O padre católico que já salvou milhares de vidas
disse em Fafe, no Encontro Terra Justa, que a União Europeia está a trair os
seus princípios fundadores.
O padre Mussie Zerai, em Fafe, quinta-feira passada
(foto Manuel Meira/Câmara Municipal de Fafe)
O “112 do Mediterrâneo” quer ser o
112 da Europa? “A União Europeia [UE] está a trair a Convenção de Genebra e os princípios
fundamentais da sua instituição, está a dar carta branca à ditadura que se está
a instaurar na Turquia.”
Quem fala assim não é europeu de
nascimento, mesmo se vive há largos anos na Europa. O padre Mussie Zerai, 41
anos, eritreu, ajudou milhares de pessoas a salvar-se de traficantes, de
travessias pelo deserto, de prisões, de naufrágios no Mediterrâneo.
Depois de sair da Eritreia aos 14
anos, Zerai foi ordenado padre, já em Itália. A partir de 1995, começou a
ajudar os refugiados – sobretudo os eritreus, o terceiro maior contingente dos
que chegam à Europa, depois dos sírios e
iraquianos – que chegavam a Itália sem documentos.
Em 2003, um jornalista que
conhecera num debate pediu-lhe ajuda para servir de tradutor nas conversas com
refugiados do seu país. “Eu não podia limitar-me ao papel de tradutor, tinha de
fazer alguma coisa.” Deixou o seu número de telefone numa prisão líbia: “Para
qualquer emergência, ligue para este número.” A partir daí, milhares de pessoas
procuraram-no a pedir socorro.
Ainda na semana passada, conta,
recebeu um pedido de socorro do meio do Mediterrâneo. “Um barco com várias
pessoas esteve oito horas para ser socorrido. Se houvesse um dispositivo eficaz,
elas teriam recebido socorro imediato. Com essa espera, morreram duas pessoas.”
Mussie Zerai esteve dois dias em
Fafe, a participar no Terra Justa – Encontro Internacional de Causas e Valores
da Humanidade. A organização que dirige, a Agenzia Habeshia (que significa
“mistura”) foi uma das homenageadas no terceiro dia do encontro, quinta-feira passada.
