Os documentos, os balanços e as crónicas
(foto reproduzida daqui)
O
Papa emérito tomou posição acerca das conclusões do Sínodo dos Bispos sobre a
Família? Se relermos, por exemplo, o seu discurso ao clero da diocese de Aosta,
a 25 de Julho de 2005 (ano da sua eleição), até parece que sim. Na altura,
disse Bento XVI, num parágrafo que vale a pena reter integralmente:
“Ninguém de nós dispõe de uma receita já feita, também
porque as situações são sempre diversificadas. Diria que é particularmente
dolorosa a situação de quantos tinham casado na Igreja, mas não eram
verdadeiramente crentes e só o fizeram por tradição, e depois, contraindo um
novo matrimónio não válido, converteram-se, encontraram a fé e agora sentem-se
excluídos do Sacramento. Este é realmente um grande sofrimento e quando fui
Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé convidei várias Conferências
Episcopais e especialistas a estudarem este problema: um sacramento celebrado
sem fé. Se realmente é possível encontrar nisto uma instância de invalidade,
porque ao sacramento faltava uma dimensão fundamental, não ouso dizer. Eu
pessoalmente pensava assim, mas dos debates que tivemos compreendi que o
problema é muito difícil e ainda deve ser aprofundado. Mas considerando a
situação de sofrimento destas pessoas, deve ser aprofundado.” (O texto completo
do discurso pode ser lido aqui)
Essa
vontade de Ratzinger em aprofundar esta questão, para resolver situações de
sofrimento das pessoas, tinha sido notícia, aliás, na altura da sua eleição.
Seria mesmo um dos assuntos pendentes na sua secretária de
prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cargo que desempenhara até ser
eleito Papa.
Não
vale a pena, portanto, olhar para o que se passou na assembleia extraordinária
do Sínodo dos Bispos, que terminou domingo passado, como um corpo extemporâneo,
estranho ao debate eclesial. O que ali se passou resulta de várias questões que
há muito vêm sendo colocadas na mesa por muitas vozes, agora confirmadas por
uma assembleia cuja função essencial é a de aconselhar o Papa.
Uma assembleia extraordinária
O que se passou
nesta assembleia sinodal já foi um grande passo. Desde logo, no sentido
originário da palavra Sínodo (caminhar juntos) e daquilo que se pretendeu
quando Paulo VI – beatificado durante a missa de encerramento – instituiu o
Sínodo dos Bispos. Como disse o Papa na sua homilia:
“Neste dia da beatificação do Papa Paulo VI , voltam-me à mente estas palavras com
que ele instituiu o Sínodo dos Bispos: ‘Ao perscrutar atentamente os sinais dos
tempos, procuramos adaptar os métodos (...) às múltiplas necessidades dos
nossos dias e às novas características da sociedade’.”
Num texto no Público, Paulo Terroso, padre de Braga a
estudar Comunicação Institucional em Roma, escrevia que esta assembleia do
Sínodo foi verdadeiramente extraordinária: “Nisto, estou certo, até os padres sinodais estarão de acordo.
Mas o que é que faz deste sínodo um momento extraordinário na vida da Igreja? A
possibilidade de todos os participantes falarem claro, sem hesitações e sem
medos, ‘a ousadia da franqueza’ tal como o Papa Francisco pediu na abertura dos
trabalhos. (o texto pode ser lido aqui)