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sábado, 8 de dezembro de 2018

Matança

Texto de Leonor Xavier


O rio Amazonas nos arredores de Manaus: um infinito de medida na surpresa, 
nos acontecimentos, nas emoções” (foto © António Marujo)

Menos de um ano antes do Sínodo Pan-Amazónico se realizar e a poucas semanas da tomada de posse de Jair Bolsonaro como Presidente do Brasil, a estratégia política do Governo brasileiro para a Amazónia é preocupante. Pareceu-me útil retomar o tema, relendo o artigo de opinião que há um ano escrevi para o Jornal Público.  

O Brasil é infinito de medida na surpresa, nos acontecimentos, nas emoções. E já que o tema corrupção pouco abala a opinião pública, retomo a saga da Floresta Amazónica e da governação de Michel Temer, mais ainda agora contestada pela recente decisão de abrir à exploração de mineradoras multinacionais uma área de cerca de 50 mil km2, onde existem reservas indígenas e ambientais, onde há ouro, cobre, manganês, ferro. 
Neste Brasil sempre inesperado e pasmoso, até hoje se revelam comunidades indígenas nunca vistas. Ainda se confrontam flechas e armas, a divisão entre vida e morte passa por um vírus de gripe, um produto tóxico, alguma substância que por má fé possa contagiar territórios onde não há defesa nem imunidade. Na demarcação das reservas indígenas, a guerra química é real, a violência é extrema. Há o conflito entre índios e garimpeiros, comprados como escravos, a trabalhar por valor de nada. Há o confronto entre as populações e os agentes ambientais, entre madeireiros, fornecedores do garimpo, fazendeiros, poderes locais. Há a disputa entre empresas, interesses e negócios políticos e privados. Háos lobbies para monopólios de mineração. Estes acontecimentos são notícia nacional quase diária, logo divulgada. A Floresta Amazónica é uma grande causa para o povo brasileiro. 
Logo que publicado o decreto do presidente Temer, as instâncias do poder em Brasília contestaram-no. A política de abertura à mineração foi interpretada por muitos analistas como uma medida contra a crise económica que tem fraturado o país. Para outros, ao invés, uma estratégia de abertura com controlo federal seria melhor do que a atual situação em que três mil garimpeiros depredam ilegalmente a natureza. Houve reações da União Europeia, dos bispos, dos ambientalistas, dos ativistas políticos, dos mais variados setores da sociedade brasileira. Na justiça federal, foi alegada desobediência à Constituição, e foram proibidas outras possíveis decisões do presidente sobre mineração. Pela Igreja Católica, bispos de nove países amazónicos declararam o decreto como antidemocrático, considerando-o uma ameaça política para o Brasil. No Congresso, deputados ambientalistas, defenderam um projeto de lei para anular tais decisões. O Ministério Público do Amapá empreendeu uma ação civil pública e declarou a extinção daquela área de Reserva como ameaça à biodiversidade e ao ambiente, como atentado contra a vida, pronto a destruir as populações e as comunidades indígenas. E na abertura do Rock in Rio, a oposição ao decreto foi proclamada pela modelo Gisele Bundchen, ativista ambiental, com convicção, firmeza e comoção.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Verdade, mentira e tortura

Texto de Silas de Oliveira




Placa na sede da CIA com a frase do Evangelho de São João

Entre as primeiras palavras de Jair Bolsonaro, uma vez confirmada a vitória nas presidenciais brasileiras – antes da oração de graças pela sua eleição e do discurso de propósitos –, ouvimos uma citação do Evangelho segundo S. João: “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”
Curiosamente, é esta mesma inscrição que se encontra gravada numa parede, na entrada do primeiro edifício-sede da CIA, em Langley, Virginia, como divisa da instituição: “And ye shall know the truth, and the truth shall make you free.”
Mas o texto completo do episódio de onde é retirada esta citação é: “Jesus dizia pois aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (Ev. S. João, 8: 31-32)
De que verdade se trata? Aquela que interessa a uma agência estatal de informação (e de operações especiais) não é tanto a do discipulado cristão, baseado na palavra de Jesus. É mais a do conhecimento dos meios e intenções de quem seja definido como inimigo do mesmo Estado. E essa verdade pode eventualmente ser procurada, como sabemos, pela prática da tortura de suspeitos. 
Pelo que o próprio Jair Bolsonaro declarou, ao longo da carreira que o trouxe até à Presidência do Brasil, há aqui uma proximidade preocupante de exegese, entre a sua referência bíblica favorita e a que foi adoptada na CIA. 
Está acessível, no YouTube, a sua declaração de voto na arrepiante sessão de impeachmentda Presidente Dilma Roussef, onde ele dedicou o “sim”, entre outras personalidades, à memória do coronel Carlos Alberto Ustra, chamando-lhe “pavor de Dilma” – o militar que chefiou o Destacamento de Operações de Informações (no Centro de Operações de Defesa Interna), durante a ditadura militar, e participou pessoalmente na tortura de detidos.
A respeito da verdade, sabemos também como a campanha eleitoral de Jair Bolsonaro foi potenciada, na recta final, pela produção e multiplicação de mensagens de ódio pelas redes sociais – um território sem lei, onde o procedimento em vigor é o de produzir fakenews, semear e andar depressa, com a ajuda de robôs (contas falsas). 
Outro Presidente, Donald Trump, tinha declarado, na sua primeira visita à CIA, logo após entrar em funções, que estava em guerra com os média. Como explicou o jornalista Howard Kurtz, no livro que publicou em Janeiro deste ano, a presente guerra é, finalmente, uma “guerra pela verdade”. O título do livro é Media Madness – Donald Trump, the Media, and the War over the Truth (A loucura dos média – Donald Trump, os média e a guerra pela verdade). 
Para esclarecimento de todos, falta aqui, a concluir, mais uma citação do Evangelho de S. João, que vem no mesmo texto, um pouco adiante do que lemos no princípio: “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira.”  (Ev. S. João, 8:44)
E isto interessa-nos a todos, cidadãos, jornalistas ou leitores de jornais, independentemente de seguirmos alguma confissão de fé ou de não termos nenhuma. Estamos todos envolvidos nesta “guerra pela verdade”, ficando desde já prevenidos que, do ponto de vista do Evangelho, a mentira é de natureza “diabólica”. 

P.S. – Depois de redigido este artigo, há notícia de que o perfil do atacante da sinagoga Árvore da Vida, em Pittsburghcita o mesmo versículo de João 8:44. O contexto das afirmações de Jesus é, neste capítulo como nos que vêm antes e depois (leia-se entre o cap. 6 e o cap. 10), um debate de argumentos sobre o que significa ser “filho de Deus” e “filho de Abraão” – e neste debate são todos judeus: Jesus, os seus discípulos que lhe põem dúvidas e questões, e os “sacerdotes, escribas e fariseus” que procuram refutá-lo. É espantoso (e é significativo) que até um terrorista anti-semita consiga ir buscar ao Evangelho um texto que julga poder usar como auto-justificação para os seus actos. 

(Silas de Oliveira é jornalista)

sábado, 6 de outubro de 2018

Eleições no Brasil: o voto religioso e a “enorme ameaça” à democracia

Texto de António Marujo



(Milton Nascimento, Missa dos Quilombos - Estamos Chegando
poema disponível aqui)

Neste domingo, 7 de Outubro, mais de 147 milhões de eleitores brasileiros são chamados a votar na primeira volta das eleições presidenciais. Em muitos sectores, cresce a inquietação com a possibilidade de vitória do candidato Jair Bolsonaro, do PSL (Partido Social Liberal), que tem defendido posições misóginas, armamentistas, racistas e anti-ambientais. A sua eleição representa uma ameaça “enorme” à democracia brasileira, escrevia The Guardian quinta-feira, dia 4, e o “risco impensável'” de que ele se torne Presidente do Brasil passou a ser real.
Nestas eleições, há muitos factores em jogo. Os graves casos de corrupção, que nunca desapareceram do país e continuaram durante os governos do Partido dos Trabalhadores, a violência social e as fortes desigualdades sociais (atenuadas durante a presidência de Lula da Silva) são apenas algumas delas. O voto de evangélicos e católicos e a influência das redes sociais na dinamização das pessoas e na propagação de mentiras são, por outro lado, alguns dos elementos determinantes que podem fazer pender a eleição para um lado ou outro. 
O recenseamento de 2010 identificou 86,8 por cento dos brasileiros como cristãos. Destes, 22,2 por cento (cerca de 43,3 milhões de pessoas) são evangélicos. O crescimento dos últimos anos permite, no entanto, prever que, em 2020, possam tornar-se a maioria dos cristãos.
 “O crescimento [dos evangélicos] tem sido atribuído, por vários estudos com as mesmas conclusões analíticas, ao facto de que as igrejas evangélicas estão em locais em que o Estado não chega com suas políticas básicas”, diz ao RELIGIONLINE Jane Maria Vilas Bôas, assessora de imprensa da candidata Marina Silva. 
A mesma responsável acrescenta: “Os pastores (das diferentes comunidades e grupos) têm sido as referências de assistência social em locais muito pobres. Além disso, o corpo eclesiástico das igrejas evangélicas tem sido formado com pastores oriundos da própria população local. Assim, essa expansão demográfica também significa expansão da capacidade de influenciar qualquer processo social da sociedade brasileira, inclusive as eleições presidenciais.”

Marina Silva e o poder das mulheres

Uma das questões para este domingo está, então, em saber se o voto evangélico (e, por extensão, o católico) pode ser um factor decisivo na escolha do eleitorado. Jane Maria contesta o pressuposto da designação: “Os evangélicos no Brasil se distribuem em 36 denominações. Considerando essas diferentes práticas e doutrinas, é um pouco difícil definir ‘voto evangélico’.” 

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Regra de vida de Hélder Câmara: vida, beleza, alegria


Hélder Câmara (foto reproduzida daqui)

Hoje, 27 de Agosto, completam-se 19 anos sobre a morte, em 1999, de Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife (Brasil). Entre os seus 14 e 22 anos, o jovem Hélder viveu no Seminário Diocesano de Fortaleza, Ceará, Brasil. No final da sua permanência ali, ele elaborou uma ‘regra de vida’, posteriormente divulgada entre colaboradoras e colaboradores, tanto no Rio de Janeiro como em Recife. Trata-se de um documento pouco conhecido, mas relevante para a compreensão da sua importância em termos universais, ou seja, para além da instituição católica.
Nesse texto, sobressai, sem resquícios ‘salvacionistas’, a teologia da graça, da vida, da beleza e da alegria e não se fazem referências a ideias como combate ao pecado, penitência, confissão, arrependimento, pecado original, ‘temor de Deus’, morte, culpa, diabo ou inferno. 
(o texto sobre a Regra de Vida de Dom Hélder pode ser lido aqui)

sábado, 17 de fevereiro de 2018

90 anos de Pedro Casaldáliga: o bispo da “absurda” Esperança



Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix de Araguaia, Mato Grosso, Brasil
(foto reproduzida daqui)

Há pouco mais de 46 anos, o convite para a celebração de ordenação de bispo de Pedro Casaldáliga, então missionário dos padres claretianos no Brasil, dizia, com estas palavras em forma de poema:
Tua mitra
será um chapéu de palha sertanejo;
o sol e o luar; a chuva e o sereno;
o olhar dos pobres com quem caminhas
e o olhar glorioso de Cristo, o Senhor.
Teu báculo
será a verdade do Evangelho
e a confiança do teu povo em ti.
Teu anel
será a fidelidade à Nova Aliança
do Deus Libertador
e a fidelidade ao povo desta terra.
Não terás outro escudo
que a força da esperança
e a liberdade dos filhos de Deus
nem usarás outras luvas que
o serviço do Amor.
Ontem, 16 de Fevereiro de 2018, o bispo emérito de São Félix do Araguaia (Mato Grosso, no centro do Brasil, a sul da região amazónica) completou 90 anos de vida e uma celebração eucarística assinalou o facto. Uma vida em grande parte dedicada a fazer daqueles votos de consagração um horizonte de acção evangélica, através da defesa e da experiência de um cristianismo servo e pobre, dedicado à protecção dos mais pobres e desfavorecidos. Uma vida que levou a sério a promessa-convite da sua ordenação episcopal, tendo-se sempre recusado a usar símbolos que, na sua perspectiva, falavam mais do poder do que do serviço.
Não foi fácil a vida de Pedro Casaldáliga. Nascido Pere Casaldàliga i Pla, em Balsareny, na província catalã de Barcelona (Espanha), a 16 de Fevereiro de 1928 e emigrado para o Brasil, em 1968, como missionário da sua congregação, os padres claretianos, viria a sofrer várias ameaças de morte (numa das ocasiões, teve mesmo de se esconder, como Fernando Alves evocava na TSF em Dezembro de 2012), esteve várias vezes para ser expulso do Brasil durante a ditadura militar, sofreu incompreensões de algumas estruturas eclesiásticas, teve posições que muitas pessoas não entenderam. Mesmo assim, persistiu na sua forma de estar. 

No Brasil, com o Pacto das Catacumbas
Em 1968, chegado ao Brasil, o padre Casaldáliga encontrou no Mato Grosso uma região marcada pela imensa miséria e analfabetismo, pelo poder dos grandes latifundiários e por assassinatos frequentes dos líderes e das populações indígenas ou rurais.
Nomeado administrador apostólico de São Félix em 1970 e bispo no ano seguinte, recebeu a ordenação episcopal em Outubro de 1971. Na sua actividade episcopal, aderiu ao Pacto das Catacumbas, um documento assinado por vários bispos que tinham participado no Concílio Vaticano II, e que se comprometiam a viver de forma despojada e servindo o anúncio do Evangelho entre os mais pobres. O Pacto é uma das etapas fundamentais que levará ao aparecimento de líderes como o Papa Francisco.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Em defesa da Amazónia e da Casa Comum

Bispos brasileiros condenam extinção de reserva amazónica, dias depois de o Papa Francisco e o Patriarca Bartolomeu terem publicado um documento conjunto assinalando o Dia de Oração pelo Cuidado da Criação.


O Patriarca Bartolomeu e o bispo católico Geraldo Majella Agnelo, durante a cerimónia 
da bênção das águas, que abriu o simpósio Religião, Ciência e Ambiente, 
em Manaus (Amazónia, Brasil), em Julho de 2006 (foto © RSE)

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou esta terça-feira, dia 5, uma nota em que manifesta um “veemente repúdio” pelos decretos que extinguem a Reserva Nacional de Cobre e seus Associados (Renca). A decisão governamental afronta a Constituição Federal, considera a presidência da CNBB, pelo facto de não consultar os povos indígenas.
Os bispos acrescentam que esta decisão evidencia a lógica de mercado que tem sido adoptada no Brasil, “em detrimento da vida, da dignidade da pessoa e do cuidado com a Casa Comum”. E exemplificam: “Políticas governamentais de incentivo às hidrelétricas, à mineração e ao agronegócio, com flexibilização de licenças ambientais, anulam os esforços em prol de sua preservação”, considera a CNBB.
A nota dos bispos em defesa da Amazónia, intitulada “Viver a vocação de guardiões da obra de Deus”, pode ser lida na íntegra aqui e pede a “revogação revogação integral dos decretos de extinção da Renca”.
Também a Rede Eclesial Pan-Amazónica (Repam), integrada no Conselho Episcopal Latino-Americano e do Caribe (Celam), que reúne todas as conferências episcopais da região, repudiou a decisão governamental brasileira. E, apesar de o Presidente Michel temer ter anunciado há dias a revisão de um dos decretos em causa – que abre uma reserva amazónica à exploração mineira – acabou por manter a extinção da Renca, que agora foi condenada pela CNBB.
Esta situação surge no contexto da celebração do terceiro Dia de Oração pelo Cuidado da Criação, assinalado no passado dia 1 de Setembro, pela primeira vez, com uma mensagem conjunta do Papa Francisco e do Patriarca Bartolomeu, de Constantinopla.
No documento, que pode ser lido aqui na íntegraFrancisco e Bartolomeu relacionam as trágicas consequências das mudanças climáticas com a situação das populações mais vulneráveis: “O ambiente humano e o ambiente natural estão a deteriorar-se conjuntamente, e esta deterioração do planeta pesa sobre as pessoas mais vulneráveis. O impacto das mudanças climáticas repercute-se, antes de mais nada, sobre aqueles que vivem pobremente em cada ângulo do globo. O dever que temos de usar responsavelmente dos bens da terra implica o reconhecimento e o respeito por cada pessoa e por todas as criaturas vivas. O apelo e o desafio urgentes a cuidar da criação constituem um convite a toda a humanidade para trabalhar por um desenvolvimento sustentável e integral.”

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Brasil: um país em mudança, também religiosa

O Brasil onde chega hoje o Papa Francisco tem conhecido mudanças profundas não apenas na sociedade, na economia e na política, mas também no plano religioso (cf quadro).

O catolicismo continua a ser a confissão religiosa mais importante, mas a percentagem dos brasileiros que se identificam como católicos caiu de 92 para 65% em 40 anos (1970-2010), segundo dados recentemente publicados pelo norteamericano Pew Research Centre.

O protestantismo é que tem crescido de forma significativa: só entre 2000 e 2010 passaram de 26 a 42 milhões: não tanto as expressões consideradas históricas - luteranas, calvinistas e metodistas - mas as mais jovens, pentecostais e evangélicas, algumas fundadas no próprio país, como a Igreja Universal do Reino de Deus.

Desde 1970 para cá, o grupo de pessoas que se dizem sem religião, agnósticos e ateus cresceu também de forma significativa,de um para 15 milhões.

A diminuição do número de católicos afeta sobretudo as zonas urbanas e a população mais jovem. No Rio de Janeiro, cidade que acolhe esta semana as Jornadas Mundiais da Juventude, os que se dizem católicos representam menos de metade da população(46%).

[Fonte e mais informação: AQUI]

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Aldeia indígena incendiada no Brasil

O Congresso Indígena Missionário (Cimi), do Brasil, denunciou que na noite de 14 de Setembro um grupo de pessoas não identificadas queimou cerca de 35 casas de indígenas Guaraní Kaiowá, da aldeia Laranjeira Ñanderu, perto de Rio Brilhante (Mato Grosso do Sul). Segundo a informação, divulgada há pouco pelo Serviço Missionário de Notícias, das Obras Missionáriass Pontifícias em Espanha, os indígenas não estavam na aldeia, pois já tinham sido obrigados a sair, dia 11, por ordem judicial.

Os cerca de 130 Guaraní Kaiowá viram, apesar disso, o fogo a destruir as suas casas, enquanto os provocadores do incêndio continuavam amedrontando os índios com automóveis. Apesar de avisado o Ministério Público, a polícia não apareceu.

Um dos líderes Guarani citado pela mesma fonte diz que os indígenas estão profundamente desgostosos com a situação. Para este povo, além da destruição de casas e bens, foram também os espíritos dos que nelas viviam que desapareceram. Também a maioria dos animais morreu. Os indígenas aguardam acampados junto a uma estrada próxima a demarcação da sua terra.

(Aqui pode ler-se sobre o mito guarani da criação, a que alude a imagem reproduzida)

domingo, 15 de março de 2009

Saudades de Dom Hélder

aqui se evocou a memória de Dom Hélder, que o texto de Anselmo Borges no post anterior novamente recorda. Em relação ao caso, também já aqui referido antes, do aborto da menina de nove anos, sucessivamente abusada e violada pelo padrasto, o secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) veio tentar, na sexta-feira, 13, compor alguns cacos provocados pela trágica decisão do sucessor de Dom Hélder. O actual bispo de Olinda, excomungou a família e o pessoal médico que interveio no aborto.

Disse o bispo Dimas Lima Barbosa que a mãe da criança "agiu sob pressão dos médicos" e que era "necessário ter em conta as circunstâncias". Antes dele, já a própria CNBB viera repudiar "veementemente" o "ato insano" da violência sobre a menina-mãe.

Também do Vaticano veio uma crítica ao bispo. O presidente da Academia Pontifícia da Vida, Rino Fisichella, afirmou hoje, num artigo no L'Osservatore Romano, que "antes de pensar em exmomunhão, era necessário e urgente salvar a vida inocente" da menina, para lhe devolver "um nível de humanidade do qual os clérigos deveriam ser peritos e mestres".

"Não foi este o caso", escreveu o bispo Fisichella. "Infelizmente, a credibilidade do nosso ensinamento fica estilhaçada, uma vez que aparece, aos olhos de muitos, como insensível, incompreensível e falha de misericórdia".

Esta é uma boa notícia, depois de, num primeiro momento, o cardeal Giovanni Battista Re, ´prefeito da Congregação dos Bispos, ter dito que os gémeos tinham o "direito de viver" e que as críticas ao bispo de Olinda eram "injustificadas".

O arcebispo de Olinda-Recife, que pelos vistos não terá aprendido de Dom Hélder a compreensão e a compaixão, apressou-se a dizer que o aborto era um crime, dizendo que o aborto era "mais sério" do que o crime insano da violação. O bispo Dimas Lima Barbosa explicou sexta-feira que, no caso dos médicos, "só serão excomungados os que praticam o aborto sistematicamente".

Em Agosto fará 10 anos que Dom Hélder nos deixou. Que saudades da sua voz profética e meiga, da sua figura franzina e forte, da sua compaixão por todos os que sofriam! No longo poema à Virgem, a invocação a Mariama, da Missa dos Quilombos, Dom Hélder Câmara grita: "O mundo precisa fabricar é paz. Basta de injustiça. (...) Mariama, mãe querida: nem precisa ir tão longe como no teu hino. Nem precisa que os ricos saiam de mãos vazias e os pobres de mãos cheias. Nem pobre nem rico. (...) Um mundo de irmãos"...