Texto de António Marujo
© Ilda David, ilustração na Bíblia Ilustrada
Um voto pode decidir uma casa. E uma casa pode conter a Bíblia, a vida de uma comunidade local, a promoção da cultura e preocupações ambientais. Até este domingo, 30 de Setembro, estará em votação, no âmbito do Orçamento Participativo de Portugal, o projecto da Casa João Ferreira de Almeida, a construir em Torre de Tavares (Mangualde), que pretende “estudar, promover e divulgar a vida e obra” do autor da primeira tradução integral da Bíblia para português. O método é muito simples e basta usar uma mensagem de texto no telemóvel ou um computador com acesso à internet (no final, explica-se como se vota neste projecto).
A ideia da Casa Ferreira de Almeida não pretende ser apenas a de um museu voltado para o passado. Entre os objectivos, estão os da apresentação da história da tradução da Bíblia para português e da biografia e trabalho de João Ferreira de Almeida, “salientando a sua importância como instrumento de promoção da língua e das culturas lusófonas”.
“Promover a Bíblia como património espiritual e cultural” e de “valores universais”, bem como a criação de uma plataforma “para o conhecimento plural e acessível” do texto bíblico e dos seus significados, é outra das ideias. Tal como a de “resgatar da clandestinidade histórica e cultural a biografia e a bibliografia de João Ferreira de Almeida”, que pode ser considerado “um dos pais da lusofonia”, como dizem os promotores da ideia.
O autor daquela que continua a ser a tradução mais vendida da Bíblia em português – pelo menos três a quatro milhões de exemplares, anualmente, só no Brasil – nasceu em 1628, em Chãs de Tavares, tendo ficado órfão desde muito cedo. Terá sido educado por um tio, padre católico, que residia em Lisboa. Aos 13 ou 14 anos, João parte para Amesterdão e, pouco depois, para Malaca.
Durante a viagem, o jovem sobrinho de clérigo católico decide tornar-se protestante. Em 1644, com apenas 16 anos, João Ferreira Annes d’Almeida inicia a tradução dos textos da Bíblia do latim para português, começando pelo Novo Testamento. No trabalho, Ferreira d’Almeida coteja a sua versão com traduções para espanhol, francês e italiano.
Reduzir a pegada de carbono
Não se ficarão pela Bíblia e pela memória de Ferreira d’Almeida os objectivos da Casa. Ela quer também afirmar-se como um “espaço expositivo de excelência” e um “centro vivo de referência cultural”, contribuindo, ao mesmo tempo, para “a formação da população local e dos visitantes”. “Não estamos a falar de uma realidade urbana, mas há uma preocupação forte com a comunidade local”, diz ao RELIGIONLINE Timóteo Cavaco, presidente da Sociedade Bíblica Portuguesa e um dos dinamizadores do projecto da Casa Ferreira de Almeida.
Outra preocupação será a da integração dos espaços, das opções por soluções energéticas seguras e não poluentes, de modo a reduzir a pegada de carbono, e com boas acessibilidades para pessoas com diferentes condições físicas, sensoriais e motoras. “Focada em destacar a relação entre a Palavra Criadora (Bíblia) e a Criação, a Casa está comprometida em promover o uso sustentável do ecossistema local”, lê-se na descrição do projecto. “Com efeito, tanto as áreas naturais, a descoberto, como a estética arquitectónica dos espaços interiores devem ser pensados em articulação com as características da paisagem” e com a preocupação da “conservação e sustentabilidade dos recursos envolvidos”.
(Ilustração acima: © Ilda David, Bíblia Ilustrada)

