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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Músicas que falam com Deus (21) - para o tempo de Natal#7 - O Menino Jesus, de João de Deus e Alfredo Teixeira, vence o Prémio Lopes Graça

A peça “O Menino Jesus numa estória aos quadradinhos”, composta por Alfredo Teixeira, com base no poema “Hino de Amor”, de João de Deus (1830-1896), acabou de vencer o III Prémio Internacional de Composição Fernando Lopes Graça. “O poema de João de Deus transcreve o maravilhoso cristão numa cena bucólica do quotidiano do Deus Menino”, escreve o compositor.
O trabalho musical de Alfredo Teixeira tem sido objecto de vários reconhecimentos públicos – dos quais este prémio é mais um. O seu trajecto original na música portuguesa contemporânea procura, entre outras coisas, ir ao encontro das raízes populares do imaginário cultural e religioso português, num profícuo diálogo criativo.
“À frugalidade descritiva da infância de Jesus nos Evangelhos canónicos cristãos, respondeu o imaginário popular com a efabulação miniatural da história sagrada. João de Deus recolhe, neste poema, toda essa plasticidade”, acrescenta Alfredo Teixeira, num texto que pode ser lido na íntegra no blogue do Grupo Vocal Discantusque é dirigido pelo compositor.
Alfredo Teixeira diz que leu o poema de João de Deus como se se tratasse de uma banda desenhada, à qual associou “a memória fílmica das animações clássicas de Walt Disney”.
O prémio será entregue dia 17 de Dezembro, em lugar ainda a indicar. Na mesma ocasião, a peça “O Menino Jesus...” poderá também ser ouvida pela primeira vez.
Algumas composições de Alfredo Teixeira podem ser escutadas aqui.
Uma outra peça, neste caso um canto de Natal executado pelo Discantus, pode ser ouvida aqui.


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Músicas que falam com Deus (15) - Cânticos da Natividade – A mística do sul



Música - Concerto

«Sol, meu filho, como vou cobrir-te de panos? Como vou amamentar-te, tu que nutres toda a criatura? Como vou ter-te nas mãos, tu que conténs todas as coisas?» (Analecta Sacra)

Visitar algumas tradições musicais portuguesas centradas no Natal é a proposta para este domingo à tarde, na Igreja de Santa Isabel. Com comentários do padre José Tolentino Mendonça, o grupo coral Discantus, dirigido por Alfredo Teixeira, dá um concerto em que apresentará obras criadas ou harmonizadas por Fernando Lopes-Graça, Eurico Carrapatoso e Manuel Simões, entre outros.

O programa propõe um total de 15 peças em quatro partes distintas: Vinde já ao mundo; Em palhas deitado; A Virgem lavava, José estendia; e Um lugarinho no Céu. Da lista de compositores propostos, fazem parte ainda Manuel Luís, J. Croner de Vasconcelos, Joel Canhão, Maria de Lourdes Martins.

Alfredo Teixeira – que também é autor de algumas harmonizações – escreve o seguinte texto de apresentação do concerto::

Visitar as diversas tradições musicais portuguesas, desenvolvidas no contexto das festas da natividade cristã, é descobrir um Natal vincadamente diferente daquele que vemos representado na cena mediática. Nas tradições portuguesas, encontramos o que se poderia apelidar de «mística do sul». Os imaginários e as narrativas centram-se na figura do Menino Jesus, na Sagrada Família, nos Pastores e nos chamados Reis Magos.

Esta figuração, materializada nos presépios, permite uma fácil identificação entre a história sagrada e a experiência social, e fornece o material simbólico para a celebração da vida, do futuro, da família e do mistério crente de um «Deus humanado». Este traço particular do cristianismo, a humanização de Deus, favoreceu uma permanente aculturação, permitindo que as representações do divino facilmente se ancorassem na escala do humano – a «humanização do divino» favorece novas formas de aliança entre a história santa e o drama humano, da dor à alegria mais expressiva.

Os cantos da Natividade dão corpo a uma cultura que olha a história e o cosmos como lugares de hospitalidade para Deus – o canto de embalo do Menino é talvez a figura mais eloquente. Na espiritualidade destes cantos, narra-se a entrada de Deus na história humana, sem aparato, em silêncio, à margem da cidade, com protagonistas inesperados. Da linguagem do Deus absoluto, passamos à imagem do Deus frágil – o Natal transforma as linguagens sobre Deus. Na música da natividade, recolhida etnograficamente ou recriada por vários compositores portugueses, podemos encontrar alguma coisa deste Natal ao sul – miniatural, porque à escala do humano.

A recolha de Giacometti e Lopes Graça apresenta-se como a mais frequentemente visitada. Ela descobre-se nas duas cantatas de Natal de Lopes Graça, nas recriações de Maria de Lurdes Martins, mas também em boa parte do trabalho, mais recente, de Eurico Carrapatoso – a sua recriação do reportório ligado à festa da Natividade encontra-se distribuída em diversos ciclos, como «O que me diz o vento mirandês».

Para além de outros cancioneiros – como o de Resende, visitado aqui por Joel Canhão –, é necessário ter em conta as recolhas feitas por eclesiásticos, de modo pontual ou de forma mais sistemática, como o clássico cancioneiro alentejano do Pe. António Marvão, o arquivo do Pe. Manuel Simões, ou a coleção de Mons. Pereira dos Reis de cantos do Advento oriundos da zona oeste do Patriarcado – o Pe. Manuel Luís usou textos e melodias desta recolha para a sua coletânea «Hinos para a Liturgia I».

No final dos anos 90, João Arnaldo Rufino da Silva organizou a edição de um arquivo de canto religioso do Natal madeirense. Dessa coleção fazem parte criações para a novena de Natal, as «Missas dos Parto» - o presente programa recolhe a recriação de dois exemplares. O ciclo «Oito cantos de Natal» de Jorge Croner Vasconcelos conta-se, talvez, entre o reportório menos conhecido. Originalmente escritos para vozes femininas, as miniaturas selecionadas apresentam-se numa transcrição para vozes mistas.