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sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Um convento resiliente, a partir do seu interior

 
“É uma beleza!...” Nossa Senhora da Conceição a ser coroada com a coroa da paz 
(pintura em azulejo no antecoro do Convento dos Cardaes)

Fundado por D. Luísa de Távora em 1681, como convento de carmelitas, acolhe, desde 1877, uma comunidade de irmãs dominicanas e de mulheres com necessidade de apoio. A história do Convento dos Cardaes conta-se com a resiliência: sobreviveu praticamente intacto ao terramoto de Lisboa de 1755 e às extinções dos conventos e mosteiros decretadas pela revolução liberal, em 1834, e pela República, em 1910-11. “Ficou sossegado”, comenta a irmã Ana Maria Vieira que, desde 1975, tem sido responsável pela comunidade, pela residência de mulheres e pela recuperação patrimonial do convento – e que guia a reportagem de Manuel Vilas Boas na TSF (com som de Mézicles Helim) percorrendo as escadarias, celas, igreja e arte patrimonial deste convento
Discreto por fora e riquíssimo por dentro, o edifício guarda vários segredos: abrem-se armários e deles saem pinturas ou retábulos, percorrem-se os corredores ou os claustros e deles emergem histórias desconhecidas ou esquecidas. Uma delas foi a razão da sobrevivência do convento, depois da extinção decretada no século XIX: graças ao facto de ali se acolherem mulheres cegas, o convento pode permanecer aberto; depois da instauração da República, foram destacados funcionários dos hospitais civis de Lisboa mas as mulheres “choravam tanto” que as irmãs tiveram de voltar, com o pedido de que “rezassem baixinho”.
Entre os muitos tesouros artísticos que o convento guarda, está um painel de azulejos alusivo à coroação de Nossa Senhora da Conceição com a coroa da paz. La femme européène (a mulher europeia), comentou um historiador de arte em visita ao convento, aludindo às doze estrelas que circundam a cabeça de Nossa Senhora, que inspiraram a bandeira da União Europeia. “É uma beleza”, comenta a irmã Ana Maria na reportagem, mostrando o seu gosto pelo património que tem à sua guarda há 42 anos. E que destaca, por exemplo outra pintura alusiva à ressurreição de Jesus: “Não há Madalena a dizer que [Cristo] não está, não há anjo, não há soldado estremunhado...” Apenas a luz e os símbolos da paixão. Porque não se pode representar o irrepresentável, como dirá também a irmã Ana Maria na reportagem da Visita Guiada conduzida por Paula Moura Pinheiro.
Na mesma reportagem, Ana Maria Vieira acrescenta: “O interior é que tem valor, o exterior são aparências.”

(Para conhecer o convento e o seu património, pode também procurar-se o livro O Convento dos Cardaes – Veios da Memória, ed. Quetzal)

domingo, 29 de junho de 2014

Fugas do mundo nas sendas de Deus

Na Paulinas Editora, foi publicado o livro Lugares do Infinito – um guia de mosteiros e conventos para reencontrar o mundo, da autoria do fotógrafo Daniel Rocha e de mim próprio. O livro recolhe um conjunto de reportagens que publicámos em 21012, no Público/Fugas, e que é introduzido por um texto intitulado Fugas do mundo nas sendas de Deus, que a seguir se reproduz.




A fuga mundi, fuga do mundo, era uma das ideias do monaquismo cristão no seu início. Talvez os monges medievais não estivessem tão longe da busca contemporânea de lugares de tranquilidade, lugares mágicos de reencontro consigo mesmo.

"Todos os hóspedes que se apresentam [no mosteiro] sejam recebidos como se fosse o próprio Cristo, pois Ele dirá [um dia]: 'Fui hóspede e recebestes-me.'"
Tudo começou assim, com Bento de Núrsia, monge que viveu entre cerca de 490 e 547, na região da Umbria italiana (onde, sete séculos depois, nasceria Francisco de Assis).
Eram tempos em que o cristianismo, proclamado por Constantino como religião de Estado, esmorecia nas suas práticas e relaxava a exigência de vida. Muitos crentes começaram, então, a retirar-se para lugares de silêncio e solidão, em busca de uma vida mais ascética e purificada.
Bento de Núrsia foi um deles. Decidiu viver numa gruta de montanha em Subiaco, a leste de Roma. Pelo ano de 530, mudou para Monte Cassino. Tomou um texto de uma regra já existente, a Regra do Mestre.
Abreviando-a, sublinhou a perspectiva comunitária do monaquismo, aliando ao mesmo tempo a oração, a reflexão intelectual e o trabalho manual - surge o lema ora et labora (reza e trabalha). A regra estabelece também formas de rezar, normas de obediência, regras sobre a propriedade ou o modo de acolher qualquer hóspede que chegue.
Com o texto, Bento tornou-se o iniciador do monaquismo cristão como o conhecemos. Surgiu uma autêntica rede de mosteiros beneditinos, decisiva na construção da identidade europeia medieval – a ponto de, em 1964, o Papa Paulo VI proclamar São Bento padroeiro da Europa, com a festa litúrgica assinalada a 11 de Julho.
A ideia do acolhimento de quem passava era essencial na vida dos monges. "A cada [hóspede] sejam prestadas as honras convenientes, de modo particular aos 'domésticos da fé' [clérigos e monges] e aos peregrinos", acrescentava a regra, que dispunha depois os pormenores práticos.