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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Jorge Listopad (1921-2017): aproximar o mundo visível do invisível

In Memoriam

Texto de Júlio Martín da Fonseca

(foto: Listopad em viagem; direitos reservados)

No passado dia 1 de Outubro faleceu, com a idade de 95 anos, o escritor, professor e encenador Jorge Listopad. De origem checa, este “português nascido em Praga” foi uma referência na cultura e particularmente no teatro, ao longo dos últimos cinquenta anos.
Nas suas criações manifestava-se naturalmente o desejo de aproximar o mundo visível do invisível, de criar relações, fossem elas claras ou misteriosas, entre o mundo da natureza e o mundo da graça. Fazia-o através de um exercício vivencial e artístico de querer reler e religar um universo ferido e fragmentado, como parece acontecer com todos aqueles que procuram através do teatro e da vida, decifrar a linguagem de Deus, incarnada até nas coisas mais pequenas e aparentemente insignificantes, onde se mistura o trivial e o sublime.
Em 1983 encenou O Anúncio Feito a Maria, de Paul Claudel, no Teatro Nacional D. Maria II, com a participação, entre outros, de Manuela de Freitas, Eunice Muñoz e João Perry, tendo a colaboração do grupo de Teatro da Universidade Técnica, de Lisboa. O espectáculo teve como cenário natural o vizinho Palácio da Independência e esteve em cena durante o mês de Julho com sessões esgotadas.
   Entre outros trabalhos de Jorge Listopad onde se pôde sentir igualmente, com particular intensidade, esta profunda sensibilidade, podemos destacar o encontro com as obras de Calderón de la Barca, José Régio, António Patrício e Václav Havel. Em 1988, Segismundo na Torre de Belém segundo A Vida é Sonho de Calderón de la Barca, com o TUT – Teatro da Universidade Técnica, na Torre de Belém; em 1990, Cenas da Vida de Benilde segundo Benilde ou a Virgem Mãe, de José Régio, e Judas, de António Patrício, com o Grupo Teatro Hoje – Teatro da Graça; em 2000, O Príncipe Constante, de Calderón da la Barca, com a Companhia de Teatro de Almada, que esteve presente no Festival de Teatro de Cáceres e no Festival de Teatro Clássico de Almagro; e, em 2003, Audiência/Vernissage/Havel, de Václav Havel, no Teatro Nacional D. Maria II, com a presença do autor na estreia.
O velório de Jorge Listopad será na Capela Mortuária do Mosteiro dos Jerónimos, hoje, dia 4 de Outubro, das 18h às 22h30.
No dia 5 de Outubro, às 14h, haverá missa na Igreja dos Jerónimos, saindo o cortejo fúnebre, às 14h45, para o Cemitério dos Prazeres.
No dia 6 de Outubro, dia de São Venceslau, padroeiro do Estado checo, a Embaixada da República Checa em Portugal recorda o aniversário do nascimento do primeiro presidente checo Václav Havel e homenageia o seu amigo, o poeta Jorge Listopad, numa cerimónia a realizar às 17h30 no Espaço Václav Havel, no Jardim do Príncipe Real, em Lisboa.



(Um outro perfil de Jorge Listopad pode também ser lido aqui)


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Diálogos com Deus em Fundo - entrevistas sobre a transcendência

Na próxima segunda-feira, dia 27, na Livraria Bucholz (R. Duque de Palmela, 4, ao Marquês de Pombal); em Lisboa, decorre a apresentação do livro Diálogos com Deus de Fundo, onde recolho um conjunto de entrevistas acerca da questão religiosa, feitas ao longo de vários anos. A apresentação será feita pelo prof. Carlos Fiolhais, a partir das 18h30. 
O leque de entrevistados inclui, pela ordem de publicação, José Tolentino Mendonça, frei Bento Domingues, Joaquim Carreira das Neves, Mário Soares, Isabel Allegro de Magalhães, João resina Rodrigues, José Augusto Mourão, Armindo Vaz, Horácio Araújo, Peter Stilwell, Maria de Lourdes Pintasilgo, Alfredo Bruto da Costa, Manuela Silva, D. Manuel Clemente, Alberto Azevedo, Teresa Toldy, Alfredo Teixeira, Anselmo Borges, Luís Archer, Dimas Almeida, D. Januário Torgal Ferreira, Laura Ferreira dos Santos, Joaquim Guerra e José Mattoso.
Fica a seguir o texto de apresentação do livro, com o convite implícito para a participação na sessão. 



Cidadania, Verdade e Liberdade

À memória de
Maria de Lourdes Pintasilgo
e João Resina
pelos seus testemunhos de cidadania e liberdade

Há um problema velho de décadas no catolicismo português: a quase ausência de uma reflexão, e de uma reflexão pertinente, sobre a sociedade, a experiência cristã e a própria questão de Deus.
Uma outra coisa é verdadeira: como diz José Tolentino Mendonça numa das entrevistas aqui reproduzidas, “em Portugal, a teologia tem um estatuto de clandestinidade”. Pior: “Mesmo quando se pensa nos textos bíblicos, eles não encontram uma relevância cultural.” E seria “muito importante” que a reflexão bíblica e teológica ganhasse “estatuto de cidade”.
A história nem sempre foi assim. Santo António de Lisboa, Pedro Hispano, João de Barros, Isaac Abravanel, Samuel Usque, António Vieira, Guerra Junqueiro, Teixeira de Pascoaes, Agostinho da Silva ou Manuel Antunes são alguns dos nomes grandes de portugueses que reflectiram a condição humana a partir da interrogação religiosa. Ou que se interrogaram religiosamente a partir da condição humana. Várias circunstâncias históricas acabaram por nos trazer ao ponto onde hoje estamos: entre a incapacidade de o catolicismo se questionar e a ignorância (ou o preconceito) social que tantas vezes se verifica, mesmo em meios “culturais”, há uma manifesta evacuação da reflexão teológica ou religiosa da praça pública.
E, no entanto, ela move-se. Em livros ou no cinema, na política ou na economia, a questão religiosa existe, a experiência de fé está presente na vida e nas questões que atravessam muitas pessoas. Por vezes, irrompe mesmo de forma impetuosa, veemente. Só que é mais cómodo acantonar o fenómeno na dimensão individual, na religiosidade popular, no fundamentalismo ou no esoterismo, sem cuidar de outras averiguações mais profundas, mais sérias ou questionadoras.
É certo que, no processo de reconfiguração do campo religioso, as pessoas se têm afastado da dimensão institucional. A autonomia individual afirma-se cada vez mais, também na aproximação à questão religiosa. Para citar ainda Tolentino Mendonça, e tomando como exemplo livros ou filmes recentes cujo pretexto é a pessoa de Jesus: “O que há de novo é que se acentuou um certo individualismo na apropriação que as pessoas têm necessidade de fazer da figura de Jesus. Já não há instâncias que tracem um modelo, seguido por toda a gente, quanto à aproximação à figura de Jesus. Temos uma galáxia de apropriações, muitas fazendo tábua rasa dos dados históricos, explorando o lado da fábula, que vêm ao encontro de dimensões da nossa contemporaneidade, como a acentuação de fenómenos de crença e de uma certa racionalidade.”

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Uma das consequências da ausência de reflexão e debate leva ao menosprezo de uma ideia essencial do cristianismo: a sua pluralidade intrínseca. Numa outra entrevista, recorda frei Bento Domingues: “É da própria essência da Igreja ser plural. Os textos a que a Igreja se refere como fundadores – as narrativas evangélicas – têm quatro versões. Portanto, a Igreja tem de viver em comunhão, mas na diferença.”
A individualização da experiência religiosa, a sua autogestão, manifesta o problema das pessoas com o lado institucional, mas não retira Deus – ou a questão do transcendente – das suas vidas.