguesa que se despedia nas lojas com "merry Christmas". As pessoas ficavam surpreendidas, porque é um bocadinho como dizer "bom fim de semana" logo na segunda-feira...)