A peça “O Menino Jesus numa estória aos
quadradinhos”, composta por Alfredo Teixeira, com base no poema “Hino de Amor”,
de João de Deus (1830-1896),
acabou de vencer o III Prémio Internacional de Composição Fernando Lopes Graça.
“O poema
de João de Deus transcreve o maravilhoso cristão numa cena bucólica do
quotidiano do Deus Menino”, escreve o compositor.
O trabalho
musical de Alfredo Teixeira tem sido objecto de vários reconhecimentos públicos
– dos quais este prémio é mais um. O seu trajecto original na música portuguesa
contemporânea procura, entre outras coisas, ir ao encontro das raízes populares
do imaginário cultural e religioso português, num profícuo diálogo criativo.
“À
frugalidade descritiva da infância de Jesus nos Evangelhos canónicos cristãos,
respondeu o imaginário popular com a efabulação miniatural da história sagrada.
João de Deus recolhe, neste poema, toda essa plasticidade”, acrescenta Alfredo
Teixeira, num texto que pode ser lido na íntegra no blogue do Grupo Vocal Discantus, que é
dirigido pelo compositor.
Alfredo
Teixeira diz que leu o poema de João de Deus como se se tratasse de uma banda
desenhada, à qual associou “a memória fílmica das animações clássicas de Walt
Disney”.
O prémio
será entregue dia 17 de Dezembro, em lugar ainda a indicar. Na mesma ocasião, a
peça “O Menino Jesus...” poderá também ser ouvida pela primeira vez.
Música - Concerto «Sol, meu filho, como vou
cobrir-te de panos? Como vou amamentar-te, tu que nutres toda a criatura? Como
vou ter-te nas mãos, tu que conténs todas as coisas?» (Analecta Sacra)
Visitar algumas tradições musicais portuguesas centradas no Natal
é a proposta para este domingo à tarde, na Igreja de Santa Isabel. Com
comentários do padre José Tolentino Mendonça, o grupo coral Discantus, dirigido
por Alfredo Teixeira, dá um concerto em que apresentará obras criadas ou harmonizadas
por Fernando Lopes-Graça, Eurico Carrapatoso e Manuel Simões, entre outros. O programa propõe um total de 15 peças em
quatro partes distintas: Vinde já ao mundo; Em palhas deitado; A Virgem lavava, José
estendia; e Um lugarinho no Céu. Da lista de compositores propostos, fazem
parte ainda Manuel Luís, J. Croner de Vasconcelos, Joel Canhão, Maria de
Lourdes Martins.
Alfredo
Teixeira – que também é autor de algumas harmonizações – escreve o seguinte
texto de apresentação do concerto::
Visitar as diversas tradições musicais
portuguesas, desenvolvidas no contexto das festas da natividade cristã, é
descobrir um Natal vincadamente diferente daquele que vemos representado na
cena mediática. Nas tradições portuguesas, encontramos o que se poderia apelidar
de «mística do sul». Os imaginários e as narrativas centram-se na figura do
Menino Jesus, na Sagrada Família, nos Pastores e nos chamados Reis Magos. Esta figuração, materializada nos presépios,
permite uma fácil identificação entre a história sagrada e a experiência
social, e fornece o material simbólico para a celebração da vida, do futuro, da
família e do mistério crente de um «Deus humanado». Este traço particular do
cristianismo, a humanização de Deus, favoreceu uma permanente aculturação, permitindo
que as representações do divino facilmente se ancorassem na escala do humano –
a «humanização do divino» favorece novas formas de aliança entre a história
santa e o drama humano, da dor à alegria mais expressiva. Os
cantos da Natividade dão corpo a uma cultura que olha a história e o cosmos
como lugares de hospitalidade para Deus – o canto de embalo do Menino é talvez
a figura mais eloquente. Na espiritualidade destes cantos, narra-se a entrada
de Deus na história humana, sem aparato, em silêncio, à margem da cidade, com
protagonistas inesperados. Da linguagem do Deus absoluto, passamos à imagem do
Deus frágil – o Natal transforma as linguagens sobre Deus. Na música da
natividade, recolhida etnograficamente ou recriada por vários compositores
portugueses, podemos encontrar alguma coisa deste Natal ao sul – miniatural,
porque à escala do humano. A
recolha de Giacometti e Lopes Graça apresenta-se como a mais frequentemente
visitada. Ela descobre-se nas duas cantatas de Natal de Lopes Graça, nas
recriações de Maria de Lurdes Martins, mas também em boa parte do trabalho,
mais recente, de Eurico Carrapatoso – a sua recriação do reportório ligado à
festa da Natividade encontra-se distribuída em diversos ciclos, como «O que me
diz o vento mirandês». Para
além de outros cancioneiros – como o de Resende, visitado aqui por Joel Canhão
–, é necessário ter em conta as recolhas feitas por eclesiásticos, de modo
pontual ou de forma mais sistemática, como o clássico cancioneiro alentejano do
Pe. António Marvão, o arquivo do Pe. Manuel Simões, ou a coleção de Mons.
Pereira dos Reis de cantos do Advento oriundos da zona oeste do Patriarcado – o
Pe. Manuel Luís usou textos e melodias desta recolha para a sua coletânea
«Hinos para a Liturgia I». No final dos anos 90, João Arnaldo Rufino da Silva
organizou a edição de um arquivo de canto religioso do Natal madeirense. Dessa
coleção fazem parte criações para a novena de Natal, as «Missas dos Parto» - o
presente programa recolhe a recriação de dois exemplares. O ciclo «Oito cantos
de Natal» de Jorge Croner Vasconcelos conta-se, talvez, entre o reportório
menos conhecido. Originalmente escritos para vozes femininas, as miniaturas
selecionadas apresentam-se numa transcrição para vozes mistas.