quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O rosto de Jesus é uma lua esculpida em pedra


Livro

Aparece-nos Jesus como uma lua cheia. Uma lua cujo olhar se prolonga em dois braços abertos. E cujo falar se prolonga como quem se coloca em marcha para um encontro.
São rostos esculpidos em granito, “rocha ígnea, aqui de grão fino, composta por quartzo, feldspato e mica, em quantidades mais reduzidas, contendo ainda vestígios de outros minerais de presença residual”. São rostos fotografados por Duarte Belo durante mais de cinco anos.
Decorrida mais de uma década sobre esse trabalho, o fotógrafo voltou ao seu arquivo de mais de 600 mil imagens e pôs-se à procura. À selecção de 107 imagens que daí resultou, acrescentou um texto sobre “A escultura de uma fotografia” e um outro, de José Tolentino Mendonça, sobre “Hipóteses para um rosto”. O resultado é este Os Rostos de Jesus – uma revelação, que esta tarde, a partir das 18h30, é apresentado na Capela do Rato, em Lisboa, por José Mattoso. A sessão é complementada pela inauguração da exposição fotográfica com as imagens do livro.
Em dezenas de cruzeiros espalhados pelo país (mas concentrados sobretudo no Alto Minho e em Trás-os-Montes), podemos encontrar rostos de Cristos serenos ou ingénuos, de olhar rendido ou atento, com corpos ingénuos ou disformes, em cruzes toscas ou glorificadas pelo ornamento. Podemos ver rostos já carcomidos ou quebrados, outros enegrecidos ou, ainda, esverdeados pelos elementos. Rostos, também, que parecem crianças, outros muito direitos, outros ainda em posições quase impossíveis.
Como escreve Duarte Belo, encontramos, neste olhar múltiplo sobre o Jesus crucificado, “o humano em toda a sua complexidade e indeterminação, encontramos uma condição, que dilui, funde, todos os sentimentos: a angústia, a serenidade, a resignação, a paz, a alegria, o sofrimento, a ânsia de liberdade, a impossibilidade das lutas efémeras, os jogos de sobrevivência, a esperança, o desejo de compreensão de uma totalidade, de uma integração cósmica”.
O Jesus-lua, fotografado no Lindoso (Ponte da Barca, Viana do Castelo), remete exactamente para essa ideia da integração cósmica. Outros falam de um mistério, já que o tempo, esse grande escultor, apagou deles o contorno definido, o olhar concreto. E deixou apenas uma silhueta, uma aproximação, algo que nos faz perguntar: como é este rosto?

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Educação e “liberdade de escolha”: uma verdade inconveniente


(foto TVI, reproduzida daqui)

Num momento em que se debatem questões como o chamado cheque-ensino ou os apoios do Estado ao ensino privado – que inclui tantas escolas católicas ou de inspiração religiosa – é obrigatório ver esta reportagem da TVItransmitida segunda-feira, dia 4. O documentário ajuda-nos a perceber que o que está em causa não é a liberdade de os pais escolherem a escola para os seus filhos. A liberdade de escolha estará em causa no momento em que todos os pais – todos – puderem de facto escolher a escola que querem para os seus filhos. Estamos obviamente muito longe disso.
O que está em causa, isso sim, é uma ofensiva ideológica extremista contra uma escola pública de qualidade, que garanta que todas as crianças têm acesso a uma formação decente – tal como o país conseguiu fazer, apesar de muitos percalços, nas últimas quatro décadas.
Entre as escolas privadas apresentadas, a reportagem mostra também alguns colégios católicos. Deve dizer-se, em abono da verdade, que várias destas escolas têm uma história. Em alguns casos, foram mesmo importantes no alargamento da escolaridade nas localidades em que se inserem, quando não havia escolas suficientes da rede pública. Ou, até, na possibilidade que deram a tantas crianças mais desfavorecidas de também poderem frequentar o ensino, quando o Estado ainda não tinha essa capacidade. Mas estas escolas deveriam ser as primeiras a colocar em questão o seu papel – muitas vezes, elas surgiram para responder à necessidade de educar as crianças mais pobres e mais desfavorecidas. E hoje limitam-se, na maioria dos casos, a educar os filhos de quem mais pode – e quem, por vezes, mais contraria, na prática, critérios básicos do pensamento social católico.
Os casos mais graves apresentados na reportagem são, no entanto, os de actuais e ex-políticos e agentes educativos que criaram colégios e escolas privadas em lugares onde a escola pública dava resposta às necessidades, a avaliar pelos números apresentados. No fundo, estamos perante uma situação semelhante aquela que tem entregue os nossos impostos e sacrifícios à banca, ou aquela que entregou dinheiro dos contribuintes às parcerias público-privadas na saúde ou na rede de estradas, ou em tantos outros casos.
Neste debate sobre o ensino, aliás, há um vício original: a discussão não deveria ser entre público e privado, se a educação fosse deixada por conta de pais e professores e o Estado se limitasse a pagar ordenados e a manutenção da estrutura e necessidades educativas – tal como acontece, aliás, em vários países europeus. Infelizmente, em Portugal, o debate está muito distorcido e, perante a ofensiva ideológica que está em marcha, resta-nos a denúncia e a exigência. O Estado não pode interferir em tudo, mas o que se pretende é apenas privatizar para alguns - com o dinheiro de todos - aquilo que deve ser função da comunidade. 

Uma das mães ouvidas na reportagem diz: “Estas pessoas não têm o direito de cortar as pernas aos nossos filhos.” Pelos vistos, há quem ache que pode mesmo cortar as pernas e muito mais.

Perdidos e iluminados

Crónicas

Nas crónicas do último fim-de-semana, há ainda dois textos que devem ser lidos. “À Procura da Palavra”, Vítor Gonçalves, na Voz da Verdade, pergunta: “Perdido? Quem?”, a propósito do evangelho sobre Zaqueu, lido nas missas de domingo passado. E escreve: “Queremos sinais de um verdadeiro encontro com Jesus? Salva-se o que muitos diziam estar perdido, transforma-se a vida em caridade e serviço, a condenação dá lugar ao acolhimento, e a alegria promove uma festa! Os outros ‘encontros’ que podem até ser ‘cerimónias e procissões’, e coisas afins de muita pompa e circunstância, poderão ser mais ‘desencontros’, e talvez a vassoura de S. Martinho continue com muita utilidade!”
O texto integral pode ser lido aqui.


(foto reproduzida daqui)

No Público de domingo, frei Bento Domingues recomenda: “Não deixem tudo para o Papa”. É o seguinte o texto da sua crónica:

1. Se uns católicos projectam sobre o novo Papa os seus desejos de mudança, outros receiam a sua desenvoltura.
Bergoglio já mostrou que conhece as diversas correntes espirituais e culturais do catolicismo, nos diversos países. O que ainda não sabemos - apesar de alguns gestos e entrevistas importantes -, é o método da sua liderança. Situando-se no seio de uma Igreja, toda ela chamada a ser aprendiza e testemunha do Evangelho no mundo, seguirá o método de João XXIII. Se passar o tempo a invocar o poder papal para exercer o seu magistério, reprimindo as correntes teológicas que não o reproduzam, será mais do mesmo. Foi esse o lamentável estilo adoptado, embora com acentos diferentes, durante 150 anos, mais precisamente, desde a encíclica programática Mirari vos, de Gregório XVI (1832), que procurava levantar um dique contra o mundo moderno. 
Espero que o papa Francisco vença a tentação de desenhar o futuro de modo voluntarista, apoiado apenas nas suas concepções pré-estabelecidas e invocando imperativos da divina tradição. Vimos, na crónica do passado Domingo, as consequências da tentativa de parar o tempo, mediante a declaração intimidatória de João Paulo II, sobre a “ordenação sacerdotal” das mulheres.
Na expressão de K. Rahner, esse comportamento estava situado no Inverno da Igreja. Para este teólogo, as autoridades eclesiásticas de Roma, em 1985,  davam a impressão de favorecer mais um retorno medroso aos “bons tempos passados”, do que tomar consciência clara da situação actual do mundo e da humanidade, com espírito evangélico, no seguimento do Concílio Vaticano II.
Se as mulheres começarem, em breve, a fazer parte da instituição do cardinalato, será um bom sinal. Ninguém poderá adiantar qualquer argumento teológico contra tal decisão e esta poderá contribuir para desbloquear o debate sobre o papel das mulheres nas comunidades cristãs. Não esperemos, no entanto, que o papa possa resolver tudo com uma penada. Embora os regimes democráticos funcionem ainda muito mal, na Igreja Católica nem sequer foram ensaiados, salvo em alguns nichos.                             

2. O grande historiador, Giuseppe Alberigo, orientou um número especial da Concillium (108, 1975), dedicado à renovação da Igreja e à reconfiguração do serviço petrino. Naquela data, não foi tido em conta. Parece-me que chegou o momento de o revisitar com proveito. Na altura, a meta a atingir com esse dossier consistia em formular alguns pontos operacionais capazes de concretizar, no seio da Igreja, uma imagem realista e praticável daquilo que poderia ser e fazer o papado, no seio da Igreja dos últimos decénios do séc. XX. Como já foi referido, meteu-se pelo meio um longo inverno. Não se pretendia, de modo nenhum, ter identificado o ponto central e decisivo da renovação da Igreja. Pelo contrário. É necessário manter viva a consciência de que o papado romano constitui, apenas, um factor da Igreja e nem sequer é o mais decisivo. Por outro lado, parece igualmente importante abandonar o “globalismo” paralisador, muito difundido, que em nome da necessidade de levar em conta todas as componentes da problemática eclesial, nos impede de as considerar, uma a uma, com realismo e oportunidade.
Recolocar os ministérios eclesiais dentro do Povo de Deus, como fez o Vaticano II, constitui o fundamento e o critério de uma nova fase na história do papado. Torna-se incontornável e urgente a reapropriação do papado romano por parte da Igreja, superando tanto a animosidade anti-romana, como a imagem mitificada do papa.
Temos um longo e complexo caminho pela frente. Esse caminho pressupõe uma efectiva capacidade da Igreja para exprimir, mediante formas adequadas e responsáveis – sem servilismos nem arrogância – indicações pertinentes sobre o espaço e conteúdos do serviço que o Papa deve prestar.

3. Alberigo, no seu contributo, destacou e desenvolveu a seguinte tese: é preciso que a consciência eclesial se compenetre de que o estatuto do papado romano não é, nem do ponto de vista teológico nem histórico, um dado indiscutível e imutável.
Se fizermos uma reavaliação da possibilidade de modos, estilos e conteúdos diferentes daqueles que se tornaram mais habituais e constantes, ver-se-á que, quase tudo aquilo que se sabe do papado romano, depende das circunstâncias históricas. Estas sofreram repetidas e profundas modificações, ao longo dos tempos.
Quando os papas são apresentados sob um único denominador comum, figuras tão diferentes e contrastadas como as de Gregório Magno, Gregório VII, Paulo III, Pio IX e João XXIII, acabam por conduzir a história da Igreja a uma história do papado e ao triunfo de uma uniformidade construída. Nenhum papa é a Igreja. Não deixemos tudo para este iluminado e desarmante argentino.

Família – saber o que é, o que não é ou devia ser

Crónica

"Tantas vezes, em nome de um – embora legítimo – conceito de estrutura familiar, promove-se a marginalização e remete-se para segundo plano o que é, afinal, o plano primordial. A fecundidade da pessoa – a sua plenitude enquanto “ser” que só é na relação, disponível para a oportunidade do Outro, num “nós” a redescobrir entre fragilidades e contextos – deve prevalecer sobre qualquer outra fecundidade ou hermenêutica. O pensamento religioso, mesmo com as amarras de uma doutrina, pode revelar-se como processo para uma equação integrada de valores. Ainda e sempre, uma Procura mais que uma chegada, abrindo a experiência religiosa à “estupefação” de um Encontro, que começa num acolhimento, tornando absurdas algumas discussões estéreis, como a de saber o que é, não é ou devia ser a família."



A esperança em debate, num documentário sobre viver com o HIV

Agenda  debate


(foto SIC, reproduzida daqui)

Uma história de esperança, para um debate sobre a esperança. Um documentário comovente e de grande qualidade cinematográfica é o pretexto para um debate esta quarta-feira, na Capela do Rato, em Lisboa (Cç. Bento da Rocha Cabral, 1-B, ao Rato): o documentário, dos jornalistas Cândida Pinto e João Nuno Assunção, e com imagem de Jorge Pelicano, intitula-se “Alexandra – Viver com HIV” e fala da luta contra o preconceito, dos sonhos que permanecem apesar disso e da amizade e do amor.
Eu sou a Alexandra, não sou o HIV", diz a protagonista, a dada altura. “Hoje faço uma vida igual à das jovens da minha idade. Tenho um pequeno acréscimo que é o VIH, mas tomo a indispensável medicação diária e vou às consultas regulares. De resto não sou diferente. Faço uma vida exactamente igual a todas as outras raparigas de 19 anos. E agora estou num momento decisivo da minha vida: quero realizar o meu sonho, quero muito ir para a faculdade, estudar psicologia, porque é uma coisa que me fascina e que eu não consigo explicar. Faço-me entender?”
O debate, a partir das 21h30, conta com a participação de Cândida Pinto, da documentarista Joana Pontes, do colunista Daniel Oliveira e de Henrique Joaquim, responsável da Comunidade Vida e Paz.
Pode ver-se o documentário aqui, como aperitivo para o debate, mas nada como vê-lo em ecrã maior e, sobre ele, conversar a seguir.


Músicas que falam com Deus (22) - A música de Hildegarda, doutora da Igreja


Hildegarda de Bingen, a monja medieval, é uma descoberta recente. Além de abadessa do mosteiro de Rupertsberg, ela foi escritora, compositora, terapeuta, botânica, pintora e poetisa, entre vários outros atributos. Uma das mais importantes místicas da história da Igreja, Hildegarda foi proclamada doutora da Igreja, há um ano, em Outubro de 2012, pelo Papa Bento XVI, tendo em conta também o seu pensamento filosófico e teológico, bem como os caminhos imensos que ela rasgou num tempo em que, às mulheres, estava destinada uma vida de segunda categoria.
Um dos “génios universais da história ocidental”, como se diz na apresentação deste disco, que se confrontou mesmo com bispos e o próprio Papa. Também na música, o legado de Hildegarda de Bingen é uma das descobertas das últimas duas ou três décadas. Reconhecidas como de grande qualidade, as suas quase oitenta composições – entre as quais o Ordo Virtutum – têm sido gravadas por dezenas de grupos e intérpretes a partir dos manuscritos conhecidos.
Neste disco, a voz transparente e límpida de Catheryne Braslavsky, os instrumentos tocados por Joseph Rowe e os arranjos musicais de ambos dão neste disco, à música de Hildegarda, um toque original – por exemplo, em peças como O Ignis Spiritus, Ave generosa ou O Jerusalem, entre outras –  onde não faltam cordas e percussões tibetanas e africanas, que ajudam a sublinhar as melodias desenhadas e moduladas pela voz.

Título: Hildegard von Bingen – Le mariage du ciel et de la terre
Intérpretes: Catherine Braslavsky e Joseph Rowe
Edição: Jade


(texto publicado n'O Mensageiro de Santo António, de Novembro 2013)