Mostrar mensagens com a etiqueta Evangelho de São João. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Evangelho de São João. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Verdade, mentira e tortura

Texto de Silas de Oliveira




Placa na sede da CIA com a frase do Evangelho de São João

Entre as primeiras palavras de Jair Bolsonaro, uma vez confirmada a vitória nas presidenciais brasileiras – antes da oração de graças pela sua eleição e do discurso de propósitos –, ouvimos uma citação do Evangelho segundo S. João: “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”
Curiosamente, é esta mesma inscrição que se encontra gravada numa parede, na entrada do primeiro edifício-sede da CIA, em Langley, Virginia, como divisa da instituição: “And ye shall know the truth, and the truth shall make you free.”
Mas o texto completo do episódio de onde é retirada esta citação é: “Jesus dizia pois aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (Ev. S. João, 8: 31-32)
De que verdade se trata? Aquela que interessa a uma agência estatal de informação (e de operações especiais) não é tanto a do discipulado cristão, baseado na palavra de Jesus. É mais a do conhecimento dos meios e intenções de quem seja definido como inimigo do mesmo Estado. E essa verdade pode eventualmente ser procurada, como sabemos, pela prática da tortura de suspeitos. 
Pelo que o próprio Jair Bolsonaro declarou, ao longo da carreira que o trouxe até à Presidência do Brasil, há aqui uma proximidade preocupante de exegese, entre a sua referência bíblica favorita e a que foi adoptada na CIA. 
Está acessível, no YouTube, a sua declaração de voto na arrepiante sessão de impeachmentda Presidente Dilma Roussef, onde ele dedicou o “sim”, entre outras personalidades, à memória do coronel Carlos Alberto Ustra, chamando-lhe “pavor de Dilma” – o militar que chefiou o Destacamento de Operações de Informações (no Centro de Operações de Defesa Interna), durante a ditadura militar, e participou pessoalmente na tortura de detidos.
A respeito da verdade, sabemos também como a campanha eleitoral de Jair Bolsonaro foi potenciada, na recta final, pela produção e multiplicação de mensagens de ódio pelas redes sociais – um território sem lei, onde o procedimento em vigor é o de produzir fakenews, semear e andar depressa, com a ajuda de robôs (contas falsas). 
Outro Presidente, Donald Trump, tinha declarado, na sua primeira visita à CIA, logo após entrar em funções, que estava em guerra com os média. Como explicou o jornalista Howard Kurtz, no livro que publicou em Janeiro deste ano, a presente guerra é, finalmente, uma “guerra pela verdade”. O título do livro é Media Madness – Donald Trump, the Media, and the War over the Truth (A loucura dos média – Donald Trump, os média e a guerra pela verdade). 
Para esclarecimento de todos, falta aqui, a concluir, mais uma citação do Evangelho de S. João, que vem no mesmo texto, um pouco adiante do que lemos no princípio: “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira.”  (Ev. S. João, 8:44)
E isto interessa-nos a todos, cidadãos, jornalistas ou leitores de jornais, independentemente de seguirmos alguma confissão de fé ou de não termos nenhuma. Estamos todos envolvidos nesta “guerra pela verdade”, ficando desde já prevenidos que, do ponto de vista do Evangelho, a mentira é de natureza “diabólica”. 

P.S. – Depois de redigido este artigo, há notícia de que o perfil do atacante da sinagoga Árvore da Vida, em Pittsburghcita o mesmo versículo de João 8:44. O contexto das afirmações de Jesus é, neste capítulo como nos que vêm antes e depois (leia-se entre o cap. 6 e o cap. 10), um debate de argumentos sobre o que significa ser “filho de Deus” e “filho de Abraão” – e neste debate são todos judeus: Jesus, os seus discípulos que lhe põem dúvidas e questões, e os “sacerdotes, escribas e fariseus” que procuram refutá-lo. É espantoso (e é significativo) que até um terrorista anti-semita consiga ir buscar ao Evangelho um texto que julga poder usar como auto-justificação para os seus actos. 

(Silas de Oliveira é jornalista)

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O Novo Testamento de Jesus Cristo Segundo João, narrado por Luis Miguel Cintra



O Novo Testamento de Jesus Cristo Segundo João é o título do filme de Joaquim Pinto e Nuno Leonel no qual o actor Luis Miguel Cintra narra o texto do Evangelho de João, segundo a tradução da Vulgata latina, por António Pereira de Figueiredo (1725-1797). O filme será apresentado em Roma, nesta quarta-feira, 13, em competição, na secção CinemaXXI, do Festivale Internazionale del Film di Roma.
Depois da apresentação do filme, haverá um debate que conta com a participação de Virgilio Fantuzzi, padre jesuíta e crítico de cinema, que foi amigo e acompanhou várias rodagens do Pasolini e Fellini.
Não é a primeira vez que Luis Miguel Cintra faz uma experiência deste género. O actor gravou já, em disco (ed. Presente), um Sermão de Quarta-Feira de Cinzas, do padre António Vieira, e o Apocalipse de São João
Cintra leu também em público o sermão de frei António de Montesinos, o dominicano que primeiro criticou a colonização espanhola na América Central. E fez ainda leituras do Cântico dos Cânticosda Carta a Filémondo Eclesiastesalém das quatro narrativas da Paixão: São MateusSão MarcosSão LucasSão João
Agora, é a primeira vez que Cintra sai do espaço fechado para o campo, ao ar livre.
“O primeiro capítulo é acompanhado por imagens do local, seguindo-se um bloco em que somos imersos no ‘grão da voz’ de Luis Miguel”, explicam os realizadores. “A partir daí, a essa voz materializa-se na expressão, no gesto, na presença, no ritmo, na respiração, na pulsão do corpo do actor, que se transforma em veículo da materialização do texto.”
O filme fixa esse “dia de leitura, efectuada em continuidade desde o início da tarde até ao pôr do sol”. Acrescentam Joaquim Pinto e Nuno Leonel: “A interpretação inspirada permite vislumbrar, através de todos os séculos de fixações, transcrições e traduções de um texto que é já uma condensação em camadas sucessivas de uma experiência pessoal de Jesus, a emanação da força espiritual da vida de Cristo.”
Sobre aquela tarde de leitura e filmagem, escreve Luis Miguel Cintra:
Há alguma coisa que me transmite uma enorme alegria de viver no contacto, no trabalho com o Joaquim e o Nuno: a inabalável confiança na realidade, na sua transcendência. Por outras palavras que é isto senão amor à vida? Parece que me estão sempre a mostrar que só é preciso não nos deixarmos ficar surdos, cegos. O cinema com eles só difere da vida porque usam duas máquinas. Apetece dizer que fazer cinema é usar uma máquina para gravar som e outra imagem. Ponto final. Estaremos sempre perante Deus, não vale a pena fingir. E grava-se, filma-se aquilo que é verdade, vale sempre a pena, se o que se passa se passa mesmo, sem batota. Aquilo que as circunstâncias nos permitiram viver. Parece tão simples como a vida. Mas depende do amor. Da capacidade de amar. De nos expormos, de não ter medo. E de gostarmos do que nos rodeia e dos que nos rodeiam.
O Evangelho de João é todo ele uma definição do amor. Tem-me acompanhado numa imensa ânsia de alternativa para uma sociedade hipócrita, uma organização política do mundo actual verdadeiramente assassina, para uma tardia educação filosófica que não me deixe triste quando perceber que vou morrer. A tarefa a que se dedicam o Joaquim e o Nuno é para mim uma exemplar militância política: mudar pelo exemplo a maneira de viver de toda a gente. E bastou não me deixarem parar, porem-me no meio do campo a dizer o Evangelho só com eles e dois amigos mais como parceiros, sentir que o sol se punha enquanto eu lia a narrativa das palavras que João deixou escrito que o Cristo que ele amava disse há dois mil e tal anos, para toda a fancaria artística deixar de me interessar. Eu só quero entender. E ter companhia. ‘Creio no Espírito Santo.’ E não quero perder a vida em compromissos.

O Novo Testamento de Jesus Cristo Segundo João
Imagem, Som e Montagem: Joaquim Pinto e Nuno Leonel
Com Luis Miguel Cintra
129 minutos