Uma Igreja com outra linguagem, na busca de fidelidade à mensagem evangélicaAna Vicente, 68 anos, investigadora, membro do Movimento Internacional Nós Somos Igreja
Quatro comentários:
A) Estas transformações consistem num desafio à experiência religiosa pois, como é evidente, esta também é marcada por todas as transformações sociais. Mas começo por me interrogar sobre a necessidade de utilizar a palavra NOVA, sempre perigosa porque, parecendo mobilizar energias, rapidamente se torna caduca. Quem não se lembra dos Novos Dicionários do século XIX que jazem nas prateleiras, e de tantos outros Novos, sem esquecer o Estado Novo.
Muito preferia ver a utilização de outra linguagem por parte da Igreja-instituição, numa busca de fidelidade à mensagem evangélica original e simples. Depois não vejo como é possível fazer algo de NOVO com estruturas completamente obsoletas. A Igreja-instituição precisa de se transformar ela própria antes de partir para qualquer horizonte de “nova” evangelização.
Não é possível com uma estrutura altamente hierarquizada, exclusivamente masculina e celibatária, ao nível da tomada de decisão, ou seja ao nível do poder real, crer que os povos, crentes nesta ou naquela expressão religiosa ou agnósticos ou ateus, possam dar ouvidos a um discurso advindo de uma instituição que está tão em contradição com a mensagem de Jesus – inclusiva, universal, de amor, de paz, de respeito pela consciência individual, de misericórdia, de compaixão. Estrutura essa que viveu e continua a viver a tragédia da prática do abuso sexual, físico e psíquico, por parte de sacerdotes (e algumas freiras) e que ainda muito pouco fez para que esses abusos nunca mais possam ocorrer. Estrutura essa que continua a perseguir teólogos e teólogas que “eles” consideram perigosos porque procuram caminhos diferentes. Que continua a desejar que as leis penais civis condenem criminalmente as mulheres que fazem um aborto mas pouco parecem agitar-se com o facto de que, em cada seis segundos, morre uma criança, já nascida, de fome.
B) A secularização é uma das boas notícias do século XX, e como sempre a Igreja-instituição andou a reboque, a protestar, a condenar, até que percebeu que não só não poderia reverter a necessidade absoluta de separação da Igreja e do Estado (de que a secularização é filha), como que esta até lhe poderia ser benéfica.
O que muitos clérigos condenam na secularização significa apenas que agora as populações agora mais cultas e pensantes já não aceitam receitas fáceis e acríticas e não fundamentadas (proibição do uso de contraceptivos por exemplo) emitidas por essas vozes clericais. As marcas de Deus estão cada vez mais presentes no mundo secular – procura intensa da igualdade entre todas as pessoas, igualdade de direitos e de deveres, mulheres, homens, crianças, diferentes orientações sexuais, capacidades, idades, respeito por toda a criação, direitos dos animais, protecção da natureza, paz, ética na política (teria evitado Khadafi no poder durante 40 anos alimentado a nível de armamento pelo ocidente), justiça nacional e internacional (Tribunal Internacional de Justiça); ética na economia e nas finanças, etc., etc.
C) A instituição-Igreja tem estado muito afastada da pessoa de Jesus Cristo, afastada das fontes de espiritualidade, da comunhão universal e individual com Deus e com o próximo. E quem é o meu próximo?
D) A instituição-Igreja, em Portugal, poderia procurar que em cada diocese/paróquia/comunidade houvesse sínodos (já não exclusivamente constituídos por homens ordenados celibatários, que objectivamente excluem não só as mulheres como o Povo de Deus no seu geral, os agnósticos e os ateus, como vai ser o caso em Roma) compostos e dinamizados por quem manifestasse vontade para tal e deixar soprar o Espírito, sem medo. Seriam esses a apontar caminhos de presente e de futuro.