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sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Tomáš Halík: “Deus gosta de quem luta com ele”

Entrevista de António Marujo
Imagem de Maria Wilton

“Deus não é um problema, é um mistério. E a fé é a coragem de entrar na nuvem do mistério”, diz o teólogo checo Tomáš Halík, que esta semana esteve em Lisboa, a propósito da edição do seu último livro, Diante de Ti os Meus Caminhos (ed. Paulinas). Obra que cruza as memórias e a reflexão teológica e antropológica a que o autor já habituou os seus leitores, Halik percorre, nela, os anos da aproximação à fé cristã durante a sua juventude, a opção pelo catolicismo e pela missão de presbítero, a clandestinidade e as proibições e controlos a que foi sujeito, a morte do colega Jan Palach, a democratização da então Checoslováquia ou a amizade com o primeiro Presidente eleito, Vaclav Havel. 
A partir do seu trabalho com jovens estudantes, Halik traça, também, as suas reflexões sobre o papel do cristianismo na contemporaneidade. “Não acredito numa Igreja sem feridas”, diz, para manifestar a sua extrema preocupação com o fenómeno dos populismos contemporâneos: “Comunismo e populismo não se podem comparar. No comunismo, precisamos de coragem. Agora, precisamos de sabedoria.”
Ao longo da entrevista, Tomáš Halík pára por vezes durante largos segundos para pensar na resposta. Noutras, volta atrás, porque a ideia não estava a sair como pretendia. “Escrevo os meus livros para pessoas com mentes e corações abertos”, dirá, a terminar. 


P. – Nos seus livros, cita várias vezes Nietzsche e, sobretudo, o seu “Assim Falava Zaratustra”. Neste último, escreve mesmo que começou a ler Nietzsche e volta a ele sempre, em diferentes momentos da sua vida. 


Há várias similitudes entre Nietzsche e Søren Kierkegaard, que foi um grande cristão, não conformista. Também há semelhanças com Pascal. Todos eles lutam contra um cristianismo superficial e de massa. Nietzsche criticava Jesus mas há também alguns capítulos no seu Anti-Cristo, que é como uma canção de amor e admiração por Jesus. Penso que os críticos perspicazes são sempre bons parceiros para pensar, provocadores do pensamento. 

– Termina este novo livro escrevendo: “Acredito que o NADA, ao qual nos dirigimos na morte, é apenas outro nome maravilhoso de Deus.” Isto é uma profissão de fé cristã ou uma declaração ateia?
– É uma citação do grande místico Mestre Eckart: “Deus não é nada das coisas deste mundo.” É uma purificação da idolatria presente em alguns dos nossos conceitos de Deus. Alguns retratos de Deus são humanos e não podemos viver sem eles. Mas, se esquecermos a diferença entre o símbolo e o que ele simboliza, isso é idolatria, fundamentalismo. Mestre Eckart está a dizer: Deus não é nada assim. 


Deus não é um problema, é um mistério. E a fé é a coragem de entrar na nuvem do mistério, para viver este mistério, este paradoxo da vida sem medo e com confiança. 

– Esse mistério de que fala tem algo a ver com o “horizonte absoluto” de que falava o Presidente Havel?
– Essa expressão de Havel é inspirada em Martin Heidegger e no existencialismo. Sim, há alguma similitude. Penso que é algo muito típico da espiritualidade checa: [muitos checos] não são ateus, são muito sensíveis aos valores espirituais, mas não são capazes de falar de Deus em termos tradicionais. 

sábado, 30 de abril de 2016

O padre jesuíta checo a quem o Marquês de Pombal roubou a luz do dia

Evocação


O Forte de São Julião da Barra, local da prisão do padre Karel Přikryl

“... É um subterrâneo que faz lembrar uma cave funda, ou melhor, uma tumba funerária antiga. A sua posição na orla marinha causa uma humidade constante. Estranhamente, há aqui muitos vermes pequenos. Sofro imenso com eles. Abriram buracos na parede para que uma luz fusca, que por eles apenas com dificuldade consegue penetrar, mostrasse o caminho àqueles que nos trazem algum alimento. Mas nas nossas masmorras não penetra nem ar, nem a luz do dia. Deixo ao vosso juízo o quanto esta cave não deve feder e ser insalubre. O óleo rançoso do candeeiro que nos ilumina espalha um mau cheiro insuportável. A cela em que me encontro tem dezasseis pés de comprimento e treze pés de largura. Outras aqui há ainda mais pequenas, onde viver a dois se torna muito apertado…”
A descrição é de 1766, e é feita pelo padre jesuíta checo Karel Přikryl que, detido em Goa, foi deportado para o forte de São Julião da Barra, depois de o Marquês de Pombal ter ordenado a expulsão dos jesuítas. A sua história será evocada hoje, sábado, numa leitura encenada das cartas do padre Přikryl, que decorrerá a partir das 16h, precisamente no mesmo local onde esteve preso, com mais 170 padres da Companhia de Jesus. A evocação terá a participação do padre e teólogo checo Tomáš Halík, autor de Paciência Com Deus (e que está em Portugal para apresentar o seu último livro, Quero que tu sejas – Podemos acreditar no Deus do amor?)
O acto comemorativo que decorre neste sábado, encenado por Milena Štráfeldová e H. Svatošová, tem o título Seis Anos Numa Masmorra e é organizado pela embaixada da República Checa em Portugal.
Karel Přikryl esteve detido seis anos – pouco tempo, se comparado com muitos dos seus colegas, que chegaram a estar presos 18 anos. O padre Přikryl teve a sorte de a imperatriz Maria Teresa, da Áustria, ter intercedido pelo seu súbdito, através do embaixador em Lisboa.