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segunda-feira, 19 de maio de 2014

Cristo(s): Bual e a Transcendência


Artur Bual, Pietá

“Cristo é talvez um homem transfigurado, pinto-o no sentido de ter sido, quanto a mim, um dos grandes poetas... alguém que deu e ainda dá!” 
Artur Bual


Decorre na Amadora, até 8 de Junho, a exposição Bual revisitado: retrospetiva, onde podem ver-se dezenas de obras de Artur Bual num circuito pelas várias temáticas que marcaram a sua carreira. Falecido em 1999, Bual é conhecido também por obras de inspiração religiosa, sobretudo as “cabeças” de Cristo, crucificações e representações da Última Ceia. Em número de obras, é uma das maiores mostras de Bual.
Em 2005, a Igreja Matriz da Amadora acolheu a mais importante exposição de temática religiosa de Artur Bual, numa iniciativa cultural que foi considerada das mais relevantes no âmbito do Congresso Internacional para a Nova Evangelização, organizado em Lisboa. Alguns dos quadros aí expostos – como o “Primeiro Poeta”, uma das mais emblemáticas crucificações pintadas por Bual – podem agora ser vistos na Galeria Municipal, que tem o nome do pintor, situada na Casa Aprígio Gomes, à entrada da cidade da Amadora. 
Para esta exposição, foi editado um catálogo de 100 páginas, no qual vários especialistas e amigos fazem uma releitura da vida, obra e inspiração de Bual. RELIGIONLINE disponibiliza aqui o capítulo dedicado à dimensão religiosa na obra do pintor gestualista português, da autoria de Joaquim Franco. 


O crítico de arte Egídio Álvaro define o gesto – na pintura gestual – como “o sinal das forças interiores que se afrontam para engendrar qualquer coisa que fala à nossa consciência profunda” (1). Não é uma arte fácil. Nenhuma inovação, sobretudo artística, tem acolhimento unânime. Durante décadas, o gestualismo sofreu pela falta de enquadramento estilístico. Fugia dos padrões artísticos vigentes.
Não ousamos aqui uma definição ou redefinição de beleza que os clássicos introduziram na complexidade e profundidade da filosofia. A beleza não é só estética, é também ideal. E é neste caminho que podemos arriscar uma reflexão sobre a impressiva inspiração bíblica na obra de Artur Bual. A beleza torna-se “mais percetível através da transfiguração que a arte consegue realizar com os seus recursos expressivos” (2), lembra o biblista e exegeta Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura. 
O gestualismo de Bual “nunca atinge o abstracionismo do gesto levado ao extremo”, constata Manuel Cargaleiro, “tem sempre uma relação com o figurativo” (…) fazendo “uma relação de síntese entre o gesto livre e a estrutura do figurativo” (3). Não se trata de um artista que segue os padrões convencionais do crente praticante cristão ou católico, longe disso. Não podendo dissociar-se a obra das vivências em ambiente social e culturalmente católico, Bual é uma «provocação» da cultura à própria religião.
A figuração e a abstração alternam-se e confundem-se na obra de Artur Bual, que pode sintetizar-se em duas frentes temáticas: a profana – «tourada», «cavalos», «meninas», «paisagens», «retratos» e «abstratos»… – e a religiosa, mais delimitada – «ceia», «crucificação», «cabeças» de Cristo e decoração de capelas sob encomenda –, conjugando o abstracionismo com a técnica retratista. Os amigos relatam que em ambiente de confraternização Bual desenhava «rostos» de Cristo inspirados em pessoas concretas. “Amigo é aquele que tem o direito de incomodar o amigo”, dizia Artur Bual. As relações fortes de amizade e cumplicidade devem também são um fator determinante na obra e inspiração do artista. O(s) Cristo(s) é (serão), entre todos, os mais expressivos dos «retratos» de Bual. Temperamental, o pintor rompe as convenções colocando nas «cabeças» de Cristo e nas «Crucificações» uma angustiante perceção da existência humana, como quem exprime uma busca de sentido e de sentimentos a partir de uma experiência de sofrimento que é, ao mesmo tempo, o eterno combate entre a dúvida e a certeza do devir.