"Santo subito"
Repercutindo o desejo já manifestado pela Helena, do 2 Dedos de Conversa, parece que no funeral do Irmão Roger também se manifestou a vontade de que ele seja declarado "santo subito":
Le cercueil de bois clair a ensuite été porté par des frères à travers la foule qui avait suivi les funérailles sur écran géant. Les bras se sont tendus pour le toucher. Sur une pancarte, était écrit: "Santo Subito ("Saint tout de suite") Frère Roger". (La Croix)
Quem conhece os dias que virão, quando as fronteiras que delimitam os horizontes das almas puderem ser franqueadas sem a sensação de se poder estar a pisar uma terra alheia?
E em que consiste hoje ser santo, depois das fornadas de João Paulo II?
quinta-feira, 25 de agosto de 2005
quinta-feira, 18 de agosto de 2005
quarta-feira, 17 de agosto de 2005
Irmão Roger

Faz, dentro de dias, 65 anos que um jovem suiço, então com 25, chegou de bicileta à aldeia de Taizé, no Sudeste de França. Uma idosa ter-lhe-á dito: "Fica aqui connosco. O inverno é longo e estamos para aqui isolados". E foi ali que ganhou forma esse espaço único, verdadeira "parábola da fraternidade e da esperança". Prova de que o que une as confissões cristãs (e todas as pessoas de boa vontade) é muito mais do que aquilo que as separa.
Luminosidade, acolhimento, serenidade. Dificilmente se fica indiferente à qualidade do encontro, da oração. Tudo transcende, de longe, o que ali se passa.
O Pedro e a Teresa foram os que mais próximos estiveram dele, na semana que lá passámos em finais dos anos 80. Quando pouco depois da uma da manhã de hoje lhe telefonámos a dar-lhe a notícia, comentou que provavelmente este martírio vai tornar ainda mais forte e pregnante o sonho de unidade, justiça e paz que sempre animou Roger Schutz. O Irmão Roger.
Foto de Dez.2002 - AFP/MARTIN BUREAU
Faz, dentro de dias, 65 anos que um jovem suiço, então com 25, chegou de bicileta à aldeia de Taizé, no Sudeste de França. Uma idosa ter-lhe-á dito: "Fica aqui connosco. O inverno é longo e estamos para aqui isolados". E foi ali que ganhou forma esse espaço único, verdadeira "parábola da fraternidade e da esperança". Prova de que o que une as confissões cristãs (e todas as pessoas de boa vontade) é muito mais do que aquilo que as separa.
Luminosidade, acolhimento, serenidade. Dificilmente se fica indiferente à qualidade do encontro, da oração. Tudo transcende, de longe, o que ali se passa.
O Pedro e a Teresa foram os que mais próximos estiveram dele, na semana que lá passámos em finais dos anos 80. Quando pouco depois da uma da manhã de hoje lhe telefonámos a dar-lhe a notícia, comentou que provavelmente este martírio vai tornar ainda mais forte e pregnante o sonho de unidade, justiça e paz que sempre animou Roger Schutz. O Irmão Roger.
quarta-feira, 20 de julho de 2005
Cabecinhas pensadoras
Joaquim Fidalgo
in Público, 20.7.2005
Eles autodenominam-se grupo "Pensar Bem", e que bem que eles pensam! Pensam tão bem e tanto que as suas próprias cabeças não lhes chegam para pensar: até querem pensar pela cabeça dos outros. Porque os outros, claro, não pensam bem. Os outros pensam mal. Os outros, a bem dizer, se calhar nem pensam: têm (diz o grupo que "pensa bem") muita confusão naquelas cabecinhas, e, se ouvem umas ideias mais frescas, ainda com mais confusão ficam. O que lhes vale, então, é que os tais do Pensar Bem decidem pensar por eles... Mais: decidem mesmo decidir por eles, porque os que não pensam bem também não decidem bem, coitados, precisam de mentes iluminadas que lhes indiquem os supostos caminhos do Senhor - caminhos que só eles, os do Pensar Bem, autenticamente conhecem. Confuso?...Vamos por partes. Numa recente entrevista ao PÚBLICO, o padre Vítor Feytor Pinto admitiu que, em circunstâncias excepcionais, o uso do preservativo se justificaria: quando se tratasse de, por exemplo, impedir a propagação da sida, ou seja, quando se tratasse de não matar (porque a sida, não sei se sabe quem pensa bem, mata). É o mínimo que se pode defender, não é?... E, embora a Igreja "oficial" continue avessa a todas as excepções - insistindo na solução da abstinência e, assim, pregando aos peixes -, o certo é que a opinião do padre Feytor Pinto não é exactamente uma voz isolada. Outras (poucas...) vozes da hierarquia católica têm revelado esse mínimo de abertura que decorre do mais elementar bom senso e de um genuíno amor à vida. Esperar-se-ia que todos os cristãos com o mesmo bom senso e genuíno amor à vida concordassem.Mas não. Nem todos. O tal grupo que se intitula Pensar Bem acha que não, que isso... nem pensar! Vai daí, pôs a circular na Net (o jornalista António Marujo contou aqui a história, no último fim-de-semana) uma carta de denúncia dos "desvios" do padre Feytor Pinto, apelando a que o maior número possível de pessoas a subescrevesse e enviasse para o Vaticano (eram até fornecidos os e-mails), decerto para ver se Roma puxa as orelhas a este seu (in)fiel e, eventualmente, o excomunga - que a coisa não deve ser para menos.Os tais do Pensar Bem têm "muita pena" que o padre Feytor Pinto tenha proferido aquelas "afirmações controversas", pois elas "podem suscitar confusão em muitas consciências, já bastante confusas" ou "até encaminhá-las por sendas gravemente erradas". Lá está: aquelas cabecinhas pensadoras estão preocupadíssimas com o facto de algum cristão poder, a certa altura, considerar a hipótese de usar um preservativo para impedir a transmissão da sida! Onde é que isto já se viu e onde é que isto vai parar... Se começa tudo a pensar pela sua cabeça e a decidir o que acha melhor, é o caos!Ah, o padre Feytor Pinto também disse que é difícil considerar criminosa uma mulher que, tendo engravidado na sequência de uma violação, e não tendo sido capaz de encontrar outra saída para o seu drama, decida interromper a gravidez. Imagine-se o despautério do clérigo... Pensando bem, à fogueira com ele!
Joaquim Fidalgo
in Público, 20.7.2005
Eles autodenominam-se grupo "Pensar Bem", e que bem que eles pensam! Pensam tão bem e tanto que as suas próprias cabeças não lhes chegam para pensar: até querem pensar pela cabeça dos outros. Porque os outros, claro, não pensam bem. Os outros pensam mal. Os outros, a bem dizer, se calhar nem pensam: têm (diz o grupo que "pensa bem") muita confusão naquelas cabecinhas, e, se ouvem umas ideias mais frescas, ainda com mais confusão ficam. O que lhes vale, então, é que os tais do Pensar Bem decidem pensar por eles... Mais: decidem mesmo decidir por eles, porque os que não pensam bem também não decidem bem, coitados, precisam de mentes iluminadas que lhes indiquem os supostos caminhos do Senhor - caminhos que só eles, os do Pensar Bem, autenticamente conhecem. Confuso?...Vamos por partes. Numa recente entrevista ao PÚBLICO, o padre Vítor Feytor Pinto admitiu que, em circunstâncias excepcionais, o uso do preservativo se justificaria: quando se tratasse de, por exemplo, impedir a propagação da sida, ou seja, quando se tratasse de não matar (porque a sida, não sei se sabe quem pensa bem, mata). É o mínimo que se pode defender, não é?... E, embora a Igreja "oficial" continue avessa a todas as excepções - insistindo na solução da abstinência e, assim, pregando aos peixes -, o certo é que a opinião do padre Feytor Pinto não é exactamente uma voz isolada. Outras (poucas...) vozes da hierarquia católica têm revelado esse mínimo de abertura que decorre do mais elementar bom senso e de um genuíno amor à vida. Esperar-se-ia que todos os cristãos com o mesmo bom senso e genuíno amor à vida concordassem.Mas não. Nem todos. O tal grupo que se intitula Pensar Bem acha que não, que isso... nem pensar! Vai daí, pôs a circular na Net (o jornalista António Marujo contou aqui a história, no último fim-de-semana) uma carta de denúncia dos "desvios" do padre Feytor Pinto, apelando a que o maior número possível de pessoas a subescrevesse e enviasse para o Vaticano (eram até fornecidos os e-mails), decerto para ver se Roma puxa as orelhas a este seu (in)fiel e, eventualmente, o excomunga - que a coisa não deve ser para menos.Os tais do Pensar Bem têm "muita pena" que o padre Feytor Pinto tenha proferido aquelas "afirmações controversas", pois elas "podem suscitar confusão em muitas consciências, já bastante confusas" ou "até encaminhá-las por sendas gravemente erradas". Lá está: aquelas cabecinhas pensadoras estão preocupadíssimas com o facto de algum cristão poder, a certa altura, considerar a hipótese de usar um preservativo para impedir a transmissão da sida! Onde é que isto já se viu e onde é que isto vai parar... Se começa tudo a pensar pela sua cabeça e a decidir o que acha melhor, é o caos!Ah, o padre Feytor Pinto também disse que é difícil considerar criminosa uma mulher que, tendo engravidado na sequência de uma violação, e não tendo sido capaz de encontrar outra saída para o seu drama, decida interromper a gravidez. Imagine-se o despautério do clérigo... Pensando bem, à fogueira com ele!
terça-feira, 28 de junho de 2005
El filósofo paseaba por los campos cuando encontró en el río a un pescador muy atareado.
-¿Qué haces, buen hombre? -le preguntó.
-Echo las redes.
-¿Para qué?
-Para pescar.
-¿Para qué quieres pescar?
-Para vender el pescado.
-¿Para qué quieres venderlo?
-Para obtener algunas monedas.
-¿Y para qué quieres el dinero?
-Para comer.
-¿Pero, para qué quieres comer?
-¡Para vivir señor, para vivir!
-¿Pero para qué quieres vivir...?
El pescador se quedó perplejo, y enmudeció.
-¿Para qué quieres vivir ?- insistió el filósofo.
El pescador caviló unos momentos y al fin respondió:
-Para pescar.
Giovanni Papini
-¿Qué haces, buen hombre? -le preguntó.
-Echo las redes.
-¿Para qué?
-Para pescar.
-¿Para qué quieres pescar?
-Para vender el pescado.
-¿Para qué quieres venderlo?
-Para obtener algunas monedas.
-¿Y para qué quieres el dinero?
-Para comer.
-¿Pero, para qué quieres comer?
-¡Para vivir señor, para vivir!
-¿Pero para qué quieres vivir...?
El pescador se quedó perplejo, y enmudeció.
-¿Para qué quieres vivir ?- insistió el filósofo.
El pescador caviló unos momentos y al fin respondió:
-Para pescar.
Giovanni Papini
segunda-feira, 6 de junho de 2005
"Que venho procurar a Taizé?"
Pau Ricoeur (1925-2005)
cit. por Bento Domingues, in Público, 2.6.2005
"Que venho procurar a Taizé? Eu diria uma espécie de experimentação com aquilo em que acredito mais profundamente, nomeadamente que aquilo a que geralmente se chama religião tem que ver com bondade. Isto está um pouco esquecido, em particular em várias tradições do cristianismo. Quero dizer que há uma espécie de restrição, de fechamento na culpabilidade e no mal. Eu não subestimo de forma nenhuma este problema, que muito me ocupou durante várias décadas. Mas aquilo que, de alguma forma, tenho necessidade de verificar é que, por muito radical que seja o mal, não é tão profundo como a bondade. E se a religião, as religiões, têm um sentido, é precisamente o de libertar o fundo de bondade dos homens, de o procurar onde ele está completamente escondido. Ora, aqui em Taizé, eu vejo irrupções de bondade na fraternidade entre os irmãos, na sua hospitalidade tranquila, discreta e na oração onde vejo milhares de jovens que não têm nenhuma articulação conceptual do bem, do mal, de Deus, da graça, de Jesus Cristo, mas que têm um tropismo fundamental em direcção à bondade."
"Nós andamos sobrecarregados pelos discursos, pelas polémicas, pelo assalto do virtual; hoje há como que uma zona opaca, e existe esta certeza profunda a libertar, a resgatar: a bondade é mais profunda que o mal mais profundo. Não basta sentir isto. É preciso dar-lhe uma linguagem. A de Taizé não é a linguagem de uma filosofia nem de uma teologia. É a linguagem da liturgia. Para mim, a liturgia não é simplesmente uma acção. É um pensamento. Na liturgia encontra-se uma teologia escondida, discreta que se resume nesta ideia: "A lei da oração é a lei da fé.""
"Diria que a questão do pecado foi como que deslocada do centro por outra que é, sob determinado aspecto, ainda mais grave: pela questão do sentido e do sem-sentido, do absurdo. (...)
"Pertencemos à civilização que efectivamente matou Deus, isto é, que fez prevalecer o absurdo e o sem-sentido sobre o sentido. Eu penso que há nisso um protesto profundo (...) Em Taizé caminha-se do protesto para a atestação: o nada, o absurdo, a morte não são última palavra. Por aí voltamos à questão da bondade, que não é só uma resposta ao mal, mas também a resposta ao sem-sentido. O protesto situa-se ainda no pólo negativo: diz não ao não. O movimento do protesto para a atestação passa pela oração. Esta manhã os cânticos, as orações tinham a forma do vocativo: "Ó" no exortativo e na aclamação. Penso que aclamar a bondade é o hino fundamental."
"Gosto muito da palavra felicidade. (...) Ultrapassei, ou melhor dizendo aprofundei, o meu pudor em falar de felicidade. Tomo-o na variedade das suas significações. Diria que a fórmula da felicidade é esta: "Feliz aquele que..." Saúdo-a como um "re-conhecimento", nos três sentidos da palavra: reconheço-a como sendo minha, aprovo-a no outro e tenho gratidão por aquilo que dela conheci, essas pequenas felicidades, entre as quais as da memória para me curar das grandes desgraças do esquecimento.
"É precisamente aí que funciono simultaneamente como filósofo, alimentado nos gregos, como leitor da Bíblia e do Evangelho, onde se pode seguir o percurso da palavra felicidade, mas nesses dois registos. Porque o melhor da filosofia grega é a reflexão sobre a felicidade, a palavra grega eudeimon - falou-se do eudemonismo filosófico em Platão, em Aristóteles - e eu reencontro-me aí muito bem com a Bíblia. (...) As bem-aventuranças são o horizonte de felicidade de uma vida sob o signo da bondade, porque a felicidade não é simplesmente aquilo que não tenho, o que espero ter, mas também aquilo que saboreei."
"Reflectia recentemente sobre as três figuras da felicidade na vida. Diria que, em relação à criação - essa bela paisagem diante de mim -, a felicidade é a admiração. A segunda vem do reconhecimento dos outros e, no modelo nupcial do Cântico dos Cânticos, é o júbilo. A terceira está orientada para o futuro - eu ainda espero alguma coisa da vida - é a da "espectação", a da aspiração no sentido da 1Cor. 13 sobre a caridade: "aspirai, aspirai"..."
"Em Taizé vivi a ausência completa das relações de dominação. Tenho a impressão de que toda a gente obedece sem que ninguém comande. Daí a sensação de um serviço alegre, como dizer, da obediência do amor. É o contrário de uma submissão e o contrário de uma errância. (...) A comunidade não impõe um modelo intimidante, mas uma espécie de exortação amigável. (...) É a tranquilidade partilhada que para mim representa a felicidade da vida junto da Comunidade de Taizé."
Pau Ricoeur (1925-2005)
cit. por Bento Domingues, in Público, 2.6.2005
"Que venho procurar a Taizé? Eu diria uma espécie de experimentação com aquilo em que acredito mais profundamente, nomeadamente que aquilo a que geralmente se chama religião tem que ver com bondade. Isto está um pouco esquecido, em particular em várias tradições do cristianismo. Quero dizer que há uma espécie de restrição, de fechamento na culpabilidade e no mal. Eu não subestimo de forma nenhuma este problema, que muito me ocupou durante várias décadas. Mas aquilo que, de alguma forma, tenho necessidade de verificar é que, por muito radical que seja o mal, não é tão profundo como a bondade. E se a religião, as religiões, têm um sentido, é precisamente o de libertar o fundo de bondade dos homens, de o procurar onde ele está completamente escondido. Ora, aqui em Taizé, eu vejo irrupções de bondade na fraternidade entre os irmãos, na sua hospitalidade tranquila, discreta e na oração onde vejo milhares de jovens que não têm nenhuma articulação conceptual do bem, do mal, de Deus, da graça, de Jesus Cristo, mas que têm um tropismo fundamental em direcção à bondade."
"Nós andamos sobrecarregados pelos discursos, pelas polémicas, pelo assalto do virtual; hoje há como que uma zona opaca, e existe esta certeza profunda a libertar, a resgatar: a bondade é mais profunda que o mal mais profundo. Não basta sentir isto. É preciso dar-lhe uma linguagem. A de Taizé não é a linguagem de uma filosofia nem de uma teologia. É a linguagem da liturgia. Para mim, a liturgia não é simplesmente uma acção. É um pensamento. Na liturgia encontra-se uma teologia escondida, discreta que se resume nesta ideia: "A lei da oração é a lei da fé.""
"Diria que a questão do pecado foi como que deslocada do centro por outra que é, sob determinado aspecto, ainda mais grave: pela questão do sentido e do sem-sentido, do absurdo. (...)
"Pertencemos à civilização que efectivamente matou Deus, isto é, que fez prevalecer o absurdo e o sem-sentido sobre o sentido. Eu penso que há nisso um protesto profundo (...) Em Taizé caminha-se do protesto para a atestação: o nada, o absurdo, a morte não são última palavra. Por aí voltamos à questão da bondade, que não é só uma resposta ao mal, mas também a resposta ao sem-sentido. O protesto situa-se ainda no pólo negativo: diz não ao não. O movimento do protesto para a atestação passa pela oração. Esta manhã os cânticos, as orações tinham a forma do vocativo: "Ó" no exortativo e na aclamação. Penso que aclamar a bondade é o hino fundamental."
"Gosto muito da palavra felicidade. (...) Ultrapassei, ou melhor dizendo aprofundei, o meu pudor em falar de felicidade. Tomo-o na variedade das suas significações. Diria que a fórmula da felicidade é esta: "Feliz aquele que..." Saúdo-a como um "re-conhecimento", nos três sentidos da palavra: reconheço-a como sendo minha, aprovo-a no outro e tenho gratidão por aquilo que dela conheci, essas pequenas felicidades, entre as quais as da memória para me curar das grandes desgraças do esquecimento.
"É precisamente aí que funciono simultaneamente como filósofo, alimentado nos gregos, como leitor da Bíblia e do Evangelho, onde se pode seguir o percurso da palavra felicidade, mas nesses dois registos. Porque o melhor da filosofia grega é a reflexão sobre a felicidade, a palavra grega eudeimon - falou-se do eudemonismo filosófico em Platão, em Aristóteles - e eu reencontro-me aí muito bem com a Bíblia. (...) As bem-aventuranças são o horizonte de felicidade de uma vida sob o signo da bondade, porque a felicidade não é simplesmente aquilo que não tenho, o que espero ter, mas também aquilo que saboreei."
"Reflectia recentemente sobre as três figuras da felicidade na vida. Diria que, em relação à criação - essa bela paisagem diante de mim -, a felicidade é a admiração. A segunda vem do reconhecimento dos outros e, no modelo nupcial do Cântico dos Cânticos, é o júbilo. A terceira está orientada para o futuro - eu ainda espero alguma coisa da vida - é a da "espectação", a da aspiração no sentido da 1Cor. 13 sobre a caridade: "aspirai, aspirai"..."
"Em Taizé vivi a ausência completa das relações de dominação. Tenho a impressão de que toda a gente obedece sem que ninguém comande. Daí a sensação de um serviço alegre, como dizer, da obediência do amor. É o contrário de uma submissão e o contrário de uma errância. (...) A comunidade não impõe um modelo intimidante, mas uma espécie de exortação amigável. (...) É a tranquilidade partilhada que para mim representa a felicidade da vida junto da Comunidade de Taizé."
segunda-feira, 30 de maio de 2005
De nada se sabe
La luna ignora que es tranquila y clara
Y ni siquiera sabe que es la luna;
La arena, que es la arena. No habrá una
Cosa que sepa que su forma es rara.
Las piezas de marfil son tan ajenas
Al abstracto ajedrez como la mano
Que las rige. Quizá el destino humano
De breves dichas y de largas penas
Es instrumento de otro. Lo ignoramos;
Darle nombre de Dios no nos ayuda.
Vanos también son el temor, la duda
Y la trunca plegaria que iniciamos.
¿Qué arco habrá arrojado esta saeta que soy?
¿Qué cumbre puede ser la meta?
Jorge Luis Borges
Publicado por J.Pacheco Pereira, no Abrupto
La luna ignora que es tranquila y clara
Y ni siquiera sabe que es la luna;
La arena, que es la arena. No habrá una
Cosa que sepa que su forma es rara.
Las piezas de marfil son tan ajenas
Al abstracto ajedrez como la mano
Que las rige. Quizá el destino humano
De breves dichas y de largas penas
Es instrumento de otro. Lo ignoramos;
Darle nombre de Dios no nos ayuda.
Vanos también son el temor, la duda
Y la trunca plegaria que iniciamos.
¿Qué arco habrá arrojado esta saeta que soy?
¿Qué cumbre puede ser la meta?
Jorge Luis Borges
Publicado por J.Pacheco Pereira, no Abrupto
domingo, 15 de maio de 2005
domingo, 1 de maio de 2005
"Has-de pôr os olhos em quem és"
"Empieza Don Quijote:
-Primeramente, oh hijo!, has de temer a Dios; porque en el temerle está la sabiduría, y siendo sabio no podrás errar en nada.
Lo segundo, has de poner los ojos en quien eres, procurando conocerte a ti mismo, que es el más difícil conocimiento que puede imaginarse."
(Fonte)
"Empieza Don Quijote:
-Primeramente, oh hijo!, has de temer a Dios; porque en el temerle está la sabiduría, y siendo sabio no podrás errar en nada.
Lo segundo, has de poner los ojos en quien eres, procurando conocerte a ti mismo, que es el más difícil conocimiento que puede imaginarse."
(Fonte)
quarta-feira, 27 de abril de 2005
"Optimista por opção".
Um novo blogue, da autoria de José Maria Brito, sj. Já foi "haja o que houver", mas por razões que explicou, mudou de nome. Abre com este mote do jesuíta Vasco Pinto de Magalhães: "O contrário da alegria não é a tristeza, é o pessimismo" .
Um novo blogue, da autoria de José Maria Brito, sj. Já foi "haja o que houver", mas por razões que explicou, mudou de nome. Abre com este mote do jesuíta Vasco Pinto de Magalhães: "O contrário da alegria não é a tristeza, é o pessimismo" .
Fé e Política: "A Religião na sociedade Democrática"
Auditório do Colégio São João de Brito (Estrada da Torre, 28 ? Lumiar, Lisboa)
Sábado, 30 de Abril de 2005
Manhã
9.30 ? Acolhimento
10.00 ? Apresentação e enquadramento " A Religião na sociedadeDemocrática" - Hermínio Rico, sj ? Director da Revista Brotéria
10.45 ? Intervalo
11.00 - Painel "Há Lugar para a Religião na vida pública?"
Com: Francisco Sarsfield Cabral/Vital Moreira
Moderador: Pedro Machete
13.00 ? Almoço
Tarde
15.00 ? Painel "Ser Católico na Vida Pública"
Com Maria José Nogueira Pinto/Maria do Rosário Carneiro/Rui Machete
Moderadora: Joana Vasconcelos
16.30 ? Intervalo
17.00 ? Relator Final"Sínteses e Desafios" ? Joaquim Goes
17.30 ? Fim Trabalhos18.00 ? Apresentação do Livro: "P. António de Andrade, sj ? oDescobrimento do Tibete"
Organização: Revista Brotéria
Informações: 21 396 16 60
Auditório do Colégio São João de Brito (Estrada da Torre, 28 ? Lumiar, Lisboa)
Sábado, 30 de Abril de 2005
Manhã
9.30 ? Acolhimento
10.00 ? Apresentação e enquadramento " A Religião na sociedadeDemocrática" - Hermínio Rico, sj ? Director da Revista Brotéria
10.45 ? Intervalo
11.00 - Painel "Há Lugar para a Religião na vida pública?"
Com: Francisco Sarsfield Cabral/Vital Moreira
Moderador: Pedro Machete
13.00 ? Almoço
Tarde
15.00 ? Painel "Ser Católico na Vida Pública"
Com Maria José Nogueira Pinto/Maria do Rosário Carneiro/Rui Machete
Moderadora: Joana Vasconcelos
16.30 ? Intervalo
17.00 ? Relator Final"Sínteses e Desafios" ? Joaquim Goes
17.30 ? Fim Trabalhos18.00 ? Apresentação do Livro: "P. António de Andrade, sj ? oDescobrimento do Tibete"
Organização: Revista Brotéria
Informações: 21 396 16 60
segunda-feira, 25 de abril de 2005
terça-feira, 19 de abril de 2005
O que poderá ser um papado de Ratzinger
"Outline of a Ratzinger papacy": escrito por John L. Allen, Jr., correspondente em Roma do National Catolic Reporter, texto escrito antes da eleição.
Homilia de Ratzinger na missa que antecedeu o conclave que o elegeu (extractos):
"Arrêtons-nous seulement sur deux points. Le premier est le chemin vers « la maturité du Christ », comme le dit, un peu en simplifiant, le texte italien. Plus précisément nous devrions, selon le texte grec, parler de la « mesure de la plénitude du Christ », à laquelle nous sommes appelés à parvenir pour être réellement adultes dans la foi. Nous ne devrions pas rester des enfants dans la foi, comme des mineurs. En quoi consiste être adulte dans la foi ? Saint Paul répond que cela signifie être « ballotté et emporté à tout vent de la doctrine » (Ep 4, 14). Description très actuelle !Combien de vents de doctrines avons-nous connu au cours de ces dernières décennies, combien de courants idéologiques, de modes de pensée? La petite barque de la pensée de nombreux chrétiens, bien souvent, a été agitée par ces vagues, jetée d?un extrême à l?autre : du marxisme au libéralisme, jusqu?au libertinisme ; du collectivisme à l?individualisme radical ; de l?athéisme à un vague mysticisme religieux ; de l?agnosticisme au syncrétisme et ainsi de suite. Chaque jour, naissent de nouvelle sectes, réalisant ce que disait saint Paul sur l?imposture des hommes, sur l?astuce qui entraîne dans l?erreur (cf Ep 4, 14). Avoir une foi claire, selon le Credo de l?Eglise, est souvent étiqueté comme fondamentalisme. Tandis que le relativisme, c?est-à-dire se laisser porter « à tout vent de la doctrine », apparaît comme l?unique attitude digne de notre époque. Une dictature du relativisme est en train de se constituer qui ne reconnaît rien comme définitif et qui retient comme ultime critère que son propre ego et ses désirs .
Nous, en revanche, nous avons une autre mesure : le Fils de Dieu, l?homme véritable. C?est lui la mesure du véritable humanisme. Une foi qui suit les vagues de la mode n?est pas « adulte ». Une foi adulte et mûre est profondément enracinée dans l?amitié avec le Christ. C?est cette amitié qui nous ouvre à tout ce qui est bon et nous donne le critère pour discerner entre le vrai et le faux, entre l?imposture et la vérité."
"Outline of a Ratzinger papacy": escrito por John L. Allen, Jr., correspondente em Roma do National Catolic Reporter, texto escrito antes da eleição.
Homilia de Ratzinger na missa que antecedeu o conclave que o elegeu (extractos):
"Arrêtons-nous seulement sur deux points. Le premier est le chemin vers « la maturité du Christ », comme le dit, un peu en simplifiant, le texte italien. Plus précisément nous devrions, selon le texte grec, parler de la « mesure de la plénitude du Christ », à laquelle nous sommes appelés à parvenir pour être réellement adultes dans la foi. Nous ne devrions pas rester des enfants dans la foi, comme des mineurs. En quoi consiste être adulte dans la foi ? Saint Paul répond que cela signifie être « ballotté et emporté à tout vent de la doctrine » (Ep 4, 14). Description très actuelle !Combien de vents de doctrines avons-nous connu au cours de ces dernières décennies, combien de courants idéologiques, de modes de pensée? La petite barque de la pensée de nombreux chrétiens, bien souvent, a été agitée par ces vagues, jetée d?un extrême à l?autre : du marxisme au libéralisme, jusqu?au libertinisme ; du collectivisme à l?individualisme radical ; de l?athéisme à un vague mysticisme religieux ; de l?agnosticisme au syncrétisme et ainsi de suite. Chaque jour, naissent de nouvelle sectes, réalisant ce que disait saint Paul sur l?imposture des hommes, sur l?astuce qui entraîne dans l?erreur (cf Ep 4, 14). Avoir une foi claire, selon le Credo de l?Eglise, est souvent étiqueté comme fondamentalisme. Tandis que le relativisme, c?est-à-dire se laisser porter « à tout vent de la doctrine », apparaît comme l?unique attitude digne de notre époque. Une dictature du relativisme est en train de se constituer qui ne reconnaît rien comme définitif et qui retient comme ultime critère que son propre ego et ses désirs .
Nous, en revanche, nous avons une autre mesure : le Fils de Dieu, l?homme véritable. C?est lui la mesure du véritable humanisme. Une foi qui suit les vagues de la mode n?est pas « adulte ». Une foi adulte et mûre est profondément enracinée dans l?amitié avec le Christ. C?est cette amitié qui nous ouvre à tout ce qui est bon et nous donne le critère pour discerner entre le vrai et le faux, entre l?imposture et la vérité."
Inverno da Igreja Católica
Há, sempre, que admitir a possibilidade da surpresa. Numa instituição como a Igreja Católica, "o Espírito sopra onde quer" (Jo 3,8), apesar de haver sempre quem queira que ele sopre para determinado lado.
Mas o mais certo é que, em muitos aspectos, a Igreja continue a cerrar fileiras. Em nome de uma luta contra o relativismo entendido como incompatível com a diversidade e a pluralidade no pensar, no sentir e no expressar. É assim provável que, globalmente, nos tenhamos de preparar para um Inverno. É a estação que sucede ao Outono que foi, em certa medida, o pontificado de João Paulo II. O paradoxo do Inverno é que é o tempo em que, vergastadas pela intempérie, curtidas pelo frio, as vergônteas nuas vão ganhando forças para o despontar dos gomos.
Há, sempre, que admitir a possibilidade da surpresa. Numa instituição como a Igreja Católica, "o Espírito sopra onde quer" (Jo 3,8), apesar de haver sempre quem queira que ele sopre para determinado lado.
Mas o mais certo é que, em muitos aspectos, a Igreja continue a cerrar fileiras. Em nome de uma luta contra o relativismo entendido como incompatível com a diversidade e a pluralidade no pensar, no sentir e no expressar. É assim provável que, globalmente, nos tenhamos de preparar para um Inverno. É a estação que sucede ao Outono que foi, em certa medida, o pontificado de João Paulo II. O paradoxo do Inverno é que é o tempo em que, vergastadas pela intempérie, curtidas pelo frio, as vergônteas nuas vão ganhando forças para o despontar dos gomos.
segunda-feira, 18 de abril de 2005
Uma Igreja para os nossos filhos
Teresa Martinho Toldy, Teóloga, Professora na Universidade Fernando Pessoa (Porto)
In Público, 18.4.2005
Mais importante do que saber quem será o próximo Papa, é saber o que será a Igreja no futuro. Que Igreja para os nossos filhos? E, em função dela, que Papa para os próximos tempos?
Começa agora o Conclave para a eleição do novo Papa. As atenções de uma parte do mundo estão concentradas em Roma. Os católicos aguardam, muitos, com expectativa, outros, com preocupação. As especulações são muitas. Os "papáveis", ao que parece, também... Tem sido frequente, ao longo da história da Igreja Católica, a eleição de um candidato considerado "improvável" ou nem sequer mencionado. Foi, aliás, o que aconteceu na eleição do Papa João Paulo II.
Partilho esta expectativa, bem como a preocupação. Estou, contudo, convicta de que a Igreja constitui uma realidade e uma experiência que não se esgota na escolha de um Papa para a orientar. É convicção da Igreja que é o Espírito Santo que a conduz. E esta convicção fundamenta um adágio antigo segundo o qual a Igreja é sempre reformável, está em constante processo de evolução, numa tentativa permanente de se aproximar mais da vontade de Jesus Cristo e da experiência fundacional do grupo de discípulos e de discípulas que ele reuniu à sua volta.
Como tal, e, apesar de saber que corro o risco de ser "politicamente incorrecta", diria que, mais importante do que saber quem será o próximo Papa, é saber o que será a Igreja no futuro. Que Igreja para os nossos filhos? E, em função dela, que Papa para os próximos tempos?
Uma Igreja mais humana a Igreja para as futuras gerações deveria ser uma Igreja cuja opção radical pelos mais pobres fosse inquestionável e óbvia, antes de mais, para os próprios excluídos, mas também para os poderosos deste mundo. Esta humanidade da Igreja deveria ser acompanhada de uma atitude de escuta do mundo. Não ficaria mal à Igreja não se colocar tanto na posição de mestra, como na atitude de companheira de caminho de um mundo cuja história continua em aberto. Uma Igreja mais humana implicaria, então, da parte da sua hierarquia e do Papa, a perda do medo de enfrentar e de fazer experiência da existência quotidiana de todos os homens e mulheres deste mundo: o amor, a sexualidade, a paternidade e a maternidade, o trabalho, a intervenção sócio-política, mas também as perplexidades, as angústias, as incertezas, que fazem do ser humano aquilo que o define como simultaneamente próximo de Deus e frágil como o barro. Enquanto a orientação pastoral da Igreja estiver entregue exclusiva ou preponderantemente a pessoas que não fazem esta experiência comum a todos os seres mortais, a Igreja corre o risco de se tornar irrelevante, porque completamente alheia à realidade humana.
A Igreja das discípulas e dos discípulos de Jesus a Igreja para as futuras gerações deveria ser uma Igreja menos centrada em Roma, que abandonasse decididamente uma concepção piramidal - com o Papa no vértice, seguido pelos bispos, estes, pelos padres, e, por sua vez, estes últimos, pelos diáconos - para se converter à concepção de Igreja presente no Concílio Vaticano II - uma Igreja cujos membros são todos discípulos de Jesus, com funções diversas, mas com igual dignidade e possibilidade de intervenção. Seria necessário prosseguir corajosamente esta linha de pensamento, em particular, reconhecendo a todas as mulheres e a todos os homens cristãos um papel activo na determinação das linhas de intervenção sócio-pastoral da Igreja, portanto, o direito a participar nas decisões tomadas no interior da comunidade, o que deveria levar à valorização e revitalização das estruturas de participação já existentes, bem como à possibilidade de criação de novas estruturas, se necessário. A participação de todos nas decisões que têm implicações para todos deveria dar lugar a uma reflexão sobre a possibilidade de equacionar determinados cargos e funções de uma forma não vitalícia, mais ágil, mais colegial, mais democrática.
Nota final continuo a alimentar o sonho de que os nossos filhos vejam uma Igreja na qual o ministério ordenado, em todos seus graus, seja partilhado igualmente por homens e mulheres.
Teresa Martinho Toldy, Teóloga, Professora na Universidade Fernando Pessoa (Porto)
In Público, 18.4.2005
Mais importante do que saber quem será o próximo Papa, é saber o que será a Igreja no futuro. Que Igreja para os nossos filhos? E, em função dela, que Papa para os próximos tempos?
Começa agora o Conclave para a eleição do novo Papa. As atenções de uma parte do mundo estão concentradas em Roma. Os católicos aguardam, muitos, com expectativa, outros, com preocupação. As especulações são muitas. Os "papáveis", ao que parece, também... Tem sido frequente, ao longo da história da Igreja Católica, a eleição de um candidato considerado "improvável" ou nem sequer mencionado. Foi, aliás, o que aconteceu na eleição do Papa João Paulo II.
Partilho esta expectativa, bem como a preocupação. Estou, contudo, convicta de que a Igreja constitui uma realidade e uma experiência que não se esgota na escolha de um Papa para a orientar. É convicção da Igreja que é o Espírito Santo que a conduz. E esta convicção fundamenta um adágio antigo segundo o qual a Igreja é sempre reformável, está em constante processo de evolução, numa tentativa permanente de se aproximar mais da vontade de Jesus Cristo e da experiência fundacional do grupo de discípulos e de discípulas que ele reuniu à sua volta.
Como tal, e, apesar de saber que corro o risco de ser "politicamente incorrecta", diria que, mais importante do que saber quem será o próximo Papa, é saber o que será a Igreja no futuro. Que Igreja para os nossos filhos? E, em função dela, que Papa para os próximos tempos?
Uma Igreja mais humana a Igreja para as futuras gerações deveria ser uma Igreja cuja opção radical pelos mais pobres fosse inquestionável e óbvia, antes de mais, para os próprios excluídos, mas também para os poderosos deste mundo. Esta humanidade da Igreja deveria ser acompanhada de uma atitude de escuta do mundo. Não ficaria mal à Igreja não se colocar tanto na posição de mestra, como na atitude de companheira de caminho de um mundo cuja história continua em aberto. Uma Igreja mais humana implicaria, então, da parte da sua hierarquia e do Papa, a perda do medo de enfrentar e de fazer experiência da existência quotidiana de todos os homens e mulheres deste mundo: o amor, a sexualidade, a paternidade e a maternidade, o trabalho, a intervenção sócio-política, mas também as perplexidades, as angústias, as incertezas, que fazem do ser humano aquilo que o define como simultaneamente próximo de Deus e frágil como o barro. Enquanto a orientação pastoral da Igreja estiver entregue exclusiva ou preponderantemente a pessoas que não fazem esta experiência comum a todos os seres mortais, a Igreja corre o risco de se tornar irrelevante, porque completamente alheia à realidade humana.
A Igreja das discípulas e dos discípulos de Jesus a Igreja para as futuras gerações deveria ser uma Igreja menos centrada em Roma, que abandonasse decididamente uma concepção piramidal - com o Papa no vértice, seguido pelos bispos, estes, pelos padres, e, por sua vez, estes últimos, pelos diáconos - para se converter à concepção de Igreja presente no Concílio Vaticano II - uma Igreja cujos membros são todos discípulos de Jesus, com funções diversas, mas com igual dignidade e possibilidade de intervenção. Seria necessário prosseguir corajosamente esta linha de pensamento, em particular, reconhecendo a todas as mulheres e a todos os homens cristãos um papel activo na determinação das linhas de intervenção sócio-pastoral da Igreja, portanto, o direito a participar nas decisões tomadas no interior da comunidade, o que deveria levar à valorização e revitalização das estruturas de participação já existentes, bem como à possibilidade de criação de novas estruturas, se necessário. A participação de todos nas decisões que têm implicações para todos deveria dar lugar a uma reflexão sobre a possibilidade de equacionar determinados cargos e funções de uma forma não vitalícia, mais ágil, mais colegial, mais democrática.
Nota final continuo a alimentar o sonho de que os nossos filhos vejam uma Igreja na qual o ministério ordenado, em todos seus graus, seja partilhado igualmente por homens e mulheres.
sexta-feira, 15 de abril de 2005
"E se fosse o Dalai Lama?"
Esther Mucznik (investigadora em assuntos judaicos )
Público, 15.4.2005
Pluralismo não significa relativismo. A presença livre, pública e aberta de vários cultos não apaga a realidade evidente da presença dominante de uma religião, neste caso a católica. A separação entre Estado e religião não nega esta realidade, e muito menos a cultura religiosa dominante
Será permitido a um representante de um Estado laico chamar "Sua Santidade" ao Papa João Paulo II, sem ofender a neutralidade religiosa do Estado? Ou, na mesma ordem de ideias, não constituem as bandeiras a meia haste e os dias de luto nacional pelo seu falecimento um atentado à laicidade, como foram qualificados por alguns sectores, em países como a França, Espanha e, mais timidamente, em Portugal? O "Verde" Christophe Girard, por exemplo, adjunto do "maire" de Paris, afirmou-se "perturbado" pela "utilização do símbolo nacional", abrindo assim a porta ao "aguçar dos apetites comunitários", no que foi apoiado pelo senador socialista Yves Contassot, apelando às autoridades a porem em prática uma "laicidade absolutamente sem sombra, sem meias-tintas". Também a TVE pública foi criticada por ter dado uma "cobertura excessiva" ao acontecimento, infringindo o artigo 16 da sua Constituição, que afirma o carácter laico do Estado espanhol. Curiosamente, constatamos que estas questões são levantadas sobretudo em países de população maioritariamente católica, em particular pela "filha mais velha" da Igreja, a França. Como se sabe foi também a França o motor da guerra contra a introdução da referência à "herança cristã" na Constituição europeia.Estes episódios não passariam de meros "faits divers" se não fossem reveladores de um mal-estar em relação à religião. A realidade é que a Europa, sobretudo a Europa Ocidental de cultura religiosa católica, convive mal com a religião, confunde as fronteiras da laicidade, mistura cultura religiosa dominante e religião oficial.Porque, o que significa, na boca dos seus defensores, uma "laicidade absolutamente sem sombra, nem meias-tintas"? Significa, em primeiro lugar, a erradicação total e absoluta, a "purificação", diria eu, de todos os actos e edifícios públicos e, já agora, da linguagem também, de toda e qualquer referência de carácter religioso. Mas, mais do que isso, a laicidade "sem meias tintas", propõe-se ignorar o fenómeno religioso, em qualquer das suas expressões, impedi-lo de se exprimir publicamente, encerrá-lo na esfera privada dos cidadãos. No limite, o Estado teria de banir os feriados religiosos cristãos, e obrigar os eleitos a praticar a auto-censura da sua linguagem pública, banindo por exemplo, o "se Deus quiser"... Ou seja tapar com o manto branco da neutralidade asséptica, qualquer indício de cultura religiosa. Ou retirá-la da vida, musealizando-a... Em relação ao falecimento do Papa, por exemplo, noticiá-la como mais uma notícia que apenas diz respeito ao foro privado dos católicos. Acontece, porém, que os católicos são 90 por cento desses países e, mais importante do que isso, a cultura religiosa católica e cristã é dominante, é o fundamento da sua história, das suas tradições, costumes e valores, do essencial da sua identidade. Negar esta realidade é destruir uma das principais bases da coesão social, um dos principais elementos de comunhão de origem, clamorosamente manifestada em Roma nos milhões de pessoas que aí acorreram ou que assistiram pela televisão à agonia do Papa.Por detrás desta crispação laica está no fundo a negação da religião, está a velha convicção que data do século XIX europeu, que para libertar as consciências era preciso recalcar a religião: a razão contra a fé. A primeira metade do século XX pareceu confirmar esta ideia. Exceptuando os Estados Unidos, a prática religiosa recuou em todo o mundo ocidental, as igrejas esvaziaram-se, as crenças e instituições religiosas desempenhavam um papel cada vez menor e marginal. Na cena pública, a ideologia tomou o lugar da religião. Governos, povos e movimentos sociais definiam-se em função das ideologias laicas: comunismo, liberalismo, fascismo...Mas no último quartel do século XX, a marcha em direcção à secularização inverteu-se. A religião ressurgiu em força e contrariamente às previsões, os seus adeptos não se encontram apenas nas pessoas de idade e entre os mais pobres, mas em todas as idades, sobretudo em jovens instruídos e com profissões de sucesso. A tendência inverteu-se: os ateus e os anti-clericais puros e duros encontram-se hoje nas gerações mais velhas, na geração das ideologias. Na Europa de Leste, a religião e a Igreja Católica foram os símbolos da resistência nacional e de luta pela liberdade; na Europa Ocidental, pelo contrário, religião e liberdade estiveram frequentemente em campos opostos. A laicidade, no ocidente europeu, nasce assim do conflito. Em muitas consciências permanece ainda a memória da ruptura violenta entre Estado e religião.Mas esta realidade não pode obscurecer duas questões essenciais:Em primeiro lugar, a laicidade não é uma doutrina (mais uma) dogmática e agressiva, mas sim a expressão de uma liberdade essencial, de um direito do homem e do cidadão. Não representa uma vingança histórica contra a Igreja Católica, mas sim o reconhecimento do pluralismo religioso e do direito inalienável individual e colectivo ao exercício livre e aberto da diferença religiosa. Não conduz o Estado a ignorar o fenómeno religioso, mas pelo contrário a reconhecer a sua função social permitindo e ajudando, não apenas um único culto mas todos, a cumprir essa função. Em segundo lugar, pluralismo não significa relativismo. A presença livre, pública e aberta de vários cultos não apaga a realidade evidente da presença dominante de uma religião, neste caso a católica. A separação entre estado e religião não nega esta realidade, e muito menos a cultura religiosa dominante. Porque uma religião representa muito mais do que um rito e uma prática ou até do que uma fé. Representa uma cultura no seu sentido mais lato, de costumes e tradições, mitos e memória, ética e valores, língua e linguagem, esquema mental e pensamento... em relação íntima com a história, a geografia e até o clima. Voltando ao princípio: não sendo católica, não me choca, não me incomoda que um estado laico, como o português, celebre luto nacional pelo chefe espiritual da Igreja Católica, neste caso o Papa João Paulo II. Não só pela sua estatura humana e espiritual, não só pela sua imensa obra de reconciliação entre as religiões, mas também porque reconheço que a cultura religiosa dominante em Portugal é a católica, é ela que tece as malhas do tecido social; e que a laicidade não consiste em fazer de conta que não é assim, como o querem fazer crer os argumentos do tipo "Se fosse o Dalai Lama...", mas em exigir o respeito escrupuloso pela independência religiosa do Estado de direito, assim como da liberdade de expressão e organização pública e privada das outras confissões religiosas.Quanto à expressão de Sua Santidade, lembro a todos os puristas que quando pronunciarem a palavra "Rabi" se estão a referir ao "meu" mestre...
Esther Mucznik (investigadora em assuntos judaicos )
Público, 15.4.2005
Pluralismo não significa relativismo. A presença livre, pública e aberta de vários cultos não apaga a realidade evidente da presença dominante de uma religião, neste caso a católica. A separação entre Estado e religião não nega esta realidade, e muito menos a cultura religiosa dominante
Será permitido a um representante de um Estado laico chamar "Sua Santidade" ao Papa João Paulo II, sem ofender a neutralidade religiosa do Estado? Ou, na mesma ordem de ideias, não constituem as bandeiras a meia haste e os dias de luto nacional pelo seu falecimento um atentado à laicidade, como foram qualificados por alguns sectores, em países como a França, Espanha e, mais timidamente, em Portugal? O "Verde" Christophe Girard, por exemplo, adjunto do "maire" de Paris, afirmou-se "perturbado" pela "utilização do símbolo nacional", abrindo assim a porta ao "aguçar dos apetites comunitários", no que foi apoiado pelo senador socialista Yves Contassot, apelando às autoridades a porem em prática uma "laicidade absolutamente sem sombra, sem meias-tintas". Também a TVE pública foi criticada por ter dado uma "cobertura excessiva" ao acontecimento, infringindo o artigo 16 da sua Constituição, que afirma o carácter laico do Estado espanhol. Curiosamente, constatamos que estas questões são levantadas sobretudo em países de população maioritariamente católica, em particular pela "filha mais velha" da Igreja, a França. Como se sabe foi também a França o motor da guerra contra a introdução da referência à "herança cristã" na Constituição europeia.Estes episódios não passariam de meros "faits divers" se não fossem reveladores de um mal-estar em relação à religião. A realidade é que a Europa, sobretudo a Europa Ocidental de cultura religiosa católica, convive mal com a religião, confunde as fronteiras da laicidade, mistura cultura religiosa dominante e religião oficial.Porque, o que significa, na boca dos seus defensores, uma "laicidade absolutamente sem sombra, nem meias-tintas"? Significa, em primeiro lugar, a erradicação total e absoluta, a "purificação", diria eu, de todos os actos e edifícios públicos e, já agora, da linguagem também, de toda e qualquer referência de carácter religioso. Mas, mais do que isso, a laicidade "sem meias tintas", propõe-se ignorar o fenómeno religioso, em qualquer das suas expressões, impedi-lo de se exprimir publicamente, encerrá-lo na esfera privada dos cidadãos. No limite, o Estado teria de banir os feriados religiosos cristãos, e obrigar os eleitos a praticar a auto-censura da sua linguagem pública, banindo por exemplo, o "se Deus quiser"... Ou seja tapar com o manto branco da neutralidade asséptica, qualquer indício de cultura religiosa. Ou retirá-la da vida, musealizando-a... Em relação ao falecimento do Papa, por exemplo, noticiá-la como mais uma notícia que apenas diz respeito ao foro privado dos católicos. Acontece, porém, que os católicos são 90 por cento desses países e, mais importante do que isso, a cultura religiosa católica e cristã é dominante, é o fundamento da sua história, das suas tradições, costumes e valores, do essencial da sua identidade. Negar esta realidade é destruir uma das principais bases da coesão social, um dos principais elementos de comunhão de origem, clamorosamente manifestada em Roma nos milhões de pessoas que aí acorreram ou que assistiram pela televisão à agonia do Papa.Por detrás desta crispação laica está no fundo a negação da religião, está a velha convicção que data do século XIX europeu, que para libertar as consciências era preciso recalcar a religião: a razão contra a fé. A primeira metade do século XX pareceu confirmar esta ideia. Exceptuando os Estados Unidos, a prática religiosa recuou em todo o mundo ocidental, as igrejas esvaziaram-se, as crenças e instituições religiosas desempenhavam um papel cada vez menor e marginal. Na cena pública, a ideologia tomou o lugar da religião. Governos, povos e movimentos sociais definiam-se em função das ideologias laicas: comunismo, liberalismo, fascismo...Mas no último quartel do século XX, a marcha em direcção à secularização inverteu-se. A religião ressurgiu em força e contrariamente às previsões, os seus adeptos não se encontram apenas nas pessoas de idade e entre os mais pobres, mas em todas as idades, sobretudo em jovens instruídos e com profissões de sucesso. A tendência inverteu-se: os ateus e os anti-clericais puros e duros encontram-se hoje nas gerações mais velhas, na geração das ideologias. Na Europa de Leste, a religião e a Igreja Católica foram os símbolos da resistência nacional e de luta pela liberdade; na Europa Ocidental, pelo contrário, religião e liberdade estiveram frequentemente em campos opostos. A laicidade, no ocidente europeu, nasce assim do conflito. Em muitas consciências permanece ainda a memória da ruptura violenta entre Estado e religião.Mas esta realidade não pode obscurecer duas questões essenciais:Em primeiro lugar, a laicidade não é uma doutrina (mais uma) dogmática e agressiva, mas sim a expressão de uma liberdade essencial, de um direito do homem e do cidadão. Não representa uma vingança histórica contra a Igreja Católica, mas sim o reconhecimento do pluralismo religioso e do direito inalienável individual e colectivo ao exercício livre e aberto da diferença religiosa. Não conduz o Estado a ignorar o fenómeno religioso, mas pelo contrário a reconhecer a sua função social permitindo e ajudando, não apenas um único culto mas todos, a cumprir essa função. Em segundo lugar, pluralismo não significa relativismo. A presença livre, pública e aberta de vários cultos não apaga a realidade evidente da presença dominante de uma religião, neste caso a católica. A separação entre estado e religião não nega esta realidade, e muito menos a cultura religiosa dominante. Porque uma religião representa muito mais do que um rito e uma prática ou até do que uma fé. Representa uma cultura no seu sentido mais lato, de costumes e tradições, mitos e memória, ética e valores, língua e linguagem, esquema mental e pensamento... em relação íntima com a história, a geografia e até o clima. Voltando ao princípio: não sendo católica, não me choca, não me incomoda que um estado laico, como o português, celebre luto nacional pelo chefe espiritual da Igreja Católica, neste caso o Papa João Paulo II. Não só pela sua estatura humana e espiritual, não só pela sua imensa obra de reconciliação entre as religiões, mas também porque reconheço que a cultura religiosa dominante em Portugal é a católica, é ela que tece as malhas do tecido social; e que a laicidade não consiste em fazer de conta que não é assim, como o querem fazer crer os argumentos do tipo "Se fosse o Dalai Lama...", mas em exigir o respeito escrupuloso pela independência religiosa do Estado de direito, assim como da liberdade de expressão e organização pública e privada das outras confissões religiosas.Quanto à expressão de Sua Santidade, lembro a todos os puristas que quando pronunciarem a palavra "Rabi" se estão a referir ao "meu" mestre...
quinta-feira, 24 de março de 2005
Vibrant Cities Find One Thing Missing: Children
By TIMOTHY EGAN
The New York Times, March 24, 2005
PORTLAND, Ore. - The Pearl District in the heart of this perpetually self-improving city seems to have everything in new urban design and comfort, from the Whole Foods store where fresh-buffed bell peppers are displayed like runway models to the converted lofts that face sidewalk gardens.
Everything except children.
Crime is down. New homes and businesses are sprouting everywhere. But in what may be Portland's trendiest and fastest-growing neighborhood, the number of school-age children grew by only three between the census counts in 1990 and 2000, according to demographers at Portland State University.
"The neighborhood would love to have more kids, that's probably the top of our wish list," said Joan Pendergast of the Pearl Neighborhood Association. "We don't want to be a one-dimensional place."
It is a problem unlike the urban woes of cities like Detroit and Baltimore, where families have fled decaying neighborhoods, business areas and schools. Portland is one of the nation's top draws for the kind of educated, self-starting urbanites that midsize cities are competing to attract. But as these cities are remodeled to match the tastes of people living well in neighborhoods that were nearly abandoned a generation ago, they are struggling to hold on to enough children to keep schools running and parks alive with young voices.
San Francisco, where the median house price is now about $700,000, had the lowest percentage of people under 18 of any large city in the nation, 14.5 percent, compared with 25.7 percent nationwide, the 2000 census reported. Seattle, where there are more dogs than children, was a close second. Boston, Honolulu, Portland, Miami, Denver, Minneapolis, Austin and Atlanta, all considered, healthy, vibrant urban areas, were not far behind. The problem is not just that American women are having fewer children, reflected in the lowest birth rate ever recorded in the country.
Officials say that the very things that attract people who revitalize a city - dense vertical housing, fashionable restaurants and shops and mass transit that makes a car unnecessary - are driving out children by making the neighborhoods too expensive for young families.
Other cities have tried and failed to curb family flight. In Portland, the new mayor, Tom Potter, says demography does not have to be destiny. He has dedicated his term to trying to keep children in the city.
Every child a city loses, on average, can mean a loss of about $5,000 for the school district, officials say. Children also create a constituency for parks, trails and public safety improvements, Mr. Potter said, and their parents tend to favor upgrading those amenities through higher taxes. He has been bringing children in to speak to the City Council and has pushed for incentives for affordable housing with enough bedrooms to accommodate bigger families.
A former police chief who helped pioneer community patrolling, Mayor Potter has 14 grandchildren and says a city's health should be measured by its youngest citizens. "We can't let Portland become a retirement city or a city without neighborhood schools," he said.
New York and Los Angeles, because of their large immigrant populations, have maintained their base of children, but demographers, pointing to falling birth rates among Latinos and other ethnic groups, say the nation's biggest cities may soon follow the others.
In Portland, the trends are not in Mayor Potter's favor. From 1990 to 2003 the city added more than 90,000 people, growing to an estimated 529,121 residents, but Portland is now educating the fewest students in more than 80 years.
The problem is not that children are leaving for private schools, officials said. It is that new people attracted to the city tend to have higher incomes, having already raised a family; are retiring; or are single and unlikely to have children.
After interviewing 300 parents who had left the city, researchers at Portland State found that high housing costs and a desire for space were the top reasons.
Tina Ray lived in Portland for 12 years before moving to Gresham, where her 9-year-old daughter attends school. Her family left for a bigger house and more space, she said. "It's kid friendly, with a great sense of community, and lots of sports leagues," she said.
Many Portland families are relocating to the newest edge suburbs, where housing prices are cheapest, including Clark County across the Columbia River in Washington, Portland State demographers say.
After a drop of 10,000 students in the last decade, Portland officials called in March for the closing of six schools, prompting cries of grief from three generations of adults who say that nothing takes the heart out of a neighborhood like a shuttered school.
The pool of school-age children is shrinking so fast that Portland will have to close the equivalent of three or four elementary schools a year over the next decade, according to school district projections.
"I don't think we're going to become a nearly childless city like San Francisco, but the age structure is really changing," said Barry Edmonston, an urban studies professor at Portland State, who does demographic projections for the school district. "People are not turning over the houses like they used to. They're aging in place, at the same time that prices are really going up, making it hard for young families to move into the city."
Nationally, the birthrate has been dropping while the overall population is aging as life expectancy increases. The problem is not just in cities. New figures released this month showed North Dakota losing more children than any other state.
Scottsdale, Ariz., a fast-growing Phoenix suburb, lost 571 students last year. San Jose closed three schools last year and expects to close three more soon.
Between 2003 and 2004, only six states had an increase in their elementary school population, the census bureau reported in March.
In that sense, the United States is following Europe and the rest of the industrial world, where birthrates now rarely exceed the rate needed to replace the population.
"If you took immigrants out of the equation, the United States would be like the rest of Europe," said Phillip Longman, a senior fellow at the New America Foundation, a public policy research organization in Washington. He is the author of "The Empty Cradle: How Falling Birth Rates Threaten World Prosperity and What To Do About It."
Mr. Longman said a decline in children not only takes away "human capital" needed to sustain an aging population, but "having fewer children really diminishes the quality of life in a city."
Most city leaders seem to agree. Even in San Francisco, where officials are preparing for another round of school closings amid a projected decline of 4,000 students in the next five years, city officials are aggressively marketing the city and its schools to young families.
But what they cannot do, especially after the failure last year of a ballot measure sponsored by the Chamber of Commerce to encourage affordable housing, is bring housing prices down.
"It's a real challenge trying to raise a kid in San Francisco," said Jim Armstrong, a father of two who is active in Little League in the city and rents a home. "It takes a degree of fortitude for a parent to stay with the city."
Other cities that have tried to reverse the family outflow have had mixed success. As mayor of Seattle for 12 years, until 1990, Charles Royer started an initiative called KidsPlace, which has been widely copied by other cities. It included marketing the city's neighborhoods to young families, building a small mix of affordable housing, and zoning and policing changes to make urban parks more child-friendly.
Mr. Royer said he was ridiculed for signs placed around town proclaiming "Seattle is a KidsPlace" and took criticism from social service agencies who thought bringing in more families would only place more demands on the limited money they had. Mr. Royer said he was bucking historic changes, and Seattle now has some of the nation's highest-priced real estate and its lowest percentage of children.
"I said things like, 'We don't want to be like San Francisco,' but in the end, I don't think we were terribly effective at stemming that tide," Mr. Royer said. "It's not so much a social problem as it is a demographic and financial problem."
Here in Portland, the city is bemoaning the demographic cycle as it unfolds before their eyes. On the day of the announcement to close Kenton Elementary School, which has anchored a north Portland neighborhood for 91 years, some parents and residents reacted as if there had been a death in the family.
"I feel heartbroken," said Mary Krogh, who had planned to enroll her 4-year-old son, Chase, in the school. "It's just a terrible loss."
The school and a tightknit community were among the things that attracted Ms. Krogh and her husband to the neighborhood seven years ago, she said.
But now the school will be shuttered, and improvements from Portland's beloved light rail line have contributed to rising real estate prices, defeating the broad goals of the mayor's effort to bring and keep young families in the city.
"Portland is a great city that attracts a lot of educated people," she said. "But the real estate is becoming outrageously expensive. And then you get wealthy singles and wealthy retirees. What's missing are kids. And that feels really sterile to me."
By TIMOTHY EGAN
The New York Times, March 24, 2005
PORTLAND, Ore. - The Pearl District in the heart of this perpetually self-improving city seems to have everything in new urban design and comfort, from the Whole Foods store where fresh-buffed bell peppers are displayed like runway models to the converted lofts that face sidewalk gardens.
Everything except children.
Crime is down. New homes and businesses are sprouting everywhere. But in what may be Portland's trendiest and fastest-growing neighborhood, the number of school-age children grew by only three between the census counts in 1990 and 2000, according to demographers at Portland State University.
"The neighborhood would love to have more kids, that's probably the top of our wish list," said Joan Pendergast of the Pearl Neighborhood Association. "We don't want to be a one-dimensional place."
It is a problem unlike the urban woes of cities like Detroit and Baltimore, where families have fled decaying neighborhoods, business areas and schools. Portland is one of the nation's top draws for the kind of educated, self-starting urbanites that midsize cities are competing to attract. But as these cities are remodeled to match the tastes of people living well in neighborhoods that were nearly abandoned a generation ago, they are struggling to hold on to enough children to keep schools running and parks alive with young voices.
San Francisco, where the median house price is now about $700,000, had the lowest percentage of people under 18 of any large city in the nation, 14.5 percent, compared with 25.7 percent nationwide, the 2000 census reported. Seattle, where there are more dogs than children, was a close second. Boston, Honolulu, Portland, Miami, Denver, Minneapolis, Austin and Atlanta, all considered, healthy, vibrant urban areas, were not far behind. The problem is not just that American women are having fewer children, reflected in the lowest birth rate ever recorded in the country.
Officials say that the very things that attract people who revitalize a city - dense vertical housing, fashionable restaurants and shops and mass transit that makes a car unnecessary - are driving out children by making the neighborhoods too expensive for young families.
Other cities have tried and failed to curb family flight. In Portland, the new mayor, Tom Potter, says demography does not have to be destiny. He has dedicated his term to trying to keep children in the city.
Every child a city loses, on average, can mean a loss of about $5,000 for the school district, officials say. Children also create a constituency for parks, trails and public safety improvements, Mr. Potter said, and their parents tend to favor upgrading those amenities through higher taxes. He has been bringing children in to speak to the City Council and has pushed for incentives for affordable housing with enough bedrooms to accommodate bigger families.
A former police chief who helped pioneer community patrolling, Mayor Potter has 14 grandchildren and says a city's health should be measured by its youngest citizens. "We can't let Portland become a retirement city or a city without neighborhood schools," he said.
New York and Los Angeles, because of their large immigrant populations, have maintained their base of children, but demographers, pointing to falling birth rates among Latinos and other ethnic groups, say the nation's biggest cities may soon follow the others.
In Portland, the trends are not in Mayor Potter's favor. From 1990 to 2003 the city added more than 90,000 people, growing to an estimated 529,121 residents, but Portland is now educating the fewest students in more than 80 years.
The problem is not that children are leaving for private schools, officials said. It is that new people attracted to the city tend to have higher incomes, having already raised a family; are retiring; or are single and unlikely to have children.
After interviewing 300 parents who had left the city, researchers at Portland State found that high housing costs and a desire for space were the top reasons.
Tina Ray lived in Portland for 12 years before moving to Gresham, where her 9-year-old daughter attends school. Her family left for a bigger house and more space, she said. "It's kid friendly, with a great sense of community, and lots of sports leagues," she said.
Many Portland families are relocating to the newest edge suburbs, where housing prices are cheapest, including Clark County across the Columbia River in Washington, Portland State demographers say.
After a drop of 10,000 students in the last decade, Portland officials called in March for the closing of six schools, prompting cries of grief from three generations of adults who say that nothing takes the heart out of a neighborhood like a shuttered school.
The pool of school-age children is shrinking so fast that Portland will have to close the equivalent of three or four elementary schools a year over the next decade, according to school district projections.
"I don't think we're going to become a nearly childless city like San Francisco, but the age structure is really changing," said Barry Edmonston, an urban studies professor at Portland State, who does demographic projections for the school district. "People are not turning over the houses like they used to. They're aging in place, at the same time that prices are really going up, making it hard for young families to move into the city."
Nationally, the birthrate has been dropping while the overall population is aging as life expectancy increases. The problem is not just in cities. New figures released this month showed North Dakota losing more children than any other state.
Scottsdale, Ariz., a fast-growing Phoenix suburb, lost 571 students last year. San Jose closed three schools last year and expects to close three more soon.
Between 2003 and 2004, only six states had an increase in their elementary school population, the census bureau reported in March.
In that sense, the United States is following Europe and the rest of the industrial world, where birthrates now rarely exceed the rate needed to replace the population.
"If you took immigrants out of the equation, the United States would be like the rest of Europe," said Phillip Longman, a senior fellow at the New America Foundation, a public policy research organization in Washington. He is the author of "The Empty Cradle: How Falling Birth Rates Threaten World Prosperity and What To Do About It."
Mr. Longman said a decline in children not only takes away "human capital" needed to sustain an aging population, but "having fewer children really diminishes the quality of life in a city."
Most city leaders seem to agree. Even in San Francisco, where officials are preparing for another round of school closings amid a projected decline of 4,000 students in the next five years, city officials are aggressively marketing the city and its schools to young families.
But what they cannot do, especially after the failure last year of a ballot measure sponsored by the Chamber of Commerce to encourage affordable housing, is bring housing prices down.
"It's a real challenge trying to raise a kid in San Francisco," said Jim Armstrong, a father of two who is active in Little League in the city and rents a home. "It takes a degree of fortitude for a parent to stay with the city."
Other cities that have tried to reverse the family outflow have had mixed success. As mayor of Seattle for 12 years, until 1990, Charles Royer started an initiative called KidsPlace, which has been widely copied by other cities. It included marketing the city's neighborhoods to young families, building a small mix of affordable housing, and zoning and policing changes to make urban parks more child-friendly.
Mr. Royer said he was ridiculed for signs placed around town proclaiming "Seattle is a KidsPlace" and took criticism from social service agencies who thought bringing in more families would only place more demands on the limited money they had. Mr. Royer said he was bucking historic changes, and Seattle now has some of the nation's highest-priced real estate and its lowest percentage of children.
"I said things like, 'We don't want to be like San Francisco,' but in the end, I don't think we were terribly effective at stemming that tide," Mr. Royer said. "It's not so much a social problem as it is a demographic and financial problem."
Here in Portland, the city is bemoaning the demographic cycle as it unfolds before their eyes. On the day of the announcement to close Kenton Elementary School, which has anchored a north Portland neighborhood for 91 years, some parents and residents reacted as if there had been a death in the family.
"I feel heartbroken," said Mary Krogh, who had planned to enroll her 4-year-old son, Chase, in the school. "It's just a terrible loss."
The school and a tightknit community were among the things that attracted Ms. Krogh and her husband to the neighborhood seven years ago, she said.
But now the school will be shuttered, and improvements from Portland's beloved light rail line have contributed to rising real estate prices, defeating the broad goals of the mayor's effort to bring and keep young families in the city.
"Portland is a great city that attracts a lot of educated people," she said. "But the real estate is becoming outrageously expensive. And then you get wealthy singles and wealthy retirees. What's missing are kids. And that feels really sterile to me."
quinta-feira, 3 de março de 2005
Majority of Europeans Believe in God despite Declining Church Membership
Christianity Today, March 3 , 2005, 20:55 (GMT)
"According to a recent survey conducted on behalf of Reader's Digest Germany, it has been stated that seven out of ten Europeans believe in God. However, it has been revealed that churches are losing their influence and faith is merely regarded as a matter of an individual. From November to January, 8,600 people were interviewed across 14 European countries. 97 percent of those interviewed in Poland said they believe in God. Portugal came with 90 percent, and Russia followed with 87 percent. The Czech Republic came in lowest with 37 percent, along with Netherlands (51) and Belgium (58). However, the fact that an individual believes in God does not mean that they believe in life after death. Over half (53) of all Europeans believe that physical death is not the end. 43 percent say that religion is necessary to distinguish right from wrong. The Czech Republic (27), the Netherlands (25) and France (24) came in lowest to this conviction whilst countries such as Poland (86), Russia (78) and Switzerland (54) revealed strong views. When asked if religion is a positive force in the world, 79 percent agreed in Portugal, 78 in Poland, and 72 in Spain. Belgium (39), Russia (36) and the Netherlands (34) answered that they were not that sure. However, believing in God does not necessarily mean that Germans regard Him as a personal being. 83 percent of all believers say God is present in nature, 75 percent regard Him as their creator and 70 percent say God is an ever-present source in their life. 39 percent say religious faith gives a meaning to life. 45 percent says it gives a sense of protection. One percent said that faith is intimidating. 65 percent of all believers pray to connect with God, with two-thirds of their prayers being for "people who are important to me". Other prayer topics include peace and justice. A relatively small amount of prayers are concerned with "my sins and my salvation" (13) or "my work and my job" (11)."
Christianity Today, March 3 , 2005, 20:55 (GMT)
"According to a recent survey conducted on behalf of Reader's Digest Germany, it has been stated that seven out of ten Europeans believe in God. However, it has been revealed that churches are losing their influence and faith is merely regarded as a matter of an individual. From November to January, 8,600 people were interviewed across 14 European countries. 97 percent of those interviewed in Poland said they believe in God. Portugal came with 90 percent, and Russia followed with 87 percent. The Czech Republic came in lowest with 37 percent, along with Netherlands (51) and Belgium (58). However, the fact that an individual believes in God does not mean that they believe in life after death. Over half (53) of all Europeans believe that physical death is not the end. 43 percent say that religion is necessary to distinguish right from wrong. The Czech Republic (27), the Netherlands (25) and France (24) came in lowest to this conviction whilst countries such as Poland (86), Russia (78) and Switzerland (54) revealed strong views. When asked if religion is a positive force in the world, 79 percent agreed in Portugal, 78 in Poland, and 72 in Spain. Belgium (39), Russia (36) and the Netherlands (34) answered that they were not that sure. However, believing in God does not necessarily mean that Germans regard Him as a personal being. 83 percent of all believers say God is present in nature, 75 percent regard Him as their creator and 70 percent say God is an ever-present source in their life. 39 percent say religious faith gives a meaning to life. 45 percent says it gives a sense of protection. One percent said that faith is intimidating. 65 percent of all believers pray to connect with God, with two-thirds of their prayers being for "people who are important to me". Other prayer topics include peace and justice. A relatively small amount of prayers are concerned with "my sins and my salvation" (13) or "my work and my job" (11)."
domingo, 20 de fevereiro de 2005
Desigualdade de tratamento
Carta de um leitor do Público:
"Como cidadão português e como católico, gostaria de reflectir um pouco sobre a forma como o Governo de Santana Lopes e Paulo Portas e respectivos partidos trataram as mortes recentes das grandes figuras nacionais, Sophia de Mello Breyner Andresen e Maria de Lourdes Pintasilgo face à atitude actual de luto nacional e de interrupção da campanha eleitoral após a morte da irmã Lúcia. Parece-me e a muitos outros portugueses- católicos e não católicos - que não houve uma igualdade de tratamento do Governo e dos respectivos partidos nele representados perante a morte destas três personalidades católicas, de dimensão nacional e internacional, com vidas dedicadas, embora com formas e expressões diferentes, aos mais altos valores espirituais.
Uma foi talvez a nossa maior poetisa de sempre, candidata ao Prémio Nobel da Literatura e uma cidadã a todos os títulos exemplar; a segunda foi uma mulher, integrada numa ordem religiosa, que dedicou a sua vida às mais elevadas causas e trouxe à política a marca do seu ideal cristão, chegando a ser a única primeira-ministra de Portugal; a irmã Lúcia foi um exemplo de vida abnegada e simples movida por uma enorme fé em fenómenos ocorridos em Fátima que nos merecem o maior respeito e nos interrogam o mais profundo da nossa alma como católicos, embora não sendo dogmas de fé.
Sabe-se que não houve luto nacional nem funerais de Estado aquando da morte das duas primeiras e esta disparidade de tratamento faz-nos pensar nos valores que nos orientam, na qualidade dos nossos políticos e no atraso civilizacional da nossa sociedade. Num país em que o nível de conhecimento geral é extremamente baixo, em que há um divórcio antigo e infelizmente sempre reforçado entre conhecimento e democracia, fazer este tipo de segregação só pode contribuir para cimentar um clima de hipocrisia e de obscurantismo que em definitivo já devia, há muito, ter sido banido.
A igualdade de tratamento nos três casos era no mínimo o que se deveria exigir dos poderes políticos de um país desenvolvido. Não termos sido capazes de o fazer só veio contribuir para manter o nosso baixo índice de cidadania e de liberdade de escolha, fragilizando a nossa democracia; democracia que afinalparece ter sido apenas "oferecida" generosamente a uma população com um baixíssimo grau de instrução e de literacia. Se à irmã Lúcia é prestado o tributo que, como figura nacional e internacional, de um certo âmbito naturalmente, lhe é devido, então que razões levaram a subvalorizar as outras duas personalidades?
A sociedade portuguesa só evoluirá quando, como diz José Gil, o direito à cultura e ao conhecimento chegar ao sentimento profundo da população; quando forem rejeitados os apelos à emoção primária e ao espectáculo e a este constante teatro da reverência dos nossos políticos." 17 de Fev. 2005
José Carlos Palha
Carta de um leitor do Público:
"Como cidadão português e como católico, gostaria de reflectir um pouco sobre a forma como o Governo de Santana Lopes e Paulo Portas e respectivos partidos trataram as mortes recentes das grandes figuras nacionais, Sophia de Mello Breyner Andresen e Maria de Lourdes Pintasilgo face à atitude actual de luto nacional e de interrupção da campanha eleitoral após a morte da irmã Lúcia. Parece-me e a muitos outros portugueses- católicos e não católicos - que não houve uma igualdade de tratamento do Governo e dos respectivos partidos nele representados perante a morte destas três personalidades católicas, de dimensão nacional e internacional, com vidas dedicadas, embora com formas e expressões diferentes, aos mais altos valores espirituais.
Uma foi talvez a nossa maior poetisa de sempre, candidata ao Prémio Nobel da Literatura e uma cidadã a todos os títulos exemplar; a segunda foi uma mulher, integrada numa ordem religiosa, que dedicou a sua vida às mais elevadas causas e trouxe à política a marca do seu ideal cristão, chegando a ser a única primeira-ministra de Portugal; a irmã Lúcia foi um exemplo de vida abnegada e simples movida por uma enorme fé em fenómenos ocorridos em Fátima que nos merecem o maior respeito e nos interrogam o mais profundo da nossa alma como católicos, embora não sendo dogmas de fé.
Sabe-se que não houve luto nacional nem funerais de Estado aquando da morte das duas primeiras e esta disparidade de tratamento faz-nos pensar nos valores que nos orientam, na qualidade dos nossos políticos e no atraso civilizacional da nossa sociedade. Num país em que o nível de conhecimento geral é extremamente baixo, em que há um divórcio antigo e infelizmente sempre reforçado entre conhecimento e democracia, fazer este tipo de segregação só pode contribuir para cimentar um clima de hipocrisia e de obscurantismo que em definitivo já devia, há muito, ter sido banido.
A igualdade de tratamento nos três casos era no mínimo o que se deveria exigir dos poderes políticos de um país desenvolvido. Não termos sido capazes de o fazer só veio contribuir para manter o nosso baixo índice de cidadania e de liberdade de escolha, fragilizando a nossa democracia; democracia que afinalparece ter sido apenas "oferecida" generosamente a uma população com um baixíssimo grau de instrução e de literacia. Se à irmã Lúcia é prestado o tributo que, como figura nacional e internacional, de um certo âmbito naturalmente, lhe é devido, então que razões levaram a subvalorizar as outras duas personalidades?
A sociedade portuguesa só evoluirá quando, como diz José Gil, o direito à cultura e ao conhecimento chegar ao sentimento profundo da população; quando forem rejeitados os apelos à emoção primária e ao espectáculo e a este constante teatro da reverência dos nossos políticos." 17 de Fev. 2005
José Carlos Palha
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