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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Um estendal para aquecer o coração de Lisboa

Texto de Maria Wilton


Agasalhos para quem precisar estarão disponíveis neste sábado, 
na Avenida da Liberdade, em Lisboa

É já no próximo sábado, 15 de dezembro, que regressa à Avenida da Liberdade, em Lisboa o grande estendal solidário com agasalhos disponíveis para quem deles precisar: o Heat The Street.
O objetivo é que, entre as 14h e a meia-noite, numa corda com mais de uma centena de metros, pendurada entre a Praça dos Restauradores e a Rua das Pretas, qualquer pessoa pode chegar e pendurar o(s) agasalho(s) que já não utiliza. Depois, outros poderão levá-los, dando-lhes uma nova vida.
A corda estará divida em várias secções (homem, mulher e criança), como se fosse uma loja ao ar livre, só que sem caixa de pagamento. A ideia, explica Helena Carvalho, uma das organizadoras do projeto, é “dar às pessoas a opção de escolha, em vez de ficar apenas com o que lhes dão; acaba por ser quase como uma loja onde se pode escolher e ver os tamanhos” acrescenta.
A iniciativa destina-se a todos os que precisem de um agasalho e não apenas para cidadãos sem-abrigo, muitas vezes associados a este tipo de eventos solidários. Todos são bem-vindos, tanto para ajudar como para e receber, acrescenta a responsável da iniciativa. 
Nas edições anteriores, a corda tem sido ocupada e esvaziada umas três ou quatro vezes. Este ano, a aposta vai também para agasalhos de criança, explicou, citada pelo Público/P3, Sílvia Lopes, outro membro da organização: “A verdade é que as crianças crescem de um ano para o outro e há famílias que não têm dinheiro para comprar roupa.” Por isso, este ano a corda conta com o apoio de uma marca de roupa que já doou agasalhos para os mais novos. 
Serão ainda distribuídos sacos para quem queira recolher roupa da corda, para auxiliar o transporte. Haverá também chá quente e a Carris oferecerá deslocação de autocarro para as pessoas regressarem a casa.
Para os que não podem estar presentes no sábado, há ainda a alternativa de, antes da hora de início, deixar os agasalhos nos parceiros do Heat The Street: a Crescer (Bairro da Quinta da Cabrinha, 3, em Alcântara) e as lojas sociais Boa Vizinhança Santo António (Calçada Moinho de Vento, 3), da Junta de Freguesia de Santo António, e Dona Ajuda, no Mercado do Rato.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

O Papa Francisco e a usura que mata



(foto reproduzida daqui)

No JN de segunda-feira passada, Fernando Calado Rodrigues escreveu sobre o Papa e a usura, sugerindo que as instituições católicas de solidariedade promovam, além da luta contra a pobreza, também a luta contra a usura e o apoio às vítimas dessa prática:

Pedir dinheiro emprestado e pagar juros pelo empréstimo passou a ser algo normal e deixou de ser considerado usura. Ficou reservada esta classificação para empréstimos ilegais com juros altíssimos. No entanto, por vezes, algumas condições de crédito estão no limiar da agiotagem, tal como certas comissões e taxas que os bancos estão continuamente a introduzir e a ampliar.
(O texto pode ser lido aqui na íntegra)

segunda-feira, 16 de junho de 2014

'A Crise no Limite': diagnóstico de um país em sofrimento


Para ver o vídeo, clicar na imagem ou AQUI.
Um agradecimento à Renascença, à jornalista Maria João Cunha e à equipa que com ela trabalhou, por esta reportagem.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Papa Francisco:
"Não partilhar com os pobres é roubá-los e tirar-lhes a vida"

Eis a parte mais substantiva do discurso pronunciado pelo Papa Francisco, ao receber hoje as credenciais de embaixadores de diversos países junto do Vaticano:

«Senhores Embaixadores,

a humanidade vive neste momento como que um ponto de viragem na sua própria história,
 considerando os progressos registados em vários âmbitos. Devemos louvar os resultados positivos, que concorrem para um autêntico bem-estar da humanidade, como por exemplo, no campo da saúde, da educação e da comunicação. No entanto, devemos reconhecer também que a maior parte dos homens e das mulheres do nosso tempo continuam a viver numa precariedade quotidiana com consequências funestas. Aumentam algumas patologias, com as suas consequências psicológicas; o medo e o desespero arrebatam os corações de numerosas pessoas, mesmo nos países considerados ricos; a alegria de viver começa a diminuir; a indecência e a violência estão a aumentar; a pobreza torna-se cada vez mais evidente.
As pessoas têm de lutar para viver e, muitas vezes, para viver com pouca dignidade. Uma das causas desta situação, na minha opinião, consiste na relação que temos com o dinheiro, ao aceitar o seu domínio sobre nós e sobre as nossas sociedades. Assim, a crise financeira, que estamos a atravessar, faz-nos esquecer da sua origem primordial, enraizada numa profunda crise antropológica: a negação da primazia do ser humano! Criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32,15-34) defronta-se com uma nova e impiedosa imagem do culto do dinheiro e da ditadura da economia sem rosto nem objetivo realmente humano.
A crise mundial, que envolve as finanças e a economia, parece pôr em destaque as suas distorções e, sobretudo, a grave falta da sua perspectiva humana, que reduz o homem àquela que é apenas uma das suas necessidades: o consumismo. Ainda pior: o ser humano, hoje, é considerado como um bem de consumo, que se pode usar e, depois, deitar fora. Este deriva verifica-se a nível individual e social, e além do mais é promovida!
Em tal contexto, a solidariedade, tesouro dos pobres, é, muitas vezes, considerada contraproducente, contrária à racionalidade financeira e económica. Enquanto o rendimento de uma minoria aumenta de maneira exponencial, o da maioria recua. Este desequilíbrio deriva de ideologias que promovem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira, negando assim o direito de controlo por parte dos Estados, que também devem prover o bem comum. Instaura-se, desse modo, uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, unilateralmente e sem recurso possível, as suas leis e as suas regras. O endividamento e o crédito, por outro lado, distanciam os países da sua economia real e os cidadãos do seu efetivo poder de aquisição. A acrescentar a tudo isto está a corrupção, muito difundida, assim como uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais. O desejo de poder e de posse tornou-se ilimitado.
Atrás desta atitude oculta-se a rejeição da ética, a rejeição de Deus. Tal como a solidariedade, também a ética incomoda; ela é considerada contraproducente: como algo demasiado humano, porque relativiza o dinheiro e o poder; e é tida como uma ameaça, porque rejeita a manipulação e a submissão da pessoa. A ética conduz a Deus, que se situa fora das categorias do mercado. Deus é considerado, pelos financeiros, economistas e políticos, como incontrolável ou até perigoso, porque induz o homem à sua plena realização e à independência de qualquer tipo de escravidão. A ética – uma ética naturalmente não ideológica – permite, na minha opinião, criar um equilíbrio e uma ordem social mais humanos.
Neste sentido, encorajo os peritos em finanças e os governantes dos vossos países a refletirem sobre as palavras de São João Crisóstomo: «Não partilhar com os pobres os bens que se possui é roubá-los e tirar-lhes a vida. Os bens que possuímos não são nossos, mas deles» (Homilia sobre Lázaro, 1, 6 : PG 48, 992D).
Prezados Embaixadores, seria de bom augúrio fazer uma reforma financeira, que seja ética e que comporte, por sua vez, uma reforma económica salutar para todos. No entanto, ela requer uma corajosa mudança de atitude dos dirigentes políticos. Exorto-vos, pois, a enfrentar este desafio com determinação e perspicácia, levando em conta, naturalmente, a peculiaridade de cada contexto. O dinheiro deve servir e não governar! O Papa ama a todos, ricos e pobres; mas o Papa tem o dever, em nome de Cristo, de recordar ao rico que deve ajudar o pobre, respeitá-lo, promovê-lo. O Papa exorta à solidariedade desinteressada e a um retorno da ética para o bem do homem, na sua realidade financeira e económica.
A Igreja, por sua vez, trabalha sempre para o desenvolvimento integral de cada pessoa. Neste sentido, ela recorda que o bem comum não deveria ser um simples extra, um simples esquema conceptual de qualidade inferior, inserido nos programas políticos. A Igreja encoraja os governantes a porem-se realmente ao serviço do bem comum das suas populações. Ela exorta os dirigentes do campo financeiro a levarem em consideração a ética e a solidariedade. E por que não dirigirem-se a Deus para que os inspire com os seus desígnios? Assim, poder-se-ia criar uma nova mentalidade política e económica,  a fim de contribuir para transformar a dicotomia absoluta entre a esfera económica e a social numa saudável convivência.»

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Solidariedade ou caridade?

"Vem à memória um equívoco no debate mediático e sobre o qual se exige um ponto prévio: caridade e solidariedade social não estão em pólos antagónicos. Uma não é preferível à outra, a primeira carece da segunda para se completar, como a segunda não se compreenderá totalmente sem a complexidade da primeira. (...) Tal como a prática da caridade não é mera assistência, não se confunda solidariedade com cumplicidade solidária. (...) Sem o princípio da solidariedade, a caridade cristã limitar-se-ia a um assistencialismo ocasional e não construtivo. O objectivo político maior de um cristão passa por combater as desigualdades sociais e defender um bem comum orientado pela virtude. É possível que estejamos diante de uma utopia social que carece, neste e em qualquer tempo, da filosofia e/ou da religião. Mas não vale a pena alimentar mais equívocos…"

Pode ler aqui na íntegra o artigo de opinião publicado na SIC Online

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Tempo para o gratuito

"Com vícios de soberba e rédea solta, secundarizando a ética e o "bem comum", construímos uma sociedade com menos tempo para o gratuito, ou seja, menos tempo para dar, gratuitamente, à dimensão do que é mais sublime numa Existência que não se questiona porque simplesmente… É, gratuitamente.
Será esta tendência para a redução do tempo para o gratuito um caminho seguro? E como entender esta tendência quando, ao mesmo tempo, se defende uma revolução de paradigmas? Quando se quer que o tempo novo seja de reencontro de afetos, de aprofundamento das relações, de partilha e disponibilidade para o(s) outro(s)? (...)
O tempo para o gratuito é tanto para o ócio como para o aprofundamento das relações. Mas o que se tem verificado é uma tendência para o encurtamento do tempo para o gratuito… com impacto na família, na simbiose obrigatória com a natureza e o meio, no salto do eu solitário para o nós solidário. 
Podemos apostar na qualidade do pouco tempo que nos é permitido para o gratuito porque, na verdade, tempo em quantidade não significa necessariamente tempo de qualidade. Este é um princípio básico nas relações humanas, nos casais, entre pais e filhos, amigos… Mas o tempo disponível para o gratuito, no jogo da interdependência, é um bem demasiado precioso. "Ninguém é uma ilha".
É no tempo que se expressa o gratuitus, o sentido maior do Ser humano. O tempo conhece todos os sistemas e todos os sistemas vivem e morrem no tempo. No movimento da história, o tempo recuperará a razão contra todos os aparentes e circunstanciais pragmatismos políticos. Nem que seja para nos dizer... é tarde demais!" 

(in SIC Online a 23.01.2012. Ler tudo aqui)

quarta-feira, 18 de março de 2009

Urge repensar conceito de "bem comum"

"Diante da profundidade da globalização e do limite cada vez mais visível dos bens do planeta, bem como a grave crise do mercado desregulado, é necessário definir novamente o conceito de bem comum, considerando que as perspectivas nacionais só incidem de forma insuficiente. Em âmbito internacional, a pressão sobre os bens naturais aumenta intensamente, e no futuro, a segurança sobre o abastecimento de matéria-prima e de alimentos determinará, de forma essencial, as relações bilaterais e multilaterais, pondo em sério risco a paz".
A conclusão consta da declaração final do Simpósio CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano)-Misereor, celebrado em Roma nos dias 6 e 7 de março passados, intitulada "O bem comum global perante a escassez de recursos".
Preocupa-nos a velocidade das mudanças e a lentidão dos processos sociais frente a elas", acrescenta ainda a declaração final.
[Texto integral disponibilizado pela agência Zenit: AQUI].

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Episódios da crise

Da crónica de Alberto Castro, no Jornal de Notícias de hoje:

1º episódio

"(...) reportagem do encerramento de mais uma fábrica. Trabalhadores em vigília, para evitarem a saída de equipamento. Incidente que se repete e que diz muito sobre os valores morais de alguns patrões. Ouve-se o espanto de uma porta-voz dos trabalhadores: "Não percebemos. A fábrica tem encomendas. Ainda ontem trabalhámos todo o dia. Tem de haver dinheiro para pagar os salários". Não lhe ocorre, não tem de lhe ocorrer, que a razão para a empresa ter encomendas seja, precisamente, o não pagar salários. Como, provavelmente, não pagará aos outros fornecedores. Assim, sem custos, ou com custos muito baixos, consegue as encomendas à custa de outras empresas que, cumprindo a lei, têm encargos muito mais elevados. Distorce-se a concorrência. Quando o mercado é estreito, como hoje em dia, há outras empresas que ficam sem trabalho. E assim se espalha a doença ao resto do tecido produtivo, antes são!"

(...)

2ºepisódio

" (...) envolvendo as expectativas suscitadas pela construção da barragem do Alqueva. Dizia o habitante de uma aldeia vizinha, sentado ao sol, "nada mudou. Continuamos à espera". Continuamos à espera! Das especiarias da Índia, do ouro do Brasil, das remessas dos emigrantes, dos fundos estruturais, do Alqueva. E, agora, do Estado. E, sempre, dos outros. É que nós, verdadeiramente, não podemos fazer nada. Nem termos iniciativa, nem sequer guiar como seres racionais, nem estacionar pensando nos outros, nem evitar deitar lixo para o chão, nem respeitar o património nacional, nem ser solidários com os outros, nem..."

3º episódio

"Outros que, como contava mais uma reportagem, às vezes sofrem de uma doença bem simples: o desamparo da solidão. Idosos, sozinhos, que precisam de uma conversa, de estar com gente. E que, por isso, chamam o INEM, desviando-o da sua missão.
Somemos dois mais dois. O aumento da longevidade fará com que situações como estas se multipliquem. Ao mesmo tempo, aumenta o rol daqueles que recebem subsídio de desemprego ou outro apoio público. Solidariedade com solidariedade se paga. Por que não ocupar uma parte do seu tempo com um "serviço cívico" que não exige outras competências que não carinho e afecto, disponibilidade para ouvir e conversar? Pensando bem sou capaz de estar a ser ingénuo, a pedir o impossível: hoje, esses são atributos difíceis de encontrar..."