segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Olivier Messiaen em Braga
Em Dezembro, no mês em que Olivier Messiaen nasceu há cem anos, no Auditório Vita, em Braga, presta-se uma homenagem ao singular compositor do séc. XX, que realizou em Portugal a estreia mundial de uma das suas obras, A Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Concertos
Integral das obras para Música de Câmara para instrumentos acústicos
Primeiro concerto
Dia 10, às 21.30 horas.
I Parte
Merle noir, para flauta e piano (1951) (c. 6’)
Fantasie, para violino e piano (1933) (c. 15’)
II Parte
Visions de l’Amén, para dois pianos (1943) (45’-50’)
I. Amen de la Création
II. Amen des étoiles, de la planète à l’anneau
III. Amen de l’Agonie de Jesús
IV. Amen du Désir
V. Amen des Anges, des Saints, du chant des oiseaux
VI. Amen du Jugement
VII Amen de la Consommation
Segundo concerto
Dia 13, às 21.30 horas.
I Parte
Theme et variations, para violino e piano (1932) (c. 10’)
Pièce pour piano et quatuor à cordes (c 4’)
II Parte
Quatuor pour la fin du temps, para violino, clarinete em si bemol, violoncelo e piano (45’-50’)
António Saiote, clarinete
Gerardo Ribeiro, violino
Marta Zabaleta, piano
Miguel Borges Coelho, piano
Nuno Inácio, flauta
Paulo Gaio Lima, violoncelo
Quarteto de Cordas de Matosinhos:
Vitor Vieira, I violino
Juan Maggiorani, II violino
Jorge Alves, viola
Marco Pereira, violoncelo
Colóquio
“Vivemos tempos sombrios”
Dia 11, às 21.30 horas.
Colóquio“Vivemos tempos sombrios”Dia 11, às 21.30 horas. “Vivemos tempos sombrios”, diz um verso de Bertolt Brecht. Foi em tempos sombrios que Olivier Messiaen viveu uma parte da sua vida, nos anos em que, prisioneiro num campo de concentração nazi, compôs o Quarteto para o Fim dos Tempos. Sobre esses “tempos sombrios” e sobre as mulheres e os homens que os testemunharam, realizar-se-á um colóquio com: João Pedro Oliveira, compositor e professor catedrático de Composição e Música Electrónica na Universidade de Aveiro; Teresa Martinho Toldy, teóloga; José Tolentino de Mendonça, director da colecção Teofanias, no âmbito da qual se publicaram obras de Simone Weil, Dietrich Bonhoeffer e Etty Hillesum, que testemunharam esses “tempos sombrios”; e João Duque, teólogo [moderador]
Filme
Le Charme des impossibilités [O Charme das impossibilidades]
Dia 12, às 21.30 horas.
O filme, que é exibido pela primeira vez em Portugal, conta a história da génese de uma obra musical, o Quarteto para o Fim dos Tempos, que foi composta e interpretada pela primeira vez, durante a Segunda Guerra Mundial, num campo de prisioneiros de guerra. Um compositor, três intérpretes com instrumentos em muito mau estado vão desafiar a detenção, a guerra, o frio, a fome, o tempo e tentar o impossível.
Nicolás Buenaventura Vidal é o realizador deste filme de 2006 em que participam o pianista François-René Duchâble, o clarinetista Paul Meyer, o violinista Régis Pasquier e o violoncelista Roland Pidoux.
[O filme tem 80 minutos e é exibido na versão original, com legendas em inglês]
sábado, 29 de novembro de 2008
Igreja, sexualidade e bioética
No lançamento do livro A Sexualidade, a Igreja e a Bioética. 40 anos de Humanae Vitae, de Miguel Oliveira da Silva, procurei reflectir sobre o paradoxo de, sendo o cristianismo uma religião do corpo – não diz a Bíblia que Deus criou os seres humanos em corpo e viu que era muito bom e não confessa a fé cristã que Deus assumiu em Jesus a corporeidade humana e que ela está presente, pela ressurreição, no seio da Trindade? –, em boa parte a má vontade contra a Igreja radicar na sua relação com o sexo. Como admitir, por exemplo, mesmo quando a saúde e a própria vida ficam ameaçadas, a proibição do preservativo?
O que envenenou a relação da Igreja com a sexualidade foi o choque entre o poder e o prazer, porque o prazer pode abalar o poder.
Concretamente, há a doutrina do pecado original, entendido não como o primeiro de todos os pecados – todos pecam –, mas como um pecado herdado de Adão e transmitido por geração, portanto, no acto sexual.
Depois, com a reforma gregoriana, século XI, foram-se erguendo as três colunas sobre as quais assenta, segundo Hans Küng, o paradigma católico-romano: papismo (poder centrado no Papa), celibatismo (celibato obrigatório por lei para os padres), marianismo (devoção a Nossa Senhora como compensação).
Como se determinou que tudo o que se refere ao sexo é por princípio matéria grave e como, por outro lado, não há ninguém que não tenha pelo menos pensamentos relacionados com o sexo e só o sacerdote ou o bispo podem perdoar os pecados, a confissão acabou por tornar-se não um espaço de reconciliação e paz, mas tantas vezes de opressão, e raramente uma instituição acabou por deter tanto poder sobre as consciências, criando infindos complexos de culpabilização. Quando se lê os manuais dos confessores e todos aqueles interrogatórios inquisitoriais, quase reduzidos ao campo sexual, percebe-se que muitos tenham começado a abandonar a Igreja por causa da confissão, considerada ofensiva dos direitos humanos.
No universo sexual, que, como escreve Miguel Oliveira da Silva, continua a ser "um imenso, incómodo e multifacetado mistério", é evidente que não vale tudo. Ele reconhece que "a sociedade ocidental vive um profundo e grave vazio ético em matéria de sexualidade".
De qualquer modo, a Igreja precisa de reconciliar-se com o mundo e a ciência, o corpo e a sexualidade. Mas enquanto se mantiver a lei do celibato obrigatório não estará todo o discurso eclesiástico sobre o tema debaixo do fogo da suspeita?
Nos seus Jerusalemer Nachtgespräche [Conversas Nocturnas em Jerusalém], o Cardeal Carlo Martini interroga precisamente esta lei e, depois de considerar os estragos da encíclica Humanae Vitae, reconhece que muitos esperam do Magistério uma palavra de orientação sobre o corpo, a sexualidade, o casamento e a família. "Procuramos um caminho para, de modo fiável, falar sobre o casamento, o controlo da natalidade, a procriação medicamente assistida, a contracepção."
Neste domínio da contracepção, o equívoco fundamental da encíclica Humanae Vitae encontra-se numa concepção de lei natural fixa, estática e centrada na biologia. Ora, por natureza, o ser humano é cultural e histórico e a própria realidade é processual. A sexualidade humana não pode ser vista apenas na sua vertente biológica. Como pode o Magistério fixar-se na biologia, esquecendo que, para ser verdadeiramente humana, a sexualidade envolve o biológico, o afectivo, a ternura, o amor, o espiritual?
Por outro lado, na perspectiva bíblica, não criou Deus o Homem como criatura co-criadora? Não é o Homem, por natureza, interventivo, aperfeiçoador e transformador da natureza? Então, no juízo moral, o critério não pode ser o natural identificado com o bem e o artificial identificado com o mal, mas a responsabilidade digna e a dignidade responsável. Aliás, quem defende os métodos contraceptivos naturais como os únicos legítimos deverá ser confrontado com a objecção: para lá da sua falibilidade, ainda serão naturais os métodos que têm a ver com uma descoberta e aproveitamento humanos dos períodos inférteis da mulher?
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
10 Milhões de estrelas pela paz
A Operação 10 Milhões de estrelas – Um gesto pela paz 2008, promovida desde há poucos anos pela Cáritas, pretende, tal como nas edições anteriores, sensibilizar as pessoas para os valores da paz e do apoio aos mais desfavorecidos, a partir da compra de velas que serão acesas na noite de Natal e de iniciativas diversas nas capitais de distrito. As verbas recolhidas este ano destinam-se a projectos de apoio ao desenvolvimento nas áreas da educação e da saúde, em Portugal, e de ajuda à integração dos povos pigmeus de Mongoumba, população minoritária da República Centro-Africana.
quarta-feira, 22 de novembro de 2006
Mudanças
Queiram visitar o novo espaço em http://religionline.blogsome.com. Nestes tempos de arrranque, estamos ainda à procura do estilo e do ritmo. Lá chegaremos. Com as achegas e a participação dos leitores.
quinta-feira, 26 de outubro de 2006
Religião e Media: equívocos e possibilidades
O jornalista, que falou na qualidade de galardoado com o Prémio John Templeton para o Jornalista Europeu de Assuntos Religiosos do ano 2005 (administrado pelo Departamento de Comunicações da Confêrencia das Igrejas Europeas e atribuído a este profissional pela segunda vez), apresentou um largo conjunto de casos e de experiências que lhe permitiram mostrar os preconceitos recíprocos que continuam a existir entre as Igrejas, designadamente a Católica, e os jornalistas.
A intervenção foi, na altura, comentada por Adelino Gomes, igualmente jornalista do Público, o qual recordou uma série de casos e de experiências ilustrativos do que era a relação entre a religião e os media até à altura do 25 de Abril de 1974.
O texto integral da conferência de António Marujo pode ser consultado no site da Conferência das Igrejas Europeias. A ele haveremos de voltar, pelas questões que coloca em debate.
quarta-feira, 25 de outubro de 2006
"De Deus ao nada"
"Resulta difícil entender la historia de nuestra cultura sin saber qué ha sido y cómo ha sido la religión en sus muchas variantes, y, lo que resulta más significativo, la religión constituye el mejor salvoconducto para conocer las fantasías e imágenes de las que nos hemos dotado" - nota ainda Sádaba.
Javier Sábada é Catedrático de Ética e Filosofía da Religião da Universidade Autónoma de Madrid.
O texto completo do artigo: aqui.
quinta-feira, 19 de outubro de 2006
Diálogos sobre Jesus no CRC
1º Jesus judeu da Palestina
24 de Outubro 2006
Isaac Assor
Pe. José Tolentino de Mendonça
2º Jesus profeta do Islão
28 de Novembro 2006
António Dias Farinha
Faranaz Keshavjee
3º Jesus nos Evangelhos apócrifos
19 de Dezembro 2006
Pe. João Lourenço
Pe. Joaquim Carreira das Neves
José Augusto Ramos
4º Jesus Cristo História e Fé
23 de Janeiro 2007
Maria Julieta, rscm
D. Manuel Clemente
quarta-feira, 18 de outubro de 2006
Onde está o teu irmão?
(in Eclesalia, a partir de títulos de El País, de 7.10.2006)
sexta-feira, 15 de setembro de 2006
Todo o discurso de Bento XVI feito na Universidade de Regensburg, na Alemanha, centrado nas "Três etapas do programa de des-helenização", merece ser lido com atenção.
É curioso observar como uma referência histórica que nem sequer é central ao argumento das palavras do papa pode suscitar tanto ruído. Mas isto é precisamente um sinal dos tempos que vivemos. Qualquer facto secundário pode converter-se em fósforo que ateia um incêndio. E, a esta hora, o papa já deve ter-se arrependido da referência que fez.
De resto, há uma ponto que não ficava mal na sem dúvida brilhante argumentação de Ratzinger: a referência ao facto de que também em nome da Cristandade - e porventura no preciso e polémico escrito referenciado no discurso - se quis recorrer à espada para fazer fieis, esquecendo que "to convince a reasonable soul, one does not need a strong arm, or weapons of any kind, or any other means of threatening a person with death...."
Aqui fica a transcrição da parte que está a levantar poeira em alguns sectores do islamismo:
"(...)
In this lecture I would like to discuss only one point -- itself
rather marginal to the dialogue itself -- which, in the context of the issue of
"faith and reason," I found interesting and which can serve as the starting
point for my reflections on this issue. In the seventh conversation ("diálesis"
-- controversy) edited by professor Khoury, the emperor touches on the theme of
the jihad (holy war). The emperor must have known that sura 2:256 reads: "There
is no compulsion in religion." It is one of the suras of the early period, when
Mohammed was still powerless and under [threat]. But naturally the emperor also
knew the instructions, developed later and recorded in the Koran, concerning
holy war. Without descending to details, such as the difference in treatment
accorded to those who have the "Book" and the "infidels," he turns to his
interlocutor somewhat brusquely with the central question on the relationship
between religion and violence in general, in these words: "Show me just what
Mohammed brought that was new, and there you will find things only evil and
inhuman, such as his command to spread by the sword the faith he preached." The
emperor goes on to explain in detail the reasons why spreading the faith through
violence is something unreasonable. Violence is incompatible with the nature of
God and the nature of the soul. "God is not pleased by blood, and not acting
reasonably ("syn logo") is contrary to God's nature. Faith is born of the soul,
not the body. Whoever would lead someone to faith needs the ability to speak
well and to reason properly, without violence and threats.... To convince a
reasonable soul, one does not need a strong arm, or weapons of any kind, or any
other means of threatening a person with death...."
Actualizações e complementos:
- Texto do discurso em espanhol
- Do editorial de El País, de 16.9:
"(...) Benedicto XVI es tan gran intelectual como su antecesor, Juan Pablo II,
era un gran político. Pero hay ocasiones en las que a un intelectual, en su afán
por exponer sus ideas, especialmente en un terreno tan complejo y tan
susceptible a malentendidos y manipulaciones como es la manifestación teológica
en la comparación entre dos religiones, le falla el instinto del político y
genera un conflicto allí donde no debiera haberlo ni le interesa a él mismo que
lo haya. Y no sólo lo hay, sino que es probablemente, desde el 11 de septiembre
de 2001, origen de inmensas tensiones entre concepciones de vida identificadas
con Occidente y el mundo musulmán. Es evidente así que, al ignorar el efecto que
sus palabras podían tener sobre una sociedad islámica, recelosa y por principio
hoy hiperrreactiva, ha sembrado una discordia que probablemente no
pretendía.(...)"
- Do editorial de hoje do DN, assinado por António José Teixeira:
"(...) A citação histórica presta-se a interpretações ambíguas. Desde logo
porque identifica islão com violência, o que não é desajustado de alguns
capítulos da História, mas não é exclusivo de nenhuma religião. O catolicismo
deu os seus contributos para a infâmia e nem por isso terá de ser identificado
como uma instituição delinquente.(...)".
Actualização: Palavras de desculpa de Bento XVI, na oração do Angelus, hoje, dia 17:
"Dear Brothers and Sisters,
(...)At this time, I wish also to add that I am deeply sorry for the reactions in some countries to a few passages of my address at the University of Regensburg, which were considered offensive to the sensibility of Muslims.
These in fact were a quotation from a Medieval text, which do not in any way express my personal thought.
Yesterday, the Cardinal Secretary of State published a statement in this regard in which he explained the true meaning of my words. I hope that this serves to appease hearts and to clarify the true meaning of my address, which in its totality was and is an invitation to frank and sincere dialogue, with great mutual respect. "
domingo, 3 de setembro de 2006
(uma entrevista do abade de Monserrate)
Josep Maria Soler, abade do mosteiro de Monserrate, na Catalunha, deu há dias uma desassombrada entrevista ao diário El País. Vale a pena ler, mesmo discordando. Porque o que mais sobressai, nas palavras do monge, é precisamente a capacidade de, com serenidade, colocar questões centrais da relação entre a Igreja (espanhola) e a sociedade [as perguntas da jornalista é que denotam um enviesamento e um primarismo verdadeiramente notáveis!].
Dois extractos, com a sugestão de uma leitura do texto integral:
"Pienso que es fácil percibir que un sector de la jerarquía católica tiene nostalgia del nacionalcatolicismo, sobre todo en ciertos círculos de la Conferencia Episcopal y, sin duda, en muchos de sus documentos y en muchas homilías. Y lo cierto es que ese nacionalcatolicismo añorado por ese sector de la jerarquía es algo del pasado. La Iglesia debe aprender a situarse en otro contexto social, y ese contexto, según la Constitución y desde la separación entre la Iglesia y el Estado, se define como un verdadero Estado laico que supone eso: una separación real entre lo que es el Estado y su lógico derecho a promulgar leyes, y lo que es la Iglesia y la misión de la Iglesia, que no tiene esa capacidad legislativa. Eso no quiere decir que la Iglesia deje de decir lo que crea que debe decir en relación con la dimensión trascendente de la persona, porque eso es enriquecedor para sociedad, pero teniendo siempre presente que en un Estado aconfesional o laico, la voz de la Iglesia es una voz que no puede imponer sus criterios a los legisladores".
" [...] hay un proceso que a ellos, a la jerarquía católica más conservadora, les preocupa muchísimo, yo diría que les desborda realmente, que es el proceso de secularización de la sociedad española. La cuestión sobre la que se debe interrogar la Iglesia no debe estar en relación con lo que ellos identifican como crisis de fe, sino en responder con honestidad a la pregunta de por qué no hemos sabido conectar el mensaje del Evangelio con las inquietudes de la gente. Eso es lo que debería preocuparles, lo que debería preocuparnos a todos. Desde mi punto de vista, ha fracasado el lenguaje, el planteamiento demasiado intransigente de ciertos temas que angustian al mundo moderno, y, sin duda, el no aceptar que, al final, el hombre decide libremente sobre su vida, diga lo que diga la Iglesia. Hoy, la Iglesia no está presente en la sociedad y, lo que es peor, cuando está presente, lo está de modo inadecuado, cuando no ridículo".
quinta-feira, 24 de agosto de 2006
Carla Machado
PUBLICO, 24.8.2006
Todos passamos a vida a desejar a vida que não temos. Queixamo-nos do emprego, dos colegas que são chatos, do chefe que não nos dá valor, do muito que trabalhamos e do ordenado que é fraco.Reclamamos do tempo, que chove e não se pode ir à praia, que não chove e faz mal à agricultura, do sol que é pouco ou demasiado, do suor, do frio e do vento, do calor que nunca mais se vai embora e do Verão que nunca mais chega.A família cansa-nos, mas odiamos quando esta nos ignora; dizemos mal do amigos sem os quais não sabemos passar; suspiramos pelo fim do serão em que as visitas se vão embora, mas despedimo-nos combinando um novo jantar.Estamos fartos dos filhos, mas passamos o tempo a falar deles e a mostrar as suas fotografias aos amigos. O barulho que fazem enlouquece-nos, mas o silêncio da sua ausência é insuportável.Queixamo-nos do marido ou da mulher, que não são como dantes, que nos irritam, que não nos surpreendem, mas suspiramos quando nos faltam e reclamamos quando fazem alguma coisa com a qual não contávamos.Estamos no Algarve a suspirar pela frescura do Minho, no Minho damos por nós desejosos da brisa costeira, na cidade irrita-nos o artificialismo e em Trás-os-Montes formigamos com a ânsia de fugir à ruralidade.E do país, todos nos queixamos do país até ao momento em que "lá fora" concluímos com um orgulho disfarçado que realmente "comer, comer bem, só mesmo em Portugal".De queixume em queixume, passamos pela vida muitas vezes sem deixar verdadeiramente que a vida nos atravesse. E só quando somos roubados ao quotidiano que tanto maldissemos damos conta do tempo que perdemos nos lamentos sobre o tempo que os outros nos fazem perder.Há pouco mais de um mês, numa consulta que era suposto ser de rotina, foi-me diagnosticado um tumor. Felizmente benigno, como soube após 24 horas de espera. E, tal como seria de prever, naquele momento inicial em que o espectro de algo mais grave ainda não tinha sido afastado, o meu pensamento imediato foi: "Mas afinal porque é que eu estou aqui, afundada em Braga a trabalhar, em vez de ter já há muito tempo fugido para Bora-Bora?" Passado contudo tal instante, e nas 23 horas que se seguiram, foi da vida normal que tive saudades antecipadas. A vida normal: trabalhar, ir ao cinema, abraçar quem amo, rir-me das pequenas parvoíces do quotidiano, ver a minha filha a dormir e sentir o seu cheiro.A vida normal está aqui mesmo ao lado. E aposto que Bora-Bora tem imensos mosquitos.
terça-feira, 4 de julho de 2006
O Fórum Abraâmico de Portugal, organização que congrega judeus, cristãos e muçulmanos com o objectivo de "quebrar preconceitos" e promover iniciativas no campo inter-religioso, é hoje apresentada ao fim da tarde em Lisboa.
A notícia vem hoje no Público, que acrescenta:
"Embora a ideia e a adesão à nova associação seja feita a título individual, ela será constituída por quatro responsáveis das diferentes comunidades: Abdool Vakil, da Comunidade Islâmica de Lisboa; José Oulman Carp e Esther Mucznik, presidente e vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa; e Peter Stilwell, padre católico e director da Faculdade de Teologia da UCP. A este núcleo inicial junta-se um outro grupo de fundadores, entre os quais o pastor protestante Dimas Almeida, o padre ortodoxo Alexandre Bonito e o professor universitário Luís Filipe Thomaz. "O objectivo é estimular o conhecimento das três religiões e respectivas comunidades, de modo a quebrar preconceitos", diz Peter Stilwell. "Trata-se de institucionalizar o que já existe", justifica ao PÚBLICO Abdool Vakil, a quem pertenceu a iniciativa de lançar a ideia. Envolvido há muito tempo no diálogo inter-religioso, Vakil considerou importante organizar uma associação que mostrasse que "na família abraâmica há muitas pontes". (...)
de jornalismo sobre temáticas religiosas
O jornalista do Público António Marujo recebe depois de amanhã, quinta-feira, em Lisboa, o prémio da Conferência das Igrejas Europeias para jornalistas da imprensa não-confessional que tratam informação religiosa.
Na cerimónia, que decorrerá às 18h30, na catedral da Igreja Lusitana (anglicana) de Lisboa, em Santos-o-Velho, conta com a participação do bispo D. Fernando Soares, Presidente do COPIC, Pamela Thompson, Vice-Presidente da Fundação John Templeton, Luca Negro, Secretário para as Comunicações da CEC, José Manuel Fernandes, Director do Público, e, claro, do jornalista premiado.
Na altura em que divulgou a notícia, o Público divulgou informações complementares que vale a pena relembrar:
"António Marujo venceu este prémio na edição de 1995, tornando-se agora no primeiro jornalista europeu a ser distinguido por duas vezes, refere o comunicado do gabinete de comunicação da CEC.
Entre os trabalhos que lhe valeram o prémio, com um valor monetário de cinco mil francos suíços (3227 euros), está uma entrevista ao padre, teólogo e poeta Tolentino Mendonça, intitulada "Jesus é um mistério fascinante, ainda em aberto" (26/02/05) e uma reportagem sobre o Congresso da Nova Evangelização, com o título "Bono Vox, bebedor de vinho e leitor da Bíblia" (11/09/2005)."Esta é a autêntica escrita sobre religião, mais do que a escrita ligada à Igreja, e é da melhor qualidade", afirmou um dos juízes do prémio, para quem o jornalista do PÚBLICO "não é fascinado pela Igreja, mas por algo mais profundo, que é o mistério da religião em si".
quinta-feira, 8 de junho de 2006
O diário El País traz hoje um texto de opinião de Daniel Jonah Goldhagen, intitulado El histórico fracaso de Benedicto XVI en Auschwitz, no qual defende as seguintes posições:
- Lo que tuvo de bueno [la visita del papa] a Auschwitz quedó anulado por el discurso que pronunció, que no mostró nada parecido ni a la sincera emoción de Brandt ni a la humildad de Juan Pablo, y que se apartó escandalosamente de lo que el propio Benedicto XVI ha llamado su obligación de decir la verdad. Por el contrario, el Papa emborronó la interpretación histórica, eludió la responsabilidad moral y rehuyó el deber político.
- Benedicto exoneró injustamente a los alemanes de su responsabilidad en el Holocausto y atribuyó la culpa exclusivamente a "una banda de criminales" que "usaron y abusaron" del pueblo alemán, engañado y presionado, como "instrumento" de destrucción. Lo cierto es que los alemanes, en general, apoyaron la persecución de los judíos, y muchos de los cientos de miles que la llevaron a cabo eran ciudadanos corrientes que actuaban de buen grado. No se puede atribuir la culpa del Holocausto, por completo o incluso principalmente, a una "banda criminal". Ningún especialista alemán, ningún político alemán, se atrevería hoy a proponer el relato mitológico que hace Benedicto XVI del pasado.
- Benedicto exoneró injustamente a los alemanes de su responsabilidad en el Holocausto y atribuyó la culpa exclusivamente a "una banda de criminales" que "usaron y abusaron" del pueblo alemán, engañado y presionado, como "instrumento" de destrucción. Lo cierto es que los alemanes, en general, apoyaron la persecución de los judíos, y muchos de los cientos de miles que la llevaron a cabo eran ciudadanos corrientes que actuaban de buen grado. No se puede atribuir la culpa del Holocausto, por completo o incluso principalmente, a una "banda criminal". Ningún especialista alemán, ningún político alemán, se atrevería hoy a proponer el relato mitológico que hace Benedicto XVI del pasado.
Está aberto o debate.
Complementos:
- Texto integral do discurso de Bento XVI em Auschwitz (em inglês)
- Leitura de John L. Allen Jr, jornalista do National Catholic Reporter. correspondente em Roma: Attempting to slay God was Auschwitz's greatest evil, pope says Benedict prayed that love would prevail over 'a spurious and godless reason' .
quinta-feira, 27 de abril de 2006
IMAGEM DO SAGRADO, IMAGENS DO MUNDO
O Centro de Reflexão Cristã promove, no próximo mês, as suas já conhecidas "Conferências de Maio", desta vez com o tema geral "Imagem do sagrado, imagens do Mundo". As sessões terão lugar no Centro de Estudos da Ordem do Carmo, na Rua de Santa Isabel, 128-130, Lisboa (Metro: Rato).
É o seguinte o calendário:
3 de Maio, 4ª feira, 18:30
A REPRESENTAÇÃO DO SAGRADO NO MUNDO DA IMAGEM
· Clara Menéres
· João Bénard da Costa
· Pe. Peter Stilwell
Moderador: Guilherme d?Oliveira Martins
10 de Maio, 4ª feira,18:30
PATRIMÓNIO DA FÉ E LIBERDADE CRIADORA
· Faranaz Keshavjee
· José Luís de Matos
· Nuno Teotónio Pereira
Moderador: José Leitão
17 de Maio, 4ª feira, 18:30
IMAGENS DO RELIGIOSO NA COMUNICAÇÃO SOCIAL
· Abdool Karim Vakil
· Esther Mucznik
· Pe. José Manuel Pereira de Almeida
Moderador: Fr. Bento Domingues
24 de Maio, 4ª feira,18:30
A LIBERDADE RELIGIOSA NUM MUNDO PLURAL
. Pastora Idalina Sitanela
. José Vera Jardim
. D. Manuel Clemente
Moderador: Maria Cristina Clímaco
domingo, 9 de abril de 2006
O Governo de Bush pretende restringir os direitos dos imigrantes ilegais a ponto de criminalizar quem os ajude. Se uma lei que está neste momento em apreciação (Sensenbrenner Bill 4437)fosse aprovada, poderia ser castigado quem desse uma sanduíche a um desses estrangeiros.
O cardeal Roger Mahony, de Los Angeles, que já tinha alertado para a possibilidade da desobediência civil, caso a lei avançasse, acaba de explicar melhor a sua posição, em entrevista dada ao correspondente em Roma da revista National Catholic Reporter. Um podcast da conversa com o jornalista John L. Allen Jr está também disponível.
Mahoney concretiza, neste seu combate, uma pastoral sobre a imigração, elaborada pelo episcopado norteamericano, que se resume em cinco pontos: 1) Global Anti-Poverty Efforts, 2) Reunifying Families, 3) A Temporary Worker Program, 4) Broad-Based Legalization, and 5) Restoring Due Process.
"(...) O mal físico talvez seja explicável; mas como compreender o mal moral? Porque é que não somos sempre bons e, pelo contrário, criamos infernos de desumanidade? Há aquele enigma que amargurava São Paulo: "Ai de mim, que sou um homem desgraçado, pois faço o mal que não quero e não faço o bem que quero!"(...)"
Anselmo Borges, in Diário de Notícias, 9.4.2006
quarta-feira, 22 de março de 2006
Joaquim Fidalgo
Na sua coluna semanal "Crer para Ver", no Público (acesso para assinantes), escreve hoje o autor:
"A aplicação pode ser moderna, mas o princípio é antigo: se Moisés não vai à montanha, vai a montanha a Moisés... Dito de outro modo: se quem reza não vai à casa da oração, pois vai a oração à casa de quem reza. E quem diz à casa, diz aos bocadinhos de "casa" que cada vez mais levamos connosco para qualquer lado, assim a modos de caracol.
A coisa chama-se "pray-as-you-go". Para consultar na Net, basta acrescentar o ".com" da praxe e já está. É um sítio onde ir buscar downloads, ou peças para, mais portuguesmente falando, descarregarmos nos nossos computadores e afins. E afins, sim, que aqui trata-se de descarregar para os aparelhinhos portáteis de Mp3, aqueles minileitores de pôr à cinta, com dois minúsculos auscultadores de meter no ouvido. Sabem decerto do que falo: quem tem tem; quem não tem tem-se fartado de ver por aí tanto quem já tem.
Mas não se trata de descarregar músicas; trata-se de descarregar orações. Daí o nome, "pray-as-you-go". É do mais fácil que há. Vai-se ao sítio, clica-se no dia da semana e descarrega-se. Sim, que há orações diferentes para cada um dos dias da semana, para variar. E, sendo no essencial orações, não são só orações: é um pacote completo, com a duração aproximada de dez minutos ("Nunca mais de 12 minutos", prometem os promotores), composto de som de sinos a abrir ("chamada à oração"), depois uma musiquinha de abertura para criar o ambiente, a seguir uma passagem das Escrituras, adiante algumas "questões para reflexão pessoal", depois a repetição da passagem das Escrituras para uma melhor apreciação, ainda uma "reflexão final" e, a fechar, um "Glória". Um pacote inteiro, dez a 12 minutos, para descarregar no leitor de Mp3 e ouvir / rezar no meio das músicas com que a gente se vai fazendo acompanhar nas lides diárias, na viagem para o trabalho, no passeio de ginástica ou lazer, no estudo, enfim, por aí, por onde e como se ande.
A produção é de uma entidade chamada "Jesuit Media Initiatives", que se afirma empenhada em nos ajudar a "perceber a presença de Deus nas nossas vidas", a "reflectir nas palavras de Deus", a "crescer na nossa relação com Deus". Se isso se pode fazer em qualquer lado e de tantos diferentes modos, por que não no meio dos sons preferidos do nosso leitor de Mp3, enquanto caminhamos por aí a caminho de algum sítio - ou de nenhum?
"Pray-as-you-go". Reza enquanto andas. Por um lado, não está mal visto: já chega de enfiarmos Deus num compartimento apartado da vida real, rezando quando é de rezar, mas não permitindo que a oração se misture com o que somos e fazemos no nosso quotidiano. Por outro lado, soa meio estranho ver Deus assim descarregado para o nosso leitor de Mp3, entre dois boleros, um adagio e um standard, e o valor da sua mensagem - que nos convida a parar, a parar mesmo - apreciado numa fila confusa de autocarro ou numa corrida musculada para perder gorduras. Não sei... Mas os jesuítas, esses, sabem bem da outra velha máxima: se não podes vencê-los (por exemplo, aos leitores de Mp3...), então junta-te a eles.
quarta-feira, 15 de março de 2006
Tendo como tema "Redescobrir a Cidadania ? contributos para a mudança", realizam-se em Leiria, neste fim de semana, as IX Jornadas de Universitários Católicos, promovidas pelo Movimento Católico de Estudantes (MCE) em parceria com o Serviço Nacional de Pastoral do Ensino Superior. O programa engloba diversos paineis que desdobram o debate por vasto leque de áreas nas quais se coloca o problema da redescoberta da cidadania.
domingo, 5 de março de 2006
Arcebispo dos EUA admite desobediência civil
O arcebispo de Los Angeles, Roger Mahony, deixou aberta a possibilidade de um apelo à desobediência civil relativamente a uma lei de imigração já apresentada na Câmara dos representantes dos EUA, que exige que as confissões religiosas façam depender a assistência aos imigrantes da apresentação de provas de que eles se encontram legalmente no país. A posição deste bispo americano foi já apoiada pelo diário The New York Times, num editorial publicado sexta-feira.
Calcula-se em perto de 11 milhões o número de imigrantes, grande parte deles vindos de países da América Latina.
O arcebispo Mahony pronunciou-se sobre o assunto na celebração de Arata-Feira de Cinzas, altura em que apresentou uma mensagem quaresmal centrada no problema da imigração.
"Diria aos sacerdotes, diáconos e membros da igreja que não iremos cumprir esta lei" - avisou Mahony, ao mesmo tempo que apelou a todos os católicos a que acolham os imigrantes.
Sublinha ainda o arcebispo, na sua mensagem de Qauresma:
"Our Lenten practices, whatever they may be, are much more than pious devotions. Whether our practice takes the form of 'giving up' dessert during Lent, redoubling our efforts at prayer, increasing our contribution to help those in need, fasting, or abstaining from meat, they are all to be understood as a Spirit-assisted effort to empty ourselves of all that would stand in the way of being filled to overflowing with the light and life and love of God. Do we really have room enough for God? So many of us live amid so much clutter, so much noise. We travel through life at breakneck speed. Lent is the time to empty ourselves not only of the seemingly never-ending stuff, sound and speed in our lives, but also of our pettiness, our prejudice, our anxiety, our fear. It is an opportunity to make room, not only for God, but for those who come our way. How open is our door to those who come to us? Is there room enough in our hearts and our homes for those in need?"
O dever moral de acolher os imigrantes não levanta problemas apenas nos Estados Unidos da América. Recentemente, elementos dos episcopados francês e belga insurgiram-se também contra declarações de autoridades dos respctivos países, que consideraram ser criminoso dar assistência a imigrantes ilegais.