Maria Adelaide Pinto Correia tocou
a muitas e muitos, crentes e não-crentes. A sua relação com Deus, com a vida e
com os outros fazia-se de coisas simples, humor, natureza e gestos ínfimos.
Nascida em 3 de Outubro de 1929, médica de formação, dedicou-se à
saúde escolar, sendo autora do livro Memória de 30 Anos na Saúde Escolar (ed. Livros Horizonte). Desde cedo empenhada no
associativismo católico, Adelaide Pinto Correia era associada do Metanoia –Movimento Católico de Profissionais, desde a sua criação, em Fevereiro
de 1986. Nesse âmbito, foi durante anos a responsável pela publicação da revista Viragem.
Mas também traduziu dezenas de
textos (nos últimos anos da sua colaboração, insistiu em dar a conhecer o
contributo e o pensamento de Marcel Légaut), escreveu pequenas notas que
reflectiam sinais dos tempos e manteve ainda uma crónica regular, sob o título Caminhando sob o Esplendor da Tua Face,
que manifestava muito do que ela era e da sua busca espiritual.
Numa delas, publicada no número 31
(Abril-Junho 1999), e reeditada em Julho de 2010, a propósito dos 25 anos do
Metanoia, ela desfiava algumas memórias:
Caminhávamos nós, Senhor, sob o esplendor da Tua face? Com certeza que
sim! Caminhávamos sob um esplendor que todos sentíamos, naquele primeiro e
único 1º de Maio em Lisboa, em 1974. Íamos todos misturados, os que lutaram e
os que se salvaguardaram, “os que crêem em Deus e os que não acreditam” (“La
rose et le réseda”, do Aragon, claro), os que não percebiam senão o esplendor
em cheio, e os que já se organizavam para lhe dar o rumo que determinadamente
achavam salvador para todos nós. Ríamo-nos, abraçávamo- nos, chorávamos; os que
desfilavam e saíam das filas para abraçar outros que estavam no passeio, e os
que saltavam do passeio para abraçar os que desfilavam.
1º de Maio de 1974, em Lisboa (foto reproduzida daqui)
A minha geração tinha 40 e tal anos. Não tinha conhecido outro regime
senão a bota, mais ou menos de elástico (quer dizer, de elástico no vestir e no
pensar; ferreamente armadilhada para os inimigos). Nada de revistas
“estrangeiras”; nada de modernices nem no pensamento; nada de expressão livre
de opiniões, onde quer que fosse; nada de associações para reflectir e actuar.
Já vi escrito assim: “Aquela época em que não se podia dizer o que se queria e
até pensar podia ser proibido.” Uma filha minha abriu de espanto enorme as
bocas duma classe do 2º Ciclo quando lhes explicou que os pais dela não podiam
dizer alto no café as suas opiniões. Tínhamos amigos vilmente torturados;
queimávamos os papéis deles em nossas casas; aprendíamos a clandestinar as
actividades mais inocentes.
Mesmo nas acções de simples solidariedade humana e cristã nos bairros
pobres à volta de Lisboa, pouco podíamos falar, poucos colaboradores podíamos
aliciar. Alfabetização?! – mas isso era oposição ao regime, era sapar os
fundamentos do bem- estar português...
