terça-feira, 5 de novembro de 2013

Perdidos e iluminados

Crónicas

Nas crónicas do último fim-de-semana, há ainda dois textos que devem ser lidos. “À Procura da Palavra”, Vítor Gonçalves, na Voz da Verdade, pergunta: “Perdido? Quem?”, a propósito do evangelho sobre Zaqueu, lido nas missas de domingo passado. E escreve: “Queremos sinais de um verdadeiro encontro com Jesus? Salva-se o que muitos diziam estar perdido, transforma-se a vida em caridade e serviço, a condenação dá lugar ao acolhimento, e a alegria promove uma festa! Os outros ‘encontros’ que podem até ser ‘cerimónias e procissões’, e coisas afins de muita pompa e circunstância, poderão ser mais ‘desencontros’, e talvez a vassoura de S. Martinho continue com muita utilidade!”
O texto integral pode ser lido aqui.


(foto reproduzida daqui)

No Público de domingo, frei Bento Domingues recomenda: “Não deixem tudo para o Papa”. É o seguinte o texto da sua crónica:

1. Se uns católicos projectam sobre o novo Papa os seus desejos de mudança, outros receiam a sua desenvoltura.
Bergoglio já mostrou que conhece as diversas correntes espirituais e culturais do catolicismo, nos diversos países. O que ainda não sabemos - apesar de alguns gestos e entrevistas importantes -, é o método da sua liderança. Situando-se no seio de uma Igreja, toda ela chamada a ser aprendiza e testemunha do Evangelho no mundo, seguirá o método de João XXIII. Se passar o tempo a invocar o poder papal para exercer o seu magistério, reprimindo as correntes teológicas que não o reproduzam, será mais do mesmo. Foi esse o lamentável estilo adoptado, embora com acentos diferentes, durante 150 anos, mais precisamente, desde a encíclica programática Mirari vos, de Gregório XVI (1832), que procurava levantar um dique contra o mundo moderno. 
Espero que o papa Francisco vença a tentação de desenhar o futuro de modo voluntarista, apoiado apenas nas suas concepções pré-estabelecidas e invocando imperativos da divina tradição. Vimos, na crónica do passado Domingo, as consequências da tentativa de parar o tempo, mediante a declaração intimidatória de João Paulo II, sobre a “ordenação sacerdotal” das mulheres.
Na expressão de K. Rahner, esse comportamento estava situado no Inverno da Igreja. Para este teólogo, as autoridades eclesiásticas de Roma, em 1985,  davam a impressão de favorecer mais um retorno medroso aos “bons tempos passados”, do que tomar consciência clara da situação actual do mundo e da humanidade, com espírito evangélico, no seguimento do Concílio Vaticano II.
Se as mulheres começarem, em breve, a fazer parte da instituição do cardinalato, será um bom sinal. Ninguém poderá adiantar qualquer argumento teológico contra tal decisão e esta poderá contribuir para desbloquear o debate sobre o papel das mulheres nas comunidades cristãs. Não esperemos, no entanto, que o papa possa resolver tudo com uma penada. Embora os regimes democráticos funcionem ainda muito mal, na Igreja Católica nem sequer foram ensaiados, salvo em alguns nichos.                             

2. O grande historiador, Giuseppe Alberigo, orientou um número especial da Concillium (108, 1975), dedicado à renovação da Igreja e à reconfiguração do serviço petrino. Naquela data, não foi tido em conta. Parece-me que chegou o momento de o revisitar com proveito. Na altura, a meta a atingir com esse dossier consistia em formular alguns pontos operacionais capazes de concretizar, no seio da Igreja, uma imagem realista e praticável daquilo que poderia ser e fazer o papado, no seio da Igreja dos últimos decénios do séc. XX. Como já foi referido, meteu-se pelo meio um longo inverno. Não se pretendia, de modo nenhum, ter identificado o ponto central e decisivo da renovação da Igreja. Pelo contrário. É necessário manter viva a consciência de que o papado romano constitui, apenas, um factor da Igreja e nem sequer é o mais decisivo. Por outro lado, parece igualmente importante abandonar o “globalismo” paralisador, muito difundido, que em nome da necessidade de levar em conta todas as componentes da problemática eclesial, nos impede de as considerar, uma a uma, com realismo e oportunidade.
Recolocar os ministérios eclesiais dentro do Povo de Deus, como fez o Vaticano II, constitui o fundamento e o critério de uma nova fase na história do papado. Torna-se incontornável e urgente a reapropriação do papado romano por parte da Igreja, superando tanto a animosidade anti-romana, como a imagem mitificada do papa.
Temos um longo e complexo caminho pela frente. Esse caminho pressupõe uma efectiva capacidade da Igreja para exprimir, mediante formas adequadas e responsáveis – sem servilismos nem arrogância – indicações pertinentes sobre o espaço e conteúdos do serviço que o Papa deve prestar.

3. Alberigo, no seu contributo, destacou e desenvolveu a seguinte tese: é preciso que a consciência eclesial se compenetre de que o estatuto do papado romano não é, nem do ponto de vista teológico nem histórico, um dado indiscutível e imutável.
Se fizermos uma reavaliação da possibilidade de modos, estilos e conteúdos diferentes daqueles que se tornaram mais habituais e constantes, ver-se-á que, quase tudo aquilo que se sabe do papado romano, depende das circunstâncias históricas. Estas sofreram repetidas e profundas modificações, ao longo dos tempos.
Quando os papas são apresentados sob um único denominador comum, figuras tão diferentes e contrastadas como as de Gregório Magno, Gregório VII, Paulo III, Pio IX e João XXIII, acabam por conduzir a história da Igreja a uma história do papado e ao triunfo de uma uniformidade construída. Nenhum papa é a Igreja. Não deixemos tudo para este iluminado e desarmante argentino.

Família – saber o que é, o que não é ou devia ser

Crónica

"Tantas vezes, em nome de um – embora legítimo – conceito de estrutura familiar, promove-se a marginalização e remete-se para segundo plano o que é, afinal, o plano primordial. A fecundidade da pessoa – a sua plenitude enquanto “ser” que só é na relação, disponível para a oportunidade do Outro, num “nós” a redescobrir entre fragilidades e contextos – deve prevalecer sobre qualquer outra fecundidade ou hermenêutica. O pensamento religioso, mesmo com as amarras de uma doutrina, pode revelar-se como processo para uma equação integrada de valores. Ainda e sempre, uma Procura mais que uma chegada, abrindo a experiência religiosa à “estupefação” de um Encontro, que começa num acolhimento, tornando absurdas algumas discussões estéreis, como a de saber o que é, não é ou devia ser a família."



A esperança em debate, num documentário sobre viver com o HIV

Agenda – debate


(foto SIC, reproduzida daqui)

Uma história de esperança, para um debate sobre a esperança. Um documentário comovente e de grande qualidade cinematográfica é o pretexto para um debate esta quarta-feira, na Capela do Rato, em Lisboa (Cç. Bento da Rocha Cabral, 1-B, ao Rato): o documentário, dos jornalistas Cândida Pinto e João Nuno Assunção, e com imagem de Jorge Pelicano, intitula-se “Alexandra – Viver com HIV” e fala da luta contra o preconceito, dos sonhos que permanecem apesar disso e da amizade e do amor.
“Eu sou a Alexandra, não sou o HIV", diz a protagonista, a dada altura. “Hoje faço uma vida igual à das jovens da minha idade. Tenho um pequeno acréscimo que é o VIH, mas tomo a indispensável medicação diária e vou às consultas regulares. De resto não sou diferente. Faço uma vida exactamente igual a todas as outras raparigas de 19 anos. E agora estou num momento decisivo da minha vida: quero realizar o meu sonho, quero muito ir para a faculdade, estudar psicologia, porque é uma coisa que me fascina e que eu não consigo explicar. Faço-me entender?”
O debate, a partir das 21h30, conta com a participação de Cândida Pinto, da documentarista Joana Pontes, do colunista Daniel Oliveira e de Henrique Joaquim, responsável da Comunidade Vida e Paz.
Pode ver-se o documentário aqui, como aperitivo para o debate, mas nada como vê-lo em ecrã maior e, sobre ele, conversar a seguir.


Músicas que falam com Deus (22) - A música de Hildegarda, doutora da Igreja


Hildegarda de Bingen, a monja medieval, é uma descoberta recente. Além de abadessa do mosteiro de Rupertsberg, ela foi escritora, compositora, terapeuta, botânica, pintora e poetisa, entre vários outros atributos. Uma das mais importantes místicas da história da Igreja, Hildegarda foi proclamada doutora da Igreja, há um ano, em Outubro de 2012, pelo Papa Bento XVI, tendo em conta também o seu pensamento filosófico e teológico, bem como os caminhos imensos que ela rasgou num tempo em que, às mulheres, estava destinada uma vida de segunda categoria.
Um dos “génios universais da história ocidental”, como se diz na apresentação deste disco, que se confrontou mesmo com bispos e o próprio Papa. Também na música, o legado de Hildegarda de Bingen é uma das descobertas das últimas duas ou três décadas. Reconhecidas como de grande qualidade, as suas quase oitenta composições – entre as quais o Ordo Virtutum – têm sido gravadas por dezenas de grupos e intérpretes a partir dos manuscritos conhecidos.
Neste disco, a voz transparente e límpida de Catheryne Braslavsky, os instrumentos tocados por Joseph Rowe e os arranjos musicais de ambos dão neste disco, à música de Hildegarda, um toque original – por exemplo, em peças como O Ignis Spiritus, Ave generosa ou O Jerusalem, entre outras –  onde não faltam cordas e percussões tibetanas e africanas, que ajudam a sublinhar as melodias desenhadas e moduladas pela voz.

Título: Hildegard von Bingen – Le mariage du ciel et de la terre
Intérpretes: Catherine Braslavsky e Joseph Rowe
Edição: Jade


(texto publicado n'O Mensageiro de Santo António, de Novembro 2013)

Entre a vida e a morte, aprender a cuidar

Crónicas

Nas crónicas do último fim-de-semana, a morte, o feriado de Todos os Santos e o cuidado com a vida e a fragilidade da existência foram o tema comum a alguns dos textos. No Expresso/Revista de sábado, José Tolentino Mendonça escrevia sob o título Aprender a morrer:

Temos de aprender a estar com os outros quando chegar o seu momento, desenvolvendo capacidades até então negligenciadas. Temos de aprender a cuidar da dor e a minorá-la, mas não só com comprimidos: também com o coração, com a presença, com os gestos silenciosos, o respeito, com uma expectativa de coragem. Os doentes não estão à procura de indulgência. Temos de aprender a embalar a fragilidade, a dos outros e a nossa própria, ajudar cada um a reencontrar-se com as coisas e com as memórias certas, a não desesperar, a encontrar um fio de sentido no que está a viver, por ínfimo e trémulo que seja. Temos de aprender a ser suporte, temos de querer eficiência técnica mas também compaixão, temos de reconhecer o valor de um sorriso, ainda que imperfeito, em certas horas extremas. À beira do fim há sempre tanta coisa que começa.

O texto completo pode ser lido aqui

Também no sábado, no DN, Anselmo Borges dedicava a sua crónica a’Os dias da memória e da interrogação, que a suspensão do feriado de dia 1 de Novembro colocou em questão:

Mas até a Igreja Católica, na negociação dos feriados, preferiu a Senhora da Assunção aos dias de Todos-os-Santos e dos Finados. Um erro. De facto, estes são os dias da memória (lembrar todos os que partiram) e da interrogação essencial: o que é o homem?, viver para quê?, qual o sentido da existência? Nestas perguntas, transcende-se a morte como facto biológico e abre-se outra dimensão.

(Texto integral para ler aqui)

Na véspera, no Correio da Manhã, Fernando Calado Rodrigues escrevia especificamente sobre a suspensão do feriado, para defender que ela pode até trazer possibilidades de uma acção renovada:

Duvida-se, valha a verdade, dos benefícios que possam advir para a economia do país da supressão de um feriado. Mas, pelo menos, a Igreja Católica ganhou com a purificação do dia de Todos os Santos do contágio dos sentimentos próprios do dia de Fiéis Defuntos.

(texto para ler aqui)


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Manuela Silva: Reduzir os horários para acomodar jovens desempregados


Já saiu no domingo, no Público, mas não perdeu atualidade: trata-se de uma entrevista com a economista e professora Manuela Silva, coordenadora do grupo Economia e Sociedade da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica. Os seus pontos de vista e o seu pensamento  podem ser lidos AQUI.
Fica aqui a sua posição sobre o que poderia e deveria ser feito quanto ao desemprego juvenil:
"Não se justifica que nas nossas sociedades, que atingiram níveis de produtividade elevados, que asseguram lucros de capital elevados em grande parte dos sectores, se continuem a praticar horários como os que vigoraram na civilização industrial. Defendo uma redução drástica de horários de trabalho, para acomodar a situação dos jovens desempregados. Evidentemente isto supõe que se aceite na empresa uma repartição mais equitativa dos salários e que o total das remunerações seja atribuído aos trabalhadores numa proporção que relacione o salário mínimo com o salário do topo. Hoje temos remunerações de quadros superiores que são manifestamente desproporcionadas. Sem alterar os custos de pessoal da empresa seria possível, e a meu ver desejável, não só por ser mais equitativo, mas por ser um elemento dinamizador da própria economia, que se introduzissem regras de proporcionalidade nos salários. Depois haveria todo um conjunto de medidas que se podem tomar, como o trabalho a meio tempo, a dois terços do tempo... Acho fundamental dar lugar aos mais novos".

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O amor, a ternura e o cuidado, um texto de Leonardo Boff


“O segredo maior para cuidar do amor reside no singelo cuidado da ternura.  A ternura vive de gentileza, de pequenos gestos que revelam o carinho, de sacramentos tangíveis, como recolher uma concha na praia e levá-la à pessoa amada e dizer-lhe que, naquele momento, pensou carinhosamente nela”.
É o que sustenta no seu blog o teólogo Leonardo Boff, autor de  O Cuidado Necessário (Vozes 2012). Ele prossegue:
Tais “banalidades” tem um peso maior que a mais preciosa jóia. Assim como uma estrela não brilha sem uma atmosfera ao seu redor, da mesma forma, o amor não vive  sem um aura de enternecimento, de afeto e de cuidado.
Amor e cuidado formam um casal inseparável. Se houver um divórcio entre eles, ou um ou outro morre de solidão. O amor e o  cuidado constituem uma arte. Tudo o que cuidamos também amamos. E tudo o que amamos também cuidamos.
Tudo o que vive tem que ser alimentado e sustentado. O mesmo  vale para o amor e para o cuidado. O amor e  o cuidado se alimentam da afetuosa preocupação de um para com o outro. A dor e a alegria de um é a alegria e a dor do outro.
Para fortalecer a fragilidade natural do amor precisamos de Alguém maior, suave e amoroso, a quem sempre podemos invocar. Daí a importância dos que se amam, de reservarem algum tempo de abertura e de comunhão com esse Maior, cuja natureza é de amor, aquele amor, que segundo Dante Alignieri da Divina Comédia “move o céu e as outras estrelas”  e nós acrescentamos: que comove os nossos corações.

domingo, 27 de outubro de 2013

Os muito ricos e os muito pobres

A coluna "Os Dias da semana" que dominicalmente Eduardo Jorge Madureira tem do Diário do Minho intitula-se hoje "Os muito ricos e os muito pobres".

Uma das histórias que se contavam repetidamente a seguir ao 25 de Abril de 1974 era sempre apresentada como verídica. Pouco importava, no entanto. O que contava era a clareza com que servia para expor dois projectos políticos distintos, um, social-democrata; outro, muito mais à esquerda. Os protagonistas eram Olof Palme, na altura primeiro-ministro da Suécia e líder do Partido Social Democrata e Otelo Saraiva de Carvalho. O enredo praticamente não existe e a versão mais curta pode resumir-se a uma brevíssima troca de palavras.
O essencial é isto: Otelo vai à Suécia explicar o que pretendem os militares portugueses que derrubaram o fascismo. Quando encontra Olof Palme, depois das iniciais palavras de circunstância, diz-lhe que o objectivo da revolução portuguesa é acabar com os ricos. O primeiro-ministro sueco testemunha-lhe um programa diferente: “Nós, os sociais-democratas suecos, queremos acabar com os pobres. O que mais nos incomoda é a pobreza”.
Olhando, hoje, para grande parte dos dirigentes políticos europeus, é difícil não julgar que o que desejam com a sua acção é, sobretudo ou apenas, manter-se no poder, permanecendo nas graças dos muito ricos que, zelosamente, servem e de quem, de facto, dependem. O que promovem é o empobrecimento cada vez mais generalizado, designadamente das pessoas mais ou menos remediadas, o reverso, afinal, do projecto social-democrata, que tinha em Olof Palme um generoso inspirador.
Ao mesmo tempo que se empreendem políticas para empobrecer a maioria dos cidadãos, é fabricado e difundido um imaginário ideológico que apresenta os pobres como um grupo parasitário, absolutamente avesso ao que prescreve a doxa vitoriosa dos doutrinários do empreendedorismo. Estranha gente, que fabrica pobres e lhes destrói a reputação.