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quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Clara – Uma luz na noite

Teatro musical


Entrevista ao encenador Tiago Sepúlveda e imagens dos ensaios

Clara – Uma luz na noite é o título do teatro musical encenado por Tiago Sepúlveda e apresentado pelo Grupo de Teatro Musical Religioso (GTMR), que será levado à cena nos próximos dias 14 e 21 de Outubro, no Estoril e no Porto. 
O espectáculo apresenta a história de madre Maria Clara do Menino Jesus que, em 1871, fundou a Congregação das Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição (Confhic), dedicando-se a trabalhar com os mais desfavorecidos, numa altura em que largas camadas da população portuguesa viviam em extrema pobreza. 
O regime liberal instaurado na década de 1820 decretara a extinção das ordens religiosas mas, sucessivamente, novas experiências foram surgindo, de forma clandestina ou dissimulada. Até à sua morte em 1899, com 56 anos, madre Clara criou 140 instituições sociais, dedicadas à assistência aos pobres, à saúde, à educação e às cozinhas económicas. Madre Clara foi beatificada em Lisboa, numa cerimónia presidida pelo então patriarca, D. José Policarpo, em Maio de 2011.
O espectáculo será apresentado dia 14, às 16h e 21h, no auditório da Senhora da Boa Nova (Estoril) e, no dia 21 de Outubro, às 17h, no Seminário de Vilar (Porto). Os bilhetes estão à venda em www.bol.pt e nos locais habituais e têm o preço de 12 euros (normal) e 40 euros (familiar); há desconto de 25 por cento para membros de ordens religiosas e escuteiros; mais informações através da Confhic (214 241 840) ou GTMR (962 713 075). 

sábado, 20 de janeiro de 2018

O coração grande de Nathan, o Sábio

Teatro 


Maria Rueff (Daja) e Luís Vicente (Nathan) num dos momentos da peça
(foto reproduzida daqui)

O encenador Rodrigo Francisco confessa qual é a passagem que prefere em Nathan, o Sábio (em cena no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada e, em Março, no teatro de São João, no Porto), texto escrito em 1779 por Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781): “Na minha passagem favorita deste poema dramático que Nathan o Sábio é, e que acontece no primeiro encontro entre o protagonista e o Cavaleiro Templário, este último lança ao judeu a tirada seguinte: ‘Sabeis, Nathan, qual foi o povo que pela primeira vez se designou como povo eleito? Quando e como surgiu a piedosa loucura de ter o melhor Deus, de o impor ao mundo como o melhor de todos? Esquecei o que vos disse e deixai-me ir embora.’ Resposta de Nathan: ‘Vinde, temos mesmo de ser amigos.’
Nesta citação, Rodrigo Francisco – que confessa depois não ser religioso – lê dois argumentos implícitos: “Àquilo que na época de Lessing (e não só) era palavra corrente no que tocava ao ataque aos judeus por se considerarem um ‘povo eleito’, o autor faz corresponder uma resposta na qual ecoa de algum modo o princípio cristão de ‘oferecer a outra face’. ‘Temos mesmo de ser amigos’: já repararam na importância do provérbio nesta réplica?
No caderno Textos d’Almada (nº 66), dedicado a Nathan o Sábio, Rodrigo Francisco acrescenta a completa pertinência e actualidade do texto de Lessing: ‘Se há cerca de um ano, quando anunciámos que montaríamos este texto, ainda restassem algumas dúvidas quanto à sua pertinência nos dias de hoje, elas ter-se-iam dissipado definitivamente em Julho passado, quando um grupo de pessoas veio exigir que anulássemos um espectáculo de uma companhia de dança israelita no Festival de Almada. Naturalmente, rejeitámos esse acto de censura.”
Nathan, o Sábio, não é apenas a história da sabedoria do protagonista. É também uma bela história de cruzamentos tão improváveis quanto possíveis, tão singulares quanto universais: um judeu que educa uma cristã como filha adoptiva, uma aia cristã que quer reaver para a sua fé a criança ‘perdida’, um sultão (Saladino) que nos deixará a perguntar, a partir do meio da peça, quem terá ele visto no cruzado para além do rosto do seu próprio irmão. E que mistério, pensará também o espectador, estará por detrás da paixão do cruzado Konrad por Recha – paixão que, afinal, terá de se transfigurar em outra coisa.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Jorge Listopad (1921-2017): aproximar o mundo visível do invisível

In Memoriam

Texto de Júlio Martín da Fonseca

(foto: Listopad em viagem; direitos reservados)

No passado dia 1 de Outubro faleceu, com a idade de 95 anos, o escritor, professor e encenador Jorge Listopad. De origem checa, este “português nascido em Praga” foi uma referência na cultura e particularmente no teatro, ao longo dos últimos cinquenta anos.
Nas suas criações manifestava-se naturalmente o desejo de aproximar o mundo visível do invisível, de criar relações, fossem elas claras ou misteriosas, entre o mundo da natureza e o mundo da graça. Fazia-o através de um exercício vivencial e artístico de querer reler e religar um universo ferido e fragmentado, como parece acontecer com todos aqueles que procuram através do teatro e da vida, decifrar a linguagem de Deus, incarnada até nas coisas mais pequenas e aparentemente insignificantes, onde se mistura o trivial e o sublime.
Em 1983 encenou O Anúncio Feito a Maria, de Paul Claudel, no Teatro Nacional D. Maria II, com a participação, entre outros, de Manuela de Freitas, Eunice Muñoz e João Perry, tendo a colaboração do grupo de Teatro da Universidade Técnica, de Lisboa. O espectáculo teve como cenário natural o vizinho Palácio da Independência e esteve em cena durante o mês de Julho com sessões esgotadas.
   Entre outros trabalhos de Jorge Listopad onde se pôde sentir igualmente, com particular intensidade, esta profunda sensibilidade, podemos destacar o encontro com as obras de Calderón de la Barca, José Régio, António Patrício e Václav Havel. Em 1988, Segismundo na Torre de Belém segundo A Vida é Sonho de Calderón de la Barca, com o TUT – Teatro da Universidade Técnica, na Torre de Belém; em 1990, Cenas da Vida de Benilde segundo Benilde ou a Virgem Mãe, de José Régio, e Judas, de António Patrício, com o Grupo Teatro Hoje – Teatro da Graça; em 2000, O Príncipe Constante, de Calderón da la Barca, com a Companhia de Teatro de Almada, que esteve presente no Festival de Teatro de Cáceres e no Festival de Teatro Clássico de Almagro; e, em 2003, Audiência/Vernissage/Havel, de Václav Havel, no Teatro Nacional D. Maria II, com a presença do autor na estreia.
O velório de Jorge Listopad será na Capela Mortuária do Mosteiro dos Jerónimos, hoje, dia 4 de Outubro, das 18h às 22h30.
No dia 5 de Outubro, às 14h, haverá missa na Igreja dos Jerónimos, saindo o cortejo fúnebre, às 14h45, para o Cemitério dos Prazeres.
No dia 6 de Outubro, dia de São Venceslau, padroeiro do Estado checo, a Embaixada da República Checa em Portugal recorda o aniversário do nascimento do primeiro presidente checo Václav Havel e homenageia o seu amigo, o poeta Jorge Listopad, numa cerimónia a realizar às 17h30 no Espaço Václav Havel, no Jardim do Príncipe Real, em Lisboa.



(Um outro perfil de Jorge Listopad pode também ser lido aqui)


sábado, 17 de dezembro de 2016

Flannery O’Connor: querer ver a Lua inteira, passar de queijo a mística. Imediatamente.

Um Diário de Preces - um livro e uma encenação este Domingo, em Lisboa


Ilustração da capa de Um Diário de Preces (ed. Relógio d'Água)

“Meu bom Deus, não consigo amar-Te  como pretendo. És o crescente esguio de uma Lua que avisto, e o meu eu é a sombra da Terra que me impede de ver a Lua inteira.”
São palavras do início de Um Diário de Preces, da escritora norte-americana Falnnery O’Connor (1925-1964). O texto será encenado este Domingo, 18, na Capela do Rato, em Lisboa, a partir das 16h, numa encenação de Miguel Loureiro e interpretação de Isabel Abreu (mais informações aqui)
Um Diário de Preces é um texto curto, escrito na intensidade dos 22 anos de Flannery, que oscila “entre a metafísica e a terapêutica”. É um diálogo em luta com Deus e com as próprias contradições interiores, de quem se sente dividido entre aquilo que deseja ser e aquilo que realmente é. Mas também de quem tenta descobrir os verdadeiros desejos de Deus para si mesma. O mesmo Deus a quem Flannery se dirige, pedindo que a ajude a ser uma boa escritora, ou a saber como rezar ou a ser grata ou a adorá-l’O. Sobre a sombra que a impedia de ver a Lua, ela acrescentava: “Não te conheço, meu Deus, porque eu própria Te encubro. Por favor, ajuda-me a arredar-me do caminho.”
Flannery deixou vários 31 contos, dois romances – Sangue Sábio e O Céu é dos Violentos –, bem como muitas críticas literárias e ensaios. A sua obra de ficção está toda publicada em Portugal, nomeadamente na Relógio d’Água (que também publicou Um Diário de Preces) e na Cavalo de Ferro.
No prefácio obrigatório que escreveu à edição portuguesa deste Diário, Pedro Mexia recorda que a escritora “tinha uma sólida formação teórica”, que assentava em nomes como Tomás de Aquino e Romano Guardini, discutia o conceito de escritor católico – o que ele ou ela não deve fazer é “separar a natureza da Graça” – e manifestava, nos textos deste Diário, “a impaciência dos místicos”. No final, aliás, a última frase – “nada mais resta dizer acerca de mim” – assemelha-se ao “temperamento de Teresa d’Ávila”, escreve Mexia.
Há outras reminiscências. Como as que remetem para a possibilidade de ver Deus de forma intensa e permanente no quotidiano, ou para o pedido para que Deus se deixasse ajudar, ideias tão caras a Etty Hillesum, a judia que morreu em Auschwitz (autora de um Diário e de um volume de Cartas, ambos publicados na Assírio & Alvim, que relatam a sua aventura espiritual). Na penúltima entrada, escrita a 25/9/1947, escreve Flannery: “Se me cabe lavar todos os dias o segundo degrau, diz-mo e deixa-me lavá-lo até que o meu coração transborde de amor ao lavá-lo. Deus ama-nos, Deus precisa de nós. E também da minha alma.”
Em várias entradas do Diário, Flannery escreve sobre os quatro elementos de que a prece se deve compor: adoração, contrição, agradecimento e súplica. E também reza a propósito da fé, da esperança e do amor. Sobre a esperança, confessa sentir-se “um pouco perdida”. E pede, numa alusão a várias outras passagens em que se sente espatilhada e dividida por sentimentos contraditórios: “Por favor, deixa que alguma luz emane de todas as coisas que me rodeiam, para que me possa sentir coesa.”

Na entrada de 25/9, Flannery escreve, como quem dá uma ordem a Deus: “Aquilo que peço é, na verdade, bastante ridículo. Oh. Senhor, o que eu digo é que neste momento sou um queijo, faz de mim uma mística, imediatamente.”

quinta-feira, 27 de março de 2014

Teatro e Religião: uma pergunta sobre humanidades

Num texto de opinião hoje no Público, a propósito do Dia Mundial de Teatro, e acerca da relação deste com o fenómeno religioso, o encenador Castro Guedes faz uma reflexão-pergunta, sob o título “Teatro e religião: humanidades”. E escreve:

O Homem, ponte e veículo destas aproximações entre religião e artes — na sua dimensão/observação de índole metafísica e religiosa, na teologia ou no estudo antropológico e da própria etologia, na dimensão psicológica ou sociológica — está no epicentro de todas as Humanidades, tal como estas são o sol dos planetas culturais, se assim se pode dizer. (...)

Aterroriza este paganismo, (...) incomodam-lhe as Humanidades porque a Religião coloca valores acima do utilitário, as Artes desencadeiam sensibilidades, a Filosofia faz pensar, a História traz memória, as Línguas permitem comunicação com outros povos, a Psicologia questiona-se sobre a mente e os comportamentos da Pessoa e não do indivíduo, a Sociologia trata do socialmente activo e não do indivíduo isolado, as Ciências da Educação contribuem para potenciar e compreender a aquisição e transmissão de conhecimentos, etc., etc., etc..
(O artigo pode ser lido aqui na íntegra;)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Barioná, um mistério da Natividade de Sartre, sobre a liberdade

(Foto: José Nogueira Ramos e Sara Ideias nos papéis de Barioná e Sara; © Teatro do Ourives)

Na cena final, é um Barioná convicto que responde à sua mulher, Sara: “Pelo nosso filho tens que agarrar-te à vida com avareza, com raiva. Educa-o sem ocultar-lhe nada das misérias do mundo e arma-o contra elas. E dou-te uma mensagem para ele. Mais tarde, (…) muito mais tarde, quando sentir a sua imensa solidão e abandono, quando te fale de um certo sabor a fel no fundo da sua boca, diz-lhe: ‘O teu pai sofreu tudo isso que tu sofres agora e morreu na alegria’. (…) Na alegria! Sou livre, tenho o meu destino nas minhas mãos. Vou contra os soldados de Herodes e Deus vem ao meu lado. Sou leve, Sara, leve. Ah, se soubesses o quão leve sou! Oh, Alegria, Alegria! Chora de alegria. Adeus, minha doce Sara. Levanta a cabeça e sorri-me. Temos que ser felizes: quero-te muito e Cristo nasceu.

O texto é de (para muitos um improvável) Jean-Paul Sartre e foi representado pela primeira vez num campo de prisioneiros, em 1940, em plena II Guerra Mundial. Hoje, amanhã e domingo e, de novo, nos mesmos dias da próxima semana, será levado à cena pelo Teatro do Ourives, numa encenação de Júlio Martin da Fonseca. O espectáculo decorre na Rua de São Domingos à Lapa, 41, em Lisboa. Sextas e sábados às 21h30 e domingos às 18h00; a entrada é gratuita mas é necessário fazer reservas pelo telefone 916 770 513 ou através do mail teatrodoourives@gmail.com.

Sobre a peça, escreveu o próprio Sartre, em 31 de Outubro de 1962: “O facto de me ter debruçado sobre o tema da mitologia do cristianismo não significa que a direcção do meu pensamento tenha mudado nem sequer por um instante durante o cativeiro. Tratava-se simplesmente, de acordo com os sacerdotes prisioneiros, de encontrar um tema que pudesse tornar realidade, nessa noite de Natal, a união mais ampla possível entre cristãos e não crentes.”

Este mistério da Natividade foi escrito e levado ao palco no campo de prisioneiros Stalag 12D, em Dezembro de 1940, por um Sartre, nas palavras de Bernard-Henry Lévy “decididamente fiel ao seu papel de animador entusiasta”.

Durante muito tempo não se encontrou o texto. Durante muito tempo, Sartre proibiu a sua representação, à excepção de uma edição-lembrança de quinhentos exemplares, fora do circuito comercial, nos anos 60 do século XX.

Hoje já dispomos deste texto, que é a sua primeira peça de teatro. Assim como de alguns relatos dos protagonistas deste momento histórico de dor e de esperança.

Segundo o testemunho do Padre Marius Perrin, companheiro de Sartre no cativeiro: “Depois de Barioná, tudo mudou. Foi como se Sartre tivesse introduzido um ‘vírus’. Foi como se, graças a ele, ‘um longo período de incubação’, em que estivemos impedidos de nos revoltar, tivesse finalmente chegado ao fim.

Também para Sartre, Barioná representou – de acordo com Bernard - Henry Lévy – “a verdadeira viragem na vida e na obra (…) é desta experiência do Stalag e da elaboração da peça nesse local, que data o nascimento de um segundo Sartre, efectivamente messiânico, optimista, engagé num sentido novo do termo e que volta subitamente as costas à bela metafísica pessimista que era como um salvo-conduto, uma vacina, contra os desvarios políticos.

Encontramos nesta obra uma faceta menos conhecida de Sartre, mas sempre presente subterraneamente, uma herança discreta que lhe vem dos avós e continuada pelos pais através de uma mistura católica e protestante.

Em As Palavras ele anota: “Escreve-se para os seus vizinhos ou para Deus” e ele desde muito cedo parece ter tomado “o partido de escrever para Deus a fim de salvar os seus vizinhos”.

Segundo o testemunho do Padre Marius Perrin “os homens de Barioná correm talvez para a sua morte (…) para que a esperança dos homens livres não seja assassinada”.

E este Mistério de Natal, de Jean-Paul Sartre, é certamente um belíssimo e comovente convite “à descoberta fulgurante da liberdade.

Em O Século de Sartre, Bernard-Henry Lévy faz a sinopse da peça:

“O texto conta a história de uma aldeia da Judeia sob ocupação romana.

Conta como, dado que os Romanos tinham decidido aumentar os impostos, o chefe da aldeia, Barioná, exorta os seus concidadãos a ripostar deixando de fazer filhos.

Mas eis que a sua mulher Sara lhe anuncia, que está precisamente grávida – e eis que, exactamente no mesmo dia, da aldeia vizinha de Belém chega a notícia do Nascimento de um outro recém-nascido, “enfaixado e deitado num presépio”, que os Magos e os feiticeiros creditados anunciam como sendo o Messias.

Que irá fazer Barioná? Irá, como pensou inicialmente, matar este recém-nascido, cujo futuro, crucificação e ressurreição foram vaticinados pelo feiticeiro da aldeia? Ou irá, ao invés, converter-se e protegê-lo da violência dos Romanos que, alarmados pela agitação que reina na região, decidiram também suprimi-lo.

Depois de reflectir, Barioná decide proteger a criança. Sacrificando a sua vida e a dos seus aldeões para proteger a do pequeno Messias, ele aguentará os Romanos até que Maria, José e o seu recém-nascido tenham conseguido escapar. E a Sara, que se despede numa derradeira cena comovente, também lhe diz que mudou de opinião quanto a eles e que, por conseguinte, quer que ela dê à luz o seu filho e que lhe diga, à hora da nascença, que o seu pai morreu na alegria!”

Em 2005, por ocasião do centenário do nascimento de Jean-Paul Sartre, a editora Gallimard publicou uma edição comemorativa do teatro completo do filósofo francês.

Esta obra incluiu pela primeira vez o drama Barioná, a primeira peça de teatro escrita pelo autor. A peça foi representada três vezes no Stalag 12D, em Tréveris, na Alemanha – onde o autor esteve preso – nos dias 24, 25 e 26 de Dezembro de 1940, e foi presenciada por cerca de dois mil prisioneiros de cada vez.

Em apenas seis semanas, Sartre não só escreveu a obra, como ensaiou um dos personagens – o Rei Mago Baltazar –, dirigiu os actores e supervisionou a fabricação do cenário e figurinos.

Numa das suas cartas a Simone de Beauvoir, escreveu:

Seguramente devo ter talento como autor dramático: escrevi uma cena do anjo que anuncia aos pastores o nascimento de Cristo, que deixou a todos sem respiração (…) inclusivamente a alguns saltaram-lhes as lágrimas.

Parece que fiz um Mistério de Natal muito comovente, ao ponto de alguns dos actores, ao declamarem, lhes saltarem as lágrimas.

Esta representação teve como origem o desejo e a autorização de celebrar no campo de prisioneiros de guerra, a Missa do Galo. Esta notícia e a relação de mútuo respeito entre Sartre e um grupo de padres católicos – Marius Perrin, o dominicano Pierre Boisselot, que exercia a função de capelão do campo, o jesuíta Maurice Espitallier e o padre Henry Leroy – levaram a que ele tomasse a iniciativa de propor a junção do sagrado e do profano: “Porque não ressuscitamos a tradição dos Mistérios que antes se celebravam e nos quais todos podem participar de alguma maneira?

Uns anos mais tarde, esclarecendo esta ideia, escreve:

A minha primeira experiência teatral foi particularmente afortunada. Enquanto estive preso na Alemanha em 1940, escrevi, pus em cena e interpretei uma obra de Natal, a qual, conseguindo esquivar a vigilância do censor alemão, através de símbolos simples, se dirigia aos meus companheiros de cativeiro (…) naquela ocasião, ao dirigir-me aos meus companheiros por cima das luzes das gambiarras e falando-lhes desde a sua condição de prisioneiros, vi-os de repente tão realmente silenciosos e atentos que compreendi o que o teatro tinha de ser: um grande fenómeno colectivo e religioso.

(Com base em textos e informações do Teatro do Ourives)