O Yad Vashem, o Memorial do
Holocausto de Jerusalém, decidiu outorgar o título de “Justo entre as Nações”
ao padre Joaquim Carreira, vice-reitor e reitor do Colégio Pontifício
Português, de Roma, entre 1940 e 1954. Este título distingue não-judeus que,
durante o Holocausto, tenham arriscado as suas vidas para salvar judeus.
A declaração do Yad Vashem, a que
o RELIGIONLINE teve acesso em primeira mão, recorda alguns dados biográficos do
padre Carreira: nascido em 1908 numa aldeia próxima de Fátima, um famoso lugar
de peregrinação católica, ordenado padre em 1931 e formado na pilotagem de
aviões; em 1940, mudou para Roma, onde viria a tornar-se vice-reitor e reitor
do Colégio Pontifício Português, que alberga padres portugueses a estudar na
capital italiana.
Quando Roma foi ocupada pelos
nazis em Setembro de 1943, recorda ainda o texto do Yad Vashem, monsenhor
Carreira ofereceu abrigo a várias pessoas perseguidas pelos nazis, incluindo
três membros da família Cittone: Elio, o seu pai Roberto e o seu tio Isacco. No
relatório da actividade do colégio, Carreira escreveu: “Concedi asilo e
hospitalidade no colégio a pessoas que eram perseguidas na base de leis
injustas e desumanas.”
Apesar de o colégio ter à porta um
aviso do comando militar alemão proibindo quaisquer buscas no seu interior, por
ser território da Santa Sé, os militares alemães entraram uma vez no edifício,
à procura de refugiados. Todos os que estavam ali ocultados – resistentes, antifascistas,
partiggiani, judeus – conseguiram esconder-se
em sítios previamente combinados e sugeridos pelo reitor. Mas a família Cittone
considerou mais seguro procurar outro abrigo, deixando o colégio pouco depois. O
que não impede Elio Cittone, sete décadas depois, de admitir: “Estou-lhe muito
grato e recordo sempre o facto de ele me ter salvo a vida.”
A decisão do Yad Vashem foi tomada
a 4 de Setembro pelo seu Departamento dos Justos mas só agora divulgada. E deixa
muito contente o sobrinho de monsenhor Carreira. o também padre João Carreira
Mónico, dos Missionários Espiritanos, que em declarações à SIC revelou ter ficado “surpreendido”, acrescentando que "esta distinção significa o reconhecimento do trabalho, percurso e atitude caritativa, de risco, por parte de monsenhor Joaquim Carreira", mobilizado pela "diplomacia informal" do Vaticano que, nos anos da ocupação nazi de Roma, permitiu o acolhimento de refugiados nas casas religiosas.
O título de Justo entre as Nações
(Chasidei Umot HaOlam, em hebraico) é
retirado da literatura sapiencial da tradição judaica, explica-se no sítio do
Yad Vashem na internet. O título designa os não-judeus que
ajudaram judeus em tempos de perigo ou que observam sete regras básicas do
judaísmo estabelecidas na Bíblia – entre as quais a proibição de derramamento
de sangue. O Yad Vashem tomou o conceito para designar as pessoas que salvaram
judeus durante o Holocausto, arriscando as suas próprias vidas.
Joaquim Carreira passa a ser o
quarto português a ser declarado Justo. Além dele, já tinham sido declarados Aristides
de Sousa Mendes, o cônsul português em Bordéus que, desobedecendo às ordens de
Salazar, atribuiu vistos a mais de 10 mil judeus que fugiam dos nazis; Carlos Sampayo
Garrido, embaixador de Portugal na Hungria, que terá salvo uns mil judeus,
atribuindo-lhes documentação portuguesa e colocando-os a salvo em casas da
embaixada; e José Brito Mendes, operário português casado com uma francesa e
residente em França, e que salvou uma menina, filha de judeus.
