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segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Regra de vida de Hélder Câmara: vida, beleza, alegria


Hélder Câmara (foto reproduzida daqui)

Hoje, 27 de Agosto, completam-se 19 anos sobre a morte, em 1999, de Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife (Brasil). Entre os seus 14 e 22 anos, o jovem Hélder viveu no Seminário Diocesano de Fortaleza, Ceará, Brasil. No final da sua permanência ali, ele elaborou uma ‘regra de vida’, posteriormente divulgada entre colaboradoras e colaboradores, tanto no Rio de Janeiro como em Recife. Trata-se de um documento pouco conhecido, mas relevante para a compreensão da sua importância em termos universais, ou seja, para além da instituição católica.
Nesse texto, sobressai, sem resquícios ‘salvacionistas’, a teologia da graça, da vida, da beleza e da alegria e não se fazem referências a ideias como combate ao pecado, penitência, confissão, arrependimento, pecado original, ‘temor de Deus’, morte, culpa, diabo ou inferno. 
(o texto sobre a Regra de Vida de Dom Hélder pode ser lido aqui)

sábado, 24 de maio de 2014

Violência doméstica – a estupefacção provocada por um estudo (e o famoso bispo do Porto)

No seu comentário aos textos da liturgia católica deste domingo, 25 de Maio, Vítor Gonçalves escreve sobre O Espírito da verdade. Na crónica, o autor recorda um poema de D. Hélder Câmara (que morreu há 15 anos) e termina a referir a sua estupefacção com os dados de um estudo sobre violência doméstica, onde se reflecte sobre o modo como as mulheres católicas vítimas de violência encaram a sua realidade. Uma reflexão pertinente, que pode ser lida na íntegra aqui.


Na crónica do DN de hoje, Anselmo Borges dedica o texto à memória de D. António Ferreira Gomes, o antigo bispo do Porto. Sob o título Ah, o famoso bispo do Porto!, escreve, a propósito do livro Cartas ao Papa:

Ousou entrar em questões melindrosas. Exemplos: dever-se-á reflectir sobre a confissão auricular – “Santo Agostinho nunca se confessou” – bem como repensar o processo de canonização dos santos; a reforma urgente da Cúria “será baldada se não incluir o desaparecimento da função cardinalícia”; o que se passou no caso do novo Estatuto do Opus Dei foi “um dos factos mais graves da História da Igreja” e dos mais infelizes.
O texto pode ser lido aqui na íntegra.


domingo, 15 de março de 2009

Saudades de Dom Hélder

aqui se evocou a memória de Dom Hélder, que o texto de Anselmo Borges no post anterior novamente recorda. Em relação ao caso, também já aqui referido antes, do aborto da menina de nove anos, sucessivamente abusada e violada pelo padrasto, o secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) veio tentar, na sexta-feira, 13, compor alguns cacos provocados pela trágica decisão do sucessor de Dom Hélder. O actual bispo de Olinda, excomungou a família e o pessoal médico que interveio no aborto.

Disse o bispo Dimas Lima Barbosa que a mãe da criança "agiu sob pressão dos médicos" e que era "necessário ter em conta as circunstâncias". Antes dele, já a própria CNBB viera repudiar "veementemente" o "ato insano" da violência sobre a menina-mãe.

Também do Vaticano veio uma crítica ao bispo. O presidente da Academia Pontifícia da Vida, Rino Fisichella, afirmou hoje, num artigo no L'Osservatore Romano, que "antes de pensar em exmomunhão, era necessário e urgente salvar a vida inocente" da menina, para lhe devolver "um nível de humanidade do qual os clérigos deveriam ser peritos e mestres".

"Não foi este o caso", escreveu o bispo Fisichella. "Infelizmente, a credibilidade do nosso ensinamento fica estilhaçada, uma vez que aparece, aos olhos de muitos, como insensível, incompreensível e falha de misericórdia".

Esta é uma boa notícia, depois de, num primeiro momento, o cardeal Giovanni Battista Re, ´prefeito da Congregação dos Bispos, ter dito que os gémeos tinham o "direito de viver" e que as críticas ao bispo de Olinda eram "injustificadas".

O arcebispo de Olinda-Recife, que pelos vistos não terá aprendido de Dom Hélder a compreensão e a compaixão, apressou-se a dizer que o aborto era um crime, dizendo que o aborto era "mais sério" do que o crime insano da violação. O bispo Dimas Lima Barbosa explicou sexta-feira que, no caso dos médicos, "só serão excomungados os que praticam o aborto sistematicamente".

Em Agosto fará 10 anos que Dom Hélder nos deixou. Que saudades da sua voz profética e meiga, da sua figura franzina e forte, da sua compaixão por todos os que sofriam! No longo poema à Virgem, a invocação a Mariama, da Missa dos Quilombos, Dom Hélder Câmara grita: "O mundo precisa fabricar é paz. Basta de injustiça. (...) Mariama, mãe querida: nem precisa ir tão longe como no teu hino. Nem precisa que os ricos saiam de mãos vazias e os pobres de mãos cheias. Nem pobre nem rico. (...) Um mundo de irmãos"...

No centenário de D. Hélder Câmara

No seu texto deste sábado no DN, Anselmo Borges faz a memória de Dom Hélder. Uma memória actualíssima, como se percebe pelos acontecimentos das últimas duas semanas na diocese de Olinda e Recife, referidos no último parágrafo. Aqui fica o texto:

Se fosse vivo, D. Hélder Câmara, um dos profetas maiores do século XX, teria feito 100 anos no passado dia 7 de Fevereiro. Nasceu em 1909, em Fortaleza. Foi bispo auxiliar do Rio de Janeiro e arcebispo de Recife e Olinda. Morreu no dia 27 de Agosto de 1999.

Conhecido no Brasil e em todo o mundo pela sua militância a favor dos direitos humanos, foi perseguido por causa da denúncia destemida da tortura e da miséria, chegando a ser acusado de comunista. Costumava dizer: "Se dou comida a um pobre, chamam-me santo; mas, se pergunto porque é pobre, chamam-me comunista."

Esteve na base da fundação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e da criação do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), bem como da Teologia da Libertação. Percorreu o mundo com conferências que contagiavam multidões.

Queria uma Igreja pobre, ao serviço dos pobres. Ele próprio deu o exemplo: no Recife, viveu 21 anos numa casa pequena e modesta, aberta a todos.

Conheci-o pessoalmente em Roma, em Outubro de 1974, por ocasião do III Sínodo dos Bispos. Foi uma conversa longa, publicada num caderno (esgotado) com o título Evangelho e Libertação Humana, donde retiro algumas declarações.

A Igreja precisa de renovação constante. "Tudo o que for sobrecarga, laço, prisão, criados pelos homens, tudo o que for tabu, tudo isso pode e deve ser raspado, como quem raspa o fundo de um barco. Quando penso na Igreja, eu me lembro da barca, não apenas de Pedro, porque a barca é do Cristo. Precisamos de raspar periodicamente o limo que se vai juntando no fundo do barco e inclusive substituir de vez em quando alguma tábua que apodrece."

Essa renovação embate com enormes dificuldades. "Eu cheguei como arcebispo a Recife, uma cidade do Nordeste brasileiro, uma das áreas subdesenvolvidas do país. Mesmo assim, eu recebi como casa uma casa já velha, mas enorme, com o nome de palácio. E dentro dele havia duas salas de trono: uma, mais solene, para as grandes recepções, e outra para o diário. Para receber todas as pessoas era um trono!... Pois bem! Eu levei seis meses para poder livrar-me da primeira sala e ano e meio para livrar-me da segunda!... Então, que cada um olhe em volta de si e veja como ainda está preso, por exemplo, pela sociedade de consumo. Como nós somos escravos da sociedade de consumo! Como é difícil arrancar-nos das estruturas!"

Para a transformação do mundo, acreditava em minorias conscientes e críticas que, a partir da subversão e conversão interior, lutassem, mediante a não-violência activa, por um mundo justo e fraterno. "Estas minorias já existem. Precisamos de unir estas minorias que desejam um mundo mais respirável, mais humano, uni-las dentro de uma mesma cidade, de uma região, de um país, de país a país, porque hoje, sobretudo com as multinacionais, com todo o complexo de poder económico, utilizando técnicas, meios de comunicação social, se infiltrando nos Governos, utilizando não raro militares, diante dessa força imensa, é impossível a um país sozinho construir uma sociedade mais humana."

Estávamos longe da queda do muro de Berlim. Mas, animado pela utopia da libertação, pensava que "um socialismo humano", cujo caminho "estamos tentando descobrir", era a via para a justiça. "Eu sei que há tentativas aqui e acolá, mas ainda se não chegou a um socialismo verdadeiramente humano que, longe de esmagar a pessoa, pelo contrário, de facto nos arranque das estruturas capitalistas, da engrenagem capitalista, mas não para meter-nos em novas engrenagens".

Foi um dos principais animadores do "Pacto das Catacumbas" - assinado por 40 Padres Conciliares, pouco antes do encerramento do Concílio Vaticano II, nas catacumbas de Roma. Nele, sublinha-se a pobreza evangélica da Igreja, sem títulos honoríficos nem ostentações mundanas. Como Povo de Deus, o seu governo assenta na colegialidade e co-responsabilidade. Insiste-se na abertura ao mundo, na transformação social e no acolhimento fraterno.

De certeza não teria excomungado, como fez há dias um sucessor, os responsáveis por aborto em menina de 9 anos, abusada pelo padrasto.