quinta-feira, 6 de março de 2014

Santos das nossas vidas, nomes da cultura portuguesa

Novo título da colecção Santos e Milagres na Idade Média em Portugal é apresentado hoje; mulheres mártires e santas tinham papel destacado no cristianismo da Alta Idade Média.  



(ilustrações das capas dos três primeiros volumes da colecção: 
São Vicente, Santa Eulália, Santa Engrácia e São Félix)

São Vicente de Fora, as obras de Santa Engrácia (ou o Panteão, agora na moda), o elevador de Santa Justa, a Póvoa de Santo Adrião, o forte de São Julião da Barra... Estes nomes de lugares e do património nacional têm uma vida, alguma história e muito culto ou muitas lendas por detrás. Para desvendar esses aspectos desconhecidos, que traduzem muito da nossa cultura e identidade, surgiu a colecção Santos e Milagres na Idade Média em Portugal, dirigida por Paulo Farmhouse Alberto, no âmbito do Centro de Estudos Clássicos (CEC), da Universidade de Lisboa.
Estão já publicados seis volumes: São Vicente; Santa Eulália; Santa Engrácia e São Félix; S. Sebastião; Santa Justa e S. Cucufate; S. Lourenço. A colecção completa deverá incluir ainda os títulos São Julião, Santo Estêvão, S. Mamede e S. Jorge, S. Veríssimo e São Cristóvão, S. Nicolau e Santiago.
Hoje, às 17h30, na igreja matriz da Póvoa de Santo Adrião (Odivelas) o patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente,  apresentará um novo volume, dedicado a Santo Adrião, Santa Natália e S. Manços (a festa católica litúrgica de Santo Adrião assinalou-se no passado dia 4). No final desta série, haverá um total de doze títulos e 22 figuras de santos – o trabalho sobre S. Veríssimo inclui também os perfis de Máximo e Júlia, enquanto o texto sobre Santa Justa fala também de Rufina, pois ambas estão ligadas na tradição popular.
O director da colecção explica que os diferentes volumes “partem dos textos mais antigos” e das tradições de culto “na Península Ibérica em período visigótico e moçárabe”. Ou seja, os santos apresentados são todos anteriores à formação da nacionalidade. Mas nem por isso menos influentes na tradição popular e literária, bem como no forjar da identidade cultural da região que viria a ser Portugal (ou mesmo da Península Ibérica, em alguns casos).
O caso de São Vicente, o primeiro título da colecção, é paradigmático da “espantosa difusão” que o culto de algumas destas figuras “alcançou nos séculos anteriores à nossa nacionalidade”. No caso de São Vicente, ele chegou à Península Ibérica, à Gália, à Grécia ou à Península Itálica. No caso do actual território português, acabou por ficar indissoluvelmente ligado a Lisboa, como seu padroeiro, apesar de esta não ser a única cidade a presumir ter as suas relíquias: também Castres e Metz (actual França), Bari, San Vincenzo al Volturno, Cortona, Benevento (Itália) e Monembasia (Grécia) reivindicavam ter o corpo do santo.
A Paixão de São Vicente, Diácono e Mártir, um texto visigótico do século VI, culmina precisamente com a história do achamento do corpo do santo, que tinha sido escondido, e a extensão do culto: “Desta igreja, levaram o santo Vicente para a catedral, onde é consagrado sob o altar. O local, dedicado pela piedade a Deus e venerável pelas relíquias, glorificou-o ao ser por ele glorificado. Depois, as trasladações de relíquias para muitos locais fizeram o seu culto crescer. Ganhou a veneração de muitos, de tal forma que quanto mais lugares consagra, mais abundantemente é glorificado.”
Este fenómeno acentua-se sobretudo no século XII, quando o “achamento” de corpos de santos e relíquias contribuía para promover as peregrinações a determinados lugares e aumentar o prestígio de determinadas igrejas ou santuários, como explica Paulo Farmhouse na introdução do volume dedicado a São Vicente.
Cada volume, com uma belíssima apresentação gráfica, inclui, além da apresentação histórica da figura do(s) santo(s) ou santa(s) retratados, um conjunto de textos literários ou litúrgicos. Como a Paixão de São Vicente Mártir, da autoria de Prudêncio, um dos grandes poetas da Antiguidade, apelidado de “Horácio cristão”: “Bem porfiam eles por sulcar o mar/ com o batel a toda a velocidade;/ mas o corpo voa lá longe à frente,/ em direcção ao gentil regaço da terra.”
No Hino em Honra dos dezoito Mártires de Saragoça, o mesmo Prudêncio escreve, já no volume sobre Santa Engrácia: “A nenhum dos mártires calhou habitar/ nas nossas terras ficando com vida./ Apenas tu, escapando à própria morte,/ vives em toda a parte.”
A poesia de Prudêncio, que iria influenciar muita da produção literária da Idade Média, tem uma “métrica requintada” e é poderosa em “cores, imagens e epigramas”, afirma Paulo Farmhouse Alberto.
Os santos apresentados nesta colecção têm “uma tradição literária e litúrgica no período visigótico”, diz o responsável da colecção ao RELIGIONLINE. De todos eles há marcas de culto antigo, anterior ao século XII, presente no actual território – aliás, a lista dos volumes foi organizada de acordo com as freguesias de Lisboa na época de D. Afonso Henriques.
Trata-se de mostrar que estes nomes tão presentes na geografia e nas tradições evocam pessoas e histórias concretas. A ideia da colecção foi, assim, dar mais consistência aos “marcos da nossa paisagem que não associamos à sua origem”. Os livros oferecem-nos textos que, de outra forma “nunca seriam lidos”, pois são todos inéditos na contemporaneidade: “Nenhum texto tinha sido traduzido até agora para português ou qualquer outra língua moderna”, diz Paulo Farmhouse. Que considera estarmos perante grandes autores de poesia e textos litúrgicos: “Mesmo os textos de prosa são de grande vivacidade, estão cheios de diálogo, relatam a vida dos mártires com uma grande qualidade literária”, acrescenta.
Um outro aspecto que ressalta da colecção é a presença de seis mulheres mártires. Por exemplo, o volume que hoje é apresentado era inicialmente dedicado apenas aos santos Adrião e Manços. Natália, esposa de Adrião, foi acrescentada depois. “Na tradição litúrgica e literária visigótica, Natália tem grande preponderância”, explica Paulo Farmhouse. “Esta é a razão da sua inclusão no título. Nessa época, quando se fala de um mártir ou santo, estamos muitas vezes a falar de dois, um casal. Natália tinha mesmo orações próprias na liturgia.”
Este destaque remete para uma outra questão: muitas vezes, e é esse o caso de Adrião, “é a mulher a instigadora, a que encoraja, aquela que tem o papel fundamental” na defesa da fé. O mesmo se passa quando se falar de São Veríssimo, que na realidade inclui Máxima e Júlia, ou de Santa Justa, que aparece ligada a Santa Rufina, recorda este professor de Latim.
A opção foi fazer traduções directas do latim, e com uma fidelidade absoluta ao texto latino, mesmo que a versão final pareça menos “menos fluída em português”.
Há pouco mais de um ano, apresentando no porto os primeiros três volumes da colecção, D. Manuel Clemente afirmou que estes livros proporcionam aos crentes “uma base mais segura de identificação” das vidas e martírios dos santos estudados. Indicam também algumas das “primeiras referências socioculturais de boa parte do país, algo de grande importância identitária e cultural”, que “deu às populações em geral um sentido martirial da vida que depois se generalizou na própria autocompreensão portuguesa”. Pode dizer-se, acrescentou o então bispo do Porto, que através destes textos “ficaremos a saber melhor quem somos nós, os portugueses de maior ou menor crença e pertença católica”.
O facto de serem mártires tem também muito desta referencia identitária, recordava ainda D. Manuel: “Simbolicamente, da interpretação das cinco quinas como as cinco chagas de Cristo à representação martirial da figura duplicada no centro dos painéis de Nuno Gonçalves e mesmo ao rubro da bandeira nacional, que na escola nos diziam ser o sangue dos soldados que tinham morrido pela pátria: tudo é basicamente martirial e perpetua os elos iniciais da nossa sociedade e cultura.”

Esta colecção, que cobre uma “lacuna” da produção cultural relativa ao que que é hoje o território português, deverá estar finalizada no próximo ano de 2015. Com Arnaldo Espírito Santo como consultor científico, cada livro inclui a tradução da apresentação em inglês.

(a seguir, pode ver-se uma entrevista de Paulo Farmhouse Alberto à RTP)

1 comentário:

conceição Gomes disse...

a entrevista esta neste link

https://www.youtube.com/watch?v=Q2Cd6G5ojMM