quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Solidariedade sim, mas com justiça social

Perante a situação dramática em que se encontra a economia do país, temos vindo a assistir, na sociedade e na Igreja, a um discurso que, sob a capa da "inevitabilidade" de algumas medidas, pretende que não há alternativas e que quem é vítima delas deve "comer e calar", em nome do "bem comum". Para atenuar casos extremos, lá estariam as obras de caridade e as instituições de solidariedade, nomeadamente as católicas, confiantes no apoio de um governo "mais favorável à Igreja".
Esta "doutrina", velha e relha, como todos sabemos, esquece um princípio a que as democracias modernas aderiram e que a doutrina social da Igreja defende e que é o da justiça social.
As políticas brutais que estão a ser aplicadas e que se vão agravar nos próximos anos não nos podem atirar para uma posição de aceitação resignada. Não podem impedir-nos de pensar, de analisar os valores e critérios em que assentam. Não vale tudo, em nome do saneamento necessário das finanças públicas, porque, a coberto de um objectivo aparentemente louvável, podem estar a cometer-se as maiores injustiças sociais. Daí que importa saber:
- O que se está a exigir sobretudo aos segmentos economica e socialmente mais débeis da população exige-se proporcionalmente aos grupos e sectores mais abastados?
- Está-se a considerar devidamente o alcance e a eficácia das medidas propostas? Tem-se em conta outros modos de analisar e de propor soluções para a presente crise?
- Existem razoáveis garantias de que o caminho que está a ser seguido não vai agravar as desigualdades sociais e deixar um ainda maior desequilíbrio entre o capital (nomeadamente financeiro) e o trabalho?

As notícias abaixo poderão ajudar a ver modos distintos de nos posicionarmos nestas matérias:

OE 2012: Geração de sacrifícios
Lusa Lisboa, 18 out 2011 (Ecclesia) – João César das Neves considera que a forma como Portugal encarar os sacrifícios pedidos, no atual período de crise, será “decisiva” para a sustentabilidade financeira do país. 
“Se mergulhar em contestação como os gregos, não haverá solução senão falir. Se suportar os sacrifícios e procurar novas soluções vencerá a crise. Este é o grande desafio desta geração”, defende o economista, na edição desta terça-feira do Semanário Agência ECCLESIA. 
Para o atual professor da Universidade Católica Portuguesa, a perda de “credibilidade externa”, nos últimos três anos, conduziu a nação a um cenário de “medidas dolorosas”, prefiguradas num Orçamento de Estado para 2012 que “parece mau demais para ser verdade”.
Além de promover a subida do IVA em “muitos bens de taxa reduzida”, o Governo apostou na redução de despesas relacionadas com o aparelho de Estado, cortando os “subsídios de férias e de Natal de funcionários públicos e pensionistas acima de certo nível de receita”. 

João César das Neves reconhece que este tipo de “medidas extraordinárias” representa um “violentíssimo esforço de ajustamento” das contas.
No entanto, sair deste caminho seria “admitir à partida a inevitabilidade da derrocada financeira”, o que só conduziria a “cortes imediatos ainda mais drásticos”, acrescenta. 

Recordando a “repetida” incapacidade do Governo em escapar à recessão económica, “simbolizada” na ineficácia de quatro Programas de Estabilidade e Crescimento, o economista espera que o atual Orçamento seja “justificado” através da desejada descida do défice, exigida pela troika.
Agora, “na ausência de mais truques, será dos reais 7,7 % que temos de descer em 2012 para chegar aos pretendidos 4,5% da meta desse ano”, conclui. 
JCP  

Pobreza: Organizações sociais reclamam políticas que puxem Portugal «para a frente» 
Lisboa, 18 out 2011 (Ecclesia) – Algumas das principais organizações portuguesas de solidariedade social aproveitaram esta segunda-feira a celebração do 18º Dia Mundial de Erradicação da Pobreza para pedir ao poder político uma maior intervenção a favor dos mais desfavorecidos. Em entrevista ao programa ECCLESIA, o diretor executivo da CAIS colocou o dedo na ferida, afirmando que a questão da pobreza “não está na agenda de quem tem poder para resolver, tomar decisões e puxar para a frente”. “Temos de ir pelas políticas, os direitos têm de ser salvaguardados, os deveres também, não podemos deixar a cada um fazer o que pode, porque isso não resolverá nunca”, apontou Henrique Pinto. 
Para aquele responsável, Estado e “instituições sociais no terreno” têm cometido o erro de combater a crise, a pobreza e a exclusão social através de soluções temporárias, em vez de garantirem medidas mais definitivas.
“Vamos remendando buracos, pondo pensos ali e além, dando sopas, roupa, encaminhando pessoas para os serviços de saúde, mas não estamos a ir à causa dos problemas”, reforçou.
No entender da EAPN Portugal – Rede Europeia Anti-Pobreza, descobrir as causas da pobreza tem de passar, antes de mais, por “dar maior visibilidade” a este fenómeno, recorrendo ao trabalho voluntário e às “novas tecnologias de informação”.Uma conclusão saída do III Fórum Nacional de Pessoas em Situação de Pobreza e/ou Exclusão Social, que aquela associação de solidariedade organizou esta segunda-feira, no Porto.
Cerca de um centena de pessoas em situação mais desfavorecida foram convidadas a refletir sobre a crise, os seus principais desafios e soluções a aplicar.
Depois desta fase preparatória, o debate centrou-se em quatro áreas principais: emprego/desemprego, prestações sociais, habitação e o papel do voluntário na luta contra a pobreza.
Outra das soluções propostas pelo Fórum foi a promoção de uma “interlocução dos cidadãos desfavorecidos e das organizações sociais junto do Governo e/ou das instâncias europeias, no sentido de criar mecanismos que contribuam para a diminuição das desigualdades sociais”.
Segundo o diretor da CAIS, para além da definição de novas políticas, falta também “reconstruir” todo um sentimento de comunidade, que hoje se perdeu no meio de um autêntico “apartheid social”.
“Estamos cada vez mais a viver num pais onde criamos serviços para quem é pobre, a custo social, e temos preços para quem é rico. Isto divide o país, coloca pessoas numa situação de segunda, terceira classe, e outras em primeira classe”, lamentou.(...) 
D.R.  

Mãos ao ar! 
No país que já era o mais desigual da Europa Ocidental, o que o Governo de Passos Coelho faz, com o OE para 2012, é um verdadeiro assalto fiscal às classes médias ("suicídio assistido" lhe chama o economista e professor do ISCTE Sandro Mendonça) e aos mais pobres, enquanto poupa aos sacrifícios "para todos" bens de luxo como jóias, casas sumptuosas ou carros de alta cilindrada; as próprias subvenções vitalícias aos políticos escapariam se alguns media, JN incluído, não tivessem denunciado ontem o caso. A consultora PwC [PricewaterhouseCoopers] fez as contas e concluiu que, se os contribuintes de baixos rendimentos verão em 2012 a carga fiscal agravada em relação a 2011, os de maiores rendimentos vê-la-ão, em contrapartida, amplamente reduzida. Citada pela edição online do "Expresso", a consultora apurou que contribuintes solteiros com rendimentos inferiores a 1500 euros irão pagar em 2012 mais 8% de IRS do que em 2011 enquanto os que auferem 3 000 ou mais pagarão... menos 8,9%. E o mesmo com os contribuintes casados: rendimentos até 2 500 euros (casais onde só um ganha) vêm agravado o IRS, ao passo que rendimentos de, por exemplo, 6 000 euros pagarão... menos 5,2%; e, do mesmo modo, casais com dois titulares a ganhar até 2 000 euros pagarão mais e os que ganharem acima disso pagarão menos.  Já toda a gente tinha percebido mas é sempre instrutivo verificar que os especialistas (e os números) corroboram o sentimento geral. [Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 19.10.2011]
ACTUALIZAÇÃO:

domingo, 16 de outubro de 2011

À procura da Palavra - TAMBÉM O AZUL É DE DEUS


"Dai a César o que é de César,
e a Deus o que é de Deus".

Evangelho de São Mateus 22, 21
Domingo XXIX do Tempo Comum


Eis a palavra de Jesus mais utilizada, ao longo da história, pelos políticos e senhores do mundo: o que é de César não é de Deus! Nasce assim dupla tentação de confinar a fé à sacristia e remetê-la à esfera privada ou de estabelecer a supremacia do altar sobre o trono. Interpretam-se as palavras ao jeito do freguês: César manda e dispõe no mundo, Deus pode mandar no céu e naquilo que é espiritual! Faz lembrar a anedota do homem que prometeu a Deus, para os pobres, uma grande quantidade de dinheiro se lhe saísse a lotaria; quando foi premiado, diante da montanha de notas, disse: “Olha, Senhor, agora vou atirar todo este dinheiro ao ar; as notas que tu apanhares podes dá-las aos pobres, as que caírem no chão são para mim!”A armadilha que os fariseus estendem a Jesus vira-se contra eles: a imagem gravada na moeda é do imperador, mas a imagem gravada no íntimo de cada pessoa é não é a do próprio Deus?


Jesus não vem trazer um projecto político nem impor um modelo de organização da sociedade. Como sempre, Deus gosta da nossa aprendizagem e da liberdade das nossas escolhas. Vem, sim, revelar a grandeza e dignidade de cada pessoa que tem de ser a base do viver em comum. E promove a unidade entre a fé e a vida quotidiana. Porque havemos sempre de fazer compartimentos? “Esta gaveta é a do trabalho, esta a da família, esta do lazer, e esta dos amigos de sexta à noite, esta do partido político, e esta da missa de domingo”! A vida é um todo e precisamos de estar nela com a totalidade de nós mesmos. Então, os discípulos de Jesus Cristo não podemos passar ao lado da intervenção política e social, não podemos deixar-nos alienar por espiritualismos que pedem a Deus o que está nas nossas mãos mudar, não podemos desistir de promover a paz e a justiça. Dar a Deus o que é d’Ele é dar o amor que compromete e constrói, a verdade que liberta e impulsiona, a beleza que maravilha e salva, a todos os seus filhos!


Ofereceram-me há dias os “fados & canções do Alvim” e não me canso de os ouvir. O guitarrista Fernando Alvim, que durante 25 anos acompanhou Carlos Paredes, oferece nestes discos a magia de uma música que
enche a alma de graça. Convocando amigos para escreverem e cantarem as suas músicas, em “alguns brindes à vida”, faz-nos este desafio: “Vamos sempre a tempo de concretizar sonhos e realizar projectos”! Do azul dos seus olhos e da magia das suas mãos nascem melodias que, para mim, também são “dar a Deus o que é de Deus”. Porque não se trata de devolver o que se recebeu, mas de dar o que se criou e recriou, os laços e a história cheia de beleza de cada um, as possibilidades realizadas e sempre o azul que habita em nós. E ainda que alguns teimem em pintar tudo de negro, acredito que trazemos tanto azul!

(Comentário aos textos da liturgia católica, publicado na edição da Voz da Verdade de 16.10.2011 . imagem tirada daqui )

sábado, 15 de outubro de 2011

De Jesus a Jesus Cristo

Da coluna de Anselmo Borges, no Diário de Notícias de hoje:
"(...) Para os crentes, se Jesus não fosse o Cristo, não passava de mais um combatente bom pela Humanidade e um revolucionário crucificado. Há, porém, um outro perigo, mais subtil: o de se ficar apenas com o Cristo Senhor glorificado, esquecendo o Jesus histórico de Nazaré, e o que ele queria, e o que ele fez, numa mensagem e comportamento que o levaram à cruz.
(...)
Este é que pode ser e tem sido o grande esquecimento [o que se passou entre o nascimento e a morte na cruz]. Tudo começou em São Paulo, que não tinha conhecido o Jesus histórico e, assim, só contactou com o Jesus glorificado, o Senhor, o Kyrios. Foi este Jesus Kyrios (Senhor) que ocupou o centro no quadro de interesses imperiais, como é sabido desde Constantino, e que acabou por legitimar poderes, domínios, guerras, uma Igreja senhorial.
Pensou-se então que bastava prestar-lhe culto -missas, procissões, adorações ao Santíssimo... -, sem a exigência de segui-lo no seu Evangelho do Reino de Deus, no que ele quis e fez com os pecadores, as mulheres, os estrangeiros, na relação com o dinheiro, com a política, os pobres, Deus e a religião. O cristão não precisaria de converterse.
Há um texto terrível do filósofo agnóstico Max Horkheimer, um dos fundadores da Escola Crítica de Frankfurt: "Jesus morreu pelos homens, não podia guardar-se para si próprio avaramente e pertencia a tudo o que sofre. Os Padres da Igreja fizeram disso uma religião, isto é, fizeram uma religião, que também para o mal (moral) era uma consolação. Desde então isso teve um êxito tal no mundo que pensar em Jesus nada tem a ver com a acção e ainda menos com os que sofrem. Quem lê o Evangelho e não vê que Jesus morreu contra os seus actuais representantes não sabe ler."
Para ler o texto integral: AQUI. 

Sobre o roubo da democracia e a (in)utilidade dos políticos

Há dois séculos, as sociedades não tinham direito a escolher os seus governantes. Foram conquistando esse direito progressivamente. Há 100 anos, em Portugal, a República ainda recusava o direito de voto a mais de metade da população - as mulheres. A sociedade foi conquistando progressivamente esse direito. Que lhe permitiu ganhar o direito a dar cada vez mais voz às pessoas, naquilo que à vida das pessoas diz respeito.

Hoje, a democracia está a ser usurpada aos cidadãos pelo poder financeiro. Os políticos, eleitos pelas populações para, supostamente, gerir os diferentes interesses sociais em conflito, demitiram-se do seu papel de árbitros e representantes de todos, para assumir a defesa de um único segmento das sociedades - o do sistema financeiro, dos "mercados" considerados como entidade abstracta, alheia a quaisquer interesses ideológicos, materiais ou económicos.

Perante este quadro, os cidadãos têm que exigir a devolução do que lhes está a ser roubado. Têm que exigir a restituição da democracia, do direito a fazer escolhas, do direito a eleger políticos que os representem e não os desprezem sobramceiramente. Porque, se assim não for, políticos e governantes não terão, então, qualquer utilidade para os cidadãos - poderíamos, até, dispensá-los, com isso contribuindo para mais uma poupança nos orçamentos dos estados...

Perante este quadro, hoje, cidadãos de todo o mundo estão já a fazer ouvir a sua voz. Desde o centro financeiro de Wall Street às ruas de várias cidades portuguesas, os cidadãos do mundo estão a dizer que querem que as suas vidas sejam decididas por quem é escolhido e não pelos poderes que querem permanecer na sombra. Mesmo sabendo que, nas manifestações de hoje haverá muitas ideias diferentes, diversas estratégias e motivações plurais, elas serão a voz dos cidadãos que querem ver-lhes devolvida a dignidade.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O Pluralismo Religioso numa Europa Secularizada

O Pluralismo Religioso numa Europa Secularizada é o tema de um seminário a ter lugar na próxima terça-feira, no Centro de Estudos Sociais (CES), em Coimbra, no qual intervém Vinoth Ramachandra, Secretary for Dialogue & Social Engagement for the International Fellowship of Evangelical Students. A intervenção contará com comentários de Anselmo Borges (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra) e José Manuel Pureza (CES da Faculdade de Economia da mesma instituição). O evento decorrerá a partir das 17h00, na Sala 1 do Centro de Estudos Sociais.Informações sobre quem é Vinoth Ramachandra: AQUI.

Novo bispo de Bragança na "Grande Entrevista"


Hoje, às 21h00, o novo bispo de Bragança-Miranda, D. José Cordeiro, vai ser o convidado do programa “Grande entrevista”.
Posteriormente, o vídeo deste momento televisivo poderá ser visto aqui.
A propósito: o mesmo canal exibe também hoje, mas pelas 23h36, o segundo episódio do documentário “Fátima e o mundo”, realizado por Manuel Arouca. Mais informações aqui.

ACT.: Devido à comunicação do primeiro ministro e às repercussões ds medidas de choque anunciadas, a entrevista foi adiada "para data oportuna".


domingo, 9 de outubro de 2011

Luís Archer, padre jesuíta e pioneiro da genética em Portugal

O padre jesuíta Luís Archer, pioneiro da investigação genética em Portugal, morreu este sábado, em Lisboa, aos 85 anos. Luís Archer dedicou-se à investigação científica depois de aceitar, contrariado, o que os superiores lhe pediram. Homem culto, educado e delicado, fez uma carreira brilhante como cientista e acabou por ser uma voz também pioneira no restabelecimento da relação entre fé e ciência. Aqui está uma entrevista que lhe fiz em Dezembro de 2006, para a "Pública". E aqui está o texto de D. Manuel Clemente por altura da entrega do Prémio Manuel Antunes, com ligação para outros textos da mesma ocasião.
(Foto de Rui Gaudêncio/Público)

sábado, 8 de outubro de 2011

Um Nobel da Paz no feminino e inspirado pela fé

Uma das laureadas com o Prémio Nobel da Paz, Leymah Gbowee, activista liberiana que ajudou o seu país a sair de uma brutal guerra civil, disse nesta sexta-feira que a melhor maneira de conseguir a paz é começar nas pequenas comunidades locais.

De acordo com uma notícia do serviço de informação do Conselho Mundial de Igrejas, Gbowee afirmou, no Interchurch Center de Nova Iorque: “É altura de fazermos justiça nas nossas comunidades. Um dia, os problemas do mundo irão bater à nossa porta.”

A activista tinha já marcada a sua participação num evento organizado pelo Conselho Nacional de Igrejas dos Estados Unidos, para o momento em que foi anunciado o prémio. Citando os exemplos de militantes da causa da paz e da justiça, Gbowee referiu Martin Luther King e o arcebispo Desmond Tutu. E acrescentou, sempre de acordo com a mesma fonte, que não acredita que seja possível a prática da não-violência sem qualquer relação com um poder superior: “A minha fé ajudou-me efectivamente”, afirmou Leymah Gbowee, que integra a Igreja Luterana da Libéria.

Além de Gbowee, o Nobel da Paz deste ano foi atribuído à actual Presidente da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf e à militante iemenita Tawakkul Karman, que tem liderado a oposição ao ditador Ali Abdullah Saleh.

Leymah Gbowee, que organizou um grupo de mulheres cristãs e muçulmanas para desafiar os senhores da guerra na Libéria, foi distinguida pelo Comité Nobel por ter conseguido ultrapassar fronteiras étnicas e religiosas, mobilizando as mulheres para a paz e a participação nas eleições. Trabalhou com pessoas que viviam situações traumáticas, incluindo antigas crianças-soldado. A guerra civil liberiana terminou em 2003, após o que Johnson Sirleaf foi eleita.

A experiência de Gbowee está relatada num livro – com o título “Mighty Be Our Powers: How Sisterhood, Prayer, and Sex Changes a Nation At War” (Fortes são os nossos poderes: como a fraternidade [de irmãs], a oração e o sexo mudam uma nação em guerra”) – e será apresentada num documentário que terá a sua estreia no dia 11, na estação pública de televisão dos EUA.
(Serviço de Informação do Conselho Mundial de Igrejas)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

À procura da Palavra - A FESTA COMPROMETE

"Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas todos os que encontrardes."

Evangelho de São Mateus 22, 9
Domingo XXVIII do Tempo Comum

Não há festa humana sem um petisco ou uma boa refeição. E as palavras trocadas tornam-se mais profundas quando comemos juntos. Nascemos com fome e com sede, e dos berros do bebé que procura a mama da mãe, aos últimos desejos do moribundo que saboreia um caldinho pela última vez, a nossa vida anda entrelaçada com a comida. Fazemos da culinária uma arte e preparar o alimento para quem amamos tem algo de sacramental. Mas também continua a ser uma das grandes desumanidades neste novo milénio haver pessoas a morrer de fome (cerca de mil em cada hora!) num mundo de tanta abundância. Não podia, pois, Deus revelar-se sem que se pusesse à mesa connosco, nos comprometesse com a fome dos irmãos, e preparasse para todos o banquete do seu amor.

Jesus escandalizou os legalistas do seu tempo com as refeições que tomava com os pecadores, e sentimos a sua alegria ao entrar na casa de Marta e Maria, ou na de Zaqueu, o cobrador de impostos. Muitas das suas palavras têm o cheiro da mesa em que foram pronunciadas, ou da colina onde multiplicou os pães e os peixes. É o banquete a partir da pobreza e aberto aos pobres, onde não há senhores nem servos, mas irmãos. E a ceia pascal tornou-se o encontro essencial da Igreja, em que Ele mesmo se dá como alimento no pão e no vinho, tornados seu corpo e sangue. Comungar Jesus é comungar do seu amor e da sua acção para que ninguém passe fome, nenhuma espécie de fome. Como não havia de escandalizar a parábola da boda das festas nupciais do filho do rei? E será que perdeu actualidade?

D. Helder Câmara, o arcebispo de Olinda-Recife no Brasil sonhava com o ano 2000 sem fome. Dizia: “A fome dos outros condena a civilização dos que não têm fome” e também, “o verdadeiro cristianismo rejeita a ideia de que uns nascem pobres e outros ricos, e que os pobres devem atribuir a sua pobreza à vontade de Deus.” Se o banquete do evangelho é aberto a todos, isso também significa a participação e responsabilidade de todos. Não é indiferente trazer ou não a veste nupcial: é como quando dizemos “vestir a camisola”. Trazer a veste baptismal significa fazer a opção fundamental de viver e amar como Jesus Cristo, neste mundo e nas circunstâncias actuais. Insiste D. Hélder: “Todo homem, cada homem, é responsável pelo destino da humanidade por suas ações e omissões”. Assim o banquete da Eucaristia prolonga-se na vida que se faz alimento, que é partida aos bocadinhos como o pão e saboreada em goles como o vinho. Como tudo o que é bom, quando se acumula apodrece, quando se dá, multiplica-se.

(Comentário aos textos da liturgia católica, publicado na edição da Voz da Verdade de 09.19.2011 - imagem tirada daqui)

sábado, 1 de outubro de 2011

À procura da Palavra - INQUIETAÇÃO

“Não vos inquieteis com coisa alguma.”

(Carta aos Filipenses 4, 6
Domingo XXVII do Tempo Comum)

Este convite de São Paulo aos Filipenses não é um apelo a ficar a olhar para o céu à espera que chova do alto a resolução de todos os problemas. A inquietação que se vivia naquele tempo relacionava-se com o acolhimento ou não dos valores da civilização pagã greco-romana. Ser fiel ao Evangelho e à condição humana irá ser sempre uma questão a responder em cada época. Porque as tentações de “ficar numa redoma” ou de “tudo ser a mesma coisa” são constantes. S. Paulo apresenta uma solução profunda e simples: “tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor é o que deveis ter no pensamento.” Não é um bom programa para algumas das nossas inquietações?

É verdade que há inquietações importantes para o viver. Perguntas, ideias como lampejos de uma luz que quer crescer, possibilidades novas, pequenos “big-bangs” de vida. É o “ser mais” que se agita dentro de nós e desafia a tentação da inércia e do acomodamento. José Mário Branco canta algo assim: “Cá dentro inquietação, inquietação.../ Há sempre qualquer coisa que eu tenho de fazer / qualquer coisa que eu devia resolver / porquê, não sei / Mas sei / Que essa coisa é que é linda”. Não são as inquietações do medo e do desespero (que também existem e esburacam a alma), da pobreza e da falta de dignidade (que nos pedem inquietação para encontrar caminhos novos de dádiva e caridade), das dívidas e da economia (que revelam a fragilidade e interdependência do nosso mundo). Estar atento às inquietações não pode significar deixarmo-nos afogar nelas!

Conta-se que o bom Papa João XXIII, a um bispo que lhe desabafava os cansaços e desânimos, lhe respondeu: "Olha irmão, sei muito bem o que sofre porque eu, muitas vezes, senti o mesmo: um grande cansaço. Quando isso me acontece, busco refúgio na oração e fico consolado. Uma vez, enquanto rezava, abatido, pareceu-me ouvir uma voz que me animava dizendo: "Angelo, não tomes a vida tão a sério". Dei ouvidos à voz e, a partir de então, enchi-me de tranquilidade e sossego. Faça o mesmo e verá". A serenidade de João XXIII está patente no seu "Decálogo", revelador de uma profunda confiança no amor de Deus e de amor à vida, em que cada instante é oportunidade feliz para o bem, o belo e a verdade. Se até da pedra rejeitada pelos homens que é Cristo, Deus constrói comunhão com a humanidade, como não nos abraçaria neste peregrinar de curvas e contracurvas, vitórias e derrotas que é a nossa vida? Lembra-nos Santa Teresa de Ávila: "Só Deus basta"!

(Comentário aos textos da liturgia católica, publicado na edição da Voz da Verdade de 02.10.2011
- imagem copiada daqui)

domingo, 25 de setembro de 2011

Pastoral Operária: Não basta a contenção; urge o desenvolvimento, a justiça e a coesão social

"A par de medidas de contenção, têm de ser pensadas e reforçadas medidas de apoio a projectos de investimento criadores de novos empregos e a uma efectiva justiça e coesão social, para que haja um verdadeiro desenvolvimento do país", afirma, em comunicado, o Conselho Nacional de Pastoral Operária que realizou o seu encontro anual neste sábado, 24, em Coimbra.
A Pastoral Operária congrega os organismos cuja missão evangelizadora tem como campo principal o Mundo Operário: JOC (Juventude Operária Católica), LOC/MTC (Liga Operária Católica/Movimento de trabalhadores Cristãos), MAAC (Movimento de Apostolado de Adolescentes e Crianças), PEMO (Padres em Mundo Operário) e REMO (Religiosas em Mundo Operário). É o seguinte o teor do texto saído do encontro:
"No âmbito da preparação para este Conselho Nacional, os colectivos membros reflectiram a realidade do mundo do trabalho e apontaram algumas das preocupações mais sentidas pelos trabalhadores e suas famílias, realçando alguns caminhos, sustentados pela esperança que nos é comunicada pela força do Ressuscitado e pelo ensino social da Igreja. O desemprego, a insegurança dos que têm trabalho e a precariedade laboral no Meio Operário, são apontados como os principais.
Estas realidades colocam em causa uma vida familiar equilibrada; criam receio quanto ao futuro e à formação dos filhos (crianças e jovens); impedem os jovens de concretizarem sonhos, de terem perspectivas de futuro; motivam a emigração de jovens licenciados, de trabalhadores da construção civil, da restauração, hotelaria e serviços domésticos; agravam a situação de fragilidade (laboral e social) de muitos imigrantes; geram cortes em necessidades essenciais como a saúde (medicamentos e tratamentos), a educação dos filhos, a própria alimentação; agravam as situações de pobreza, nas quais as crianças, jovens e idosos são os mais vulneráveis e fragilizados.
Como resposta para resolver muitas destas novas situações de pobreza sobressai apenas uma vertente mais assistencialista, que não é promotora da justiça e coesão social. A sustentabilidade da Segurança Social é ameaçada, não só pelas diminuições dos descontos provocados pelo decréscimo demográfico ou aumento do desemprego, mas também pela imposição do memorando da Troika de baixar largamente a comparticipação das empresas.
Insiste-se em legalizar a precariedade argumentando a sua inevitabilidade, quando já percebemos que o seu único fruto é aumento da própria precariedade. Temos uma comunicação social que, em muitos casos, tem formatado as pessoas em vez de as ajudar a ter uma consciência crítica sobre os acontecimentos.
Assistimos, diariamente, a notícias de cortes em áreas sociais essenciais e o aparecimento de mais impostos que geram mais desemprego, pobreza, desestruturação familiar, condições de vida miseráveis, violência, aumento de sentimentos de xenofobia e outros problemas sociais de extrema gravidade.
Durante anos sonhamos e defendemos uma Europa social e solidária, exigente no controle dos apoios e atenta às necessidades de cada povo na sua autonomia e cultura. Hoje, deparamo-nos com lideranças egoístas e economicistas. Não aceitamos a ideia que querem difundir de que foi pelo facto dos povos terem mais apoios e segurança, que chegámos à situação presente. Se há quem não tem culpa nesta crise é o povo trabalhador, são as famílias que se esforçaram por crescer em conhecimentos e em abertura ao outro.
Reconhecemos a necessidade de redução das despesas, de hábitos de poupança e de uma re-educação financeira das famílias, mas também, de se valorizar a solidariedade e o que é realmente importante para a dignidade e a realização da pessoa humana. Começam a surgir movimentos de resistência e as pessoas aprendem a viver sem consumirem exageradamente e a descobrir que podem viver com menos sem perder a sua dignidade.
A par de medidas de contenção, têm de ser pensadas e reforçadas medidas de apoio a projectos de investimento criadores de novos empregos e a uma efectiva justiça e coesão social, para que haja um verdadeiro desenvolvimento do país.
Perante a realidade muito marcante de desemprego, de salários baixos e em atraso, desregulação do trabalho e dificuldades graves de muitas famílias do meio operário de todo o país, sublinhamos o que diz a Encíclica de João Paulo II Laborem Exercens, no seu 30º aniversário: ”o trabalho é a chave, provavelmente a chave essencial, de toda a questão social se procuramos vê-la verdadeiramente sob o ponto de vista do bem da pessoa” (nº3). Torna-se, pois, necessário assumir o nosso papel de profetas que normalmente se desenvolve e está no meio do sofrimento, de aceitar a proposta de Jesus Cristo “Faz-te ao largo”. É grande o desafio ao discernimento para, como cristãos, nos empenharmos generosa e gratuitamente no meio operário e continuarmos a ser fonte de esperança.
No meio da fragilidade social que vivemos, acreditamos que Deus se torna evidente em todos aqueles e aquelas que gritam por uma vida digna e estão a ser empurrados para fora da mesa do Bem Comum. Neste sentido queremos dar voz à nossa indignação perante todas as formas de exclusão, provocadas pelo desemprego ou exploração no trabalho e reafirmar a nossa confiança na conjugação de esforços de forma a construir uma sociedade mais justa e fraterna."

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

À procura da Palavra - O "SIM" VÊ-SE NA VIDA

“Os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o Reino de Deus.”

(Evangelho de S. Mateus 21, 31 - Domingo XXVI do Tempo Comum)

Quando se vive imerso numa cultura do “nim” só provocações como a de Jesus no evangelho de hoje nos podem fazer acordar. Não propagamos, algumas vezes, uma imagem de Jesus adocicada ou insonsa, que “fica bem” mas é vazia, e sanciona um comportamento de quem parece que “meteu Deus no bolso”? Levar a sério a pequena parábola dos irmãos que o pai pede para irem trabalhar na vinha a vinha, e onde acaba por ir aquele que disse “não”, implica partir o verniz da aparência, denunciar falsas superioridades morais, reconhecer hipocrisias que se apresentam como modelos de virtudes. A proposta de viver na verdade, que Jesus faz, é natural que encontre obstáculos no reino das aparências e dos julgamentos. Porque interroga e aponta mudanças. Convida a ver por dentro. E a viver no presente.

Gosto muito das letras e das canções de Sérgio Godinho. Há muitos anos. Pela força dos seus poemas. Pelo cantar impregnado de vida e pelas interrogações. Como diz numa recente entrevista: “As interrogações que há nas minhas canções são dúvidas. Dúvidas para serem respondidas pelos outros. São interpelações”. É preciso tanta coragem para interpelar como para deixar-se interpelar. O hábito, o preconceito, a soberba, o ar e a prática da superioridade, a rotina da mentira e o culto da aparência impedem o crescimento e o amor. Tudo fica relativo. Canta o Sérgio no último disco: “Não vás dizer que o amor é relativo, se o relativo fosse coisa que se visse não era amor o porque morro e o porque vivo”.

Estaria cheio de boas intenções o filho que disse logo “sim” ao pai. Ou então respondeu por rotina, para “ficar bem na fotografia”, talvez porque havia plateia que interessava impressionar! Talvez até pensasse em ir... lá por alturas do Natal! Quando se é falso vive-se noutra dimensão ou noutro tempo. E acaba por ser fácil imaginar uma “idade de ouro” ou uma vida outra com pessoas ilustres e perfeitas, quem sabe até sendo nós uma delas! Esta é a temática do último filme de Woody Allen, “Meia-Noite em Paris”, uma deliciosa parábola sobre a coragem de viver no presente. Em que o gosto das coisas belas do passado pode ser vivido nesta construção, às vezes dolorosa (serão as dores do parto?), do presente.

Viver na aparência é estacionar na vida. É pôr-se numa redoma, sem pecado, nem necessitado de salvação. Bastando-se a si mesmo. Como Jesus gostava dos que traziam o coração nas mãos. Dizendo não com a boca, e sim com a alma e a vida. Alegrando-se com o encontro com Ele, que é especialista em semear futuros. Revestidos da verdade, ainda que isso não ganhasse audiências, nem boa fama junto dos “muito bem” mas que faz sorrir o bom Deus!

(Comentário aos textos da liturgia católica, publicado na edição da Voz da Verdade de 25.09.2011; imagem copiada daqui.)

"Podemos chegar até Ele?"

"Perguntar-me-ão, talvez: 'Mas Deus existe? E se existe, ocupa-se verdadeiramente de nós? Podemos chegar até Ele?'. Sim, é verdade: não podemos pôr Deus sobre a mesa, não podemos tocar-lhe como um utensílio ou pegar-lhe como um objecto qualquer. Devemos desenvolver de novo a capacidade de percepção de Deus, capacidade que existe em nós. Podemos intuir algo da grandeza de Deus na grandeza do cosmos. Podemos utilizar o mundo através da técnica porque ele foi construído de maneira racional. Na grande racionalidade do mundo podemos intuir o espírito do criador do qual provém, e na beleza da criação podemos intuir algo da beleza, da grandeza e também da bondade de Deus. Na Palavra da Sagrada Escritura podemos escutar palavras de vida eterna que não vêm simplesmente dos homens, mas d'Ele, e nelas escutamos a sua voz. E finalmente, quase vemos Deus também no encontro com as pessoas que foram tocadas por Ele. Não penso só nos grandes: de Paulo a Madre Teresa passando por Francisco de Assís; penso igualmente em tantas pessoas simples em que ninguém fala. Contudo, quando nos encontramos com elas, emana delas algo de bondade, sinceridade, alegria e sabemos que Deus está aí e que Ele nos toca também a nós. Por isso, nestes dias, queremos empenhar-nos em voltar a ver Deus, voltarmos nós próprios a ser pessoas através das quais entre no mundo a luz da esperança, que é luz que vem de Deus e que nos ajuda a viver". Excerto da mensagem de Bento XVI difundida no passado dia 17, sábado, pela TV pública ARD, a propósito da visita pastoral que amanhã inicia na Alemanha.