domingo, 10 de maio de 2009

Quando o coração não deve bater a razão

Manuel Vilas Boas escreve hoje no DN e JN:

Ontem de manhã, no Monte Nebo, a 800 metros de altura, recordei-me da emotividade do Papa que foi actor. Nove anos depois e mesmo com os olhos na oliveira que Wojtyla aqui plantou em nome da paz repetiu-se a peça, mas sem alma. Unicamente calorosas as palavras de boas-vindas do ministro dos Franciscanos: o padre galego Jose Rodrigues Carballo, que me tinha avisado da tarefa no avião de Telavive para Amã. Para este seguidor de Assis, que abriu recentemente em Portugal as comemorações dos 800 anos do franciscanismo, a Terra Prometida a Moisés não pode deixar de ser uma oportunidade para todos, sobretudo os que vivem na margem. No momento, até a meteorologia fintou os olhos azuis do Papa alemão. Mas um Jordão enevoado ganha até maior simbolismo nos dias que correm.

Na descida da montanha de Moisés estava outra terra prometida: Medaba, a cidade dos mosaicos e um dos mais avançados postos de cultura e ciência da Jordânia e da região arábica permeabilizada de católicos e ortodoxos de competências ao mais alto nível há mais de um século.
Bento XVI organizou para aqui um discurso arguto: “o saber científico terá de ganhar em espaço de diálogo e compreensão. Doutro modo, abre-se a porta à corrupção da liberdade humana - avisou o papa - e também para a disfiguração da religião pela ignorância, o preconceito, o desprezo e a violência”. Puxando pelos galões de académico, o Papa recorda que “o conhecimento científico requer a luz da sabedoria ética”. Serão os estudantes de Medaba os construtores de uma sociedade mais justa e fraterna sem conflitos étnicos e religiosos? É pela cultura ética que este Papa quer ir.

A mesma tese foi defender Ratzinger junto dos muçulmanos na mesquita de Amã ainda feridos por Ratisbona. Para Bento XVI, o projecto é claro: o coração não poderá substituir sempre a razão. Impõe-se o diálogo como método para que a liberdade se exerça “mão na mão”, sugere Bento XVI, no centro de nova polémica. Desta vez, são os sapatos que tirou, que não tirou à entrada da mesquita do rei Hussein bin Talal. Não tirou. As imagens são claras. Mas quis tirar. Venceu a simpatia do arquitecto que lhe mostrava a originalidade desta obra sumptuosa.
Por fim, foi oportuno e justo o pedido à comunidade internacional para que impeça que o Iraque dizime os cristãos que lá existem. É que eles são filhos também de um Deus único.

Taizé em Sevilha, à espera do Porto

Sevilha está a viver este fim-de-semana um encontro especial: cerca de dois mil jovens de Espanha (incluindo Ceuta) e vários países vizinhos (entre os quais um grupo de 300 portugueses) foram à cidade andaluza para rezar ao ritmo de Taizé. Hoje, ao meio-dia local (11h00 da manhã em Lisboa), conclui-se o encontro com a celebração da missa, presidida pelo cardeal Carlos Amigo Vallejo e que conta com a participação do irmão Alois e de vários outros monges da comunidade monástica ecuménica. Aqui há informação mais detalhada sobre mais esta etapa da peregrinação de confiança sobre a terra. E no site da comunidade há elementos sobre a última vinda de um dos irmãos da comunidade a Portugal, já tendo em vista a preparação do encontro ibérico no Porto, no Carnaval do próximo ano.

sábado, 9 de maio de 2009

"Conscientes da origem comum"

"Muçulmanos e cristãos, precisamente por causa do peso de nossa história comum tão frequentemente marcada por incompreensões, devemos hoje empenhar-nos em sermos conhecidos e reconhecidos como adoradores de Deus fiéis à oração, ávidos em comportarem-se e viverem segundo as disposições do Todo-Poderoso, misericordiosos e compassivos, consistentes na postura de testemunhas em tudo o que é verdadeiro e bom, e sempre conscientes da origem comum e dignidade de toda pessoa humana, que permanece no centro do projecto criativo de Deus para o mundo e para a história".

Ver e ouvir o papa proferir estas palavras perante os líderes muçulmanos, na mesquita Al-Hussein bin Talal de Aman leva a reconhecer aquilo que parece ainda difícil de aceitar para tantos crentes do Islão, do Judaísmo e do Cristianismo: que há muitos caminhos e muitas confissões, mas que, ao fim e ao cabo, é o mesmo Deus que tantos povos, de muitos modos, buscam.

A liberdade religiosa no mundo

A United States Commission on International Religious Freedom, o organismo dos Estados Unidos da América que se ocupa das questões relacionadas com a liberdade religiosa no mundo, considera que há treze países em que a violação da liberdade religiosa é particularmente preocupante. São eles a Arábia Saudita, a Birmânia, a Coreia do Norte, a Eritreia, o Irão, o Iraque, a Nigéria, o Paquistão, a Republica Popular da China, o Sudão, o Turquemenistão, o Uzbequistão e o Vietname.
A Comissão indica também que, no que diz respeito à liberdade religiosa, importa estar vigiante em relação ao que se passa no Afeganistão, na Bielorússia, em Cuba, no Egipto, na Indonésia, no Laos, na Rússia, na Somália, no Tadjiquistão, na Turquia e na Venezuela.

Contra a manipulação ideológica da religião

O Papa contestou ao final da manhã, em Amã (Jordânia) a manipulação ideológica da religião. Esta pode levar à violência, afirmou. "É sobretudo a manipulação ideológica da religião, por vezes para fins políticos, que é o verdadeiro catalisador das tensões e das divisões e por vezes mesmo das violências na nossa sociedade." Ver mais aqui. Importa sublinhar cada vez mais este tipo de afirmações, tal como defendi em comentário anterior. Os responsáveis religiosos têm hoje um papel fundamental na erradicação da violência, mesmo quando ela ganha contornos políticos evidentes.

Os cristãos do Oriente

Na sua crónica no DN de hoje, Anselmo Borges escreve sobre os cristãos do Oriente. Para concluir que se pode esperar "um contributo positivo da viagem, difícil, de Bento XVI". E que "a paz e o futuro destes cristãos dependem também da capacidade que os Estados da região e a comunidade internacional tenham para formar sociedades pluralistas e democráticas".

O direito à dignidade da liberdade

Manuel Vilas Boas, enviado especial da TSF para acompanhar a viagem do Papa à Terra Santa, escreve esta manhã no DN e JN:

Olhar Amã da cidadela que guarda o templo de Zeus e o museu arqueológico com documentos bíblicos do Mar Morto é contemplar uma cascata em redondel de tom cinzento por onde perpassam os sons intensos atirados dos minaretes das mesquitas. Bento XVI aterrou ontem aqui em território que não é seu, nem pouco mais ou menos. Os cristãos (incluindo os não-católicos) foram quase sempre minorias nestas paragens. O encontro de simpatia trocado entre os reis jovens e modernos da Jordânia e o chefe de Igreja Católica pode aumentar a esperança de tranquila convivência nesta mosaico de culturas e religiões. O rei Abdullah II apoiou o fórum entre católicos e muçulmanos que o Vaticano acolheu após as ondas de choque da Ratisbona. No discurso de boas-vindas, o rei jordano não esqueceu o caso, mantendo como missão real, a causa de Alá, sua fé tradicional.

Sendo Bento XVI também chefe de Estado, o rei muçulmano sentiu-se mais à-vontade para, aproveitando o momento mediático, enviar recados aos vizinhos fronteiriços: “que o povo da Palestina possa por fim à ocupação e que o sofrimento possa trazer-lhe o direito à dignidade da liberdade”. Semelhante pensamento defendeu Bento XVI na visita que fez ao Centro para Deficientes em Amã: “É preciso um amor salvador que não olha à condição das pessoas”.
O papa alemão poderá esta manhã transfigurar-se como Moisés num Monte Nebo, perante a Terra Prometida. Como intelectual que é, ele sabe que a tarefa do diálogo cultural não se pode fazer de modo piramidal como foi prática da Congregação da Doutrina da Fé, que dirigiu durante duas décadas no Vaticano. Aqui apressa-se a escutar a voz das universidades e dos que na religião, os muçulmanos, são maioria. Este é um passo firme do papa das polémicas que por aqui quererá refrescar o rosto.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

As religiões no meio dos conflitos

Nos conflitos que atravessam o Médio Oriente e, em particular, a Terra Santa, muitos líderes religiosos recusam sistematicamente a ideia de que eles sejam de motivação religiosa, atribuindo antes razões políticas. O que é certo é que da parte de outros líderes religiosos há, pelo menos, a confirmação de que há graves factores religiosos a travar (pelo menos) a resolução pacífica dos problemas.

Não é raro ver imãs e xeques muçulmanos com discursos inflamados contra Israel e os judeus; nem é pouco frequente escutar rabinos judeus que só se referem à violência terrorista, sem entender que também há mortes inocentes entre palestinianos e muçulmanos; e ouvem-se muitos líderes cristãos a entrar no jogo da defesa de um dos lados, sem entender que o conflito (os conflitos, já que são vários) só se resolvem numa lógica de não-violência, perdão e reconciliação.

Hans Kung tem razão, quando defende que só haverá paz no mundo quando houver paz entre as religiões. E para isso é preciso que os responsáveis religiosos repitam cada vez, como João Paulo II antes da invasão do Iraque: “A guerra é uma derrota da humanidade. Nunca mais a guerra.”

Bento XVI no Regina Pacis: peregrinos a caminho de Deus; a paz para Jerusalém

No final do primeiro dia da sua viagem à Terra Santa, o Papa Bento XVI visitou, em Amã, o Centro Regina Pacis, dirigido por irmãs combonianas e onde trabalham voluntários cristãos e muçulmanos. Excertos do discurso:

Cada um de nós é um peregrino. Estamos todos projectados para a frente, resolutamente, no caminho de Deus. Naturalmente, tendemos todos a dirigir o olhar para trás, para o percurso da nossa vida – por vezes com pesar ou recriminações, muitas vezes com gratidão e apreço –, mas olhamos também para a frente: por vezes com trepidação e ansiedade, mas sempre com expectativa e esperança, sabendo que há também outras pessoas que nos encorajam ao longo do caminho.

O amor incondicionado de Deus, que dá vida a cada ser humano, aponta para um significado e para um objectivo para cada vida humana. O Seu amor é um amor que salva. Como os cristãos professam, é através da Cruz que Jesus de facto nos introduz na vida eterna, indicando-nos o caminho a seguir – o caminho da esperança que nos conduz, passo a passo, ao longo da estrada, de tal modo que nós próprios nos tornemos portadores de esperança e de caridade para os outros.
Diferentemente dos peregrinos de outras épocas, não trago presentes ou ofertas. Venho simplesmente com uma intenção, uma esperança: rezar pelo precioso dom da unidade e da paz, muito especialmente para o Médio Oriente. Paz para os indivíduos, para pais e filhos, para as comunidades, paz para Jerusalém, para a Terra Santa, para a região, paz para toda a família humana – a paz duradoura que nasce da justiça, da integridade, da compaixão, a paz que brota da humildade, do perdão e do desejo profundo de viver em harmonia como uma única realidade.

S. Paulo em Braga, no Auditório Vita

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Um oásis de convivência pacífica em Israel

Em Israel, onde me encontro desde ontem para a cobertura da viagem do Papa, pude hoje deslocar-me a Ibillin, uma aldeia de 12 mil habitantes a cerca de 30 quilómetros de Haifa, no norte. Ali funcionam as Instituições Educacionais Mar Elias (Mar significa santo), que começou por ser uma pequena escola para 20 miúdos e hoje agrupa sete edifícios (mais uma belíssima Igreja das Bem-Aventuranças), criada há mais de 40 anos por Elias Chacour, então um jovem padre da Igreja Melquita.

Já publiquei dois textos sobre Chacour - um deles está aqui, na edição 2007 do Janus - Anuário de Relações Internacionais. Mas tinha-o feito a partir da leitura de um livro e de uma conversa telefónica com o agora arcebispo melquita de Acre, Haifa, Nazaré e Galileia. Ver agora ao vivo a escola com 4500 alunos, onde se misturam professores cristãos, muçulmanos, druzos e judeus e alunos também destes diferentes credos (menos judeus, desde a crise de há três anos no Líbano) e poder entrevistar Elias Chacour foi um daquelas experiências e que nos sentimos realizados profissionalmente.

No cenário de violência que atravessa esta região, é comovente ver miúdos de 14 e 15 anos dizer que gostam de andar na escola porque aprendem as tradições, as festas e a cultura dos outros. Maria Gorgora, católica, 15 anos, disse mais: já tentou jejuar durante o Ramadão muçulmano. "É duro", confessou. Mas fê-lo com gosto. E Hosam Yasin, muçulmano, 14, diz que vai ver o Papa Bento XVI a Nazaré, porque quer conhecer melhor este líder religioso importante para os seus amigos. E o sudirector da escola, Elias Abu-Ghanima, 42 anos, pai de duas meninas, repetia que a escola é como um mosaico: "Ninguém está completo sem o outro". A reportagem sairá domingo no Público, mas o texto do Janus serve para entender a história de Chacour e de Ibillin. Um oásis onde se aprende outra lógica de vida para romper o círculo vicioso da violência.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Esperança e justiça contra a crise

As conferências de Maio deste ano, da iniciativa do Centro de Reflexão Cristã (CRC), de Lisboa, abordam o tema "Esperança e justiça contra a crise"
Eis o programa, preparado pelo CRC:

Dia 7 de Maio
Economia da Ilusão e Sociedade Injusta
  • Alfredo Bruto da Costa
  • Ulisses Garrido
Dia 14 de Maio
Desesperança e Apelo Solidário
  • João Ferreira do Amaral
  • Jorge Wemans
Dia 21 de Maio
Crise dos Modelos as Novas Respostas
  • Guilherme d’Oliveira Martins
  • Margarida Marques
Dia 28 de Maio
Há uma Esperança Global?
  • Luís Moita
  • Manuel Brandão Alves.
As conferências são sempre às 18h30 e decorrem no Centro de Estudos da Ordem do Carmo, Rua de Santa Isabel, 128-130. Lisboa (Metro: Rato).

segunda-feira, 4 de maio de 2009

"Falemos de Deus"

Victoria Camps, doutora em filosofia e membro do Comité de Bioética de Espanha e Amelia Valcárcel, também doutora em filosofia e Presidente da Associação Espanhola de Filosofia Maria Zambrano, proferem hoje, às 18.30, no Centro Nacional de Cultura, uma conferência sobre o livro "Hablemos de Dios".
A iniciativa é do Movimento Nós Somos Igreja – Portugal.
O livro, escrito sob a forma de cartas pelas duas filósofas espanholas, pode ser legalmente descarregado AQUI.

O herói e o santo

Na sua crónica deste domingo no Público, frei Bento Domingues regressa ao que se disse antes e durante a canonização de Nuno Álvares Pereira e ao que porventura falta fazer.

1. (…) Hoje, numa sociedade de separação entre Igreja e Estado, deve-se deixar ao Estado o que ao Estado pertence: preservar e realçar a memória dos seus heróis. À Igreja compete recuperar a memória dos seus santos, não a dos heróis nacionais. No caso de Nuno Álvares Pereira, quem terá sido canonizado? O herói, pelas suas escolhas políticas e os seus feitos bélicos, ou o santo, aquele que abandonou o poder militar e a riqueza para se dedicar, no despojamento, à contemplação e ao serviço dos pobres?

Os que dizem que não é possível separar o herói do santo nem o santo do herói – embora tenha sido a tonalidade de algumas intervenções eclesiásticas e políticas – esquecem que, sem atender a essa diferença, seria desaconselhável a canonização. Ela celebra a viragem radical na vida de Nuno Álvares Pereira, não a consagração do herói da nossa identidade. A heroicidade das virtudes requeridas para a canonização não é a heroicidade que se requer no combate aos inimigos da independência de Portugal. (…)

Digo isto porque todos os discursos sobre ele podem ter as suas derrapagens. O Cardeal José Saraiva Martins – especializado a desencalhar canonizações – não se mostrou muito inspirado ao exemplificar a espiritualidade mariana de S. Nuno: “antes e durante as batalhas, ajoelhava e rezava a Nossa Senhora. Isto é muito significativo, muito importante, era um militar e fazer isso supõe um grande acto de heroísmo”. É certo que o Cardeal poderá argumentar que, também na Bíblia, se pede a Deus ajuda para derrotar os inimigos, constituído chefe do exército do povo eleito.

Essas partes das Escrituras só deixarão de ser lamentáveis se as considerarmos inspiradas a dizer, de forma brutal, o que nunca deve ser feito: confundir os nossos interesses tribais ou nacionais com a vontade de Deus. Se uma das jóias da nossa arquitectura celebra Nossa Senhora das Vitórias, mais conhecida como Mosteiro da Batalha, só indica a contaminação da devoção católica por essa aberração ancestral. Será que Nossa Senhora, aborrecida com os castelhanos, se vingou deles revelando ao condestável português a forma de os derrotar? Tomás de Aquino aconselhava os teólogos e os apologistas a terem cuidado com o ridículo.

2. Se esta canonização fosse para exaltar a capacidade guerreira do condestável, teria de se fazer um processo religioso à sua forma de combater. Mesmo que alguns discursos dêem isso como pressuposto, talvez estejam enganados. Dir-se-á que é preciso cuidado com os anacronismos. Sem dúvida, mas não é de nenhum anacronismo que se trata: não terá sido no nosso tempo que o ataque às torres gémeas e a guerra ao Iraque se apresentaram com motivações político-religiosas?

Não seria um bom milagre de S. Nuno se levasse os políticos e os militares de hoje a deixar a guerra – abrindo a mente e o coração ao imenso mistério da vida e da morte – e a distribuir os seus gastos em benefício das vítimas inocentes da crise actual? Diz-se que em qualquer situação é possível santificar-se. Talvez seja preferível santificar-se a fazer a paz do que a fazer a guerra.

3. É louvável recuperar antigas memórias portuguesas de santidade, embora, às vezes, possa levar a pensar que santos são apenas os canonizados. Repetiu-se que S. Nuno era o oitavo santo português! Há várias figuras exemplares da nossa história recente que devem ser lembradas. Destaco, apenas três: o padre Abel Varzim (1902-1964), imagem do catolicismo social português durante o regime de Salazar, que o procurou domesticar e acabou por perseguir, sem encontrar na Igreja a defesa de quem o devia proteger; o Padre Américo (1887-1956) que, como dizia, depois de “uma martelada” espiritual, se tornou o Padre da Rua dos abandonados, dando-lhes voz, no espantoso jornal, O Gaiato; Aristides de Sousa Mendes (1885-1954) que salvou, enquanto cônsul em Bordéus, a vida a dezenas de milhares de pessoas do Holocausto, desobedecendo, em nome da sua consciência humana e católica, às ordens de Salazar que o entregou à miséria, a ele e à família.

Tenho, na minha frente, uma entrevista a Isabel Jonet, católica, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome – dá de comer a 245 mil pessoas por dia – congrega uma multidão de voluntários na luta prática contra a pobreza. Ao ajudar a perceber que não vale a pena andar fascinado por bens que nada acrescentam à vida verdadeira, tornou-se também uma discreta escola de espiritualidade. Em vez de perder o tempo a enumerar tudo o que, em Portugal, corre mal, descobre e desperta vocações para a prática da solidariedade inadiável.

No seio do absurdo, os santos são aqueles que se convertem, rasgando a opacidade do Céu e a indiferença perante a miséria. São a face luminosa da fé.

domingo, 3 de maio de 2009

Comunidade que nasceu duma "conversa com Deus"

"A 'Terra Prometida' da Póvoa da Atalaia" é o título de uma reportagem de Inês Andrade, que sai hoje no Público. Começa assim:

"Mount of Oaks" ou Monte dos Carvalhos, lê-se a encarnado nas placas de um caminho isolado da serra da Gardunha, Póvoa da Atalaia, no Fundão. O local é deserto e desorganizado, com o cheiro quente das maias. Os cães ladram histéricos ao ver intrusos, mas é fácil perceber que são tão amigáveis como os seus nomes: Tom Sawyer, Huckleberry Finn e Violeta.

No final do trilho está uma comunidade que nasceu duma "conversa com Deus". Definem-se como monásticos e têm um grande cariz de intervenção social, sobretudo na aldeia da Póvoa da Atalaia. Aquecem a água do banho com lenha, cozinham bolos com o reflexo do sol, praticam uma agricultura de subsistência, mas, curiosamente, não dispensam o telemóvel e escrevem com regularidade num blogue (mount-of-oaks.blogspot.com).(...)

Continuar a leitura: AQUI.

Mudar de religião - um estudo nos EUA

Por que motivos se deixa a fé da infância e se adere a outra confissão ou, simplesmente, se abandona qualquer religião? Em que fase da vida é que tal ocorre com mais frequência? Em que confissões religiosas se tem registado mais abandono ou adesão? Estas e outras perguntas constam de um estudo que a organização Pew Forum on Religion & Public Life acaba de publicar, intitulado Changes in Religious Affiliation in the U.S.
É conhecido que no país de Barack Obama a relação das pessoas e da sociedade em geral com a religião adquire características significativamente diversas daquelas que se observam entre nós. Como este fenómeno de uma percentagem relativamente elevada (quase 50 por cento) ter mudado, ao longo da vida, pelo menos uma vez de religião.
Uma leitura e contextualização deste estudo pode ser lida AQUI.

sábado, 2 de maio de 2009

Religiões e extraterrestres


(Foto Nasa)
No seu texto de hoje no DN, Anselmo Borges fala do Ano Internacional da Astronomia a partir de um conto célebre no qual o famoso matemático e filósofo ateu Bertrand Russell, Prémio Nobel da Literatura, narra o pesadelo do teólogo.

O teólogo eminente Dr. Thaddeus sonhou que tinha morrido e seguido rumo ao Céu. Bateu à porta e disse que tinha dedicado a vida à glória de Deus. - Homem? - exclamou o porteiro. - O que é isso?

Ninguém, lá em cima, ouvira falar dessa coisa chamada "Homem". Mesmo assim, um bibliotecário, um ser esférico com mil olhos e uma boca, depois de ter ouvido o teólogo explicar que a Terra é parte do Sistema Solar, por sua vez parte da Via Láctea, com milhares de milhões de estrelas e uma galáxia entre milhares de milhões, mandou chamar um dos sub-bibliotecários, especializado em galáxias.

Umas três semanas depois, com o trabalho de cinco mil empregados, o sub-bibliotecário voltou e explicou que o ficheiro extraordinariamente eficiente da secção galáctica da biblioteca lhe tinha permitido localizar a galáxia pretendida.

Mas era preciso agora procurar uma estrela - o Sol -, uma entre trezentos mil milhões dentro da galáxia. Alguns anos mais tarde foi um tetraedro arrasado de cansaço que compareceu, dizendo que tinha finalmente descoberto essa estrela especial, mas não vendo grande interesse nisso. De qualquer forma, ela está cercada por corpos muito pequenos chamados "planetas", havendo nalguns deles "parasitas" e "essa coisa que tem estado a fazer perguntas deve ser um deles".

Então, o Dr. Thaddeus desatou num indignado lamento: - "Porque é que o Criador escondeu de nós que não fomos nós que O levámos a criar os céus? Servi-O diligentemente toda a minha vida. E agora até parece que nem sequer sabe da minha existência. Não posso aguentar isto. Não posso mais adorar o meu Criador. - Muito bem - retorquiu o porteiro. Então, pode ir para o Outro Lugar".

"Aqui, o teólogo acordou. E murmurou: - O poder de Satanás sobre a nossa imaginação adormecida é terrível".

Estaremos sós neste Universo estonteantemente gigantesco? Aí está uma pergunta que muitos farão, concretamente neste Ano Internacional da Astronomia.

No ano passado, o padre José Gabriel Funes, director do Observatório Astronómico do Vaticano, declarou, desencadeando imensa curiosidade: "Como há uma multidão de criaturas sobre a Terra, poderia haver outros seres, mesmo seres inteligentes, criados por Deus. Isso não contradiz a nossa fé, pois não podemos colocar limites à liberdade criadora de Deus". Poderíamos então falar do "nosso irmão extraterrestre". Aliás, o seu predecessor, padre George Coyne, já se tinha pronunciado no mesmo sentido, ao dizer que o universo é feito para fabricar vida, portanto, a existência de outros seres não põe problemas à fé: "É um desafio salutar que a engrandece em vez de encerrá-la". (…)

Após a detecção de "super-Terras", a procura de vida noutras paragens tornou-se objecto de investigação científica. Se alguma vez se der o encontro, será um acontecimento maior da História.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Nas vésperas da importante visita do Papa à Terra Santa (Jordânia, Israel e Territórios Palestinianos), foi anunciado esta sexta-feira que as conversações entre o Vaticano e Israel tiveram "progressos significativos". O ministro dos Negócios Estrangeiros israelita deu a notícia, referindo-se às negociações da comissão mista acerca do estatuto legal e do financiamento da Igreja Católica. O encontro "teve lugar numa atmosfera de grande amizade e num espírito de cooperação e boa vontade".

Os dois lados estão á procura de um entendimento sobre o estatuto legal e finaceiro das propriedades da Igreja Católica em Israel, bem como acerca das actividades comerciais de comunidades cristãs no país. As negociações foram retomadas em 2004 após um hiato de dez anos A Santa Sé e Israel estabeleceram negociações diplomáticas em 1994.

A visita do Papa Bento XVI é apontada no sítio oficial do Governo israelita para o acontecimento como uma "ponte para a paz". Mas ela decorrerá sobre um campo minado, com diferentes facções de ambos os lados do conflito a tentarem explorar a presença do Papa em seu favor, como explica Ruth Ellen Gruber aqui.

A viagem decorre de 8 a 15 de Maio e o Religionline irá dar atenção privilegiada ao acontecimento.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O "jogral de Deus"


É certamente mera coincidência: no momento em que as atenções se centram, entre nós, na canonização do condestável Nuno Álvares Pereira, a revista católica inglesa The Tablet faz manchete com um outro santo: o de Assis, que viveu pouco mais de um século antes.
Destaca S. Francisco para chamar a atenção para o facto de este "jogral de Deus" conseguir, tantos séculos depois, continuar a inspirar a vida e a acção de tanta e tão diversa gente.
Os mais recentes sinais: a partir desta semana, em Hampshire, o Nobel da Literatura Dario Fo leva a cena uma peça a solo sobre S. Francisco de Assis e, dentro de dias, a encenadora Clare Goddard estreia em Hampshire a peça "Francis", um trabalho baseado em diálogos e efeitos de luz e cor para destacar, sublinha The Tablet, "os aspectos visuais da história de S. Francisco".
(Tributo da foto: quadro de José Assunção)

sábado, 25 de abril de 2009

o vento que passa

(...)
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.


Manuel Alegre