segunda-feira, 30 de maio de 2005

De nada se sabe

La luna ignora que es tranquila y clara
Y ni siquiera sabe que es la luna;
La arena, que es la arena. No habrá una
Cosa que sepa que su forma es rara.
Las piezas de marfil son tan ajenas
Al abstracto ajedrez como la mano
Que las rige. Quizá el destino humano
De breves dichas y de largas penas
Es instrumento de otro. Lo ignoramos;
Darle nombre de Dios no nos ayuda.
Vanos también son el temor, la duda
Y la trunca plegaria que iniciamos.
¿Qué arco habrá arrojado esta saeta que soy?
¿Qué cumbre puede ser la meta?

Jorge Luis Borges
Publicado por J.Pacheco Pereira, no Abrupto

domingo, 15 de maio de 2005

Ter, ser, mostrar

Lembrei-me logo da minha avó Joana, que, não sendo plebeia, era muito sábia, e costumava dizer aos netos que "quem tem, não precisa de o mostrar; quem é, não precisa de o afirmar".
Helena Sacadura Cabral, DN, 15.5.2005

domingo, 1 de maio de 2005

"Has-de pôr os olhos em quem és"

"Empieza Don Quijote:
-Primeramente, oh hijo!, has de temer a Dios; porque en el temerle está la sabiduría, y siendo sabio no podrás errar en nada.
Lo segundo, has de poner los ojos en quien eres, procurando conocerte a ti mismo, que es el más difícil conocimiento que puede imaginarse."
(Fonte)

quarta-feira, 27 de abril de 2005

"Optimista por opção".

Um novo blogue, da autoria de José Maria Brito, sj. Já foi "haja o que houver", mas por razões que explicou, mudou de nome. Abre com este mote do jesuíta Vasco Pinto de Magalhães: "O contrário da alegria não é a tristeza, é o pessimismo" .
Fé e Política: "A Religião na sociedade Democrática"
Auditório do Colégio São João de Brito (Estrada da Torre, 28 ? Lumiar, Lisboa)
Sábado, 30 de Abril de 2005

Manhã
9.30 ? Acolhimento
10.00 ? Apresentação e enquadramento " A Religião na sociedadeDemocrática" - Hermínio Rico, sj ? Director da Revista Brotéria
10.45 ? Intervalo
11.00 - Painel "Há Lugar para a Religião na vida pública?"
Com: Francisco Sarsfield Cabral/Vital Moreira
Moderador: Pedro Machete
13.00 ? Almoço
Tarde
15.00 ? Painel "Ser Católico na Vida Pública"
Com Maria José Nogueira Pinto/Maria do Rosário Carneiro/Rui Machete
Moderadora: Joana Vasconcelos
16.30 ? Intervalo
17.00 ? Relator Final"Sínteses e Desafios" ? Joaquim Goes
17.30 ? Fim Trabalhos18.00 ? Apresentação do Livro: "P. António de Andrade, sj ? oDescobrimento do Tibete"
Organização: Revista Brotéria
Informações: 21 396 16 60

segunda-feira, 25 de abril de 2005

Desertos interiores e exteriores

"'Existe também o deserto da obscuridade de Deus, do vazio das almas sem consciência da sua dignidade nem do caminho do homem. Os desertos exteriores multiplicam-se no mundo porque se multiplicaram os desertos interiores.'"
Bento XVI, 24.4.2005

terça-feira, 19 de abril de 2005

O que poderá ser um papado de Ratzinger

"Outline of a Ratzinger papacy": escrito por John L. Allen, Jr., correspondente em Roma do National Catolic Reporter, texto escrito antes da eleição.

Homilia de Ratzinger na missa que antecedeu o conclave que o elegeu (extractos):
"Arrêtons-nous seulement sur deux points. Le premier est le chemin vers « la maturité du Christ », comme le dit, un peu en simplifiant, le texte italien. Plus précisément nous devrions, selon le texte grec, parler de la « mesure de la plénitude du Christ », à laquelle nous sommes appelés à parvenir pour être réellement adultes dans la foi. Nous ne devrions pas rester des enfants dans la foi, comme des mineurs. En quoi consiste être adulte dans la foi ? Saint Paul répond que cela signifie être « ballotté et emporté à tout vent de la doctrine » (Ep 4, 14). Description très actuelle !Combien de vents de doctrines avons-nous connu au cours de ces dernières décennies, combien de courants idéologiques, de modes de pensée? La petite barque de la pensée de nombreux chrétiens, bien souvent, a été agitée par ces vagues, jetée d?un extrême à l?autre : du marxisme au libéralisme, jusqu?au libertinisme ; du collectivisme à l?individualisme radical ; de l?athéisme à un vague mysticisme religieux ; de l?agnosticisme au syncrétisme et ainsi de suite. Chaque jour, naissent de nouvelle sectes, réalisant ce que disait saint Paul sur l?imposture des hommes, sur l?astuce qui entraîne dans l?erreur (cf Ep 4, 14). Avoir une foi claire, selon le Credo de l?Eglise, est souvent étiqueté comme fondamentalisme. Tandis que le relativisme, c?est-à-dire se laisser porter « à tout vent de la doctrine », apparaît comme l?unique attitude digne de notre époque. Une dictature du relativisme est en train de se constituer qui ne reconnaît rien comme définitif et qui retient comme ultime critère que son propre ego et ses désirs .
Nous, en revanche, nous avons une autre mesure : le Fils de Dieu, l?homme véritable. C?est lui la mesure du véritable humanisme. Une foi qui suit les vagues de la mode n?est pas « adulte ». Une foi adulte et mûre est profondément enracinée dans l?amitié avec le Christ. C?est cette amitié qui nous ouvre à tout ce qui est bon et nous donne le critère pour discerner entre le vrai et le faux, entre l?imposture et la vérité."
Inverno da Igreja Católica

Há, sempre, que admitir a possibilidade da surpresa. Numa instituição como a Igreja Católica, "o Espírito sopra onde quer" (Jo 3,8), apesar de haver sempre quem queira que ele sopre para determinado lado.
Mas o mais certo é que, em muitos aspectos, a Igreja continue a cerrar fileiras. Em nome de uma luta contra o relativismo entendido como incompatível com a diversidade e a pluralidade no pensar, no sentir e no expressar. É assim provável que, globalmente, nos tenhamos de preparar para um Inverno. É a estação que sucede ao Outono que foi, em certa medida, o pontificado de João Paulo II. O paradoxo do Inverno é que é o tempo em que, vergastadas pela intempérie, curtidas pelo frio, as vergônteas nuas vão ganhando forças para o despontar dos gomos.

segunda-feira, 18 de abril de 2005

Uma Igreja para os nossos filhos
Teresa Martinho Toldy, Teóloga, Professora na Universidade Fernando Pessoa (Porto)
In Público, 18.4.2005

Mais importante do que saber quem será o próximo Papa, é saber o que será a Igreja no futuro. Que Igreja para os nossos filhos? E, em função dela, que Papa para os próximos tempos?

Começa agora o Conclave para a eleição do novo Papa. As atenções de uma parte do mundo estão concentradas em Roma. Os católicos aguardam, muitos, com expectativa, outros, com preocupação. As especulações são muitas. Os "papáveis", ao que parece, também... Tem sido frequente, ao longo da história da Igreja Católica, a eleição de um candidato considerado "improvável" ou nem sequer mencionado. Foi, aliás, o que aconteceu na eleição do Papa João Paulo II.
Partilho esta expectativa, bem como a preocupação. Estou, contudo, convicta de que a Igreja constitui uma realidade e uma experiência que não se esgota na escolha de um Papa para a orientar. É convicção da Igreja que é o Espírito Santo que a conduz. E esta convicção fundamenta um adágio antigo segundo o qual a Igreja é sempre reformável, está em constante processo de evolução, numa tentativa permanente de se aproximar mais da vontade de Jesus Cristo e da experiência fundacional do grupo de discípulos e de discípulas que ele reuniu à sua volta.
Como tal, e, apesar de saber que corro o risco de ser "politicamente incorrecta", diria que, mais importante do que saber quem será o próximo Papa, é saber o que será a Igreja no futuro. Que Igreja para os nossos filhos? E, em função dela, que Papa para os próximos tempos?
Uma Igreja mais humana a Igreja para as futuras gerações deveria ser uma Igreja cuja opção radical pelos mais pobres fosse inquestionável e óbvia, antes de mais, para os próprios excluídos, mas também para os poderosos deste mundo. Esta humanidade da Igreja deveria ser acompanhada de uma atitude de escuta do mundo. Não ficaria mal à Igreja não se colocar tanto na posição de mestra, como na atitude de companheira de caminho de um mundo cuja história continua em aberto. Uma Igreja mais humana implicaria, então, da parte da sua hierarquia e do Papa, a perda do medo de enfrentar e de fazer experiência da existência quotidiana de todos os homens e mulheres deste mundo: o amor, a sexualidade, a paternidade e a maternidade, o trabalho, a intervenção sócio-política, mas também as perplexidades, as angústias, as incertezas, que fazem do ser humano aquilo que o define como simultaneamente próximo de Deus e frágil como o barro. Enquanto a orientação pastoral da Igreja estiver entregue exclusiva ou preponderantemente a pessoas que não fazem esta experiência comum a todos os seres mortais, a Igreja corre o risco de se tornar irrelevante, porque completamente alheia à realidade humana.
A Igreja das discípulas e dos discípulos de Jesus a Igreja para as futuras gerações deveria ser uma Igreja menos centrada em Roma, que abandonasse decididamente uma concepção piramidal - com o Papa no vértice, seguido pelos bispos, estes, pelos padres, e, por sua vez, estes últimos, pelos diáconos - para se converter à concepção de Igreja presente no Concílio Vaticano II - uma Igreja cujos membros são todos discípulos de Jesus, com funções diversas, mas com igual dignidade e possibilidade de intervenção. Seria necessário prosseguir corajosamente esta linha de pensamento, em particular, reconhecendo a todas as mulheres e a todos os homens cristãos um papel activo na determinação das linhas de intervenção sócio-pastoral da Igreja, portanto, o direito a participar nas decisões tomadas no interior da comunidade, o que deveria levar à valorização e revitalização das estruturas de participação já existentes, bem como à possibilidade de criação de novas estruturas, se necessário. A participação de todos nas decisões que têm implicações para todos deveria dar lugar a uma reflexão sobre a possibilidade de equacionar determinados cargos e funções de uma forma não vitalícia, mais ágil, mais colegial, mais democrática.
Nota final continuo a alimentar o sonho de que os nossos filhos vejam uma Igreja na qual o ministério ordenado, em todos seus graus, seja partilhado igualmente por homens e mulheres.

sexta-feira, 15 de abril de 2005

"E se fosse o Dalai Lama?"
Esther Mucznik
(investigadora em assuntos judaicos )
Público, 15.4.2005

Pluralismo não significa relativismo. A presença livre, pública e aberta de vários cultos não apaga a realidade evidente da presença dominante de uma religião, neste caso a católica. A separação entre Estado e religião não nega esta realidade, e muito menos a cultura religiosa dominante
Será permitido a um representante de um Estado laico chamar "Sua Santidade" ao Papa João Paulo II, sem ofender a neutralidade religiosa do Estado? Ou, na mesma ordem de ideias, não constituem as bandeiras a meia haste e os dias de luto nacional pelo seu falecimento um atentado à laicidade, como foram qualificados por alguns sectores, em países como a França, Espanha e, mais timidamente, em Portugal? O "Verde" Christophe Girard, por exemplo, adjunto do "maire" de Paris, afirmou-se "perturbado" pela "utilização do símbolo nacional", abrindo assim a porta ao "aguçar dos apetites comunitários", no que foi apoiado pelo senador socialista Yves Contassot, apelando às autoridades a porem em prática uma "laicidade absolutamente sem sombra, sem meias-tintas". Também a TVE pública foi criticada por ter dado uma "cobertura excessiva" ao acontecimento, infringindo o artigo 16 da sua Constituição, que afirma o carácter laico do Estado espanhol. Curiosamente, constatamos que estas questões são levantadas sobretudo em países de população maioritariamente católica, em particular pela "filha mais velha" da Igreja, a França. Como se sabe foi também a França o motor da guerra contra a introdução da referência à "herança cristã" na Constituição europeia.Estes episódios não passariam de meros "faits divers" se não fossem reveladores de um mal-estar em relação à religião. A realidade é que a Europa, sobretudo a Europa Ocidental de cultura religiosa católica, convive mal com a religião, confunde as fronteiras da laicidade, mistura cultura religiosa dominante e religião oficial.Porque, o que significa, na boca dos seus defensores, uma "laicidade absolutamente sem sombra, nem meias-tintas"? Significa, em primeiro lugar, a erradicação total e absoluta, a "purificação", diria eu, de todos os actos e edifícios públicos e, já agora, da linguagem também, de toda e qualquer referência de carácter religioso. Mas, mais do que isso, a laicidade "sem meias tintas", propõe-se ignorar o fenómeno religioso, em qualquer das suas expressões, impedi-lo de se exprimir publicamente, encerrá-lo na esfera privada dos cidadãos. No limite, o Estado teria de banir os feriados religiosos cristãos, e obrigar os eleitos a praticar a auto-censura da sua linguagem pública, banindo por exemplo, o "se Deus quiser"... Ou seja tapar com o manto branco da neutralidade asséptica, qualquer indício de cultura religiosa. Ou retirá-la da vida, musealizando-a... Em relação ao falecimento do Papa, por exemplo, noticiá-la como mais uma notícia que apenas diz respeito ao foro privado dos católicos. Acontece, porém, que os católicos são 90 por cento desses países e, mais importante do que isso, a cultura religiosa católica e cristã é dominante, é o fundamento da sua história, das suas tradições, costumes e valores, do essencial da sua identidade. Negar esta realidade é destruir uma das principais bases da coesão social, um dos principais elementos de comunhão de origem, clamorosamente manifestada em Roma nos milhões de pessoas que aí acorreram ou que assistiram pela televisão à agonia do Papa.Por detrás desta crispação laica está no fundo a negação da religião, está a velha convicção que data do século XIX europeu, que para libertar as consciências era preciso recalcar a religião: a razão contra a fé. A primeira metade do século XX pareceu confirmar esta ideia. Exceptuando os Estados Unidos, a prática religiosa recuou em todo o mundo ocidental, as igrejas esvaziaram-se, as crenças e instituições religiosas desempenhavam um papel cada vez menor e marginal. Na cena pública, a ideologia tomou o lugar da religião. Governos, povos e movimentos sociais definiam-se em função das ideologias laicas: comunismo, liberalismo, fascismo...Mas no último quartel do século XX, a marcha em direcção à secularização inverteu-se. A religião ressurgiu em força e contrariamente às previsões, os seus adeptos não se encontram apenas nas pessoas de idade e entre os mais pobres, mas em todas as idades, sobretudo em jovens instruídos e com profissões de sucesso. A tendência inverteu-se: os ateus e os anti-clericais puros e duros encontram-se hoje nas gerações mais velhas, na geração das ideologias. Na Europa de Leste, a religião e a Igreja Católica foram os símbolos da resistência nacional e de luta pela liberdade; na Europa Ocidental, pelo contrário, religião e liberdade estiveram frequentemente em campos opostos. A laicidade, no ocidente europeu, nasce assim do conflito. Em muitas consciências permanece ainda a memória da ruptura violenta entre Estado e religião.Mas esta realidade não pode obscurecer duas questões essenciais:Em primeiro lugar, a laicidade não é uma doutrina (mais uma) dogmática e agressiva, mas sim a expressão de uma liberdade essencial, de um direito do homem e do cidadão. Não representa uma vingança histórica contra a Igreja Católica, mas sim o reconhecimento do pluralismo religioso e do direito inalienável individual e colectivo ao exercício livre e aberto da diferença religiosa. Não conduz o Estado a ignorar o fenómeno religioso, mas pelo contrário a reconhecer a sua função social permitindo e ajudando, não apenas um único culto mas todos, a cumprir essa função. Em segundo lugar, pluralismo não significa relativismo. A presença livre, pública e aberta de vários cultos não apaga a realidade evidente da presença dominante de uma religião, neste caso a católica. A separação entre estado e religião não nega esta realidade, e muito menos a cultura religiosa dominante. Porque uma religião representa muito mais do que um rito e uma prática ou até do que uma fé. Representa uma cultura no seu sentido mais lato, de costumes e tradições, mitos e memória, ética e valores, língua e linguagem, esquema mental e pensamento... em relação íntima com a história, a geografia e até o clima. Voltando ao princípio: não sendo católica, não me choca, não me incomoda que um estado laico, como o português, celebre luto nacional pelo chefe espiritual da Igreja Católica, neste caso o Papa João Paulo II. Não só pela sua estatura humana e espiritual, não só pela sua imensa obra de reconciliação entre as religiões, mas também porque reconheço que a cultura religiosa dominante em Portugal é a católica, é ela que tece as malhas do tecido social; e que a laicidade não consiste em fazer de conta que não é assim, como o querem fazer crer os argumentos do tipo "Se fosse o Dalai Lama...", mas em exigir o respeito escrupuloso pela independência religiosa do Estado de direito, assim como da liberdade de expressão e organização pública e privada das outras confissões religiosas.Quanto à expressão de Sua Santidade, lembro a todos os puristas que quando pronunciarem a palavra "Rabi" se estão a referir ao "meu" mestre...

quinta-feira, 24 de março de 2005

Vibrant Cities Find One Thing Missing: Children
By TIMOTHY EGAN
The New York Times, March 24, 2005

PORTLAND, Ore. - The Pearl District in the heart of this perpetually self-improving city seems to have everything in new urban design and comfort, from the Whole Foods store where fresh-buffed bell peppers are displayed like runway models to the converted lofts that face sidewalk gardens.
Everything except children.
Crime is down. New homes and businesses are sprouting everywhere. But in what may be Portland's trendiest and fastest-growing neighborhood, the number of school-age children grew by only three between the census counts in 1990 and 2000, according to demographers at Portland State University.
"The neighborhood would love to have more kids, that's probably the top of our wish list," said Joan Pendergast of the Pearl Neighborhood Association. "We don't want to be a one-dimensional place."
It is a problem unlike the urban woes of cities like Detroit and Baltimore, where families have fled decaying neighborhoods, business areas and schools. Portland is one of the nation's top draws for the kind of educated, self-starting urbanites that midsize cities are competing to attract. But as these cities are remodeled to match the tastes of people living well in neighborhoods that were nearly abandoned a generation ago, they are struggling to hold on to enough children to keep schools running and parks alive with young voices.
San Francisco, where the median house price is now about $700,000, had the lowest percentage of people under 18 of any large city in the nation, 14.5 percent, compared with 25.7 percent nationwide, the 2000 census reported. Seattle, where there are more dogs than children, was a close second. Boston, Honolulu, Portland, Miami, Denver, Minneapolis, Austin and Atlanta, all considered, healthy, vibrant urban areas, were not far behind. The problem is not just that American women are having fewer children, reflected in the lowest birth rate ever recorded in the country.
Officials say that the very things that attract people who revitalize a city - dense vertical housing, fashionable restaurants and shops and mass transit that makes a car unnecessary - are driving out children by making the neighborhoods too expensive for young families.
Other cities have tried and failed to curb family flight. In Portland, the new mayor, Tom Potter, says demography does not have to be destiny. He has dedicated his term to trying to keep children in the city.
Every child a city loses, on average, can mean a loss of about $5,000 for the school district, officials say. Children also create a constituency for parks, trails and public safety improvements, Mr. Potter said, and their parents tend to favor upgrading those amenities through higher taxes. He has been bringing children in to speak to the City Council and has pushed for incentives for affordable housing with enough bedrooms to accommodate bigger families.
A former police chief who helped pioneer community patrolling, Mayor Potter has 14 grandchildren and says a city's health should be measured by its youngest citizens. "We can't let Portland become a retirement city or a city without neighborhood schools," he said.
New York and Los Angeles, because of their large immigrant populations, have maintained their base of children, but demographers, pointing to falling birth rates among Latinos and other ethnic groups, say the nation's biggest cities may soon follow the others.
In Portland, the trends are not in Mayor Potter's favor. From 1990 to 2003 the city added more than 90,000 people, growing to an estimated 529,121 residents, but Portland is now educating the fewest students in more than 80 years.
The problem is not that children are leaving for private schools, officials said. It is that new people attracted to the city tend to have higher incomes, having already raised a family; are retiring; or are single and unlikely to have children.
After interviewing 300 parents who had left the city, researchers at Portland State found that high housing costs and a desire for space were the top reasons.
Tina Ray lived in Portland for 12 years before moving to Gresham, where her 9-year-old daughter attends school. Her family left for a bigger house and more space, she said. "It's kid friendly, with a great sense of community, and lots of sports leagues," she said.
Many Portland families are relocating to the newest edge suburbs, where housing prices are cheapest, including Clark County across the Columbia River in Washington, Portland State demographers say.
After a drop of 10,000 students in the last decade, Portland officials called in March for the closing of six schools, prompting cries of grief from three generations of adults who say that nothing takes the heart out of a neighborhood like a shuttered school.
The pool of school-age children is shrinking so fast that Portland will have to close the equivalent of three or four elementary schools a year over the next decade, according to school district projections.
"I don't think we're going to become a nearly childless city like San Francisco, but the age structure is really changing," said Barry Edmonston, an urban studies professor at Portland State, who does demographic projections for the school district. "People are not turning over the houses like they used to. They're aging in place, at the same time that prices are really going up, making it hard for young families to move into the city."
Nationally, the birthrate has been dropping while the overall population is aging as life expectancy increases. The problem is not just in cities. New figures released this month showed North Dakota losing more children than any other state.
Scottsdale, Ariz., a fast-growing Phoenix suburb, lost 571 students last year. San Jose closed three schools last year and expects to close three more soon.
Between 2003 and 2004, only six states had an increase in their elementary school population, the census bureau reported in March.
In that sense, the United States is following Europe and the rest of the industrial world, where birthrates now rarely exceed the rate needed to replace the population.
"If you took immigrants out of the equation, the United States would be like the rest of Europe," said Phillip Longman, a senior fellow at the New America Foundation, a public policy research organization in Washington. He is the author of "The Empty Cradle: How Falling Birth Rates Threaten World Prosperity and What To Do About It."
Mr. Longman said a decline in children not only takes away "human capital" needed to sustain an aging population, but "having fewer children really diminishes the quality of life in a city."
Most city leaders seem to agree. Even in San Francisco, where officials are preparing for another round of school closings amid a projected decline of 4,000 students in the next five years, city officials are aggressively marketing the city and its schools to young families.
But what they cannot do, especially after the failure last year of a ballot measure sponsored by the Chamber of Commerce to encourage affordable housing, is bring housing prices down.
"It's a real challenge trying to raise a kid in San Francisco," said Jim Armstrong, a father of two who is active in Little League in the city and rents a home. "It takes a degree of fortitude for a parent to stay with the city."
Other cities that have tried to reverse the family outflow have had mixed success. As mayor of Seattle for 12 years, until 1990, Charles Royer started an initiative called KidsPlace, which has been widely copied by other cities. It included marketing the city's neighborhoods to young families, building a small mix of affordable housing, and zoning and policing changes to make urban parks more child-friendly.
Mr. Royer said he was ridiculed for signs placed around town proclaiming "Seattle is a KidsPlace" and took criticism from social service agencies who thought bringing in more families would only place more demands on the limited money they had. Mr. Royer said he was bucking historic changes, and Seattle now has some of the nation's highest-priced real estate and its lowest percentage of children.
"I said things like, 'We don't want to be like San Francisco,' but in the end, I don't think we were terribly effective at stemming that tide," Mr. Royer said. "It's not so much a social problem as it is a demographic and financial problem."
Here in Portland, the city is bemoaning the demographic cycle as it unfolds before their eyes. On the day of the announcement to close Kenton Elementary School, which has anchored a north Portland neighborhood for 91 years, some parents and residents reacted as if there had been a death in the family.
"I feel heartbroken," said Mary Krogh, who had planned to enroll her 4-year-old son, Chase, in the school. "It's just a terrible loss."
The school and a tightknit community were among the things that attracted Ms. Krogh and her husband to the neighborhood seven years ago, she said.
But now the school will be shuttered, and improvements from Portland's beloved light rail line have contributed to rising real estate prices, defeating the broad goals of the mayor's effort to bring and keep young families in the city.
"Portland is a great city that attracts a lot of educated people," she said. "But the real estate is becoming outrageously expensive. And then you get wealthy singles and wealthy retirees. What's missing are kids. And that feels really sterile to me."

sexta-feira, 11 de março de 2005

EL 11 M: UNA PALABRA, POR NOSOTROS
Por JOSÉ IGNACIO CALLEJA, de

quinta-feira, 3 de março de 2005

Majority of Europeans Believe in God despite Declining Church Membership
Christianity Today, March 3 , 2005, 20:55 (GMT)

"According to a recent survey conducted on behalf of Reader's Digest Germany, it has been stated that seven out of ten Europeans believe in God. However, it has been revealed that churches are losing their influence and faith is merely regarded as a matter of an individual. From November to January, 8,600 people were interviewed across 14 European countries. 97 percent of those interviewed in Poland said they believe in God. Portugal came with 90 percent, and Russia followed with 87 percent. The Czech Republic came in lowest with 37 percent, along with Netherlands (51) and Belgium (58). However, the fact that an individual believes in God does not mean that they believe in life after death. Over half (53) of all Europeans believe that physical death is not the end. 43 percent say that religion is necessary to distinguish right from wrong. The Czech Republic (27), the Netherlands (25) and France (24) came in lowest to this conviction whilst countries such as Poland (86), Russia (78) and Switzerland (54) revealed strong views. When asked if religion is a positive force in the world, 79 percent agreed in Portugal, 78 in Poland, and 72 in Spain. Belgium (39), Russia (36) and the Netherlands (34) answered that they were not that sure. However, believing in God does not necessarily mean that Germans regard Him as a personal being. 83 percent of all believers say God is present in nature, 75 percent regard Him as their creator and 70 percent say God is an ever-present source in their life. 39 percent say religious faith gives a meaning to life. 45 percent says it gives a sense of protection. One percent said that faith is intimidating. 65 percent of all believers pray to connect with God, with two-thirds of their prayers being for "people who are important to me". Other prayer topics include peace and justice. A relatively small amount of prayers are concerned with "my sins and my salvation" (13) or "my work and my job" (11)."

domingo, 20 de fevereiro de 2005

Desigualdade de tratamento

Carta de um leitor do Público:
"Como cidadão português e como católico, gostaria de reflectir um pouco sobre a forma como o Governo de Santana Lopes e Paulo Portas e respectivos partidos trataram as mortes recentes das grandes figuras nacionais, Sophia de Mello Breyner Andresen e Maria de Lourdes Pintasilgo face à atitude actual de luto nacional e de interrupção da campanha eleitoral após a morte da irmã Lúcia. Parece-me e a muitos outros portugueses- católicos e não católicos - que não houve uma igualdade de tratamento do Governo e dos respectivos partidos nele representados perante a morte destas três personalidades católicas, de dimensão nacional e internacional, com vidas dedicadas, embora com formas e expressões diferentes, aos mais altos valores espirituais.
Uma foi talvez a nossa maior poetisa de sempre, candidata ao Prémio Nobel da Literatura e uma cidadã a todos os títulos exemplar; a segunda foi uma mulher, integrada numa ordem religiosa, que dedicou a sua vida às mais elevadas causas e trouxe à política a marca do seu ideal cristão, chegando a ser a única primeira-ministra de Portugal; a irmã Lúcia foi um exemplo de vida abnegada e simples movida por uma enorme fé em fenómenos ocorridos em Fátima que nos merecem o maior respeito e nos interrogam o mais profundo da nossa alma como católicos, embora não sendo dogmas de fé.
Sabe-se que não houve luto nacional nem funerais de Estado aquando da morte das duas primeiras e esta disparidade de tratamento faz-nos pensar nos valores que nos orientam, na qualidade dos nossos políticos e no atraso civilizacional da nossa sociedade. Num país em que o nível de conhecimento geral é extremamente baixo, em que há um divórcio antigo e infelizmente sempre reforçado entre conhecimento e democracia, fazer este tipo de segregação só pode contribuir para cimentar um clima de hipocrisia e de obscurantismo que em definitivo já devia, há muito, ter sido banido.
A igualdade de tratamento nos três casos era no mínimo o que se deveria exigir dos poderes políticos de um país desenvolvido. Não termos sido capazes de o fazer só veio contribuir para manter o nosso baixo índice de cidadania e de liberdade de escolha, fragilizando a nossa democracia; democracia que afinalparece ter sido apenas "oferecida" generosamente a uma população com um baixíssimo grau de instrução e de literacia. Se à irmã Lúcia é prestado o tributo que, como figura nacional e internacional, de um certo âmbito naturalmente, lhe é devido, então que razões levaram a subvalorizar as outras duas personalidades?
A sociedade portuguesa só evoluirá quando, como diz José Gil, o direito à cultura e ao conhecimento chegar ao sentimento profundo da população; quando forem rejeitados os apelos à emoção primária e ao espectáculo e a este constante teatro da reverência dos nossos políticos."
17 de Fev. 2005
José Carlos Palha

sexta-feira, 28 de janeiro de 2005

Maria de Lourdes (Pintasilgo)
Por EDUARDO LOURENÇO
Público, 28 de Janeiro de 2005

Há pouco mais de meio ano, num país submerso por uma maré futebolistica sem precedentes, e um fervor patriótico mediático raro, morria e saía da cena politica e cultural portuguesa, a antiga Primeira Ministra, Maria de Lurdes Pintasilgo. A sua morte não passou, nem podia ter passado despercebida. Mas o contexto passional e euforizante do Euro 2004, "privatizou", em excesso, um acontecimento que, em outras circunstâncias, teria conhecido um outro eco.
Neste momento, a sua terra natal, Abrantes, recorda-a e presta-lhe a homenagem que o seu passado de militante católica de sério e coerente empenhamento social, o seu papel como dinamizadora cultural, sem falar do carisma politico que lhe permitiu ser a primeira mulher portuguesa a ocupar o cargo de Primeiro Ministro, naturalmente reclamada e merece.
Maria de Lurdes foi durante grande parte da sua vida desde jovem, um dos rostos de Portugal no mundo. Já não era Poder, como tão tristemente se diz, quando nos deixou e embora o seu combate cívico e espiritual se inscrevesse num horizonte mais vasto do que o da Politica, o Poder, e mesmo as suas seduções, não lhe eram estranhas. Aceitou-o ou pretendeu-o como serviço, apaixonadamente, convicta de que assim podia contribuir para alterar ou, pelo menos, melhorar "a ordem das coisas". Vinda do antigo Regime, daquilo em que ele se reclamava da famosa doutrina social da Igreja, a militante tomou a sério essa utopia do antigo sistema, muitas vezes traída ou negada na prática sobretudo na versão virtualmente dela. Essa espécie de paradoxal gauchismo, nem sempre foi bem compreendido.
A sua condição de mulher ofuscava - quer antes, quer sobretudo depois do 25 de Abril - a classe social a que pertencia, na versão tradicional se não tradicionalista das suas práticas sociais e éticas. Quando aceitou, pela mão do general Eanes, o cargo de Primeiro Ministro, uma parte do seu eleitorado "natural" e não só ele bem lho fez sentir. E ainda mais quando, com grande risco politico, ela se candidatou ao lugar de Presidente da Republica.
Maria de Lurdes é uma figura complexa, a sua história fez parte integrante do nosso Portugal durante o ultimo meio século e da história do mundo que nos cercou. Estudando-a e não apenas lembrando-a como é justo, se verá como essa história, aparentemente dividida ao meio pela Revolução de Abril a que aderiu e de que foi mesmo figura emblemática, não é tão "maniqueista", como, em geral é vivida em termos de memória, seja ela politica ou cultural.
Não só os seus amigos e admiradores farão esse "dever de memória" como os seus adversários e, naturalmente, os nossos historiadores da contemporaniedade fará parte das complicadas relações entre a fraca tradição social do nosso catolicismo e as correntes politicas e culturais que, ao mesmo tempo, encarnam aspirações análogas fora da referência religiosa ou opondo-se a elas. A nossa curiosidade pelo passado - salvo a titulo mítico ou antes, mitificado - é notoriamente escassa. Começa a cobrar algum relevo, sobretudo em relação aos contemporâneos quando se interessa "pelas figuras" como fez Oliveira Martins para a "ínclita geração". Mas tudo isso é pouco comparado com a verdadeira paixão da historiografia inglesa ou francesa pelos seus ou alheios "homens ou mulheres ilustres". Maria de Lourdes foi no seu e nosso tempo português, uma mulher ilustre.
A discrição com que o seu desaparecimento, há apenas sete meses, foi vivida não está à altura do que ela é e representa. Descrição oficial e discrição - essa sim, dolorosa - da instância institucional e do coração a que estava ligada pela sua educação, pela sua fé e pelo seu entusiasmo. Excessivo?

domingo, 23 de janeiro de 2005

Propor a esperança, abrir portas a um futuro melhor
Comunicado da Comissão Nacional Justiça e Paz


1. Um mês antes das eleições legislativas de 20 de Fevereiro vimos publicamente reafirmar a importância do próximo acto eleitoral, reforçar a exigência de qualidade no debate partidário, sublinhar a necessária participação de todos e dar razões da nossa esperança quanto ao futuro do país. Dirigimo-nos, sobretudo, aos nossos irmãos e irmãs na fé, mas também a todos os cidadãos e cidadãs. Não com uma palavra de quem sabe mais, ou tem soluções definitivas para o nosso viver em comum. Antes, animados pelo desejo de contribuirmos para superar o ambiente de desânimo que atravessa a nossa sociedade. Procuramos, assim, responder ao convite recentemente formulado pelos Bispos portugueses: ?Empenhar-se na construção da comunidade nacional é, para os cristãos, uma forma de exprimirem a sua fidelidade cristã?.

2. As eleições legislativas são um momento particularmente importante da vida democrática. Todos temos o dever de as encarar seriamente. Sem falsos messianismos ? esperando que alguém se proponha resolver todos os nossos problemas ?, nem fácil cinismo ? argumentando que ?é tudo a mesma coisa?. Ambas as posições são modos subtis de fugirmos à nossa responsabilidade individual e de recusarmos tomar consciência das relações entre o modo como vivemos, as escolhas que fazemos no nosso dia-a-dia e as prioridades que queremos ver inscritas na condução dos assuntos públicos. São, numa palavra, formas de não aceitar o convite do Papa João Paulo II quando escreve: ?Todos, de alguma forma, estão implicados no compromisso pelo bem comum, na busca constante do bem dos outros como se fosse o próprio?.

3. No actual contexto português, o próximo acto eleitoral ?não pode limitar-se a resolver uma crise política, mas deve enfrentar, com serenidade e lucidez, os problemas de fundo do país, apresentando para eles soluções credíveis e viáveis, a serem escolhidas pelo voto dos portugueses?, afirmam os Bispos portugueses. Para que tal aconteça cabe decisiva responsabilidade aos dirigentes partidários, a todos os candidatos e aos meios de comunicação social. Sem apresentação clarificadora do que consideram ser os principais problemas e as maiores potencialidades do país, sem propostas para enfrentarem uns e reforçarem outras, a campanha eleitoral pode reduzir-se a simples habilidades de comunicação, determinando maior afastamento dos cidadãos em relação aos seus eleitos.
Mas, tal como recordam os Bispos portugueses, cabe também, a cada um de nós, tudo fazer para ?forçar os partidos a porem o acento da sua intervenção na qualidade das propostas que nos fazem, na competência e dignidade das pessoas e não apenas nos discursos que o ambiente de campanha habitualmente inflama?.

4. Por todas estas razões, a participação de todos e de cada um é necessária. Não há verdadeiro amor cristão que se possa alhear das escolhas que determinam boa parte do nosso viver em comum. Ninguém se respeita a si próprio se nega o seu labor diário por uma sociedade mais justa e mais fraterna, ao não participar nos momentos em que se escolhem os programas e as pessoas que vão presidir, nos próximos anos, à gestão da coisa pública.


?Para os cristãos, o critério de avaliação? das diferentes propostas políticas ?é o Evangelho e a doutrina social da Igreja?. Critério que não anula o pluralismo das opções políticas dos cristãos, conforme repetidamente o Magistério da Igreja vem sublinhando, mas que exige a cada um o indispensável discernimento pessoal. Escolher, em política, confronta-nos com as questões que formulamos perante a realidade, com o que nela nos inquieta e com o que desejamos, para nós e para os outros, mesmo quando não sabemos como alcançá-lo. Como lembram os Bispos: ?Não esqueçamos que só tem direito de criticar e denunciar quem se empenha generosamente na busca de soluções?.

5. Mas, se há algum critério para aferir da participação política dos cristãos, ele é certamente o da capacidade de anunciar a esperança. O momento que vivemos precisa das vozes da esperança, precisa dos gestos que se pautam pelo fazer bem, precisa de corações que acarinhem sonhos de dias melhores e que os partilhem com os demais, precisa de muito investimento nas pessoas e de muita dedicação ao bem comum, precisa da cooperação como principal trampolim para a melhoria da nossa vida colectiva, precisa de cada uma e de cada um. Não há cidadãos dispensáveis, dentro e fora dos partidos políticos, quando se trata de criar uma comunidade nacional solidária, desenvolvida, apta a enfrentar com esperança os tão incertos dias que se avizinham.

6. Também nós somos testemunhas de que, apesar de um clima de pessimismo que parece querer instalar-se, encontramos pessoas disponíveis, interessadas em melhorar as condições de vida dos cidadãos, o modo de gerir as suas empresas e de aplicar os seus rendimentos, de aperfeiçoar as relações de trabalho e as relações interpessoais. Em todos os ambientes encontramos pessoas construtoras permanentes e persistentes do bem comum. Multiplicam-se os gestos concretos de solidariedade e de compromisso com os mais pobres, de envolvimento na inovação, em muitos locais de trabalho e de vida, de melhoria permanente das condições da existência e de promoção da dignidade humana, no funcionamento das instituições públicas e privadas.
Precisamos, é certo, de criar dispositivos de valorização e de incentivo público a todos e cada um dos portugueses e portuguesas que assim agem. Dispositivos que podem ser muito diversos, mas que se deveriam nortear pela partilha do que de mais positivo se faz e se alcança, pela valorização do trabalho perseverante que tantos desenvolvem em prol de uma sociedade mais justa e fraterna, pela comunicação da esperança que tantos desencadeiam em tantos rostos angustiados e esquecidos.

7. A nossa esperança funda-se no amor infinito de Deus que se dirige a cada um dos seres humanos, mulheres e homens, definitivamente irmanados pelo nascimento de Jesus, Deus encarnado, feito um de nós. ?Com a sua morte e ressurreição, Cristo nos redimiu e resgatou ?por um grande preço?, alcançando a salvação para todos?, escreve o Papa na sua última mensagem do Dia Mundial da Paz. A nossa esperança transmite-se nestes gestos fraternos e de procura incessante e difícil do bem comum. A nossa esperança alimenta-se na alegria daqueles que eram excluídos e encontraram abrigo, daqueles que estavam perdidos e encontraram um rumo para as suas vidas, daqueles que apenas viviam cada hora que passa e descobriram novos sentidos e outros cidadãos com quem constroem uma vida melhor, para si e para aqueles que lhes estão próximos. A nossa esperança vem de Deus e vive-se com os irmãos, em comunidade de amor.

Mais do que nunca, neste próximo mês, os cristãos deste país são chamados a serem testemunhas da esperança que abre as portas de um futuro melhor para todos.
Lisboa, 20 de Janeiro de 2005

sábado, 1 de janeiro de 2005

The Ends of the World as We Know Them
By JARED DIAMOND
NYT, 1 Jan.2005

"(...) In this New Year, we Americans have our own painful reappraisals to face. Historically, we viewed the United States as a land of unlimited plenty, and so we practiced unrestrained consumerism, but that's no longer viable in a world of finite resources. We can't continue to deplete our own resources as well as those of much of the rest of the world.
Historically, oceans protected us from external threats; we stepped back from our isolationism only temporarily during the crises of two world wars. Now, technology and global interconnectedness have robbed us of our protection. In recent years, we have responded to foreign threats largely by seeking short-term military solutions at the last minute.
But how long can we keep this up? Though we are the richest nation on earth, there's simply no way we can afford (or muster the troops) to intervene in the dozens of countries where emerging threats lurk - particularly when each intervention these days can cost more than $100 billion and require more than 100,000 troops.
A genuine reappraisal would require us to recognize that it will be far less expensive and far more effective to address the underlying problems of public health, population and environment that ultimately cause threats to us to emerge in poor countries. In the past, we have regarded foreign aid as either charity or as buying support; now, it's an act of self-interest to preserve our own economy and protect American lives.
Do we have cause for hope? Many of my friends are pessimistic when they contemplate the world's growing population and human demands colliding with shrinking resources. But I draw hope from the knowledge that humanity's biggest problems today are ones entirely of our own making. Asteroids hurtling at us beyond our control don't figure high on our list of imminent dangers. To save ourselves, we don't need new technology: we just need the political will to face up to our problems of population and the environment.
I also draw hope from a unique advantage that we enjoy. Unlike any previous society in history, our global society today is the first with the opportunity to learn from the mistakes of societies remote from us in space and in time. When the Maya and Mangarevans were cutting down their trees, there were no historians or archaeologists, no newspapers or television, to warn them of the consequences of their actions. We, on the other hand, have a detailed chronicle of human successes and failures at our disposal. Will we choose to use it?"

Jared Diamond (who won the 1998 Pulitzer Prize in general nonfiction for "Guns, Germs and Steel: The Fates of Human Societies," is the author of the forthcoming "Collapse: How Societies Choose or Fail to Succeed.")
Rising to the New Year
Editorial of The New York Times, 1 Jan. 2005

"(...)The enormous momentum of life as we know it is not poised to turn on a dime just so we can start out on Jan. 1 refreshed with possibilities. You can feel the gravity of the past pulling at your back the way real gravity pulls at your shoes.

But deep within us is the habit of looking forward, a habit as powerful as the belief that our lives are somehow external to us and that we can pick them up and rearrange them at will. We live profoundly in time, painfully aware of the way the new years stack up one by one.

We also live immersed in intention, trying to make the most of what time has to offer. There are days when the likelihood of real renewal seems almost impossible, when our lives seem utterly conditioned by the past. And then there are those days when renewal seems certain, merely a matter of making the right choices, consciously. It would be a coincidence if one of those days of rebirth happened to fall on the first of the year.

It's easy to dismiss the feeling of renewed intentions aroused by the new year, easy to think of resolutions as party favors of a sort, nothing more than wistful daydreams of being thinner, healthier, richer or happier than we are, forgotten as soon as made. But just ask anyone who's ever made a real change for the better. There's nothing wistful about it. It isn't a daydream. People who have fulfilled a latent possibility in themselves can sense the possibilities lying hidden in so many human lives. It doesn't take a revelation or a flash of light from heaven. It takes getting out of the habit of standing apart from your life, watching yourself as if you were two people instead of just one.

Most animals do not make resolutions, as far as we know. The dog isn't planning to do less dinner-table begging this year, nor is the cat going to try to take fewer catnaps. Things are as they are. But a human without hope, a human who has stopped trying to reform himself or excel herself, has a very hard time being fully human. (...)".
In death, imperialism lives on

For the western media, it is clear that a tourist's tragedy is moreimportant than that of the 'locals'

Jeremy Seabrook
Friday December 31, 2004, The Guardian

The number of fishing boats from Sumatra, Sri Lanka and Tamil Nadu at seawhen the Boxing Day tsunami hit will never be known. There is scarcely anypopulation tally of the crowded coasts. Nameless people are consigned tounmarked graves; in mosques and temples, makeshift mortuaries, people pullaside a cloth, a piece of sacking, to see if those they loved lie beneath.As in all natural disasters, the victims are overwhelmingly the poorest. This time there was something different. The tsunami struck resorts wherewesterners were on holiday. For the western media, it was clear that theirlives have a different order of importance from those that have died inthousands, but have no known biography, and, apparently, no intelligibletongue in which to express their feelings. This is not to diminish thetrauma of loss of life, whether of tourist or fisherman. But when wedistinguish between "locals" who have died and westerners, "locals" all tooeasily becomes a euphemism for what were once referred to as natives.Whatever tourism's merits, it risks reinforcing the imperial sensibility. For this sensibility has already been reawakened by all the human-made,preventable catastrophes. The ruins of Galle and Bandar Aceh called forthimages of Falluja, Mosul and Gaza. Imperial powers, it seems, anticipatethe destructive capacity of nature. A report on ITN news made thisexplicit, by referring to "nature's shock and awe". But while the tsunamideath toll rises in anonymous thousands, in Iraq disdainful Americanauthorities don't do body counts. One of the most poignant sights of the past few days was that of westernersovercome with gratitude that they had been helped by the grace and mercy ofthose who had lost everything, but still regarded them as guests. Whenthese same people appear in the west, they become the interloper, theunwanted migrant, the asylum seeker, who should go back to where theybelong. A globalisation that permits the wealthy to pass effortlesslythrough borders confines the poor to eroded subsistence, overfished watersand an impoverishment that seems to have no end. People rarely say thatpoor countries are swamped by visitors, even though their money powerpre-empts the best produce, the clean water and amenities unknown to theindigenous population. In death, there should be no hierarchy. But even as Sri Lankans wandered innumb disbelief through the corpses, British TV viewers were being warnedthat scenes they were about to witness might distress them. Poor peoplehave no consoling elsewhere to which they can be repatriated. The annals ofthe poor remain short and simple, and can be effaced without inquiry as tohow they contrive an existence on these fragile coasts. What are the dailyvisitations of grief and loss in places where people earn less in a yearthan the price that privilege pays for a night's stay in a five-star hotel?Western governments, which can disburse so lavishly in the art of war,offer a few million as if it were exceptional largesse. Fortunately thepeople are wiser; and the spontaneous outpourings of humanity have been asunstoppable as the waves that broke on south Asia's coasts; donationsrapidly exceeded the amount offered by government. Selflessness andsacrifice, people working away at rubble with bare hands, suggest immediatehuman solidarities. But these are undermined by the structures of inequality. Promises solemnlymade at times of immediate sorrow are overtaken by other urgencies; moneydonated for the Orissa cyclone, for hurricane Mitch in Central America, thefloods in Bangladesh, the Bam earthquake - as for the reconstruction ofAfghanistan and Iraq - turns out to be a fraction of what is pledged. Such events remind us of the sameness of our human destiny, the fragilityof our existence. They place in perspective the meaning of security. Lifeis always at the mercy of nature - whether from such overwhelming events asthis, or the natural processes that exempt no one from paying back to earththe life it gave us. Yet we inhabit systems of social and economicinjustice that exacerbate the insecurity of the poor, while the west isprepared to lay waste distant towns and cities in the name of a securitythat, in the end, eludes us all. Assertions of our common humanity occur only at times of great loss. Toretrieve and hold on to it at all other times - that would be something ofworth to salvage from these scenes of desolation. ·
(Jeremy Seabrook is the author of Consuming Cultures: Globablisation andLocal Life)

domingo, 26 de dezembro de 2004

[Natal]

Que palavras poderei buscar para vos aquentar o coração? Um santo, no sermão desta festa, bradava: ? Oh! que nenhumas palavras acho com que possa falar da Palavra Eterna e Verbo Encarnado! Assim eu também não vos sei declarar o que havemos de sentir deste suavíssimo Nascimento. Porém, quero-vos pôr uma comparação. Se houvesse muitos anos que o sol não nasceu nem apareceu nas terras, e estivéssemos todos não somente às escuras e em espessas trevas mas também carregados de ferro, tremendo com frio e em suma tristeza, e, estando assim, subitamente nascesse o sol mui resplandecente, alumiando-nos, aquentando-nos, quebrando nossas cadeias e prisões, que vos parece quão grande alegria e consolação seria a nossa?

Pois, irmãos, tais éramos, espiritualmente, antes que nascesse o sol que hoje nasceu e veio alumiar as trevas e cegueira de nossa alma; veio aquentar a frieza de nosso coração, o qual estava feito um regelo no amor de Deus e das cousas eternas; veio quebrar as cadeias de nossos pecados. (...)

As maravilhas desta clara noite excedem todas quantas viram os antigos Servos de Deus: porque, como diz um Santo, os nossos padres antigos muitas e grandes maravilhas de Deus viram. O Céu lhes orvalhou manjar de Anjos para seu mantimento. O Mar Roxo se lhes abriu em carreiras para que pudessem passar a pé enxuto. O rio Jordão se retirou para a fonte donde nascia para lhes dar livre passagem. Os muros fortíssimos da cidade de Jericó caíram subitamente a som de trombeta. O Sol se deteve no Céu por um grande espaço sem se mover, para que o povo de Deus, que pelejava contra seus inimigos, acabasse de os destruir. Estas e outras maravilhas viram: mas não lhes foi dado ver a verdadeira Luz Eterna, coberta com a nuvenzinha de carne de menino e posta em um presépio por amor de nós.

Bartolomeu dos Mártires
[extracto do Catecismo distribuído no sínodo bracarense de Novembro de 1564. in Antologia de Espirituais Portugueses. Lisboa: Imprensa Nacional ? Casa da Moeda, 1994]
=brigado ao Eduardo Jorge, pela descoberta.