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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Os retiros de um frade que levaram à intervenção política


(ilustração: Maria Helena Vieira da Silva (1908-1922), A Poesia Está na Rua, reproduzida daqui.)

Foi nos retiros e nos encontros de jovens cristãos dinamizados por frei Bento Domingues que Ana Isabel Sá Gomes Pena aprendeu “a ser cidadã” e a intervir politicamente. “E eu dizia-me não católica”, conta ela ao RELIGIONLINE, a propósito da iniciativa que, no próximo sábado, irá recordar a luta dos católicos contra a ditadura, e da qual é uma das organizadoras.
A tertúlia, a propósito dos 40 anos da revolução de 25 de Abril de 1974, decorre no Convento dos Dominicanos, em Lisboa (R. João Freitas Branco, 12), entre as 15h00 e as 18h00. Frei Bento Domingues será uma das pessoas que abre a iniciativa, que incluirá ainda depoimentos e intervenções de pessoas envolvidas na luta contra o regime fascista, além de músicas cantadas por Francisco Fanhais.
Entre os grupos e iniciativas que frei Bento Domingues se integrou esteve a dos “terceiros sábados”, sugeridos por Nuno Teotónio Pereira e pela sua mulher Natália, cuja reconstituição está ainda por fazer. Na tradição católica, várias devoções da religiosidade popular tinham um dia marcado por mês: os primeiros sábados ou as primeiras sextas-feiras, por exemplo. Os grupos católicos oposicionistas aproveitaram essa tradição para se reunirem, ao terceiro sábado de cada mês, no Colégio do Restelo das Irmãs Dominicanas e, depois, na casa das Irmãs Franciscanas, ao Campo Pequeno.
“Era uma maneira de trocarmos informação entre os diversos grupos, à sombra das reuniões sobre espiritualidade e de celebração da eucaristia”, lembra frei Bento, que nessa altura já estava envolvido na Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos.
“A finalidade era que aquele espaço fosse um alimento espiritual para os grupos católicos que criavam alternativas”, acrescenta, “de modo a que as acções dos grupos não se reduzissem a técnicas subversivas”.

Panfletos contra a guerra no São João do Porto

Um dos últimos episódios de luta católica contra a ditadura foi recordado por Manuel Pinto, então militante da Juventude Estudantil Católica e um dos autores deste blogue, num trabalho que publiquei na Visão História em Maio de 2013.
A 4 de Maio de 1973, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) publicou uma carta pastoral assinalando o 10º aniversário da encíclica Pacem in Terris, do Papa João XXIII, que tinha sido acolhida “como precioso testamento espiritual” do Papa Roncalli, que morreria a 3 de Junho de 1963, pouco depois de publicar aquele documento.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Interações do Estado e das Igrejas apresentado hoje por Jorge Sampaio e Manuel Clemente

Agenda – livro

Interações do Estado e das Igrejas é o título do livro que esta tarde será apresentado por Jorge Sampaio, ex-Presidente da República e ex-Alto Comissário da ONU para a Aliança das Civilizações, e por D. Manuel Clemente, patriarca de Lisboa e professor universitário. A sessão decorre a partir das 18h30 na biblioteca da Assembleia da República (entrada pela porta lateral do Palácio de São Bento, junto ao parque de estacionamento).
O livro reúne cinco estudos. Três deles sobre instituições e outros dois sobre pessoas. O primeiro texto, de Luís Salgado de Matos, propõe uma tipologia das relações entre Estado e igrejas (ou religiões) em 193 países soberanos: a separação à americana; a separação á francesa; as religiões de Estado; e os estados religiosos ou teocracias. Conclui que, sem separação, é raro haver liberdade religiosa, mas esta é ainda uma realidade ausente em muitos países.
O segundo estudo, de António Matos Ferreira, sugere um novo paradigma para analisar a Acção Católica Portuguesa, por cujos movimentos passaram gerações de católicos portugueses. Teresa Clímaco Leitão analisa aspectos do comportamento dos partidos democratas-cristãos durante o período revolucionário em Portugal (1974-75).
Os outros dois textos dizem respeito a duas figuras de patriarcas de Lisboa: Sérgio Ribeiro Pinto estuda o livro do cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, A Igreja e o Pensamento Contemporâneo, no qual descobre a intenção de conciliar tradição e modernidade. Paulo Fontes aborda a figura do sucessor de Cerejeira, o cardeal António Ribeiro, figura essencial na relação da Igreja com a transição para o regime democrático.

No prefácio, António Reis escreve, sobre estes dois últimos textos: “Devo confessar, insuspeito que sou pelo cargo que já desempenhei, que os ensaios aqui publicados sobre os dois patriarcas, me levaram a vê-los com um novo olhar, em que as naturais divergências filosóficas não impedem o reconhecimento da elevada estatura intelectual e moral de ambos.”