sábado, 7 de dezembro de 2013

A alegria de ler Francisco (4) – Anselmo Borges: Uma casa onde reina a alegria

Crónica

No DN de hoje, Anselmo Borges escreve sobre a exortação Evangelii Gaudium:

A palavra mais repetida no documento é a palavra alegria. A Igreja tem, pois, de ser uma casa onde reina a alegria, o que não significa ausência de esforço, de trabalho e sacrifício. A Igreja tem de ser a "Casa do Pai", o Deus que ama e perdoa sempre, e onde, por isso, as pessoas se sentem bem: os sacramentos (baptismo, eucaristia...) não são só para "os perfeitos". "A Igreja não é uma alfândega", controladora das pessoas e fiscalizadora das suas ideias, mas uma casa aberta, onde há transparência e fraternidade. Nela, o predomínio não pertence à doutrina mas ao Evangelho e, portanto, à confiança e à esperança, aonde todos se podem acolher. A Igreja tem de ser missionária, sair de si mesma, arriscar e ir ao encontro das pessoas, sobretudo das que vivem nas "periferias" geográficas e existenciais. Uma Igreja livre, capaz de denunciar profeticamente as injustiças do mundo. Uma Igreja atenta aos "sinais dos tempos", como mandou o Concílio Vaticano II, e assim capaz de comunicar a sua mensagem com linguagem viva e actual - atenção às homilias!

(O texto integral pode ser lido aquiRELIGIONLINE está a publicar comentários sobre a Evangelli Gaudium, a partir do desafio lançado por Jorge Wemans)

A alegria de ler Francisco (3) - José Mattoso: O evangelho da alegria

Comentário de José Mattoso à exortação Evangelli Gaudium


Nunca tinha reparado que os Salmos identificam Religião com Alegria. Foi preciso a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium para o descobrir. A imagem que o diz mais clara e simplesmente é a do cortejo dos Israelitas que se dirige ao Templo acabado de construir, para nele depositar a Arca da Aliança: “David e toda a casa de Israel dançavam com todas as suas energias, cantando ao som das cítaras, das harpas, dos tamborins, dos pandeiros e címbalos… Aconteceu que, entrando a Arca  de Iahweh na Cidade de David, a filha de Saul, Micol, olhava pela janela e viu o rei David saltando e dançando diante de Iahweh, e no seu íntimo ela o desprezou.” Quando David voltou a casa mostrou o seu desprezo ao rei, mas ele respondeu: “É diante de Iahweh que eu danço… Eu dançarei diante de Iahweh, que me preferiu a teu pai [Saul] e a toda a sua casa para me instituir chefe de Israel” (2 Samuel, 6. 5, 16, 21).
Os salmos, que são o texto por excelência do culto cristão, falam constantemente da alegria como expressão e como forma de culto (Sl 19, 20, 32, 46, 62, 117, 149, etc). A alegria aparece, assim, como sinal de eternidade. O povo de Deus rompe em júbilo festivo quando reconhece em si próprio a presença de Iahweh; grita de alegria quando, juntamente com todos os seus irmãos, se sente envolvido pela harmonia cósmica que vem desde a criação do mundo; canta e dança ao experimentar a infinita criatividade trazida pela Vida; rompe em aclamações para exaltar o triunfo da justiça, ameaçada pelo poder dos orgulhosos.
Esta alegria, porém, é uma antecipação; só será completa quando se tornar evidente a vitória definitiva da justiça sobre a mentira; da pobreza sobre os abusos do poder; da mansidão sobre a violência; da solidariedade sobre a exclusão dos pobres. Mas nada se pode comparar com a alegria própria daquilo que nos identifica como cristãos: a participação (passagem, Páscoa, Paixão, Passio) no sofrimento e morte de Jesus Cristo que nos precede no caminho da Vida, fecunda os nossos sofrimentos e perdoa os nossos pecados.
O que o Papa Francisco propõe é vivermos essa alegria, fazê-la nascer ou renascer nos nossos corações, torná-la autêntica, invasora, comunicativa, irresistível, radical, estrutural, luminosa, perspicaz, pacífica, fecunda. E também identitária: “Eu vos digo isto para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena” (Jo., 15. 11). É, ou devia ser, aquilo que distingue os cristãos dos outros homens. Se a Igreja e as religiões estão em crise não é só por o capitalismo transformar os homens e mulheres em robots, fazer da informação meio de terror, esgotar os recursos essenciais por meio do consumo irresponsável e alienante – é sobretudo por ter contaminado e profanado as fontes da alegria por meio do medo. O medo que faz da segurança obsessão.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Joaquim Franco premiado em Itália

O jornalista Joaquim Franco, um dos autores deste blogue, recebeu quinta-feira, em Itália, o segundo prémio do concurso de jornalismo Giuseppe de Carli, pela reportagem sobre o Arquivo Secreto do Vaticano, emitida em 2012 pela SIC, estação televisiva onde trabalha (e que pode ser vista no final deste texto).
A decisão foi tomada por um júri que inclui académicos, jornalistas, operadores de comunicação, religiosos e pessoas que trabalharam com Giuseppe De Carli, um especialista em questões religiosas, que foi responsável pela Rai Vaticano e morreu em 2010. Nesta primeira edição do prémio, o segundo lugar de Joaquim Franco foi atribuído ex-aequo, a par do documentário “Escritores por um ano – Fé e literatura”, de Daniela Mazzoli, transmitida pela Rai Educação. O primeiro prémio foi para “Bento XVI – Retrato Inédito”, do italiano Lucio Brunelli, emitido pela TG2 – a divulgação do prémio, aliás, foi feita no período de transição entre a renúncia de Bento XVI e a eleição e início de ministério do Papa Francisco.
Entre os trabalhos destacados de Joaquim Franco – alguns dos quais premiados – estão “João Paulo II, o primeiro Papa global” (SIC e Expresso, 2006), “Ritual da Morte no Islão” (SIC, 2006), “Padres políticos” (SIC, 2008) e “Jesus descodificado” (SIC, 2005). Já este ano, venceu também o Prémio Consciência e Liberdade, atribuído pela Associação Internacional para a Defesa da Liberdade Religiosa.

Em Novembro último, publicou uma entrevista com frei Fernando Ventura, sob o título Somos Pobres Mas Somos Muitos (ed. Verso da Kapa).



quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Madhiba, generoso e santo



Ao avaliarmos a nossa evolução enquanto indivíduos tendemos a concentrar-nos em factores externos como a posição social, o poder de influência e a popularidade, a riqueza e o nível de instrução. Estes são, de facto, factores importantes para a avaliação do sucesso individual no que se refere a aspectos materiais e é perfeitamente compreensível que muitas pessoas se empenhem em alcançá-los. 
Existem no entanto factores internos que podem ser ainda mais decisivos na avaliação de uma pessoa enquanto ser humano: a honestidade, a sinceridade, a simplicidade, a humildade, a generosidade, a ausência de vaidade, a disponibilidade para ajudar os outros – qualidades ao alcance de todas as almas – constituem os alicerces da vida espiritual de cada um de nós. 
A evolução em matérias desta natureza é impensável sem uma introspecção séria, sem nos conhecermos a nós próprios, sem conhecermos as nossas fraquezas e os nossos erros. 
No mínimo, se não nos der mais nada, a cela proporciona-nos a oportunidade de analisarmos todos os dias a nossa conduta na sua globalidade, de ultrapassarmos o que de mau houver em nós e desenvolvermos o que possamos ter de bom. 
A meditação frequente, nem que seja durante 15 minutos por dia antes de adormecer, pode ser muito proveitosa a este respeito. No início pode parecer-nos difícil identificar os aspectos negativos da nossa vida, mas com perseverança este exercício poderá revelar-se altamente compensador. Não devemos esquecer que um santo é um pecador que não cessa de se esforçar.

(carta de Nelson Mandela a Winnie Mandela, 1 de Fevereiro de 1975, em Nelson Mandela, Arquivo Íntimo, ed. Objectiva, p. 211-212)

(foto reproduzida daqui)

Em homenagem a Mandela, uma celebração inter-cultural entre a música de Bach e a música africana que, por sua vez, celebra Albert Schweitzer, o médico que se doou a África:

A alegria de ler Francisco (2) – Esta economia mata

Comentário de Joaquim Franco à exortação Evangelii Gaudium


Ao longo de oito meses de pontificado, em intervenções mais ou menos avulsas, textos e improvisos desconcertantes, homilias improváveis ou entrevistas surpreendentes, o papa Bergoglio manteve e reforçou as pistas, organizando-as agora na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium.
Nos últimos dias veio à memória a missa de inauguração do pontificado de Francisco. Naquela manhã de 19 de março, o mundo mediático esperava as linhas programáticas do novo Papa. O novo Papa, ladeado pelos chefes de estado e de governo que se deslocaram a Roma para a cerimónia de praxe, pediu justiça e cuidado com a “Criação inteira”, falando várias vezes de ternura e bondade. Quem esperava mais, teve de se sentar. Mas as pistas estavam à vista de todos.
O texto é provocador para uma Igreja que carece de reformas profundas na atitude e na estrutura, e para um mundo político que carece de libertação, sobretudo em relação ao poder financeiro.
A novidade de Francisco está também na frescura assertiva com que vai ao “osso”, e que, desta vez, não serve apenas para legitimar os assuntos obsessivos e fraturantes da Igreja católica. A fratura maior dá-se a partir de uma crise antropológica, de “negação da primazia do ser” (Evangelii Gaudium, 55), para se transformar na “grave carência de uma orientação antropológica que reduz o ser humano apenas a uma das suas necessidades: o consumo”.  
O Papa lamenta as “ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira” (EG, 56), que negam “o direito” aos Estados de “velar pela tutela do bem comum”.
De facto, “criou-se um paradigma de vivência e convivência alicerçado na dimensão do consumo, que cedeu à tentação do supérfluo. Como temos refletido, o gozo pontual e vicioso de «ter» sobre o princípio do «ser». Um estilo de vida mais materialista – que, como se vê, entrou em fase de esgotamento” –, agravado por “uma elite do pensamento económico, neoliberal, que elevou o mercado à categoria de um «deus» intocável” (Somos Pobres mas Somos Muitos, Verso de Kapa, p.96).

Papa Francisco - A revolução da ternura


Na edição de hoje da Visão, publico um texto de balanço destes quase nove meses de pontificado franciscano, a partir da exortação Evangelii Gaudium. Fica aqui a seguir o início desse texto, como aperitivo para quem quiser ler:

O líder dos católicos quer uma Igreja desassossegada e virada do avesso, os pobres no centro da acção e políticas contra uma economia que “mata”. As intuições de Francisco eram conhecidas desde a sua eleição, mas o documento publicado na semana passada torna claro todo o seu programa. A revolução franciscana começou.

A revolução está em marcha. E começou onde muitos não esperariam: na semana passada, o Papa Francisco publicou a exortação Evangelii Gaudium (A alegria do evangelho) que sistematiza muito do que ele tem andado a propor e a dizer mas, mesmo assim, deixou meio mundo espantado com a ousadia. No texto, o primeiro Papa latino-americano propõe uma reforma profunda da Igreja que a torne numa comunidade de desassossego – “Não podemos ficar tranquilos”. Critica, com dureza, a actual “ditadura de uma economia sem rosto” e que “mata”, diz que a inclusão social dos pobres e a questão da paz e do diálogo social são as duas questões determinantes do futuro da humanidade e sugere que o catolicismo tem de assumir um novo dinamismo missionário sobretudo em relação às culturas urbanas.
Na sua perspectiva, no horizonte e no centro da actividade da Igreja ou da política, deve estar a pessoa. “Há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano”, sublinha o Papa Bergoglio. Os mais pobres e vulneráveis devem ser os primeiros destinatários da acção da Igreja e dos sistemas políticos e financeiros. Objectivo da proposta: a “revolução da ternura”.
Este documento culmina quase nove meses intensos, desde a eleição de Francisco, a 13 de Março, depois da resignação de Bento XVI. Meses que puseram a Igreja Católica a mexer de forma inusitada. E que já tiveram consequências, mesmo fora do catolicismo: o dia de jejum e oração pela paz na Síria, convocado pelo Papa Francisco, aliado às suas críticas a uma possibilidade de intervenção militar internacional, foram um dos obstáculos principais à entrada dos Estados Unidos na guerra que assola o país há quase três anos; e a sua ida a Lampedusa, na primeira viagem fora de Roma, para condenar a “globalização da indiferença”, obrigou a Europa a olhar para a ilha que acolhe tantos refugiados (ou recolhe os seus cadáveres) – três meses depois, Durão Barroso foi a Lampedusa, sendo recebido aos gritos de “assassinos”...

A carta de Aristides de Sousa Mendes ao Papa, que nunca teve resposta




Acaba de ser descoberta uma carta dirigida ao Papa, escrita em 10 de Maio de 1946 pelo cônsul português Aristides de Sousa Mendes, na qual ele dava conta do ostracismo e da miséria para que o regime de Salazar o tinha atirado a ele e à sua família. O motivo desse ostracismo é conhecido de todos: na Segunda Guerra Mundial, ele salvou a vida de milhares de refugiados, contrariando ordens de Lisboa. Essa carta não era conhecida publicamente. Nela, Sousa Mendes pretendia apenas da Santa Sé o reconhecimento da conformidade dos atos praticados com os valores do Evangelho. Contudo, fosse porque a carta nunca tenha chegado a sair da Nunciatura, fosse por outra razão desconhecida, nunca teve resposta. Uma cópia dessa missiva foi agora descoberta por um neto e entregue ao Papa Francisco, segundo revelou ontem a SIC Notícias (ver o vídeo inserido neste post).
Dada a coragem e dimensão de humanidade dos atos praticados por aquele Cônsul português, é dever da Igreja - em Lisboa ou no Vaticano - averiguar e dar a conhecer o que se passou, neste caso.

Complemento: para uma perspetiva da vida de A. de Sousa Mendes, consultar o texto "Memórias do Holocausto. Aristides de Sousa Mendes - Cônsul em Bordéus. Humanidade e castigo ou … o crime de salvar judeus", de Carlos Rodrigues Jaca

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Sermos melhores cristãos, mesmo com ideias diferentes – sobre um texto do bispo Nuno Brás

Há dias, na revista espanhola Vida Nueva, o padre Antonio García Rubio, pároco de Nossa Senhora do Pilar (Madrid), escrevia, numa “carta ao Papa”: “A mim, pessoalmente, cada um dos seus gestos e palavras provocam-me até ao ponto de me sentir convidado e empurrado a ser outro padre e outro cristão diferente.”
Há meses que me pergunto: “E o que fazemos, agora, com o que o Papa Francisco anda a dizer-nos e a fazer? Como assumimos, enquanto crentes e comunidades, os desafios que ele diariamente nos coloca?” Seja no campo de uma nova atitude perante o mundo, da aceitação do pluralismo na Igreja ou de trabalhar por uma profunda mudança na Igreja.
Em alguns casos, dá a sensação de que muita gente ainda não deu conta de que sopram ventos de frescura do lado do Vaticano. Ventos que acentuam a importância de radicar a nossa vida no evangelho de Jesus como fonte primeira; e que reforçam a ideia de que não devemos ter cristãos obedientes mas gente adulta pelo baptismo. E capaz de correr riscos.
O texto que o bispo auxiliar de Lisboa, Nuno Brás, escreveu há dias, sobre a freira beneditina espanhola Teresa Forcades i Vila no jornal Voz da Verdade parece revelar falta de entendimento de alguns sinais dos tempos que o Papa não se tem cansado de nos desvelar. E, sobretudo, não é um texto que manifeste preocupação em acolher, mas antes em condenar – ainda para mais, sem qualquer possibilidade de defesa ou contraditório por parte da visada.
O livro A Teologia Feminista na História de Teresa Forcades (ed. Presente) acabou de ser traduzido em Portugal. É um pequeno estudo, de 100 páginas, sobre a relevância de algumas mulheres crentes no desenvolvimento de ideias teológicas e sociais. E sobre o apagamento a que muitas dessas ideias foram sujeitas porque foram formuladas por... mulheres.
Nuno Brás não leu o livro, a avaliar por aquilo que diz no artigo. Prefere apenas tomar o que leu nos jornais, cuja linguagem e imediatismo tantas vezes já criticou, mesmo em artigos do Voz da Verdade: “A serem verdadeiras as entrevistas que deu [Teresa Forcades] e as notícias que a mostraram a andar por várias partes do mundo à procura de seguidores, quase sempre denunciada pelos Bispos desses lugares, é uma dessas”. Ou seja, alguém que quer correr sozinho com o seu modo de viver a fé, seduzido “pela exposição mediática”, que gosta, sobretudo, de “se ver ao espelho”.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Nos 50 anos de "Inter Mirifica"

TV cameras captured the arrival


Completam-se hoje 50 anos sobre a data em que foi aprovado, por maioria, o decreto do Concílio Vaticano II dedicado aos meios de comunicação social, conhecido pelas palavras iniciais latinas "Inter Mirifica" [De entre as maravilhosas invenções...].
Foi a primeira vez que um concílio se ocupou da comunicação. Mas não foi fácil. As versões iniciais do texto, que datam de 1962, foram objeto de críticas, quer quanto à extensão quer quanto ao conteúdo e, mesmo a versão final, com apenas 24 artigos (em lugar de mais de uma centena nos rascunhos iniciais) contou com mais de uma centena votos contra. Deve, todavia, dizer-se que, apesar das reticências, o documento exprime, ainda que com cautelas e reservas, um espírito assinalável de abertura ao fenómeno mediático, nomeadamente ao impacto dos meios audiovisuais: cinema, rádio e televisão. Isso mesmo transparece quer na abertura quer no encerramento do texto. No ponto 24 sublinha~se:
"Assim, pois, como nos monumentos artísticos da antiguidade, também agora, nos novos inventos, deve ser glorificado o nome do Senhor, segundo o que diz o Apóstolo: «Jesus Cristo, ontem e hoje, Ele mesmo por todos os séculos dos séculos» (Hebr. 13,8)."

Em termos concretos, este documento destaca-se em particular pelos seguintes pontos:
  • a) reconhecimento do o direito de todos a uma informação verdadeira e íntegra;
  • b) afirmação do direito da Igreja de usar e de possuir toda a espécie de meios;
  • c) aposta na formação técnica e apostólica para o uso dos media por parte dos agentes de pastoral;
  • d) defesa da formação e divulgação de uma "reta opinião pública";
  • e) atenção especial a iniciativas com vista à formação para um uso criterioso e esclarecido dos meios de comunicação social, em especial dos jovens;
  • f) proteção e defesa face à "imprensa e espetáculos perniciosos";
  • g) criação de escolas, faculdades e institutos de inspiração cristã com cursos orientados para a formação;
  • h) instituição do Dia Mundial das Comunicações Sociais, a celebrar anualmente;
  • i) orientações para instituir secretariados diocesanos das comunicações sociais;
  • j) por expresso mandato do Concilio e com a colaboração de peritos de várias nações, elaboração de uma instrução pastoral que desenvolva e aprofunde as orientações deste decreto conciliar (que viria a ser a Communio et Progressio).
Nesta sumária evocação de um documento de referência na pastoral dos media e da comunicação, dois comentários tópicos:
  1. Em Inter Mirifica, a Igreja Católica dá um passo saliente no sentido da demarcação de uma abordagem protecionista face aos media, em favor de uma abordagem crítica, assente na capacitação das pessoas, incluindo na sua formação cristã e na participação na vida da Igreja e da sociedade. Os media começam a deixar de ser vistos como todo-poderosos, capazes de inocular um veneno, face ao qual só verdadeiras barreiras de auto-defesa, se não mesmo cruzadas agressivas, poderiam surtir efeito;
  2. Com este decreto conciliar abre-se uma perspetiva de ação e intervenção que viria a marcar a atividade da Igreja em algumas partes do mundo (Austrália, Canadá, América Latina) ainda nos anos 60 e sobretudo nos 70 e 80, e que diversos documentos do magistério viriam também a sublinhar: a aposta na formação crítica dos utilizadores dos media e daquilo que se tem chamado a literacia informativa e mediática, condição de cidadania ativa, também na comunidade eclesial.
[Crédito da foto: http://bbc.in/1jiAqjx]

António Marujo traduzido em Espanha

Diálogos con Dios de fondo

O jornalista António Marujo acaba de ver traduzida e lançada em Espanha a sua obra "Deus Vem a Público" (Pedra Angular, 2011). 
Com o título "Diálogos con Dios de fondo" e tradução de Rosa Martínez-Alfaro, o livro foi há dias lançado em Barcelona,  pela editora Fragmenta, com a presença do autor.
Segundo a editora, este trabalho inclui "um elenco de vozes díspares, que, através da motivação religiosa que as percorre, se comprometem na busca de sentido na raiz mais profunda das ideias".
Laia de Ahumada (à direita, na foto), que apresentou o livro, chama a atenção, no texto que leu e inseriu no seu blog, para o autor das entrevistas que compõem o livro. "O autor - observa ela -mostra-nos em cada entrevista o domínio que tem do ofício, não só porque sabe muito bem do que fala quando pergunta, como também porque pergunta aquilo que sabe que interessa ao leitor".  
O entrosamento entre teologia e cultura, acrescenta, "percorre todas as páginas do livro, que prenunciam o interesse e a preocupação do autor com a crise da religião assim como o convencimento de que toda a crise questiona e implica a necessidade de se reinventar".
Laia de Ahumada é filóloga e escritora, especializada em escrita feminina da época moderna; tem-se dedicado à investigação sobre a escrita espiritual; é autora de "Monjas", na mesma editorial, que recolhe 20 entrevistas com freiras catalãs envolvidas no apoio a marginalizados, diálogo inter-religioso, educação, acolhimento...

domingo, 1 de dezembro de 2013

"De suas espadas forjarão relhas de arados"


«Iniciamos hoje, Primeiro Domingo do Advento, um novo ano litúrgico, isso é, um novo caminho do Povo de Deus com Jesus Cristo, o nosso Pastor, que nos guia na história para o cumprimento do Reino de Deus. Por isto, este dia tem um encanto especial, nos faz experimentar um sentimento profundo do sentido da história. Redescobrimos a beleza de estar todos em caminho: a Igreja, com a sua vocação e missão, e toda a humanidade, os povos, as culturas, todos em caminho pelos caminhos do tempo.
Mas em caminho para onde? Há uma meta comum? E qual é esta meta? O Senhor nos responde através do profeta Isaías, e diz assim: 
“No fim dos tempos acontecerá
que o monte da casa do Senhor
estará colocado à frente das montanhas
e dominará as colinas.
Para aí correrão todas as gentes,
e os povos virão em multidão:
“Vinde, dirão eles, subamos à montanha do Senhor,

à casa do Deus de Jacó:
ele nos ensinará seus caminhos,
e nós trilharemos as suas veredas”” (2, 2-3). 
Isto é aquilo que nos diz Isaías sobre a meta para onde vamos. É uma peregrinação universal para uma meta comum, que no Antigo Testamento é Jerusalém, onde surge o templo do Senhor, porque dali, de Jerusalém, veio a revelação da face de Deus e da sua lei. A revelação encontrou em Jesus Cristo o seu cumprimento, e o “templo do Senhor” tornou-se Ele mesmo, o Verbo feito carne: é Ele o guia e junto à meta da nossa peregrinação, da peregrinação de todo o Povo de Deus; e à sua luz também outros povos possam caminhar rumo ao Reino da justiça, rumo ao Reino da paz. Diz ainda o profeta: 
“De suas espadas forjarão relhas de arados,

e de suas lanças, foices.
Uma nação não levantará a espada contra a outra,
e não se arrastarão mais para a guerra” (2, 4). 
Permito-me repetir isto que nos diz o Profeta, escutem bem: “De suas espadas forjarão relhas de arados,/ e de suas lanças, foices./ Uma nação não levantará a espada contra a outra,/ e não se arrastarão mais para a guerra”. Mas quando acontecerá isto? Que belo dia será, no qual as armas serão desmontadas, para se transformar em instrumentos de trabalho! Que belo dia será aquele! Que belo dia será aquele! E isto é possível! Apostemos na esperança, na esperança da paz, e será possível!
Este caminho não está nunca concluído. Como na vida de cada um de nós, há sempre necessidade de começar de novo, de levantar-se, de reencontrar o sentido da meta da própria existência, assim, para a grande família humana é necessário renovar sempre o horizonte comum rumo ao qual somos encaminhados. O horizonte da esperança! Este é o horizonte para fazer um bom caminho. (...)».
[Papa Francisco, durante o Angelus, hoje, na Praça de S. Pedro].