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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A humanidade e o sagrado são, nela, uma e a mesma coisa

Livro

Pouco se sabe acerca de Maria de Nazaré que, muito jovem, foi mãe de Jesus. Mas, como escreve Jacques Duquesne (Maria, A Verdadeira História da Mãe de Jesus, ed. Asa), “esta quase desconhecida foi representada de todas as maneiras – com talento, ingenuidade ou estupidez – e sem ela a História da Arte seria completamente diferente”.
A escassa dezena de referências dos quatro evangelhos canónicos à sua pessoa contrasta com a maior importância que lhe é dada nos apócrifos (os textos não aceites como autênticos ou divinamente inspirados, onde até se “identificam” os pais de Maria, sobre os quais não há certeza histórica nenhuma) e, mais ainda, com todas as alusões, invocações e atributos que, ao longo da história, se centraram na sua figura.
Resume ainda Duquesne: “Esta mulher ignorada pelos autores do seu tempo foi proclamada três séculos mais tarde mãe de Deus, depois rainha e mãe da Igreja e mil vezes coroada. Ela foi – e continua a ser – invocada por milhões de homens e mulheres. São-lhe atribuídos milhares de milagres. Nunca ninguém no mundo inspirou tantos hinos, cânticos, poemas, histórias.” E, numa alusão a fenómenos como Fátima, lembra o jornalista católico francês (autor também de um Jesus que causou muita polémica) que esta mulher arrasta multidões “para os lugares onde ela apareceu, onde ela falou e falou bem mais do que nos Evangelhos, séculos depois da sua morte”.
Foi precisamente esse fascínio de tantos milhões que levou as autoras deste “acervo” de arte a dar-nos um retrato dos retratos desta mulher ímpar na história da humanidade. São 370 imagens (quase todas pinturas, algumas esculturas e algumas fotos de santuários a ela dedicados) aqui reunidas, que nos dão o mais belo das diferentes invocações, factos miraculosos ou histórias relacionadas com Nossa Senhora, como popularmente é tantas vezes designada.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Um feminismo disfarçado?

Ao longo dos anos, fui construindo a ideia de que, na cultura católica dominante, existe um desequilíbrio doutrinal em favor do culto da "Virgem Mãe".
O celebrante da missa de hoje foi de uma eloquência notável, neste ponto. Enaltecendo a maternidade, como uma das maiores belezas e feitos da humanidade, e Maria por ter dado à luz o Salvador, discorreu sobre a actualidade desta tarefa (que para aqui não vem, agora , ao caso). O que inquieta, nesta visão das coisas, que muito clérigo partilha, é que o homem e o seu papel como que se eclipsa, ficando a Mulher-Mãe no centro e no altar da veneração (quando não da adoração).
Ora, se esta hipótese for consistente, não deixa de ser curiosa, porque parece conduzir a um modelo de maternidade e de família que está nos antípodas daquele que a Igreja defende: um modelo binário Mãe-Filho/a, em lugar de um modelo trinitário Mãe-Pai-Filho/a.
Se a hipótese for consistente, ela configuraria um feminismo encapotado, que não precisa da figura masculina, naquilo que, neste contexto, é relevante.
Tenho consciência de que o assunto é denso e vasto. Mas poderia, eventualmente, abrigar a chave para alguns problemas e controvérsias da actualidade eclesial. Não sou um expert na matéria, muito longe disso, mas deixo a reflexão. Pode ser que alguém contribua para fazer luz sobre o assunto.
(Crédito da imagem: Maia e o Menino, de Albert Dürer)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A Imaculada Conceição

No seu texto deste sábado, no DN, Anselmo Borges fala do feriado que hoje, dia 8, se assinalou, e do seu significado teológico e pastoral.

Não sei se a maioria dos portugueses conhece o motivo do feriado no dia 8 de Dezembro. Os católicos praticantes saberão que se trata de uma festa ligada a Nossa Senhora. Se interrogados, talvez respondessem, na quase totalidade, que tem a ver com a virgindade de Maria.
Aí está, pois, uma festa infestada com equívocos. Logo à partida, que pode significar Imaculada Conceição? De facto, não se refere directamente à virgindade, mas não lhe é completamente alheia. Do que se trata, na realidade, é da afirmação de que Maria, a Mãe de Jesus, foi concebida sem pecado.
Mas, aqui, sem hermenêutica, isto é, sem interpretação, pode albergar-se uma série de confusões, profundamente ofensivas sobretudo para as mulheres, minando, desgraçadamente, a mensagem do Evangelho enquanto notícia boa e felicitante.
Foi concretamente Santo Agostinho que elaborou a doutrina do pecado original, no sentido de um pecado cometido pelos primeiros pais (Adão e Eva) e transmitido a todos por herança, no acto sexual. Houve uma excepção: Maria foi concebida sem a mancha do pecado original.
Deste modo, porém, a sexualidade ficou manchada e as mulheres acabavam por sentir-se discriminadas, tanto mais quanto, associando a concepção de Jesus a uma geração virginal, se lhes propunha o ideal impossível de virgem e mãe.
Sub-repticiamente, esta doutrina causou imensos danos ao cristianismo, concretamente à mulher, à visão do sexo e do casamento.
Assim, um cristão atento e reflexivo sabe que é necessário e urgente rever o dogma, mostrando o seu verdadeiro sentido. O próprio Papa João Paulo II deu a chave, ao escrever que "o Natal de Jesus revela o sentido profundo de todo o nascimento humano". Afinal, quando percebe que o ser humano não é redutível à biologia, o crente verá em toda a nova geração a presença do Espírito, como aconteceu com Jesus. Por outro lado, nascer é vir à luz e, portanto, dar à luz não constitui uma mancha para a mãe, como supõe a doutrina da virgindade de Maria, antes, no e depois do parto.
Um dia, numa entrevista, um jornalista atirou-me: "Não acha que Nossa Senhora é a mulher mais poderosa de Portugal?" Nunca tinha pensado nisso, mas é bem possível. Basta pensar em Fátima e no que Fátima representa para os portugueses. Aliás, Nossa Senhora "concede" dois feriados nacionais: Imaculada Conceição (8 de Dezembro) e Assunção (15 de Agosto).
Mas, se se pensar bem, estas festas são metáforas de esperança e salvação: todo o ser humano é concebido sem pecado, mas, entrado no mundo, terá de lutar contra a maldade e o pecado, na esperança de um mundo melhor, e também na morte pode contar com o Deus amor e a sua graça de vida eterna.
Podemos então compreender, como dizia o teólogo Karl Rahner, que, nestes domínios, por exemplo, da virgindade de Maria, não se trata de biologia. Referindo-se à narrativa do Evangelho de São Mateus sobre a geração de Jesus por obra do Espírito Santo, escreveu o exegeta Jean Radermakers: "Tomando imagens das mitologias pagãs, depuradas pela reflexão judaica, Mateus não se situa num plano de fisiologia, medicina, ginecologia ou sexologia, mas no de uma realidade mais profunda. Deveríamos reler a nossa experiência do dar à luz e da responsabilidade parental a partir do nascimento de Jesus. Toda a criatura recém-nascida vem de Deus. Assumir uma maternidade e paternidade humanas é deixar que Deus se revele na criatura nascida. A missão de todo o varão e toda a mulher que se unem é dar lugar a que apareça no mundo a realidade do Emanuel, Deus connosco."
Criticando os mal-entendidos da leitura do Evangelho a partir de pressupostos negativos em relação à sexualidade, o teólogo Juan Masiá põe na boca do anjo estas palavras dirigidas a São José: "Não deixes de levar Maria contigo. Não penses que pelo facto da intervenção do Espírito o teu papel como varão está a mais. Não tens que afastar-te para permitir que Deus faça algo grande com a tua família. Com a tua relação com Maria, não vais entrar em concorrência com o Espírito. O teu papel é compatível com a acção de Deus e com que Jesus seja o Cristo."