terça-feira, 28 de maio de 2013

O Francisco de Assis de Chesterton

“Dessa caverna, que era uma fornalha de luminosa gratidão e humildade, saiu uma das mais fortes, das mais estranhas e das mais originais personalidades que a história humana jamais conheceu. Francisco era, entre outras coisas, enfaticamente aquilo a que chamamos uma personalidade – era quase uma personagem de romance ou de teatro…”
É deste modo que Gilbert Keith Chesterton fala de São Francisco de Assis, no livro cuja tradução portuguesa é hoje apresentada em Lisboa (ed. Alêtheia). A sessão, que conta com a participação do padre Vítor Melícias, realiza-se às 18h30, na livraria da editora – R. do Século, 13 (um lugar onde vale a pena ir pelos livros, mas também por ter sido, em tempos, uma padaria, cujos vestígios ainda podem ser admirados).
Sobre São Francisco, acrescentava G. K. Chesterton: “O nosso santo não era apenas um humanista, era também um humorista, em especial naquele sentido em que se fala de um homem que se deixa conduzir pelo seu humor, que segue o seu caminho e faz coisas que mais ninguém se lembraria de fazer.”
O itinerário de Francisco de Assis, diz ainda o autor, era o muito “à frente do seu tempo”, com um norte bem definido: “Haveria muito a dizer sobre o homem que tentou acabar com as Cruzadas, falando com os sarracenos, ou que intercedeu pelos pássaros junto do Imperador. Ou posso tentar fazê-lo, como outros fizeram, quase sem levantar qualquer questão religiosa. Em suma, posso tentar contar a história de um santo sem Deus, o que é como escrever a vida de Fridtjof Nansen (explorador norueguês que chegou primeiro à Gronelândia) e estar proibido de mencionar o Polo Norte.”
Chesterton descreve assim a vida do “Poverello”: “É provável que vivesse pior que os pedintes vulgares; porque os pedintes comiam o melhor que conseguiam arranjar e o santo comia o pior que conseguia arranjar. A verdade é que ele estava disposto a viver dos restos dos outros; e, como experiência, era certamente bastante pior que a refinada simplicidade a que os vegetarianos chamam uma vida simples. E, ao que parece, Francisco lidava com a questão do vestuário da mesma maneira que lidava com a questão da comida; ou seja, com base no mesmo princípio de ficar com o que arranjava, e nem sequer com o melhor que conseguia arranjar.”
G. K. Chesterton (1874-1936) foi escritor, poeta, narrador, ensaísta, jornalista, historiador, biógrafo, filósofo, desenhista e conferencista britânico. Vários dos seus livros (O Homem Eterno, Ortodoxia, Tremendas Trivialidades, A Inocência do Padre Brown, O Homem que era Quinta-Feira, Disparates do Mundo e a biografia de São Tomás de Aquino foram já editados pela Alêtheia. A Diel publicou também a sua Autobiografia e, na colecção Teofanias, da Assírio & Alvim, foi igualmente publicado um volume com Os Melhores Contos do Padre Brown, a figura de detective improvável criada pelo escritor.
Convertido ao catolicismo em 1922, quase com 50 anos, Chesterton manteve um percurso muito pessoal. Como definia Pedro Mexia no Expresso (6/Abril/2012): “Atacou os ideólogos a que chamou ‘Heréticos’ (1905) e defendeu afincadamente a ‘Ortodoxia’ (1908); segundo disse, a única heresia realmente imperdoável era a ortodoxia’. Não se tratava porem de um ‘reaccionário’ típico. Chesterton foi um socialista reticente, passou pelo espiritismo, votava nos Liberais, defendeu os Boers e a independência da Irlanda, desconfiava da ideia de Império, detestava o capitalismo e mais facilmente se irritava com um tory do que com um comunista.”
Na sua Autobiografia, publicada em 1936, pouco antes de morrer, escreveu Chesterton: “Desde o princípio, o meu instinto da justiça, da liberdade e da igualdade era um pouco diferente daquele que é corrente hoje em dia; diferente também de todas as tendências para a concentração e para a generalização. O mesmo instinto que me levou a defender a liberdade das nações pequenas e das famílias pobres; quer dizer, a defender os direitos do homem, incluindo o direito de propriedade, mas sobretudo a propriedade dos pobres. Eu não compreendia lá muito bem o que eu próprio entendia por liberdade, até que ouvi chamá-la por outro nome, o de dignidade humana. O nome era novo para mim, conquanto fizesse parte de uma velha crença, velha de mais de dois mil anos.”


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Papa Francisco: "Repensar a solidariedade, não como mera assistência aos pobres, mas como reforma geral de todo o sistema"


"O fenómeno do desemprego, da falta e da perda de trabalho estende-se como uma mancha de óleo a vastas zonas do Ocidente e alarga-se de forma preocupante nas fronteiras da pobreza. E não há pior pobreza material, gostaria de o sublinhar, do que aquela que não permite ganhar o próprio pão e que priva da dignidade do trabalho. Doravante este "algo que não funciona" já não diz respeito apenas à parte sul do planeta, mas ao mundo todo. Eis então aqui a necessidade de "repensar a solidariedade", não como mera assistência aos pobres, mas como reforma geral de todo o sistema, como busca de caminhos para o reformar e corrigir em sintonia com os direitos fundamentais do homem , de todos os homens. À palavra "solidariedade", que não é bem vista pelo mundo dos negócios - como se fosse um palavrão - torna-se necessário voltar a conferir-lhe a sua cidadania social. A solidariedade não é uma atitude mais, não é uma instituição de caridade social, é um valor social. E ela pede-nos a sua cidadania".
As palavras são do Papa Francisco e acabam de ser proferidas ao receber no Vaticano uma delegação da Fundação Centesimus Annus Pro Pontifice, instituída pelo beato João Paulo II.

Para o bispo de Roma, "a atual crise não é apenas económica e financeira, mas está enraizada numa crise ética e antropológica".
"Colocar os ídolos do poder, o lucro e o dinheiro acima do valor da pessoa humana - acrescentou o Papa -  tornou-se norma fundamental  de funcionamento e critério decisivo de organização.  Esquecemo-nos que acima dos negócios, da lógica e parâmetros do mercado, estão os seres humanos e há algo que é devido ao homem enquanto homem, por causa da sua profunda dignidade: oferecer-lhe a oportunidade de viver com dignidade e de participar ativamente no bem comum. Bento XVI lembrou-nos que toda a atividade humana, incluindo a atividade económica, porque é humana, deve ser articulada e institucionalizada eticamente (cf. Enc. Caritas in veritate, 36). Devemos regressar à centralidade do homem, a uma visão mais ética das atividades e relações humanas, sem medo de perder coisa alguma".

(Foto de uma escultura de José Rodrigues, Casa de Vila Nova de Cerveira)

sábado, 25 de maio de 2013

A Igreja Católica no espaço público


Agenda - Debate

O que aprendemos com o Concílio Vaticano II? – tal foi a pergunta que as Conferências de Maio deste ano quiseram colocar. A iniciativa do Centro de Reflexão Cristã, de Lisboa, termina na próxima terça-feira com as intervenções de Alfredo Teixeira e Paulo Fontes (ambos professores na Universidade Católica Portuguesa) sobre “A Igreja no espaço público”. A iniciativa decorre a partir das 18h30, na galeria Fernando Pessoa do Centro Nacional de Cultura (entrada pelo Largo do Picadeiro, 10 – 1º, em Lisboa; metro: Baixa-Chiado).
Nas anteriores sessões, debateram-se já os temas “Porquê a Igreja?” (Anselmo Borges e Jorge Wemans), “O sentido da fé e compromisso cristão” (Domingos Terra e Manuela Silva) e “O agir cristão – consciência e liberdade” (José Manuel Pereira de Almeida e Emília Nadal).

Imãs muçulmanos rezam em Auschwitz

Um grupo de imãs muçulmanos esteve em Auschwitz quarta-feira passada, para rezar pelas vítimas do Holocausto. Oriundos da Bósnia, Índia, Indonésia, Jordânia, Palestina, Arábia Saudita, Turquia e a Estados Unidos, os líderes religiosos rezaram segundo a forma tradicional muçulmana, descalços e voltados para Meca. Junto do Muro do campo de concentração, onde milhares de prisioneiros forma mortos e as marcas das balas são ainda visíveis, os imãs confessaram-se comovidos. “O que se pode dizer? Ficamos mudos. O que se vê está para lá da imaginação humana”, afirmou Mohamed Magid, presidente da Islamic Society of North America (ISNA), citado pela AFP, que deu a notícia, também reproduzida no Huffington Post.

Conhecidas as teses negacionistas que se registam em alguns sectores do islão, esta notícia é deveras importante – esta notícia é uma verdadeira notícia, no conceito básico de qualquer manual de jornalismo. Por isso, é pena que ela não seja mais reproduzida noutros meios de comunicação, para contrariar aquelas que dizem respeito à violência inter-religiosa.
(Foto AFP/ Janek Skarzynski, reproduzida daqui)

O mundo dos afectos, a fé e a cura

Crónica 

Na sua crónica de hoje, no DN, Anselmo Borges escreve sobre O mundo dos afectos, a fé e a cura. Cita um artigo de Le Monde des Religions sobre um estudo da Universidade de Oxford acerca do tema, segundo o qual “crer , rezar, praticar uma religião levam a uma melhor resiliência às doenças mentais como a esquizofrenia e têm uma acção positiva sobre a pressão arterial e as funções imunitárias”. Para afirmar: “Isto não significa que a oração seja um medicamento, mas que acreditar permite suportar melhor a doença, favorecendo o tratamento. A imagem de Deus, bom ou castigador, é fundamental.”
Antes, escreve: "É neste fundo anímico-vital afectivo que mergulha a própria fé religiosa. Esquece-se frequentemente que a fé não começa por ser religiosa, mas uma atitude fundamental da existência enquanto confiança de base. Hoje, quando o que faz falta é confiança e crédito, percebe-se melhor o tema. Mas, a um dado momento, há-de colocar-se também a questão da fé religiosa, na medida em que se põe a pergunta pelo fundamento último da confiança."


sexta-feira, 24 de maio de 2013

Teilhard de Chardin e a China na mundialização cultural e religiosa


Agenda

Noventa anos após a chegada do paleontologista e padre jesuíta Pierre Teilhard de Chardin a Tientsin, na China, um colóquio internacional debate este fim-de-semana, em Lisboa, o tema "A China na mundialização cultural e religiosa". O programa pode ser consultado aqui.
Na sua "Missa sobre o Mundo", Teilhard escreveu: 
"O sol acaba de iluminar, ao longe, a franja extrema do primeiro oriente. Mais uma vez, sob a toalha móvel de seus fogos, a superfície viva da Terra desperta, freme e recomeça seu espantoso trabalho. Colocarei sobre minha patena, meu Deus, a messe esperada desse novo esforço. Derramarei no meu cálice a seiva de todos os frutos que hoje serão esmagados.
Meu cálice e minha patena são as profundezas de uma alma largamente aberta a todas as forças que, num instante, vão elevar-se de todos os pontos do Globo e convergir para o Espírito. - Que venham pois, a mim, a lembrança e a mística presença daqueles que a luz desperta para uma nova jornada!"

(ver textos de Teilhard de Chardin, em tradução para o Brasil, aqui; o sítio da Associação dos Amigos de Teilhard de Chardin em Portugal tem mais documentação; imagem reproduzida daqui.)