segunda-feira, 2 de março de 2009

Interrogações e perplexidades

Os desenvolvimentos acerca das posições da Fraternidade S. Pio X são, de facto intrigantes, como aqui escrevia, no sábado, António Marujo. Dá a impressão, num olhar externo, de que é a Igreja Católica que deve voltar atrás nas aquisições que fez com o Concílio Vaticano II, para que a plena integração daquela Fraternidade ocorra.

A este propósito, vale a pena ler com atenção as declarações do superior-geral daquela organização ao
jornal suiço Le Courier, que originaram uma onda de interrogações, dentro e fora da Igreja. Aparentemente, o herarca não só não aceita que o Vaticano possa colocar como pré-condição a aceitação do 'acquis' do Vaticano II, como entende que isso seria "pôr o carro á frente dos bois".
Mas onde as posições são mais vincadas e sintomáticas é no que respeita à liberdade de consciência em religião, ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso. As palavras de D. Bernard Fellay:

"Existe uma grande confusão nos espíritos a este respeito. Evidentemente que, como qualquer ser humano, e para o bem da sociedade, nós desejamos viver em paz com todos os homens, nossos semelhantes. No plano religioso, desejamos responder com ardor ao desejo de Nosso Senhor: «Que todos sejam um», a fim de que não haja senão «um só rebanho e um só pastor». Se por ecumenismo se entender a procura deste tão nobre objectivo, nós estamos evidentemente a favor. Se, em contrapartida, se vir aí um caminho que não visa esta unidade fundamental, unidade que passa forçosamente por um olhar de verdade - aquele de que a Igreja Católica se considera ainda hoje a única detentora em toda a sua integralidade - então aí nós protestamos. De facto, aquilo que actualmente se vê é que o ecumenismo permanece num nível muito superficial de entendimento e de vida em sociedade, mas sem ir ao fundo das coisas".
Ora aqui é que pode estar o que neste processo vejo de intrigante: é que, nesta matéria precisa, não sei se não existe mesmo comunhão de pontos de vista (provavelmente mais de natureza do que de grau) entre o que diz Fellay e o que diz Ratzinger. Não é tanto relativamente ao negacionismo que o problema é mais delicado, porque, aí, o Vaticano, por razões de diversa ordem, definiu uma posição clara. É na teologia e, mais especificamente, na eclesiologia, que a delicadeza do assunto se revela e que as interrogações e a perplexidade surgem. O tempo clarificará o que está a acontecer.

2 comentários:

Octávio disse...

Sinceramente, nem uma única surpresa relativamente às posições da Fraternidade. Basta passar os olhos pela ampla "literatura" divulgada em sites e blogues para percer que eles se julgam os verdadeiros católicos, herdeiros da verdadeira doutrina e celebradores da "Missa de sempre". Só não percebo é para que se querem misturar connosco, "escumalha" que celebra a Missa de Paulo VI e professa o "credo" do Vaticano II...

Ricardo João Perna disse...

E com tudo isto, a questão mantém-se: mas o que é que fez o Vaticano voltar a levantar toda esta celeuma? é este o único problema da Igreja, ou é este um caminho que pode conduzir a um futuro melhor na Igreja? Está a Igreja Católica disposta a abdicar de valores seus para receber de volta meia dúzia de ovelhas tresmalhadas? E isso terá que custo? Sei que o Bom Pastor largou todas as ovelhas em busca da que se tinha perdido, mas não haverá outras ovelhas perdidas que valha mais pena ir atrás? É que assim o Pastor quando chegar com estas ovelhas pode arriscar-se a ter muitas mais que se foram embora...