quarta-feira, 18 de março de 2009

Preservativo, parte dois

Uma chuva de críticas caiu sobre o Papa, por causa das declarações de Bento XVI acerca do preservativo (citadas num post anterior). O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, tentou hoje esclarecer o que o Papa terá querido dizer, acentuando "a educação para a responsabilidade”. Acrescentou: “Não se deve esperar desta viagem uma mudança de posição da Igreja Católica” em relação à sida e que "desenvolver uma ideologia de confiança no preservativo não é uma posição correcta”, pois não sublinha o “sentido das responsabilidades”. Definiu ainda a actuação da Igreja Católica em três frentes: “A educação à responsabilidade da sexualidade e a afirmação dos valores do casamento e da família, o compromisso com tratamentos eficazes e a atenção aos doentes.” Faltou dizer que, além dessa estratégia, há muitas instituições católicas de apoio a doentes de sida que distribuem o preservativo. Em Maio do ano passado, em Roma, numa reunião de responsáveis dessas instituições, a missionária comboniana Maria Martinelli afirmou que, em muitas situações, “o preservativo é necessário”. Muitos bispos africanos têm apoiado essa medida. Porquê continuar então a insistir na oposição doutrinal tenaz a este caminho? A aceitação do preservativo tornaria seguramente mais ouvida a mensagem da responsabilidade, da fidelidade e do grande trabalho de apoio social que tantas instituições católicas fazem na luta contra a sida.

6 comentários:

Ricardo João Perna disse...

A aceitação oficial do preservativo como estratégia de combate à sida não poderia, ao invés de contribuir para a aceitação da fidelidade, aumentar os níveis de promiscuidade, que passaria assim a ser segura, protegida?
Muitas vezes os pais têm de ter jogo de cintura com os seus filhos. Colocar o limite um pouco mais atrás do que o desejado, sabendo que os filhos acabam sempre por ultrapassar um pouco esse limite. Ao se chegar à frente com uma estratégia de pregação da monogamia, de fim da promiscuidade, do casamento enquanto sinal de união, educamos para o futuro. No terreno, longe dos olhares do mundo mas perto de quem mais precisa, lidar com a problemática no imediato de forma um pouco diferente da "oficial", é ser realista e ajudar ao problema. Será assim uma estratégia tão má? Eu conheço um pouco do terreno africano, e posso afirmar que se a igreja permitisse e apregoasse nas igrejas o uso do preservativo, a mulher iria continuar a ser tratada diferente do homem, os casos de infidelidade iriam continuar, e os azares iriam acontecer na mesma. Assim, pensamos no futuro, não deixando de trabalhar o presente.
Não concordo que a Igreja ande a pregar contra o preservativo, mas também não acho necessário que apregoe a favor. Manter-se oficialmente neutro e oficiosamente activo parece-me de longe a melhor estratégia...

Héliocoptero disse...

Não relacionado com esta entrada, mas sobre o tema da religião nos media (que foi a debate na Lusófona em Fevereiro), eis dados dos Estados Unidos da América:

http://pewforum.org/docs/?DocID=406

Danilo Badaró disse...

O Papa está coberto de razão. Basta ver a experiência de Uganda, como relatado em post no meu blog Família de Nazaré, em 10/Jun/2008. Segue um trecho:

"Há 15 anos, cerca de 30% da população tinham o vírus; hoje, são 6,5%. Enquanto outros países perdiam tempo fingindo que nada acontecia, e até negando que HIV cause Aids (como na África do Sul, onde a taxa é de mais de 20%), os ugandenses agiam para conter a doença. Falar sobre o assunto, assumir o problema e discutir candidamente foi o primeiro passo. Mas teve mais."

Não foi com o uso de camisinhas que aquele país conseguiu esses índices fabulosos, mas com campanha pela fidelidade matrimonial, castidade antes do casamento e, só em terceiro lugar, camisinha.

O texto apresenta, inclusive, imagens de outdoors usados pelo governo daquele país.

Aos interessados, sugiro a leitura:

http://familianazare.blogspot.com/search?q=uganda

António Marujo disse...

Pois é, Ricardo, mas porque andamos nós a debater o preservativo? Porque há 40 anos, a Cúria Romana pressionou o Papa Paulo VI para que a opinião maioritária na comissão redactora da Humanae Vitae não prevalecesse; se isso não tivesse acontecido, o Vaticano teria aceite os meios anticoncepcionais, muita gente não teria abandonado a Igreja e não teríamos agora meio mundo zangado com o Papa Bento XVI... De resto, também penso que o preservativo não é o único meio (talvez nem o principal) de combate à sida. Mas tem que se um meio, entre outros.

Ricardo João Perna disse...

Concordo contigo, Marujo, quando dizes que tem de ser um meio, mas não o principal. O grande problema são as pessoas que, sem saber mais, cedem à crítica fácil e directa da Igreja só por causa do preservativo. Muitas nem fazem ideia do que é a realidade africana, nem o que é o verdadeiro e real trabalho da Igreja em África para combater a SIDA (não fosse a Igreja e as suas organizações e tudo estaria muito pior que a realidade actual). E depois o desconhecimento e a crítica fácil generalizam-se, porque são fáceis de fazer, e dá nisso de termos meio mundo chateado com o Papa, baseado em argumentos fáceis e muitas vezes pouco aprofundados...

Anónimo disse...

Não me parece que as ideias sobre o preservativo afastem alguém da Igreja. Aqueles que justificam a sua saída por essa razão, na verdade sairam da Igreja porque não têm fé.

A realidade mostra que os grupos cristãos que se dão bem com o preservativo, que têm sacerdotisas e sacerdotes casados etc. também não têm mais pessoas nos seus locais de culto...