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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Pintasilgo, europeia notável

 Agenda


Maria de Lourdes Pintasilgo (foto reproduzida daqui,
onde também se pode ler um perfil biográfico)

Nesta quarta-feira, entre as 17h e as 18h15, o edifício Caleidoscópio (jardim do Campo Grande, em Lisboa) acolhe uma sessão de homenagem a Maria de Lourdes Pintasilgo, inserida no ciclo de encontros Tributo a Europeus Notáveis.
A “apresentação de Maria de Lourdes Pintasilgo” será feita por Manuela Silva, sua companheira de tantas lides e professora catedrática da Universidade de Lisboa. Às 17h45, Isabel Allegro de Magalhães (professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa e membro do Graal, e António Figueiredo Lopes, Presidente do EuroDefense-Portugal, darão dois curtos testemunhos sobre aquela que foi a única mulher primeira-ministra em Portugal.

Sobre Maria de Lourdes Pintasilgo, há vários textos neste blogue. Entre eles, uma referência ao livro Maria de Lourdes Pintasilgo – Retratos Sem Moldura, a notícia de umas jornadas e da publicação de um livro sobre vozes de mulheres na experiência religiosa, um texto sobre um documentário televisivo realizado por Graça Castanheira e onde se evoca também o relatório Cuidar o Futuro, coordenado por Pintasilgo, e uma evocação nos cinco anos da sua morte.

Para outros textos, basta escrever “Pintasilgo” na pesquisa do blogue.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Manuela Silva: Reduzir os horários para acomodar jovens desempregados


Já saiu no domingo, no Público, mas não perdeu atualidade: trata-se de uma entrevista com a economista e professora Manuela Silva, coordenadora do grupo Economia e Sociedade da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica. Os seus pontos de vista e o seu pensamento  podem ser lidos AQUI.
Fica aqui a sua posição sobre o que poderia e deveria ser feito quanto ao desemprego juvenil:
"Não se justifica que nas nossas sociedades, que atingiram níveis de produtividade elevados, que asseguram lucros de capital elevados em grande parte dos sectores, se continuem a praticar horários como os que vigoraram na civilização industrial. Defendo uma redução drástica de horários de trabalho, para acomodar a situação dos jovens desempregados. Evidentemente isto supõe que se aceite na empresa uma repartição mais equitativa dos salários e que o total das remunerações seja atribuído aos trabalhadores numa proporção que relacione o salário mínimo com o salário do topo. Hoje temos remunerações de quadros superiores que são manifestamente desproporcionadas. Sem alterar os custos de pessoal da empresa seria possível, e a meu ver desejável, não só por ser mais equitativo, mas por ser um elemento dinamizador da própria economia, que se introduzissem regras de proporcionalidade nos salários. Depois haveria todo um conjunto de medidas que se podem tomar, como o trabalho a meio tempo, a dois terços do tempo... Acho fundamental dar lugar aos mais novos".

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Renegociar a dívida é fundamental, diz Manuela Silva

É fundamental a renegociação da dívida, diz a economista Manuela Silva, em entrevista à Família Cristã. A responsável do Grupo Economia e Sociedade diz que, na actual situação de Portugal, é fundamental também ter uma “estratégia de desenvolvimento a médio prazo”, que implique “pensar no país como um todo, a sua população e as suas necessidades, criando oportunidades de aproveitamento dos recursos locais à população que lá vive, e com uma orientação firme de que a valorização desses recursos é para o bem dessas populações.” E que passe por devolver aos cidadãos os recursos públicos que foram injectados na banca.
A entrevista na íntegra pode ser lida aqui.

terça-feira, 28 de maio de 2013

O sentido do outro na economia

Uma “Conversa à Capela” sobre o sentido do outro na economia decorre esta quarta-feira, 29, na Capela do Rato (Calç. Bento da Rocha Cabral), em Lisboa, a partir das 21h30. A iniciativa conta com intervenções dos economistas Manuela Silva (docente jubilada do ISEG) ) e José Tavares (Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa). Mas o ponto de partida é o livro de Elena Lasida, O Sentido do Outro. A crise, uma oportunidade para reinventar laços, das Edições Paulinas.
Elena Lasida esteve em Lisboa várias vezes. Em Março de 2012, participou numa conferência da Fundação Betânia. No final, fiz-lhe uma pequena entrevista, que deu origem ao texto que a seguir reproduzo, publicado a 15 de Abril de 2012, na revista Público/2 (e de onde reproduzo também a foto).

Elena Lasida, 52 anos, é mulher de vários saltos. Uruguaia de nascimento, resolveu um dia ir da América Latina para a Europa, passando a viver em França em 1992. Economista de formação, passou a interrogar a economia a partir da teologia, reconhecendo os limites da ciência económica. Professora universitária de profissão, não resistiu a fazer trabalho associativo, empenhando-se no apoio a estrangeiros sem papéis que vivem, indocumentados, na região de Paris.
Há 10 anos que Elena Lasida preside à Rede Cristãos-Imigrantes, que ajudou a criar há quase duas décadas. A rede surgiu na sequência de ocupações de igrejas por parte de imigrantes indocumentados. Recorda, dessa altura, um africano que se chamava Mohamed e que, no processo para adquirir a nacionalidade francesa, queria mudar o nome para Michel. “O nome está muito ligado à identidade de cada um, mas ele sentia que o nome o discriminava no acesso ao trabalho e ele não queria isso. A sua história impressionou-me muito, era como renunciar a uma parte de si mesmo”, diz Lasida à 2.
Não foi fácil, pois as próprias comunidades católicas estavam – estão, ainda – divididas sobre a questão da imigração. Mas foi possível mobilizar pessoas, franceses e imigrantes. “A primeira coisa foi pormo-nos de acordo em acolher os imigrantes, convertendo a ocupação em acolhimento nas igrejas.”
Hoje, a rede, de carácter informal, mobiliza centenas de pessoas em duas dezenas de paróquias e movimentos católicos, aos quais se juntam protestantes, ortodoxos e outros crentes, a propósito de iniciativas concretas. O seu trabalho abrange essencialmente três frentes: cursos de alfabetização, apoio jurídico e a organização de um jantar mensal, onde se trocam pratos franceses e estrangeiros – e que se intitulam “o gosto do outro”, também título do último livro que publicou (Le goût de l’autre – La crise, une chance pour réinventer le lien, ed. Albin Michel).
Lasida procura, desde há muito, ligar modos diversos de estar na vida. “Procuro juntar duas maneiras diferentes de olhar a realidade, a partir do Norte e do Sul. Procuro juntar duas maneiras diferentes de pensar a realidade, a partir da economia e da teologia. E procuro juntar duas maneiras diferentes de transformar a realidade, unindo a teoria académica e a prática associativa”, diz.
Há duas semanas, a economista esteve pela segunda vez em poucos meses a fazer uma conferência em Portugal. Depois de ter sido oradora principal, em Setembro, na Fundação Gulbenkian, a convite da rede Economia Com Futuro, Elena Lasida voltou agora ao país, a convite da Fundação Betânia, em Lisboa, e da Universidade Católica, no Porto. Desta vez, para falar sobre: “Que futuro para a economia – contributos da antropologia judaico-cristã”.
Um tema improvável. Ou talvez não, tendo em conta o trajecto desta economista-teóloga. Foi mesmo a teologia que a levou a fazer perguntas ao trabalho de economista. E a tentar introduzir o transcendente na ciência económica: “A transcendência, na economia e em geral, vem sempre através da relação. É o outro que me reenvia para além de mim mesmo. Na relação, há sempre essa experiência da transcendência.” A sua participação na Rede Cristãos-Imigrantes nasce da mesma convicção: “Em relação aos estrangeiros, é a experiência do outro, diferente, que me reenvia para lá de mim mesma, que é central. Por isso, a transcendência está lá.”
A questão dos imigrantes remete para um dos cruzamentos da economista: “Venho do sul e vivo no Norte. A fronteira entre o Norte e o Sul atravessa-me no interior de mim mesma e cruzo-a todos os dias, mesmo que não me mova.” Mas não se trata apenas de atravessar fronteiras: “O meu olhar sobre o Sul está pintado de Norte e o meu olhar sobre o Norte está pintado de Sul. É impossível hoje separar o que corresponde a um lado e a outro.”
Outros confrontos, então. O que liga a vida académica e o empenhamento social – além da Rede Cristãos-Imigrantes, Lasida integra o comité de redacção da revista Transversalités, anima grupos de pesquisa sobre o desenvolvimento sustentável e sobre novas solidariedades Norte-Sul e faz parte da direcção da Cáritas de França. Convidada com frequência para debates e conferências, entende isso também como forma de “tocar o terreno”: “Muitas vezes são pequenos grupos de pessoas que estão verdadeiramente comprometidas na acção e me pedem que vá ao seu encontro. Aprendo muitas coisas a partir das questões com que elas se confrontam.”
E ainda o confronto da teologia, ciência que remete para o transcendente, e da economia, onde se trata a mais material dimensão da vida das pessoas. Foi a teologia que a levou a fazer perguntas à sua formação de economista, explica. “Onde está a vida? O que faz viver? Qual é a fonte da vida? A vida não é apenas a material, a satisfação de necessidades físicas, mas é também o seu sentido. É essa a questão que a teologia coloca à economia: o que dá sentido à vida?”
Elena Lasida admite que, hoje, a economia não cuida da vida como deveria. “Ela tem reduzido a vida, em grande parte, ao conforto material e ao acesso à riqueza financeira e material. E isso significa que deixa de lado uma parte essencial da vida.” Daí que, na sua tese, tenha decidido abordar a questão da transcendência na economia: “A economia é um lugar de relação entre pessoas que têm interesses opostos e nesse sentido é uma fronteira. Como qualquer fronteira, pode ser um lugar de separação ou de reunião. O que é importante é que a economia não se pode pensar sem se abrir a qualquer coisa que nos escapa.”
Está em causa a questão dos limites: “É a partir do reconhecimento dos seus limites que a economia pode dialogar com as outras disciplinas”, diz. Afirmação ainda mais premente nos tempos que correm: “Na sua torre de marfim, a economia sentir-se-à sempre superior. O trabalho interdisciplinar supõe que cada disciplina se deixa interrogar, desarmar pela outra com a finalidade de fazer um verdadeiro trabalho de elaboração colectiva.”
Não por acaso, a economista, professora e vice-reitora para a Investigação na Faculdade de Ciências Sociais e Económicas do Instituto Católico de Paris, dirige também um mestrado em Economia Solidária e Lógica do Mercado. Porque, diz, é preciso relacionar, por exemplo, conceitos bíblicos como aliança e promessa com definições e critérios económicos. “A aliança é o contrário do domínio, supõe uma relação de interdependência e corresponsabilidade”, que vai muito além da noção de contrato que domina as relações económicas.
O comércio justo, aponta, pode ilustrar como concretizar o conceito de aliança na economia: “Supõe um projecto comum entre produtor e consumidor, em que cada um toma em conta também o interesse do outro”. O produtor respeita condições sociais e ambientais, o consumidor aceita pagar um pouco mais para ter em conta as necessidades do produtor.
Do mesmo modo, o microcrédito reenvia para a noção de promessa, ultrapassando os conceitos de risco e garantia, dominantes na economia: na finança clássica, as pessoas são uma “ameaça” perante as quais nos devemos proteger, diz; no microcrédito, cada pessoa é uma “promessa de vida”.
Perante o domínio da grande finança, Elena Lasida não tem uma solução. Mas tem uma convicção profunda: “É preciso pensar a finança de uma outra maneira completamente diferente. A finança tem uma primeira finalidade que é justamente financiar a economia real, elas não é uma finalidade em si mesma. O dinheiro deve ser para a produção real e para fazer circular os bens – e, por isso, as relações. Trata-se de reencontrar essa função primeira do dinheiro.”