sábado, 13 de setembro de 2014

A cruz, a ciência e uma ONU das religiões

Crónicas

No comentário à liturgia católica deste domingo, que assinala a festa de Exaltação da Santa Cruz, Vítor Gonçalves escreve na crónica A tua cruz, na Voz da Verdade:

Amar a cruz seria doentio. Acreditar que Deus gosta do sofrimento talvez uma heresia. Amar as pessoas comporta também cruz e sofrimentos? Sim, e infelizmente muitos deles somos nós que os inventamos! Custa dar a vida mas só essa dádiva nos faz plenamente felizes. A cruz lembra-nos que o triunfo nem sempre é imediato (três dias no sepulcro, não foi?), que não somos “super-heróis” (e mesmo esses têm sempre um calcanhar de Aquiles!), mas somos chamados a “mais”. Mas tantas vezes nos acomodamos a uma “vida menor”! 
(texto integral aqui)


No DN de hoje, Anselmo Borges escreve um primeiro texto com o título A ciência e o divino, onde cita vários cientistas a falar da questão de Deus:

Pensa-se, por vezes, que todos os cientistas são ateus. Não é verdade. Há cientistas ateus, cientistas agnósticos e cientistas crentes. A questão fundamental consiste em saber se se crê num deus pessoal ou se se está mais na linha do divino impessoal.
(texto integral aqui)


No Correio da Manhã de ontem, Fernando Calado Rodrigues escreve sobre a ONU das religiões:

O Papa Francisco tem condenado a guerra em nome de Deus. Comentando a expulsão dos cristãos de Mossul e o conflito na faixa de Gaza, disse no início de Agosto que a guerra ofende gravemente a Deus e à humanidade. “Não se faz guerra em nome de Deus!”, afirmou.
(texto integral aqui)

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Celibato, terrorismo interno e livros inquietantes

Crónicas

Na sua crónica de sexta-feira passada, no Correio da Manhã, Fernando Calado Rodrigues escrevia sobre a revisão do celibato:

O cerne da questão não deve ser tanto o abandono do celibato, mas a revitalização das comunidades eclesiais, de forma a que elas próprias gerem os seus pastores. E estes poderão ser celibatários ou não.
(texto completo aqui
as crónicas anteriores, sobre temas como o terrorismo interno na Igreja ou as viagens papais, podem ser lidas aqui)


Frei Bento Domingues, que retomará no próximo domingo as suas crónicas no Público, escrevera no final de Julho sobre o Papa Francisco e dois livros inquietantes – a Evangelii gaudium, e a Brevíssima Relação da Destruição das Índias, de frei Bartolomeu de las Casas – depois de ter concluído a série de quatro textos sobre o que trouxe de novo o Papa Francisco:

No momento em que a política, em todo o mundo, está desacreditada pelos mais diversos motivos, o Papa Francisco resolve lembrar que a vocação de todos os políticos é tutelar o bem comum e não os interesses pessoais ou de grupo, os cúmplices da corrupção. Lembra que Paulo VI costumava dizer que a missão da política é uma das formas mais elevadas da caridade. Hoje, e o problema é mundial, desvalorizou-se, foi arruinada pela corrupção, pelo fenómeno das comissões ilegais. Recorda um documento que os bispos franceses publicaram há quinze anos: uma carta pastoral que se intitulava Reabilitar a política.
(texto completo aqui)

domingo, 7 de setembro de 2014

A mulher de Jesus e a sua presença real

Crónicas

Na sua crónica no DN, neste sábado, Anselmo Borges escreve sobre A mulher de Jesus:

Decisivo é que Jesus, infringindo os preceitos patriarcais, deu início a um movimento inclusivo de homens e mulheres, sem discriminação. A Igreja Católica ainda não tirou daí todas as consequências.
(o texto completo pode ser lido aquias crónicas de Anselmo Borges desde 20 de Julho, que não foram referidas no Religionline, podem ser lidas aqui)


Na Voz da Verdade, Vítor Gonçalves retomou as suas crónicas Ao Encontro da Palavra, de comentário à liturgia católica de domingo. No meio de nós parte das leituras deste 23º Domingo do Tempo Comum:


(ilustração: Bernadette Lopez/Berna, 
reproduzida daqui)

É a presença viva e real de Jesus que importa, em qualquer pequena comunidade dos seus amigos. Não o número, nem a “grandeza” de quem preside (parece que deve ser aquele que mais serve!), nem os atavios e alfaias que se usam, nem os ecos na comunicação social! Importa estar reunido com Ele, no seu nome, atraídos pelo seu projecto, abraçando a vida, que pode ser mais humana e mais divina! 
(o texto integral pode ser lido aquias crónicas de 20 e 27 de Julho podem ser encontradas aqui)

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Jesus, homem para Deus e para os outros - uma antologia de frei Bento Domingues

Texto de António Marujo e Maria Julieta Mendes Dias

O livro A Insurreição de Jesus, segunda antologia de crónicas de frei Bento Domingues no Público, é esta semana posto à venda. Nele se recolhem textos de frei Bento, de entre as mais de mil crónicas já publicadas em 23 anos, sobre a questão de Deus, a figura histórica de Jesus e a sua mensagem, bem como sobre a relação entre as diferentes religiões. A apresentação deste volume procura situar algumas das ideias de Bento Domingues.
Este volume segue-se ao primeiro, Um Mundo que Falta Fazer (ambos são ed. Temas e Debates/Círculo de Leitores), que recolhe textos sobre questões sociais e políticas. Como forma de apresentar estes dois volumes e homenagear frei Bento pelos 80 anos que acaba de completar, irá decorrer na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, dia 19 de Setembro, uma sessão com vários participantes, nomes destacados da sociedade e da cultura. O programa completo está no cartaz aqui reproduzido (deve acrescentar-se, no início da sessão, a participação do director-adjunto do Público, Nuno Pacheco). A entrada na sessão é livre.



A seguir, ficam excertos do texto de apresentação deste segundo volume:

Pode não ser fácil organizar as crónicas de frei Bento Domingues: muitas delas cruzam vários temas, num caleidoscópio aparentemente disperso. Mas é evidente que há um núcleo em todas elas, reflectindo a profunda convicção do autor: a pessoa de Jesus Cristo, cuja originalidade “consiste em estar ligado a um Deus que tem, em seu coração, todos os seres humanos e que pode ser encontrado ou esquecido de mil maneiras”, como frei Bento escrevia no texto de 1 de Outubro de 2006. 
Mesmo quando fala da Igreja ou da política, da espiritualidade ou das outras religiões, da economia ou do ateísmo, é a pessoa de Jesus que Bento Domingues coloca no âmago da sua reflexão. Um Jesus cuja vida e palavra tem as outras pessoas no centro e cujo único poder “é o de perdoar os próprios inimigos, desejar vida àqueles mesmos que O excluíam da vida.”
De que Jesus fala frei Bento? Ao longo destes já mais de mil textos e quase 23 anos de presença semanal no Público, ele regressa, de vez em quando, aos elementos que podemos conhecer ao certo sobre Jesus. Numa das crónicas, descrevia: “Nasceu, provavelmente, entre os anos 6 e 4, antes da era comum. Falava o dialecto da sua região, o aramaico da Galileia. Frequentava a Sinagoga e sabia ler textos bíblicos em hebraico. É normal que soubesse, também, um pouco de grego e alguns termos em latim. Este judeu da Galileia cresceu e viveu nessa parte setentrional da Palestina, herdeira directa do grande reino de Herodes.”

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Quem é o diabo?

O diabo (...) é 
por definição 
aquele que separa, 
que arruína as relações, 
que insinua preconceitos…

Papa Francisco, na audiência geral de 27.08.2014

(Para ler o texto completo e o contexto das palavras do Papa, clicar AQUI).

domingo, 17 de agosto de 2014

Sobrinha do Papa: "Creio que ele está a construir uma igreja menos clerical, mais fraterna e capaz de dialogar"


Bergoglio con su hermana Marta Regina en el día del matrimonio, el 19 de mayo de 1964. En el recuadro, la sobrina María Inés

Tem sido uma irmã do Papa Francisco, a única que ainda vive, quem tem falado com os media, em nome da família. Mas a jornalista Mojca Širok que é correspondente em Roma da RTV Slovenija, procurava há tempos entrevistar María Inés Narvaja, uma sobrinha de Jorge Mario Bergoglio, que sabia ser casada com um esloveno. Apesar da renitência, Inés acabou por aceder. E vale a pena ler o texto completo, do qual transcrevemos apenas algumas perguntas e respostas:

"(...) 
¿Qué era lo que más le gustaba de él?

El buen humor, tiene muy buen humor. Después la disciplina, es muy disciplinado; yo casi puedo prever cuándo va a llamar por teléfono, el día y la hora, por que siempre hace las cosas en un día determinado. Y el amor a Dios, a Jesús sobre todo, y a los más pobres. Eso es algo que siempre nos inculcó el tío: preocuparnos por los más pobres, comprometernos como laicos en política, en asociaciones, para ayudar a los demás. Es algo muy fuerte en él y también en mi mamá; se ve que mis abuelos se lo inculcaron con fuerza.

¿Era así antes de ser obispo?

Si, siempre fue así; mis hermanos mayores tenían 15, 16 años y todos los sábados y domingos iban a la parroquia del tío a ayudar a los más pobres, a dar catequesis, a darles el desayuno. Yo era muy chica en aquel momento, pero ellos iban siempre.
(...)

¿Hacia dónde está llevando la Iglesia?

Yo creo que está construyendo una Iglesia menos clerical, más fraterna. Una iglesia capaz de dialogar; creo que el dialogo interreligioso será una de las claves en el papado del tío. Él esta convencido de que la iglesia no tiene la exclusividad de Dios. La iglesia es la esposa de Jesús, Dios esta en todos nuestro hermanos, crean o no crean en Él, y los preferidos de Jesús son los mas pobres, los que están sufriendo, los que están lejos, los que no tienen títulos. Es una persona muy comprensiva con quien es débil y se equivoca, pero muy exigente con aquellos que son responsables ante la justicia, con los que manejan dinero de los demás. Por otra parte, ya hemos visto cómo reacciona frente a la corrupción. Quiere una Iglesia más desarmada pero más aguerrida desde el punto de vista espiritual.

¿Piensa que lo va a lograr?

Sin duda, él solo no puede. De hecho, por eso pide que recemos tanto. Él no es la Iglesia, La Iglesia somos todos. En la medida en que todos podamos hacer algo en la misma dirección, eso producirá una ola expansiva que le dará más energía para cambiar las cosas.
(...)

A informação sobre esta entrevista chegou-nos via Religion Digital e o texto completo foi publicado pelo site Tierras de America, de Alver Metalli que publica igualmente as duas fotos deste post: a primeira, do Padre Jorge Mario Bergoglio e sua irmã; a segunda, da sobrinha Maria Inés Narvaja.

domingo, 27 de julho de 2014

"Stabat Mater" - uma crónica de Augusto Santos Silva


Na sua crónica semanal no Jornal de Notícias, o Prof. Augusto Santos Silva analisa o significado e alcance de um problem laboral, no caso o dos 280 operários da fábrica Peugeot-Citroën (PSA) em Mangualdem, cujo terceiro turno, iniciado em 2013, "para responder a necessidades adicionais de produção", deixou de funcionar.
Diz aquele docente da Faculdade de Economia do Porto e conhecido político que "[é] difícil contestar a decisão da Administração a partir de critérios de racionalidade económica". "A questão  - faz notar - é que o mercado de trabalho não é - não deveria ser - um mercado de produtos. O trabalho humano não é igual a uma máquina que se compra quando é precisa, se gasta até ao limite e se deita fora no fim, para comprar outra. O trabalho é uma condição necessária da dignidade pessoal".
A partir daí, faz uma análise que, com a devida vénia, trancrevemos:
"A regulação social do capitalismo sempre procurou enquadrar esta questão. As comunidades tradicionais desamparadas pelo Estado amorteciam os efeitos de baixos salários ou desemprego através da pequena agricultura complementar ou de outras atividades económicas informais. O modelo japonês garantia uma fortíssima proteção ao núcleo duro dos trabalhadores ligados a grandes empresas como a famílias, à custa de um largo segmento exterior desprotegido, composto por mulheres ou trabalhadores precários e desqualificados. Mas os europeus conseguiram ir mais longe na regulação democrática da economia e fizeram questão de incluir a relação salarial no coração moral e na base institucional da sociedade de bem-estar.
Isto, que duas gerações sucessivas do pós-guerra puderam considerar um adquirido civilizacional, encontra-se hoje em causa. Duas empresas fundem-se e todo o mundo acha normal que o resultado imediato seja um despedimento massivo. A fábrica precisa ocasionalmente de aumentar a produção e emprega, deixa de precisar e despede. Pagando as indemnizações devidas, cumprindo a lei aplicável. Mas para todos os efeitos o trabalho, isto é, o trabalhador tornou-se um descartável. Volta a ser o jornaleiro engajado e excluído ao ritmo de cada dia, agora com subsídios e indemnizações. Não tardará muito e a Europa achará inevitável o que vê nos filmes americanos: despedido na hora, alguém pega na sua caixa de papelão e abandona o posto, enche a carrinha com uns tantos trapos e leva a família para mil quilómetros mais além, pode passar de um bom emprego para debaixo da ponte que poucos ligam e, se for ao contrário, se da rua sair para a riqueza, terá Hollywood a celebrá-lo. Cada qual que se amanhe.
O facto é que os cofundadores da economia social de mercado, sociais-democratas e democratas-cristãos, estão muito desprovidos, política e moralmente, face aos avanços do capitalismo sem regras. Por isso, não custa compreender que provenham da Igreja as palavras mais fortes contra a degradação da pessoa humana por via da precarização do trabalho.
Eu, pelo menos, creio perceber bem porque é que, entre as vozes internacionalmente mais audíveis, é a de Francisco, como antes a de João Paulo II, que parece mais sentida e sincera. A bem dizer, a sorte do operário de hoje, expiando quase sozinho as culpas de um Mundo que também não é o seu reino, não anda muito longe da sorte d" Aquele que Maria chorava, "dolorosa e lacrimosa, junto da Cruz".

[Ler o texto completo: AQUI]
[Crédito da imagem: http://immaculata.ch/Index_2006_04_12.htm]

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Padre de Málaga dança sevilhanas e rumbas na igreja

Um ditado antigo diz que cantar é rezar duas vezes.
Que o diga o padre espanhol José Planas Moreno, de 66 anos, que não só canta como costuma dançar sevilhanas e rumbas na festa da Virgem do Carmo e noutras celebrações mais importantes da sua paróquia. Fá-lo no fim da celebração eucarística e antes da procissão. Acontece há anos no Bairro de Campanillas, Málaga e, segundo os relatos, as pessoas já reclamam se ele não dança. E não faltam mulheres para o companhar, como se pode ver no vídeo deste post. José Planas já teve mesmo o privilégio de dançar diante do Papa João Paulo II. O relato é de Religion Digital.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Os filtros do Vaticano às vozes do Povo de Deus

O humor não é uma dimensão da vida que este Papa menospreze. Pat Marrin, colaborador do jornal National Catholic Reporter, viu assim a comunicação entre as bases e a cúpula da Igreja, numa possível alusão a algum descontentamento que o documento preparatório do próximo Sínodo sobre a família suscitou em meios católicos dos Estados Unidos da América:



Desperdício; Papa, novidades e família; e interior e desertificação

Crónicas

No comentário aos textos da liturgia de domingo passado, Vítor Gonçalves escreve na Voz da Verdade, a propósito do desperdício e sob o título Semear é multiplicar:
Segundo dados de 2012, “em Portugal cerca de um milhão de toneladas de alimentos por ano (17% do que é produzido) vai para o lixo, e nos 27 Estados Membros da UE a produção anual de resíduos alimentares ronda os 89 milhões de toneladas, estimando a UE que possa chegar a 126 milhões de toneladas em 2020. 30% dos produtos horto-frutícolas na Europa vão para o lixo!” (...) Não se trata de desvalorizar o trabalho e alimentar a preguiça mas de promover uma justa partilha e reconhecer que a abundância de uns pode colmatar a penúria de outros.
(texto completo aqui)


No Público de Domingo, frei Bento Domingues escreve o terceiro texto sobre Que trouxe de novo o Papa Francisco:
O ser humano é considerado como um bem de consumo que se pode usar e deitar fora. É a promoção da cultura do descartável. (...) Os excluídos nem explorados são, mas resíduos, sobras. Esse é o facto. Quais são as causas? 
O argentino tenta responder. Uma das causas desta situação está na relação estabelecida com o dinheiro (...). A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. 
(texto completo aqui)


No DN de sábado, Anselmo Borges dedica o seu segundo texto ao tema Família em crise, desejo de família, a propósito do texto preparatório do Sínodo dos Bispos sobre a família, que decorrerá em Outubro. O artigo cita as referências do documento à poligamia “natural” em certas regiões, ao “feminicídio”, promiscuidade sexual em família e incesto. E acrescenta:
Uma linha de fundo perpassa o texto: mesmo mantendo, no essencial, a doutrina tradicional católica, há uma nova atitude pastoral de compreensão e misericórdia para quem está em situação de irregularidade canónica (...)
há concretamente dois pontos que precisam de mais reflexão (...) será preciso aprofundar toda a questão da “lei natural”. O que é a natureza? Dever-se-á ir também mais fundo no referente à chamada gender theory.
(texto completo aqui)


No CM de sexta, Fernando Calado Rodrigues escrevia sobre o empenhamento da Igreja para combater o Despovoamento do interior:
A complexidade do problema exige um envolvimento supradiocesano e a cooperação entre diversos organismos eclesiais. Foi a essa conclusão que chegaram algumas dioceses no sul de Itália, confrontadas com problemas semelhantes. Identificaram como principal causa para essa situação o desemprego juvenil.
(texto completo aqui)

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O ''retorno do exílio'' para Teilhard de Chardin

Por Henri Madelin (*)


      
      O padre Teilhard de Chardin (1881-1955), apaixonado pela ciência e homem de grande fé, passou grande parte da sua vida de jesuíta no exílio. As autoridades romanas temiam a sua influência. Foi-lhe pedido que recusasse um pedido de admissão ao Collège de France. Muitos dos seus livros não receberam a permissão para a publicação enquanto ele estava vivo. Os seus fervorosos admiradores da época o descobriram através dos textos mimeografados que circulavam em círculos cada vez mais amplos. Em algumas bibliotecas de seminários, as suas obras haviam sido postas no "inferno", isto é, era preciso de uma autorização especial para cruzar às escondidas as portas daqueles lugares infernais.
      Em 1932, em Christologie et évolution, Teilhard ousou apresentar a sua percepção da criação: "Criar, até mesmo para a Onipotência, não deve mais ser entendida entre nós na forma de um ato instantâneo, mas como um processo ou gesto de síntese. O Ato puro e o 'Nada' se opõem como a Unidade completa e o Múltiplo puro. Isso significa que o Criador não poderia, apesar (ou, melhor, em virtude) das suas perfeições, se comunicar imediatamente com a sua criatura, mas deve torná-la capaz de recebê-lo".
      Tal visão evolutiva obrigava a reler de forma diferente as noções de Criação, de mal, de pecado original se a fé queria entrar em um diálogo fecundo com as ciências modernas, para além de um concordismo ingênuo e de recorrentes leituras hostis.
      A hostilidade romana aos seus escritos não diminuía. Um ato de recusa em relação a esse "visionário" veio de um Monitum controverso e particularmente severo publicado pelo Santo Ofício no dia 30 de junho de 1962. Nele, se declarava que "certas obras do Pe. Pierre Teilhard de Chardin, incluindo também algumas póstumas, são publicadas e encontram um favor nada pequeno. Independentemente do devido juízo no que se refere às ciências positivas, em matéria de filosofia e teologia vê-se claramente que as obras mencionadas contêm tais ambiguidades e até mesmo erros tão graves que ofendem a doutrina católica".
      Hoje, Teilhard não é mais um réprobo dotado de talento. Ele saiu do exílio que lhe havia sido imposto. Uma confirmação dessa mudança explica a recente publicação no jornal oficial do Vaticano de um artigo elogioso sobre Teilhard, reconhecido como um "precursor" e um "cientista extraordinário".
      Ao se ler o L'Osservatore Romano do domingo, 29 de dezembro de 2013, percebemos, de fato, que já se evita agora toda polêmica inútil. O autor do artigo, Maurizio Gronchi, escolheu como título para a sua contribuição uma citação que resume bem o itinerário intelectual de Teilhard: "Estudo a matéria e descubro o espírito".
      O artigo parte da constatação de que "hoje" os estudos filosóficos e os estudos teológicos levam em consideração o componente dinâmico e evolutivo do ser humano e do universo. Isso é particularmente perceptível, por exemplo, na obra do teólogo alemão Karl Rahner.
      O artigo analisa as abordagens ao problema por parte dos papas, começando por Paulo VI. Lembra que, para o cardeal Ratzinger, a intuição teilhardiana é "verdadeira" por ser capaz de discernir no Cristo-Ômega o ponto de vista unificante da escatologia da humanidade. É um progresso efetivo para a compreensão de Cristo na atual concepção do mundo, ressalta. Com um toque de humor, o ex-responsável pela Congregação para a Doutrina da Fé declara até que se pode perdoar Teilhard pela sua propensão a utilizar uma linguagem de biólogo, porque "nele se encontra uma coerência substancial com a cristologia paulina".
      Segundo esse artigo, pode-se ler a assinatura de Teilhard sobretudo nos textos do Concílio Vaticano II, particularmente na Gaudium et Spes. A maior parte dos especialistas presentes nesse Concílio eram leitores de Teilhard. Falavam a respeito, se inspiravam nele, mas não ousavam se referir ao seu nome naquela época.
      O artigo mostra isso com um exemplo: "Assim, o gênero humano passa de uma concepção bastante estática da ordem das coisas a uma concepção mais dinâmica e evolutiva. Isso favorece o surgimento de um formidável complexo de novos problemas, que estimula a análises e a sínteses novas".
      Esse trecho da constituição pastoral Gaudium et Spes (n. 5, § 3), destacado nesse artigo do L'Osservatore Romano, não ressoa, talvez, para nós como um pequeno concentrado de imensos desenvolvimentos sobre esse tema que se encontra na obra de Teilhard?

(*) Henri Madelin é teólogo jesuíta francês, ex-diretor do Centre Sèvres de Paris (1985-1993), ex-provincial dos jesuítas franceses e ex-diretor da revista Études. Hoje, leciona no Instituto de Estudos Políticos de Paris (IEP). O artigo foi publicado no jornal La Croix, em 05-07-2014. A tradução foi realizada por Moisés Sbardelotto para a Newsletter do Instituto Humanitas da Unisinos, Brasil.

Complemento:
Um texto interessante sobre Teilhard de Chardin e o seu pensamento evolucionista foi publicado pelo Prof. Alfredo Dinis,s.j., recentemente falecido. Intitula-se "Implicações teológicas do evolucionismo biológico de Teilhard de Chardin" (corrigi o link, seguindo a indicação de um comentário).

segunda-feira, 7 de julho de 2014

O que trouxe de novo o Papa Francisco; a família em crise; a Máfia; viver e aprender

Crónicas

Nas suas últimas duas crónicas no Público, frei Bento Domingues pergunta O que trouxe de novo o Papa Francisco?:

Eleito Papa, o cardeal Bergoglio escolheu o nome de Francisco, o de Assis. Esta escolha encerra o seu programa. Optou pelos pobres nas diferentes periferias do mundo: geográficas, sociais, culturais e existenciais.

O empenhamento dessacralizador do novo hóspede da Casa de Santa Marta põe em causa costumes, alguns muito radicados no decurso da história da Igreja, mas que não têm ligação directa ao núcleo de Evangelho. Diz a mesma coisa de normas ou preceitos eclesiais que podem ter sido muito eficazes noutras épocas, mas já não são canais de vida. Não tenhamos medo de os rever! (...)
Esperemos que o irrequieto Bergoglio continue a desassossegar as Igrejas, as religiões, a banca, as sociedades, os governos para que se coloquem ao serviço da justiça.  
(os textos destas duas crónicas estão disponíveis aqui e também aqui)


fr. Stephen, de Taizé, Círculos de Silêncio 
(ilustração reproduzida daqui)


No DN de sábado, Anselmo Borges dedica o seu texto ao tema Família em crise, desejo de família, referindo-se ao Instrumento de Trabalho preparatório do Sínodo dos Bispos do próximo Outono:

Embora se dirija directamente aos católicos e no quadro do pensar católico, o documento é mais abrangente, mesmo quando apresenta razões da crise da família e, mais concretamente, da moral familiar. Referindo as respostas recebidas, diz: “Existe unanimidade também no que se refere aos motivos de fundo das dificuldades, quando se trata de acolher os ensinamentos da Igreja” (...)
E lá está a constatação: apesar da crise, há testemunhos significativos nos quais "se manifesta claramente, sobretudo nas novas gerações, um renovado desejo de família".
(o tema será retomado no próximo sábado; este primeiro texto está disponível aqui)

quarta-feira, 2 de julho de 2014

SOPHIA

Texto de Jorge Wemans (*)



(foto reproduzida daqui)


Sai agora teu funeral à rua. Uma pequena multidão te acompanha. Dentro em pouco descerás à terra. Não é justo.
Justo seria esperar pelo pôr-do-sol para então depor teu franzino corpo na orla branca da praia que amaste. Serena e lentamente, o mar te viria buscar, onda após onda, ao ritmo de quem respira quando ama. E te levaria para o lugar definitivo que só tu e ele sabem ser o teu.
Na claridade da manhã, uma inadvertida e espantada gaivota não saberia entender a gravidade daquele lugar. Nem que força, resistindo a qualquer bater de asas, a mantinha imóvel. Até que o grito de alegria da primeira criança na praia celebrasse o regresso da palavra… e a libertasse para o voo, livre de segredos e de sentidos de que nunca suspeitaria.

O que eu queria dizer-te nesta tarde
Nada tem de comum com as gaivotas.

Sei agora mais algumas coisas de ti

“A vida dos que partem
é sempre mais venturosa
que a dura e triste sina
dos que ficam
recortando nos lugares habituais
e nos momentos comuns
o espaço da ausência
daqueles que amam.”

Sei agora mais algumas coisas de ti.
Percebo que escreveste logo tudo da primeira vez. De jacto, por uma vez e para sempre, estavas toda ali. Nos primeiros versos, a que incansável e sempre renovada, voltaste vezes sem conta, já inscreveras tudo o que eras e serias.
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Percebo que andaste comigo pela mão desde muito cedo. Acompanhas-me desde aquele momento adolescente em que comecei a fazer-me diferente daquilo para que me tinham feito. Falei a tua cristalina palavra porque ela dizia o que obscuramente procurava.
(…)
A presença dos céus não é a Tua,
Embora o vento venha não sei donde.

Os oceanos não dizem que os criaste,
Nem deixas o Teu rasto nos caminhos.

Só o olhar daqueles que escolheste
Nos dá o Teu sinal entre fantasmas.

Percebo por que nunca te resisti. Mesmo quando regressavas e eu pensava ter-te esquecido. Ou quando quis coisas que tu não querias. Quando disse acabado e velho o teu mundo. No tempo em que o sentimento atrapalhava a vida. Ou quando o mar foi só o sono do descanso. Mas nunca te resisti. Nunca te procurei. Chegaste sempre até mim pela mão de alguém.
(…)
Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco