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quinta-feira, 3 de maio de 2018

Traduções da Bíblia: sentimentos, experiências, chaves e uma “incrível fonte de imagens”


Babel, ou a narrativa de uma loucura totalitária
ilustração de Serge Bloch (texto de Frédéric Boyer), 
em Bible - Les récits fondateurs (ed. Bayard)

Na passada segunda-feira, decorreu em Lisboa uma reunião da Associação Bíblica Portuguesa (ABP) que, entre outras coisas, fez o ponto de situação da nova tradução da Bíblia, que está a ser preparada a pedido da Conferência Episcopal Portuguesa. Esta tradução terá a colaboração de biblistas portugueses e lusófonos, como se descreve nesta notícia. 
Em entrevista a Ângela Roque, na Rádio Renascença, o presidente da ABP, padre Mário Sousa, falou das novas perspectivas sobre esta tradução e as diferenças que se poderão vir a encontrar, em relação a anteriores trabalhos – nomeadamente, à tradução que Frederico Lourenço tem vindo a publicar, em vários volumes, desde 2016 (ed. Quetzal). A entrevista pode ser lida aqui
A propósito precisamente da tradução de Frederico Lourenço, publiquei no número do Inverno 2017 da revista Ler dois textos que a seguir se reproduzem. 


AS CHAVES DE LOURENÇO PARA ABRIR A BÍBLIA

Frederico Lourenço anda às voltas com a Bíblia e assim continuará por mais dois anos. Ganha o texto bíblico, mas também os leitores: de uma vez só, ficam com uma nova tradução da Bíblia, e um precioso conjunto de chaves de leitura sobre o contexto histórico, autores, processos de composição do texto, linguística ou personagens bíblicas. 

Uma das características que se destaca do trabalho de Frederico Lourenço com a tradução da Bíblia – cujo terceiro volume, contendo os livros proféticos do Antigo Testamento, foi publicado em Outubro passado – é a do corpusjá constituído pelas diferentes introduções (e pelas notas, que complementam muita da informação). Além da tradução propriamente dita, Frederico Lourenço acaba por realizar um segundo trabalho, de grande qualidade, com as introduções e as notas que escreve e constituem já uma importante porta de entrada na Bíblia e nos seus livros. 
Quem queira ter o mínimo de informação sobre traduções do texto bíblico, estado dos debates e os diferentes argumentos na exegese histórica e contemporânea, autores e composição dos textos, questões linguísticas atinentes à tradução, história e processo de constituição do cânone bíblico, manuscritos e variantes ou objectivo literário dos textos no seu contexto histórico, entre outros temas, tem aqui um importante guia de leitura. Como também pode ficar a conhecer melhor figuras importantes da narrativa bíblica ou ainda perceber que cada um dos textos da Bíblia muitas vezes não tem um autor único – por exemplo, Mateus, Marcos, Lucas ou João – mas muitos (ou, pelo menos, autores anónimos). 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Prémio Pessoa para Frederico Lourenço – e para a Bíblia e a cultura clássica


Frederico Lourenço foi hoje distinguido com o Prémio Pessoa 2016. O reconhecimento do júri destaca o trabalho do ensaísta e helenista na tradução dos clássicos, o que inclui a maratona a que Lourenço meteu ombros com a tradução da Bíblia dos Setenta, ou Septuaginta, uma tradução do século III a.C. feita por um conjunto de 72 sábios judeus em Alexandria do Egipto. 
Já antes, Frederico Lourenço publicara O Livro Aberto (ed. Cotovia) com um conjunto de pequenos ensaios sobre a Bíblia, no qual revelava a sua paixão pelo texto bíblico. Nesses artigos, colocando-se claramente numa posição antagónica da infeliz frase de Saramago, quando o escritor Nobel falou da Bíblia como um “manual de maus costumes”, Lourenço acaba por deixar o leitor frustrado porque não leva o seu exercício até ao fim. Ou seja, fica enredado quase numa tentação próxima da de Saramago: a de recusar a possibilidade da hermenêutica de um texto clássico.


Uma das edições da Bíblia dos Setenta (imagem reproduzida daqui)

A 8 de Outubro, publiquei na Revista E, do Expresso, um texto de recensão crítica do primeiro volume da Bíblia de Lourenço, no qual afirmava que este era o acontecimento literário do ano. Fica a seguir o texto, acrescentando, em relação ao que era dito, que a recriação da tradução da Bíblia a partir do grego é uma marca indelével deste trabalho.

A Bíblia de Lourenço, acontecimento literário do ano

A primeira observação deveria ser uma evidência: uma nova tradução da Bíblia (mesmo se ainda só com os quatro evangelhos) é o acontecimento literário do ano. A Bíblia, como refere Frederico Lourenço (na apresentação geral da obra a propósito da Bíblia grega, que serve de base a esta tradução) é “um marco da cultura universal que – pelo seu valor religioso, estético e histórico – urge conhecer”.
Seria fastidioso enumerar outros apelos do género, desde Goethe a Bono Vox ou a George Steiner. Só isso deveria bastar para reconhecer a importância de uma nova tradução bíblica. Mas, numa realidade culturalmente deficitária em várias áreas como é a portuguesa, é de temer que isso não se registe em toda a sua grandeza. É uma grande alegria, por isso, que alguém com a erudição e a qualidade reconhecida de Frederico Lourenço se abalance a traduzir a Bíblia.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Frederico Lourenço às voltas com Jesus

Livro

Neste livro, um grande intelectual português e um dos nossos maiores classicistas coloca em evidência o que deveria ser um dado cultural inquestionável: “mesmo não acreditando que a Bíblia transmita ‘sem erro’ a palavra infalível de Deus e duvidando, ao mesmo tempo, que a correcta leitura da Bíblia seja relativizar e alegorizar tudo o que lá encontremos que não nos convém, mesmo assim considero o tempo gasto a ler este mais fascinante de todos os livros tempo ganho e (porque não?) infalivelmente bem empregue.”
Frederico Lourenço repetirá esta sua paixão pela Bíblia por diversas vezes ao longo do livro. E esta atitude de reconhecimento pelo valor do texto bíblico é de destacar mais ainda, quanto ela é rara na cultura portuguesa contemporânea. E é de sublinhar ainda mais quando se sabe que o autor se afastou do catolicismo em grande parte por causa da sua homossexualidade, facto que ele recorda de várias formas, em diferentes passagens do livro.
Composto por pequenos ensaios sobre os mais diversos temas, textos e personagens da Bíblia, O Livro Aberto devolve-nos ainda o prazer imenso da leitura de um texto literariamente rico e bem escrito.
Nesse exercício, Frederico Lourenço faz um trabalho (quase) completo: ele lê, desvela, revela, decifra, comenta e interroga o texto bíblico. Usando por vezes a ironia fina, o humor ou entrando em diálogo com o leitor.
O que falta, então? Colocando-se claramente numa posição antagónica da infeliz frase de Saramago, quando o escritor Nobel falou da Bíblia como um “manual de maus costumes”, Lourenço acaba por deixar o leitor frustrado porque não leva o seu exercício até ao fim. Ou seja, fica enredado quase numa tentação próxima da de Saramago: a de recusar a possibilidade da hermenêutica de um texto clássico.
Essa frustração é tanto maior quanto, em alguns momentos, Lourenço entra nesse domínio de forma arguta. Por exemplo, quando, a propósito de algumas visões cristãs mais tradicionais sobre a família, contesta a “ênfase hiperbólica na família enquanto estrutura divinamente sancionada, quando no fundo o que Jesus não parou de dizer foi precisamente o contrário: quem segue a palavra de Deus não quer saber da sua família, porque os laços de sangue não contam para nada: o que conta são os laços espirituais”.

domingo, 10 de janeiro de 2016

O crente e o não-crente para quem “Jesus sabe bem”


Frei Bento Domingues (à esq.) e Frederico Lourenço 
(Foto Nuno Ferreira Santos/Público)


É uma conversa sobre o texto bíblico, publicada poucos dias antes do Natal: o escritor Frederico Lourenço, fascinado pelo texto bíblico, tem dificuldade em aceitá-lo como texto sagrado. O jornalista Carlos Vaz Marques levou-o ao encontro de um religioso conhecido pela sua heterodoxia. Há um aspecto em que Frei Domingues e Frederico Lourenço estão de acordo: Jesus “sabe sempre bem.

Sabe bem entrar na pequena sala do Convento de São Domingos, onde havemos de ficar a conversar longamente. O anfitrião, frei Bento Domingues, deixou previamente ligado um aquecedor que nos reconforta, depois da ventania do Alto dos Moinhos. Antes disso, foi cicerone pelos espaços do convento, onde vivem cerca de três dezenas de religiosos. Em cima da mesa, entre papelada diversa, está um exemplar de O Livro Aberto — Leituras da Bíblia (edição Cotovia), a publicação mais recente de Frederico Lourenço. Aos 52 anos, o escritor define-se como um ex-católico, à procura de uma conciliação entre o pensamento racional e a figura de Jesus. A doutrina da Igreja acerca da homossexualidade não é alheia, evidentemente, a esse corte com a prática religiosa, sendo Frederico Lourenço um gay assumido. Mas há outras dúvidas e inquietações de que dá testemunho no livro que serve de pretexto a este encontro. Frei Bento já o tinha lido quando lhe liguei desafiando-o para a conversa com o escritor. Entre concordâncias e discordâncias, salta à vista o mesmo entusiasmo pelo texto bíblico de dois leitores da Bíblia separados pela questão da fé.
(o texto pode ser lido aqui na íntegra)


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O Livro Aberto – Leituras da Bíblia

Agenda/Livro

Frederico Lourenço, professor universitário e tradutor de vários clássicos gregos, acaba de publicar O Livro Aberto – Leituras da Bíblia (ed. Cotovia)A obra será apresentada este sábado, no Porto (Teatro Nacional de São João, 19h), por Anselmo Borges, e na próxima sexta-feira, dia 13, às 18h, por José Tolentino Mendonça, na Livraria Pó dos Livros (Lisboa).
No prefácio da obra, Frederico Lourenço escreve: “ocorre-me que um jovem amigo católico, fervoroso na sua fé e entusiástico participante das actividades da sua paróquia, me disse há tempos as seguintes palavras: ‘tem graça, nunca li a Bíblia’. Se este meu livrinho – na sua forma variada de ir entretecendo reflexões sobre diferentes passagens bíblicas – levar alguém a empreender a sua leitura pessoal da Bíblia, dar-me-ei por plenamente realizado.”
Fazendo uma leitura pessoal de vários trechos, personagens e episódios bíblicos, o autor serve-se essencialmente do seu conhecimento do grego, língua em que foi escrito o Novo Testamento e a “Bíblia dos Setenta” (Septuaginta), que constituiu também a Bíblia dos primeiros cristãos.
No livro, Frederico Lourenço parte da questão geral de como é possível ler a Bíblia para se debruçar depois sobre temas e personagens diversos: Ezequiel, Job, Salomão, Ester, Jesus, São Paulo, as formas de leitura dos evangelhos ou os problemas de tradução, entre outros.
Confessando que parte de uma posição não religiosa na aproximação ao texto, o autor diz: “mesmo não acreditando que a Bíblia transmita ‘sem erro’ a palavra infalível de Deus e duvidando, ao mesmo tempo, que a correcta leitura da Bíblia seja relativizar e alegorizar tudo o que lá encontremos que não nos convém, mesmo assim considero o tempo gasto a ler este mais fascinante de todos os livros tempo ganho e (porque não?) infalivelmente bem empregue.”

Texto anterior no blogue
Francisco e o Vatileaks 2.0 - uma análise de Massimo Faggioli aos últimos casos policiais no Vaticano