segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Solidariedade ou caridade?
Pode ler aqui na íntegra o artigo de opinião publicado na SIC Online
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Tudo sobre a "Caritas in Veritate"
Em língua portuguesa é de certeza a resenha mais completa sobre os antecedentes, a publicação e a recepção da “Caritas in Veritate”, a encíclica social de Bento XVI. Ficamos a conhecer as reacções de Bento XVI à falência do Lehman Brothers e o consequente adiamento do documento, os (alguns) economistas que foram consultados, ou que em 1985 Ratzinger proferiu uma conferência sobre “Market economy and ethics”, no que terá sido a única vez que abordou o tema principal da CV. Mas isto é só o início.
A página (aqui) é do Instituto Humanitas Unisinos.
O texto (umas 20 páginas A4 se for impresso) sugere dezenas de ligações muito interessantes. Impossíveis de ler na totalidade. Sugiro esta (comentários de Jean-Yves-Calvez, Luiz Alberto Gómez de Souza e Plínio de Arruda Sampaio).
A Unisinos é a Universidade do Vale do Rio dos Sinos, dos jesuítas, considerada uma das três melhores privadas do Brasil.
sábado, 25 de julho de 2009
Leviandades
No Expresso da semana passada, Henrique Raposo escrevia outra vez sobre a encíclica Caritas in Veritate, depois de José Tolentino Mendonça já lhe ter dito que ele, de cristianismo, perceberá pouco, como se contou no texto anterior. Mas o cronista quis ripostar, confessando que fôra "leviano".
A ignorância de Henrique Raposo sobre o cristianismo (e, mais grave ainda, sobre a realidade) é mais do que leviana: primeiro, começa por falar de um cardeal "mui sul-americano (e mui vermelho)" que "destilou todos os clichês do livro de estilo marxista"; depois, cita uma frase do cardeal Maradiaga (que por acaso tem nome e é das Honduras), sobre a "cobiça" do mercado (que aliás nem se viu nas causas da actual crise) chamando-lhe "padre de passeata". Sobre o nível da prosa, que pelos vistos queria ser engraçada, está tudo dito.
O mais grave é que Raposo descobre que, cruzes credo!, a encíclica Caritas in Veritate mostra "pontos de contacto entre Bento XVI e a esquerda". Se o cronista ler alguns dos teólogos dos primeiros séculos do cristianismo, vai descobrir certamente perigosos pontos de contacto com a extrema-esquerda (será que na altura já existiriam esse perigosos?), na defesa que faziam da primazia do bem comum sobre a propriedade privada (ideia que continua a ser repetida pela doutrina social da Igreja) ou quando diziam que era um crime menor alguém com fome roubar para comer...
Mas ainda não chegava. E eis que o cronista descobre que a globalização "retirou centenas de milhões de pessoas da pobreza no 'resto do mundo'". Aliás, temo-las visto, a afogarem-se no Mediterrâneo ou no Atlântico, ávidas de gozarem as delícias da praia e da natação depois de descobrirem a riqueza, o emprego, o desenvolvimento, os seguros de saúde e todas as coisas boas do bem-estar... Temo-las visto no Darfur, nos Grandes Lagos, nas bolsas de miséria à volta as grandes cidades do hemisfério Sul. Ah: e temos visto também como as coisas estão tão bem que a pobreza em Portugal não só subsiste, como passa de geração em geração, como se alarga a camadas que antes não eram atingidas...
A crónica acaba com uma ameaça: que Bento XVI coloca a ideologia (??) da caridade à frente da realidade e que isso será tema para outra conversa. Não, por favor, queremos ser poupados. É que quem não entende que a caridade é antes uma atitude de vida e que, sim, está muitas vezes na linha da frente na transformação da dura realidade que tanta gente... - quem não entende isto, é melhor poupar-nos a mais "leviandades".
sábado, 18 de julho de 2009
Uma encíclica que irrita, como a Mafalda
Algumas das opiniões já surgidas, mesmo em meios católicos, pretendem continuar a fazer desta encíclica concreta um texto abstracto, altamente respeitável, mas inofensivo. Não: o Papa coloca o dedo em várias feridas, apontando a necessidade de reformular um sistema financeiro tremendamente injusto, que tem levado a fome e a miséria a muita gente e que provocou a actual crise em que estamos mergulhados. A encíclica é um manual para o desassossego, diz Tolentino Mendonça.
No seu artigo de hoje no DN, Anselmo Borges fala também do que a encíclica traz de importante. E destaca a atenção que lhe dispensaram políticos e media internacionai (ao contário do que se passou em Portugal), que sublinharam a sua "inesperada orientação à esquerda", a denúncia do "capitalismo selvagem", a "necessidade de o Estado recuperar um papel activo e a "a urgência da reforma das Nações Unidas e da arquitectura financeira global", entre outros temas. O texto está aqui na íntegra.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
A encíclica da crise
"Sem preconceitos, porque é assim que deve ser abordada, a encíclica social de Bento XVI é um compêndio, um guia, para compreender a crise e o mundo. Naturalmente, todo o texto respira e transpira uma visão transcendental, o pensamento católico sobre a vida, o Homem e o mundo. Mas este é um texto que derruba fronteiras. Corajoso, nada conservador, critica governos e gestores de um mercado falido, como nenhum político eleito fez até agora. Rasga, no sentido positivo do termo, uma certa lógica pragmática, sem ética, que domina a economia e a política, motivadora de resignação e imprudência, geradora da crise. Os valores que atravessam a encíclica social de Bento XVI, são os valores da exegese do tempo, propostas de construção de fraternidade, esmagadas por pressupostos com pés de barro que servem de desculpa para adiar opções… radicais."
(excerto de artigo de opinião publicado na SIC Online, que pode ler na íntegra aqui)
A encíclica de Bento XVI pode ser lida aqui.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Agumas notas à margem de uma encíclica
Algumas notas à margem:
- É lastimável a crescente ignorância mediática em Portugal: a generalidade dos jornais, rádios e televisões quase ignorou a publicação da encíclica, não percebendo a importância do documento; nada de estranhar: na véspera, dia da assinatura do tratado de não-proliferação nuclear e dia dos graves confrontos na China, as televisões brindaram-nos, nos principais serviços noticiosos, com 30 minutos de uma indigente apresentação de um jogador de futebol...
- A encíclica pede criatividade e empenhamento aos cristãos. Mas esse é um dos problemas: quer nas lideranças políticas, quer nas empresariais e económicas, tem havido cristãos. E alguns deles são grandes responsáveis por vários factores da crise em que estamos mergulhados.
- Outro problema: o pensamento social católico, que pode ser caracterizado de "esquerda" (usando uma expressão redutora, mas que se entende), é olimpicamente ignorado por muitos crentes com responsabilidades políticas, económicas, empresariais - que preferem destacar os "valores" familiares e individuais que a Igreja Católica defende.
- A quadratura do círculo: é difícil ver católicos que politicamente defendem o liberalismo desregulado a adoptar os critérios propostos pelo pensamento social católico das últimas décadas e que pouco têm a ver com a desregulamentação laboral ou com a centralidade da pessoa e do trabalho humano...
- Voltar à escola? Sábado passado, no seminário da Comissão Justiça e Paz, o sindicalista Ulisses Garrido pôs em causa o que se ensina nas áreas de Economia e Gestão da Universidade Católica. Talvez não seja má ideia a Igreja Católica começar por afrontar questões desse género.
- Ao propor a revisão da arquitectura política e financeira mundial, o Papa repete o que já João XXIII e João Paulo II tinham defendido. Mas, em certa medida, as coisas pioraram, com a criação dos directórios mundiais: G-8, G-20, troika europeia, grupo de Davos, mais os clubes mais ou menos selectos... São esses directórios que também estão em causa. O mundo não pode continuar a fazer de conta que negoceia e dialoga, para depois alguns países boicotarem, alterarem, esquecerem ou ignorarem o que se vai discutindo em fóruns internacionais. Se as coisas não são só assim, há muito a rever neste modo de funcionar.