terça-feira, 7 de abril de 2015

7 de Abril do ano 30: Sete verdades sobre o homem que abalou o mundo

Sabemos que Jesus existiu, era um judeu na forma de viver e de rezar, não nasceu a 25 de Dezembro, era visto como profeta, foi condenado à morte pelo procurador romano e morreu, com forte probabilidade, a 7 de Abril do ano 30. Segundo os seus seguidores, ressuscitou dois dias depois – no Domingo de Páscoa, que hoje os cristãos assinalam. Começou aí um mistério e um fascínio que perdura.  

Ninguém sabe exactamente o que sucedeu na madrugada daquele 9 de Abril do ano 30. “O que se pode dizer é que se passou alguma coisa naqueles dias, um acontecimento que, abalando aqueles homens e mulheres, abalou o mundo.”
A frase é do jornalista francês Jacques Duquesne que, há década e meia, agitou o cristianismo europeu com um livro polémico sobre Jesus. No dia 7 de Abril – tudo aponta para essa data –, Jesus, chamado Cristo (Messias) pelos seus companheiros, tinha sido morto pelo suplício da cruz. Sepultado na mesma tarde, alguns dos seus amigos – mulheres, primeiro, os líderes do grupo, depois – dirigiram-se depois ao sepulcro, na madrugada do primeiro dia da semana. Voltaram, dizendo que Jesus ressuscitara. Nesse instante, começa um fascínio que atravessa os séculos.

1. Uma personagem histórica


Hipótese de reconstituição do rosto de Jesus 
feita pela BBC em 2001

A busca do mistério permanece após quase 2000 anos. Mas, durante dezoito séculos, ninguém se preocupou sequer em averiguar se Jesus teria realmente existido, escreve Frédéric Lenoir. “Não se punha o problema da crítica literária e histórica”, diz o padre e biblista Joaquim Carreira das Neves.
O panorama muda a partir do século XVIII. O Iluminismo e o progresso científico começam a ser também aplicados à investigação bíblica. Graças a este processo, sabemos hoje muito mais sobre Jesus do que há 200 anos – mesmo mais do que há duas décadas. Crítica literária, descobertas arqueológicas, antropologia cultural, economia das sociedades mediterrânicas são temas e métodos dissecados por investigadores e teólogos.
David Friedrich Strauss, Hermann Samuel Reimarus, Ernest Renan, Joseph Lagrange são nomes incontornáveis na “primeira investigação”. O protestante Rudolf Bultmann é o inspirador da “nova” (ou segunda) investigação acerca do Jesus histórico. Em alguns casos – Bultmann é o extremo – vai-se ao ponto de defender que o Jesus da história nunca poderá ser conhecido, pois os relatos dos evangelhos são reflexo do Cristo da fé das primeiras comunidades cristãs e já não da personagem histórica.
Só desde há duas décadas a terceira vaga de investigação começou a trazer ao de cima aspectos até aqui ignorados acerca de Jesus. E o primeiro deles foi reconhecer que ele era, afinal, um judeu do seu tempo. Outra diferença importante em relação às duas primeiras fases de investigação: considera-se que o Jesus da fé é a continuação natural do Jesus da história.

Páscoa, sistema financeiro e cristãos do Médio Oriente

O tempo de Páscoa dominou as crónicas de fim-de-semana, a partir de diferentes perspectivas. No DN de sábado, Anselmo Borges escrevia, sob o título É em Sábado que vivemos:

Aparentemente, no horror daquela Sexta-Feira Santa, foi o fim. Mas, lentamente, reflectindo sobre a experiência que Jesus fez de Deus, sobre o modo como viveu, como agiu, como morreu, os discípulos fizeram a experiência avassaladora de que o Deus-amor, a quem Jesus se dirigia como Abbá, Pai-Mãe querido, não o abandonou nem sequer na morte. Jesus não morreu para o nada, mas para Deus. Na morte, não encontrou o nada, mas a plenitude da vida de Deus.
(texto integral aqui)


Vítor Gonçalves, com A corrida pascal, comentava deste modo os textos da liturgia católica de domingo de Páscoa:

A Páscoa de Jesus desinstala-nos e “despantufa-nos” das rotinas e da preguiça. E também desfaz o medo, esse um autêntico “colesterol mau”, a entupir as artérias e veias por onde quer correr o sangue da vida abundante de Deus. Sem a Páscoa tornamo-nos obesos, cheios de mil e uma justificações para ficar no quentinho de uma “vidinha” religiosa, bem medida e suficiente, de livro de “Deve e Haver” que havemos de apresentar a Deus com saldo a nosso favor. Mas a “Igreja em saída”, de que tanto fala o Papa Francisco, pode comparar-se a esse dinamismo que convida à simplicidade de calçar uns ténis e vestir uns calções e percorrer os caminhos habituais ou desconhecidos com uma presença mais fraterna e disponível para o encontro com outros
(texto integral aqui)


No Público de domingo, frei Bento Domingues escrevia sobre a Páscoa de muitas páscoas, terminando a evocar Pedro Meca, já aqui referido aquando da sua morte:

Entrou, aos 21 anos, em França, para a Ordem dos Pregadores. Viveu a partilha das múltiplas dimensões do Evangelho na cidade que o seu confrade e amigo (P. Blanquart) investigava e da qual, ele Pedro Meca, vivia a rua e a noite, a companhia dos “contrabandistas da esperança”, os marginalizados, com os quais morria e ressuscitava todos os dias. Para mim, dizia o Pedro, a rua não é um lugar de passagem, mas um lugar de vida que amo e que, desde sempre, me é familiar. Na rua, as noites escuras são mais escuras do que as dos místicos e quantas não são precisas para “uma só manhã” (H. Michaux)! Não se passa uma noite de Páscoa, confessa Pedro Meca, sem que eu não esteja num café ou na rua e, de repente, exclame: é a Páscoa!
(texto integral aqui)

  
Sexta-feira, no CM, Fernando Calado Rodrigues escrevia sobre a Crítica ao sistema económico:


O Secretário de Estado do Vaticano e o Presidente do Senado Italiano uniram as suas vozes na crítica ao sistema económico vigente, que promove a exploração dos mais fracos e a promiscuidade ente a finança e o poder, durante a apresentação de um volume da revista italiana “Limes”, dedicada ao tema “Moeda e império” , na passada terça-feira em Roma.
O cardeal Parolin denunciou que “os grandes capitais tendem a financiar os poderes estabelecidos e as atividades mais rentáveis”, enquanto o povo se vê arredado do acesso ao crédito.
(texto integral aqui)


Na crónica Os dias da semana,  que mantém aos domingos no Diário do Minho, Eduardo Jorge Madureira escreveu, sob o título Eu sou um cristão do Oriente:

O mundo tem-se mostrado impassível perante o extermínio dos cristãos do Oriente. Um certo sentido das proporções ditaria que o vasto desinteresse pelo destino destas vítimas dos islamistas não contrastasse tanto com a compaixão e indignação que amplamente provocam, por exemplo, as notícias de maus-tratos de animais domésticos. Em Portugal, em favor dos cristãos do Oriente, quase só se escuta a voz da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que tem evocado a via-sacra que eles têm sido forçados a percorrer. Em França, controvérsias de interesse secundário opõem pessoas respeitáveis que não se entendem sobre o termo certo para classificar o que se está a passar. Genocídio, garantem uns. Erradicação, contrapõem outros, como se fosse preciso poupar palavras perante uma realidade que se tem imposto com tanta e tão continuada brutalidade.

domingo, 5 de abril de 2015

Ressurreição: quando o amor de Deus é um fogo

Domingo de Páscoa, celebrar a luz nova


Teófanes o Grego, Transfiguração do Senhor 
(início do século XV; ilustração reproduzida daqui)


A experiência do ressuscitado é, para os primeiros seguidores de Jesus, semelhante a um fogo misterioso e intenso. Dois deles, que iam a caminho de uma aldeia chamada Emaús, são disso testemunhas. Pelo caminho, o próprio Cristo ressuscitado junta-se a eles, sem ser reconhecido, e explica-lhes os textos bíblicos que a ele mesmo se referiam.
Os dois discípulos só o reconhecem quando Jesus se senta à mesa com eles. Ao regressarem a Jerusalém, para dizer aos companheiros que tinham visto o ressuscitado, comentavam: “Não nos ardia o coração, quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as escrituras?”
Esse fogo já antes o tinham experimentado outros três discípulos – Pedro, Tiago e João – quando Jesus se transfigura perante eles, mudando-se o rosto e resplandecendo as vestes. Sem entenderem plenamente o que acontece, os três intuem que o acontecimento prenuncia algo mais forte – que viria a ser a ressurreição.
Não se sabe o que terá sido a experiência da transfiguração – como a representada no ícone aqui reproduzido – nem, muito menos, a da ressurreição. Sabe-se, apenas, que elas mudaram a vida de um punhado de mulheres e homens. Dentro deles, descobriram de repente, por causa de um homem que se afirmava filho de Deus, potencialidades ignoradas.
“Quando a noite se torna espessa” – escreve o irmão Roger, da comunidade monástica de Taizé – o amor de Deus “é um fogo que vem atear o que sob as cinzas permanecia todavia incandescente”.
A experiência do fogo dá lugar a um dos símbolos mais importantes da liturgia católica. Na noite que passou, a Vigília Pascal começou com a bênção do lume novo. A oração do Precónio Pascal fala dessa noite diferente, que contém em si a força da luz na história bíblica: o inicial “Faça-se luz” rompe as trevas dominadoras; o pecado dissipa-se pela coluna de fogo que conduz os israelitas através do deserto, fugindo à escravatura egípcia; a ressurreição, acontecimento fundador do cristianismo e vitória sobre a morte, dissipa “as trevas de todo o mundo”; a terra rejubila “inundada por tão grande claridade”.
Esta foi a noite de prenúncio de uma aurora nova. “Esta noite santa afugenta os crimes, lava as culpas; restitui a inocência aos pecadores, dá alegria aos tristes; derruba os poderosos, dissipa os ódios, estabelece a concórdia e a paz.”

Hoje, Domingo de Páscoa, é essa luz nova que os cristãos celebram.

(Texto publicado no Público a 27 de Março de 2005)

sábado, 4 de abril de 2015

A água que brota do grande silêncio

Sábado Santo e a água como símbolo de fecundidade plena


Fédor Zubov, O Profeta Elias no Deserto 
(1672), Museu de Arte de Jaroslavl


Hoje, Sábado Santo, as liturgias cristãs – de modo especial a católica – assinalam o dia do grande silêncio. Os crentes contemplam o Cristo sepultado, mas experimentam, na aparência de uma derrota, a confiança na ressurreição. Como quem sabe que, mesmo no meio do deserto, há água que brota.
O profeta Elias – representado no ícone O Profeta Elias no Deserto, de Fédor Zubov – foi um dos que, na história bíblica, entendeu essa realidade. A seca atormentava o povo de Israel. Elias é então convocado por Deus, que queria “mandar chuva sobre a terra”, para manifestar que só ele era o verdadeiro Deus. E, depois de um despique com os sacerdotes de Baal, a chuva sobrevém e o povo volta-se de novo para o seu Deus. Antes, já o mesmo Elias recriara alimento na casa de uma pobre viúva que sofria asperamente os efeitos da seca e não tinha pão nem farinha.
Em ambas as histórias, Elias é aquele que acredita contra toda a lógica. A água virá, a fome acabará, mesmo se o deserto é que nos envolve – tal é o sentido da acção do profeta, narrada no livro bíblico de Reis.
A água é, na Bíblia, esse sinal da fecundidade plena. No início, conta o livro dos Génesis, já o Espírito de Deus pairava sobre as águas. No dilúvio de Noé, a água é o sinal da destruição mas também da purificação. Para fugir da escravatura no Egipto, os hebreus atravessam a pé enxuto o Mar Vermelho. Para os egípcios que tentarão perseguir os antigos escravos, a água será o seu cemitério, tornando-se sinal de liberdade plena.
Esta noite, na Vigília Pascal – a mais importante celebração do calendário litúrgico católico – os crentes recordam a água que fecunda a terra, que dá “frescura e pureza aos nossos corpos”. É dessa ideia que nasce o rito do baptismo. Na Vigília Pascal, celebra-se muitas vezes o baptismo de alguns e todos os crentes são aspergidos, recordando o dia em que cada um foi introduzido, pela água, na comunidade dos crentes. Como o viajante que passa por uma fonte: pára, refresca-se, descansa e retoma forças para o caminho. Como quem acredita que, entre os sinais da desesperança, é possível perscrutar o que os olhos não vêem.

(texto publicado no Público a 26 de Março de 2005)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A cruz, sinal do desarmamento divino, símbolo de Deus ‘todo-amoroso’

Primeiro identificativo cristão era um peixe desenhado com dois traços



Marc Chagall, Ressurreição
óleo sobre tela, 1937-1948
(ilustração reproduzida daqui)

No princípio, não era a cruz. O primeiro e grande símbolo dos cristãos foi um peixe desenhado com apenas dois arcos cruzados. O sinal remetia para a actividade piscatória que envolvera boa parte dos discípulos de Jesus. Ao mesmo tempo, a palavra grega para designar peixe, ictus, correspondia ao anagrama de Iesus (Jesus) Christos (Cristo) Theou (Deus) Uios (Filho) Soter (Salvador).
Com o tempo, a cruz foi tomando o lugar desse identificativo inicial. Jesus morreu depois de torturado e pregado numa cruz, passando esta a simbolizar, para os cristãos, o dom total de Cristo pela salvação de todos os homens e mulheres. Se ela traduz, assim, um terrível sofrimento, adquire também, para os crentes, o significado simultâneo de despojamento e plenitude.
“Não posso responder nada aqueles que dizem: ‘Há demasiado mal no mundo para que eu possa acreditar em Deus’”, escreve o filósofo Paul Ricoeur. “O único poder de Deus é o amor desarmado. Deus não quer o nosso sofrimento. De todo-poderoso, Deus torna-se ‘todo-amoroso’. Deus não tem nenhum outro poder para além de amar e de nos dirigir, quando sofremos, uma palavra de auxílio. O que é difícil para nós é poder ouvi-la.”
A cruz é símbolo desse despojamento quase absurdo, sinal do desarmamento divino. Mas que assume em si quotidianos de sofrimentos, alegrias, lutas e júbilos, como tão bem representam os crucifixos das pinturas populares latino-americanas ou esta Ressurreição de Chagall.
No decorrer da história, a cruz acabou por ganhar, para muitos cristãos, uma dimensão totalitária, esquecendo que ela testemunhava outro sinal maior – o da vitória sobre a morte como o último dos limites da humanidade. Acentuou-se o pietismo, o sofrimento pelo sofrimento, a “recompensa” do vale de lágrimas presente numa vida futura…

No seu sentido profundo, a cruz assume os fardos de cada um. Nela, cada um assume os fardos dos outros. Com esse horizonte, a liturgia católica criou, para a Sexta-feira Santa, a celebração da Adoração da Cruz. Para recordar que, no auge da tortura e do sofrimento, o próprio Jesus perdoou aos que o executavam. No século VI, escrevia Isaac de Nínive: “Deus só pode dar o seu amor.”

(texto publicado no Público a 25 de Março de 2005)

Religião e arte, memória e saudade do Paraíso perdido e o cinema como espelho da vida


Manoel de Oliveira com Bento XVI, a 12 de Maio de 2010, 
no Centro Cultural de Belém (Lisboa)
(foto reproduzida daqui)

No encontro de Bento XVI com o mundo da cultura, durante a sua visita a Portugal em Maio de 2010, Manoel de Oliveira foi convidado a dirigir ao Papa as palavras de saudação. Na sua curta intervenção, o cineasta falou da relação entre religião, artes e cinema:  

Considerando, porém, a religião e a arte, ambas se me afiguram, ainda que de um modo distinto é certo, intimamente voltadas para o homem e o universo, para a condição humana e a natureza Divina. E nisto não residirá a memória e a saudade do Paraíso perdido, de que nos fala a Bíblia, tesouro inesgotável da nossa cultura europeia? Acossados pelas especulações da razão, sempre se levantam terríveis dúvidas e descrenças, a que se procura opor a fé do Evangelho que remove montanhas. E os seres humanos caminham na esperança, apesar de todos os negativismos. Como diz o padre António Vieira: «Terrível palavra é o “Non”, por qualquer lado que o tomeis é sempre Non...»,  terminando por lembrar que o “Non” tira a Esperança que é a última coisa que a natureza deixou ao homem.
Se as artes nada mais aspiram a ser que um reflexo das coisas e acções vivas dos procedimentos e sentimentos humanos do universo real ou em fantasias imaginadas, pode aceitar-se o que um realizador mexicano, Artur Ripstein, classificou dum modo magnífico e surpreendente o cinema como sendo o espelho da vida. E é-o de facto.
(o texto pode ser lido aqui na íntegrao vídeo da intervenção de Manoel de Oliveira pode ser encontrado no final desta galeria.)

Numa nota a propósito da morte de Manoel de Oliveira, o presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, bispo D. Pio Alves, escreveu ontem: “Sentimos concretizado na obra de Manoel de Oliveira, e de outros protagonistas da nossa cultura, aquilo que o Concílio Vaticano II deixou bem vincado: as artes são um componente necessário do património de cada comunidade humana e ajudam a pessoa humana a chegar a uma autêntica e plena realização”, diz, numa referência ao texto conciliar da Gaudium et spes, sobre a relação da Igreja com o mundo.

Num texto biográfico sobre Manoel de Oliveira, a cineasta Inês Gil escreve:

“Católico confesso, defendeu sempre o cinema como arte de exprimir o religioso, questionando o mistério do mundo e a complexidade humana, por vezes, não poupando críticas a uma instituição que considerava demasiado fechada relativamente a certos assuntos e temas.”

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Comer juntos, o gesto da memória de Jesus

A refeição, um importante ritual em várias religiões



Johannes Vermeer, Cristo em casa de Marta e Maria (1654-56)
(ilustração reproduzida daqui)


Depois da celebração do Domingo de Ramos, em que se recorda a entrada de Jesus em Jerusalém, poucos dias antes de morrer crucificado, os cristãos (católicos, protestantes e anglicanos; pela diferença de calendários, os ortodoxos só celebram a Páscoa daqui a uma semana) evocam hoje a última ceia que Cristo come com os seus mais próximos.
A importância da refeição no ritual religioso não nasce com Jesus e o cristianismo. A ceia que acabou por ser ritualizada pelos cristãos em memória de Cristo era, ela própria, a celebração da Páscoa judaica: à volta da mesa e de um cordeiro ou cabrito, os judeus recordavam o tempo em que tinham saído do Egipto, fugindo à escravatura dos faraós.
Na primeira Páscoa, aquela que preparou a fuga aos exércitos do faraó, juntaram-se as famílias vizinhas, com sandálias nos pés e cajado na mão. “Comê-la-eis à pressa. É a Páscoa em honra do Senhor”, diz o texto bíblico do livro do Êxodo, que pede “um memorial (…) ao longo das gerações”.
A última ceia de Jesus ficou, no cristianismo, e por pedido do próprio – “Fazei isto em memória de mim” ­– como a celebração maior. Mas o valor bíblico da refeição não se resume à Última Ceia e alguns dos ensinamentos decisivos de Jesus ligam-se ao acto de comer juntos: é durante uma refeição em casa de um fariseu que Jesus causa escândalo ao perdoar os pecados da mulher que aparece a chorar e a lavar-lhe os pés; Jesus faz multiplicar os pães quando coloca a multidão faminta a partilhar o que cada um tem; depois da ressurreição, é à mesa que dois discípulos o reconhecem e Jesus aparece várias vezes junto dos amigos mais próximos para comer com eles; e, em casa de Lázaro e das suas irmãs Marta e Maria, Jesus parava várias vezes a repousar e a comer do pão que as mulheres lhe preparavam – como Vermeer representa no quadro aqui reproduzido.
O valor religioso do acto de comer junto com outros não se limita ao cristianismo e ao judaísmo. É com uma refeição festiva que os muçulmanos assinalam o final do Ramadão, o mês do jejum e da purificação. E os sikhs recordam o seu primeiro mestre espiritual: em 1649, Guru Nanak pegou em vinte rupias – uma fortuna que o pai lhe dera para gastar e, ao ver alguns homens santos que não tinham que comer, decidiu comprar alimento para partilhar com eles.
No acto de comer juntos, quebram-se barreiras, celebra-se a igualdade da mesa, transfiguram-se alimentos – o pão, o vinho – num ágape de amizade. Foi com esse gesto que Jesus iniciou a sua Páscoa. E se o tempo, muitas vezes, sacralizou e preencheu de rituais quase mágicos essa memória, o sinal maior continua a ser o do pão que se reparte. 

(texto publicado no Público a 24 de Março de 2005)

Quinta-Feira Santa: um lugar vazio à mesa?

E porque não um lugar vazio à mesa? Nesta Quinta-Feira Santa, a irmã Irene Guia propõe um lugar vazio à mesa, para trazer à mesa as “vítimas inocentes”, os que hoje não têm mesa e estão em situação de “últimas palavras”. Uma reflexão a propósito do dia de Quinta-Feira Santa, que hoje os cristãos assinalam.  


Músicas que falam com Deus (35) - Um "Golgotha", a força criativa dos contrastes, a sede de reconciliação

Música para o tempo de Páscoa


Rembrandt, As três cruzes (1653?), a ilustração 
que inspirou Martin a compor a peça Golgotha
(imagem reproduzida daqui)

Depois de ter sido apresentada na Sé de Braga, a obra Golgotha, do suíço Frank Martin, será apresentada Sexta-feira Santa na igreja de Nossa Senhora da Lapa, no Porto, a partir das 21h30. O concerto será interpretado pelo Coro da Sé Catedral do Porto e a Orquestra das Beiras. Num texto sobre a peça, o compositor cónego António Ferreira dos Santos escreve, na edição de 25 de Março da Voz Portucalense:

Uma dimensão peculiar merece ser destacada no Golgotha de Frank Martin: a força criativa dos contrastes: dia-noite, luz-sombras, culpa-inocência, céu-terra, humano-divino, sepulcro-vitória. Como na gravura de Rembrandt, a pessoa de Cristo está no centro dos acontecimentos: o sacrifício de Cristo e a sua Ressurreição constituem as condições da salvação da Humanidade sedenta de reconciliação. Esta é a libertadora e alegre mensagem do Libreto e, ao mesmo tempo, a vivência cristocêntrica do compositor do Golgotha.
(O texto completo pode ser lido aqui)