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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Amor e limites, filmes e memórias, enigmas e paz

Crónicas

O comentário de Vítor Gonçalves aos textos da liturgia católica deste Domingo começa com a sugestão de um verso para uma canção, para falar depois de “O amor e os limites”:

Da admiração por Jesus, os seus conterrâneos passam rapidamente à rejeição. É verdade que Jesus foi exigente com eles. Não fez ali os milagres que tinha feito em Cafarnaum e interpelou-os com a universalidade do amor de Deus que ultrapassa as fronteiras de Israel. Recusou a “facilidade” de uma fé “milagreira”, que só funciona com o extraordinário, em vez de se maravilhar com a vida transformada. Propôs-lhes a adesão a um amor mas limitou-lhes a sede de milagres. Quando descobriremos que o seu amor é o maior dos milagres, a vida plena sem limites? Em dia de sábado, na terra que o viu crescer, nada fez, senão apresentar-se como Salvador; como nada fará na cruz nem no sábado do sepulcro. Por isso em Nazaré, como no calvário, é levado ao cimo da colina, num ambiente que respira ódio e morte. Mas, em tom de ressurreição, passa pelo meio deles e segue o seu caminho.


Hoje, na página da Rádio Renascença, Manuel Pinto escreve sobre Spotlight, um caso que já deu frutos, a propósito do filme em exibição:

Mais do que expor os abusadores ou as suas vítimas, esta obra de McCarthy confronta-mos com a obstinação de um sistema clerical em silenciar e perpetuar o silêncio das vítimas e dos próprios jornalistas. Neste sentido, sabe bem ouvir o atual cardeal de Boston, Sean O’Malley afirmar que “os media ajudaram a Igreja a ser um lugar mais seguro para as crianças (…) obrigando-nos a lidar com o abuso sexual por parte do clero”.


Na crónica de domingo, no Público, frei Bento Domingues escrevia sobre A memória afectuosa de Deus, recordando a figura de Nuno Teotónio Pereira:

José Pedro Castanheira, na última entrevista, perguntou-lhe:  deixou de ser crente? «A certa altura, sim, muito por causa do episódio da morte da minha mulher. Não foi imediato, mas ficou sempre uma ferida. Depois meti-me na política e acabei por chegar à conclusão que o sobrenatural não me dizia nada. Mas, olhando para toda a minha vida e para a minha formação, acho que sou católico, ainda que não praticante. Sou crente».
Santa coerência.


Sábado, no DN, Anselmo Borges escreve o primeiro texto com o título O grande enigma:

É possível que Deus exista, mas também pode não existir. Ninguém pode dizer que sabe que Deus existe, mas também ninguém pode dizer que sabe que Deus não existe. Ninguém sabe se na morte encontramos a vida na sua plenitude em Deus ou se, pelo contrário, para cada pessoa tudo acaba na morte. Este é o grande enigma da vida de cada homem, de cada mulher. É o enigma da verdade metafísica última do universo: Deus como fundamento último ou um puro mundo sem Deus? 


Sexta, no CM, Fernando Calado Rodrigues escrevia sobre As religiões e a Paz, a propósito de dois encontros do Papa nos últimos dias:

O Jubileu da Misericórdia desafia a Igreja a sair de si e a construir pontes de entendimento com as outras religiões monoteístas. “A misericórdia possui uma valência que ultrapassa as fronteiras da Igreja. Ela relaciona-nos com o judaísmo e o islamismo, que a consideram um dos atributos mais marcantes de Deus”, escreveu o Papa Francisco na Bula de convocação do ano jubilar.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Terceiros Sábados: Missas, amizades e conspirações contra a guerra colonial e a ditadura

Os católicos na luta contra a ditadura (15)

A 22 de Agosto de 2015, publiquei no Expresso/Revista E, um texto reconstituindo a rede dos Terceiros Sábados, que existiu em Portugal antes do 25 de Abril de 1974 e foi dinamizada por Nuno Teotónio Pereira e pela sua mulher, Natália Duarte Silva. No dia do funeral do arquitecto (esta sexta, às 13h30, da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, que ele desenhou, com Nuno Portas, para o cemitério do Lumiar, em Lisboa), reproduzo aqui esse texto:

Eram dezenas de católicos que reuniam numa casa de freiras, em Lisboa, para celebrar a fé e se apoiar mutuamente na luta contra o fascismo e a guerra colonial. Aqui se recordam contornos inéditos e nomes da rede dos Terceiros Sábados, uma história referida em muitas memórias mas nunca antes reconstituída de modo sistemático.

Foi já depois de 25 de Abril de 1974 e os dias eram de liberdade e entusiasmo. Mas aquele baptizado de cinco crianças foi em conjunto, porque aqueles cinco casais tinham cimentado laços, em conjunto, na luta pela liberdade, contra a ditadura e a guerra colonial, antes da revolução: nos terceiros sábados de cada mês, na casa das irmãs Franciscanas Missionárias de Maria (FMM), ao Campo Pequeno, em Lisboa, dezenas de pessoas encontravam-se para reflectir, trocar informação clandestina sobre a luta contra o regime e a guerra colonial, debaterem a fé e celebrar a eucaristia. Era a forma de se apoiarem mutuamente.
O baptizado, a 13 de Julho de 1974 – dois meses e meio depois da revolução – foi presidido pelo padre Joaquim Teles de Sampaio, que regressara no início de 1973 do Macúti (Moçambique), por denunciar massacres das tropas portuguesas na guerra colonial e já não se sentir em segurança. Isabel Pinto Correia e José Pereira Neto recordam que o seu filho, Pedro Neto, foi baptizado com, pelo menos, mais três crianças, enquanto a filha de Vitória e Joaquim Pinto de Andrade teve o rito de apresentação prévio ao baptismo.
A rede dos Terceiros Sábados reuniu durante perto de três anos, entre o final de 1970 ou início de 1971, até 1973. No Verão e Outono deste ano, uma vaga de prisões de pessoas ligadas ao BAC (Boletim Anti-Colonial) – Nuno Teotónio Pereira, Luís Moita, Maria da Conceição Moita, Luiza Sarsfield Cabral, entre outros – terá tornado arriscada a continuação da iniciativa.
Nos Terceiros Sábados, cruzavam-se percursos, objectivos e estratégias diferentes. Cada participante aparecia por convite ou por um empenhamento concreto. Mas o carácter de rede informal, em que o objectivo era a celebração da eucaristia, a reflexão sobre a fé e a partilha de informação, só permite reconstruir a experiência a partir de memórias, nem sempre coincidentes e necessariamente fragmentadas
É como um puzzle onde algumas peças já não encaixam bem umas nas outras, pelo desgaste do tempo ou pelas diferentes origens. E faz-se, na impossibilidade de reconstituir todo o grupo, através de memórias de pessoas, que, em alguns casos, dizem que tiveram uma participação residual, mas que aquele espaço as marcou para a vida.
É isso mesmo que diz Luiza Sarsfield Cabral, professora de português já na época, presa por causa do seu apoio ao grupo do BAC: os Terceiros Sábados foram uma experiência fundamental no fortalecimento do apoio mútuo entre católicos e da amizade entre pessoas.

A ideia: um suporte de fé para a luta contra o regime

Terá sido a insistência de Natália e uma conversa dela e do marido, o arquitecto Nuno Teotónio Pereira, com o padre Adriano Botelho, que levou à criação dos encontros. O padre Botelho estivera exilado na Argentina e era, então, capelão no Hospital da Parede. Adriano Botelho, que morreu em 1980, tinha sido pároco de Alcântara entre 1940 e 1960, criando várias iniciativas de apoio aos mais necessitados, numa zona de Lisboa onde predominavam operários e famílias pobres. As suas homilias e, em 1960, o facto de ter testemunhado em favor de dois envolvidos na “revolta da Sé”, forçaram-no ao exílio na Patagónia, durante cerca de três anos.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O arquitecto que se despediu de Lisboa antes de cegar

Nuno Teotónio Pereira (1922-2016)

A 29 de Julho de 2012, a propósito da entrega do Prémio Árvore da Vida, do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (Igreja Católica) ao arquitecto Nuno Teotónio Pereira, publiquei no Público um texto sobre o autor da Igreja do Sagrado Coração de Jesus (o funeral de Teotónio Pereira, cujo corpo está a ser velado na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, sai amanhã, sexta-feira, às 13h30, para o cemitério do Lumiar): 



Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa, 
da autoria de Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas 
(Foto reproduzida daqui)

Cinco dias depois de ter deixado de ver de um dos olhos, em Maio de 2009, o arquitecto Nuno Teotónio Pereira, hoje com 90 anos, acordou a sentir que a outra vista estava com sintomas semelhantes. Levantou-se, saiu de casa, no bairro de São Miguel, em Lisboa, e, como habitualmente, apanhou os transportes públicos atravessando a cidade para se dirigir ao ateliê, na Rua da Alegria. Ali, arrumou todas as suas coisas.
Antes de deixar o gabinete, o arquitecto telefonou para a mulher, explicando o que se passava e dizendo que tinha que voltar ao oftalmologista. Ela pediu-lhe que apanhasse um táxi e viesse depressa. Mas Teotónio Pereira fez de novo como todos os dias: apanhou os transportes públicos. Ao entrar em casa, disse: "Despedi-me de Lisboa." À hora de jantar, perdera completamente a visão.
É um apaixonado pela cidade. Viveu sempre na capital e é em Lisboa que estão alguns dos edifícios mais marcantes que projectou: o "Franjinhas", a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, os prédios de habitação das Águas Livres, o plano e edifícios do bairro do Restelo ou o prédio de habitação social dos Olivais Norte, que lhe deu o prémio Valmor 1968.
Foi também a partir de Lisboa que se empenhou em questões como a habitação social e as rendas controladas, na criação e dinamização do Movimento de Renovação da Arte Religiosa (MRAR) e na actividade cívica e política de oposição à ditadura do Estado Novo.
(texto para continuar a ler aqui)

Texto anterior no blogue
Coisas que o Nuno talvez não saiba... - uma evocação de Nuno Teotónio Pereira, por Jorge Wemans




Coisas que o Nuno talvez não saiba…

Crédito da foto: Nuno Ferreira Santos / Público

A notícia da morte do arquitecto Nuno Teotónio Pereira suscitou ao jornalista Jorge Wemans um texto-depoimento que vem no Público de hoje e com o qual muitos certamente se identificam:
"A vida de algumas pessoas é maior do que elas. A palavra, a obra e os gestos que vão inscrevendo na história dos dias ajudam a entender o porquê desse salto qualitativo entre o que viveram – o que foram – e o significado, o impacte da sua vida em nós. Podem encontrar-se explicações de vária ordem e em diversos planos, mas há um qualquer irredutível mistério neste ganho de dimensão. São raras as pessoas cuja vida tem este lastro. São muito raras. O Nuno Teotónio Pereira foi (é) uma delas.
Conheci-o no princípio dos anos “setenta” através do filho Miguel. Aprendi a reconhecê-lo em muitos dos acontecimento que antes disso foram marcos da oposição ao regime salazarista. E em muitas outras realizações que permitiram relações, pensamento, desenhos e obra inovadores. Aprendi com ele a urgência de agir, aquele inesquecível olhar entrando-nos pela alma dentro para, em silêncio, nos gritar as tarefas, a faina, a parte para que tínhamos préstimo e era já ontem o tempo de as materializar. Lembro-me do seu sorriso e da sua irresistível capacidade de pôr toda a gente que conhecia – e ele conhecia toda a gente! – a mexer, a relacionar-se entre si. E em tudo isto, o Nuno nunca reclamava louros nenhuns, parecia sempre que outros haviam feito o que ele permitira que acontecesse.
Hoje quero recordar que ao Nuno devo a possibilidade de ter encontrado um caminho, um modo, uma inquietação para me dizer cristão. Naquele tempo, depois e hoje. Não era fácil então, no início dos anos setenta, ser jovem, lutar contra o regime e a guerra colonial, denunciar o modo como a igreja católica apoiava o salazarismo, mesmo sem Salazar, e… manter-se crente. O Nuno foi para mim essa inspiração, essa referência, que me permitiu manter entreaberta a improvável janela da fé. E continuou a ser, mesmo depois de se ter deixado de rever como cristão. Sei que para muitos outros e outras da minha geração também assim foi. (…)”
[texto completo AQUI]
Texto anterior no blogue
Um derrotado e uma esperança invencível - a crónica de frei Bento Domingues


quinta-feira, 17 de abril de 2014

Os católicos na luta contra a ditadura (10) - O "dedo" católico na libertação de Abril



Maria da Conceição Moita a ser libertada de Caxias, 
na noite de 26 de Abril de 1974

Maria da Conceição Moita era uma das pessoas que estava presa em Caxias no dia 25 de Abril de 1974. Detida a 6 de Dezembro de 1973, onze meses depois de ter lido, na Capela do Rato, o manifesto dos cristãos que ali decidiram permanecer em vigília de oração pela paz, ela recorda, nesta entrevista à Ecclesia, esses tempos da militância por um país livre, bem como os dias da sua prisão e da libertação.
Na conversa com Paulo Rocha, Conceição Moita diz que a liberdade reconquistada a 26 de Abril, já noite, “teve um significado pessoal enorme”. Era a saída do “cativeiro”, pois já tinha passado por sessões de tortura e dias de isolamento. Mas ela significou também “a libertação do meu país, que tanto desejava” e o “fim da ditadura e a conquista da palavra ‘liberdade’ que faltava”.
As encíclicas dos papas João XXIII e Paulo VI tiveram um papel importante na consciencialização de muitos católicos, recorda ainda Conceição Moita. Esses documentos “apontavam para a grande importância do desenvolvimento humano, da democracia e da vivência em liberdade, o que era incompatível com o que acontecia em Portugal” e com a guerra nas colónias, diz.
“Houve pessoas e marcos de referência. Mas a tomada de consciência da situação em que se vivia aconteceu em grupo. Aí debatíamos e combinávamos como ajudar outros cristãos a tomar consciência destas realidades, concertávamos estratégias para ações concretas”, recorda. “E estas ações foram cada vez mais importantes à medida que nos aproximávamos do 25 de abril. Aumentava o número de participantes, de vários quadrantes e com várias sensibilidades políticas que tomavam medidas quer pessoais quer em grupo para dar volta à situação”, aponta ainda, como também se conta no texto Histórias do catolicismo militante que salvou a Igreja.

sábado, 5 de abril de 2014

Os católicos na luta contra a ditadura (4) – Uma acção que construiu pontes e se foi ampliando

25 de Abril, 40 anos
Depoimento de Nuno Teotónio Pereira


Nuno Teotónio Pereira (foto reproduzida daqui)

Na tertúlia sobre “os católicos na luta contra a ditadura”, realizada a 22 de Fevereiro (ver textos aqui e aqui), foi lido o seguinte depoimento do arquitecto Nuno Teotónio Pereira:

Caras e caros participantes na tertúlia sobre “Os católicos na luta contra a Ditadura”
Não podendo estar entre vós neste momento, saúdo esta iniciativa do movimento Não Apaguem a Memória e do Instituto S. Tomás de Aquino, dada a importância histórica dos acontecimentos de que se ocupará, que estão a cair no esquecimento.
Quando Salazar chegou ao poder, primeiro como ministro das Finanças e pouco depois nomeado Presidente do Conselho, recebeu o apoio massivo dos católicos, o qual persistiu durante muitos anos, apesar do carácter cada vez mais ditatorial do regime. Isso terá porventura acontecido por causa do poder que a Igreja deteve em Portugal durante séculos, que apenas começou a ser contestado após a instauração da República em 1910.
Só assim se pode explicar esse apoio à ditadura salazarista durante tanto tempo e a sua indiferença perante os meios da repressão que o regime impunha e que se sobrepunham, por vezes, à própria Igreja.
De entre estes meios repressivos, os mais cruéis foram sem dúvida a polícia política, que chegava a exercer o seu domínio sobre as direções de todos os grupos de carácter associativo, incluindo os sindicatos de trabalhadores (eu próprio fui por duas vezes excluído da direção do Sindicato dos Arquitetos, apesar de eleito para o cargo), e a censura totalitária que abrangia todo o tipo de publicações e ações culturais.
No que respeita à censura, a atividade era tão despudorada, que todos os jornais publicavam na primeira página um pequeno retângulo onde se lia “Este número foi visado pela Comissão de Censura”.
Quanto à polícia política eram conhecidos os vexames e as torturas por que passavam anualmente centenas de cidadãs e cidadãos.
Perante esta situação ditatorial que durou mais de quatro décadas, a esmagadora maioria da população, que se dizia católica, permanecia de braços cruzados, incluindo o Episcopado, que se mantinha solidário com o regime, não ousando exprimir qualquer crítica ou, sequer, dúvida.
Foi neste quadro que o então bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, escreveu em 1958 uma carta a Salazar na qual denunciava alguns aspetos da situação. Este documento que, evidentemente, não pôde ser publicado em qualquer órgão informativo, levou alguns católicos, que entretanto haviam começado a denunciar os crimes do salazarismo, nomeadamente no seio da chamada Ação Católica, a organizar ações de protesto, através de encontros e publicações clandestinas, assim como de cartas abertas e abaixo-assinados públicos. Entre todos, não posso deixar de citar o P. Abel Varzim e o Engº. Francisco Lino Neto, e ainda minha mulher Maria Natália Duarte Silva, que participou ativamente em todas estas iniciativas.
Mais tarde, na década de 1960, o foco passou a ser a denúncia da guerra colonial, vista como uma injustiça intolerável que atingia o povo português e os povos africanos sob dominação portuguesa e que constituía o “calcanhar de Aquiles” do regime. A luta pela paz, vivificada pelo Concílio Vaticano II e pelas novas responsabilidades reconhecidas aos leigos na Igreja, tornou-se central no pensamento e nas atividades dos então chamados “católicos progressistas”.
A ação dos católicos na luta contra a Ditadura foi-se progressivamente ampliando, ao longo dos anos, sendo uma das suas mais interessantes características o facto de ter construído pontes com muitos outros sectores da sociedade portuguesa – trabalhadores, intelectuais, estudantes – independentemente das suas crenças religiosas. Talvez por esta razão, o seu impacto foi muito além do que o número de pessoas realmente envolvidas o poderia fazer supor.

Lisboa, 16 de fevereiro de 2014

(título do RELIGIONLINE; os depoimentos desta série e os testemunhos da tertúlia referida serão em breve publicados na revista Cadernos do ISTA – ver também aqui)

Próximo texto
Dia 8 de Abril: A teologia como dissensão  

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Os retiros de um frade que levaram à intervenção política


(ilustração: Maria Helena Vieira da Silva (1908-1922), A Poesia Está na Rua, reproduzida daqui.)

Foi nos retiros e nos encontros de jovens cristãos dinamizados por frei Bento Domingues que Ana Isabel Sá Gomes Pena aprendeu “a ser cidadã” e a intervir politicamente. “E eu dizia-me não católica”, conta ela ao RELIGIONLINE, a propósito da iniciativa que, no próximo sábado, irá recordar a luta dos católicos contra a ditadura, e da qual é uma das organizadoras.
A tertúlia, a propósito dos 40 anos da revolução de 25 de Abril de 1974, decorre no Convento dos Dominicanos, em Lisboa (R. João Freitas Branco, 12), entre as 15h00 e as 18h00. Frei Bento Domingues será uma das pessoas que abre a iniciativa, que incluirá ainda depoimentos e intervenções de pessoas envolvidas na luta contra o regime fascista, além de músicas cantadas por Francisco Fanhais.
Entre os grupos e iniciativas que frei Bento Domingues se integrou esteve a dos “terceiros sábados”, sugeridos por Nuno Teotónio Pereira e pela sua mulher Natália, cuja reconstituição está ainda por fazer. Na tradição católica, várias devoções da religiosidade popular tinham um dia marcado por mês: os primeiros sábados ou as primeiras sextas-feiras, por exemplo. Os grupos católicos oposicionistas aproveitaram essa tradição para se reunirem, ao terceiro sábado de cada mês, no Colégio do Restelo das Irmãs Dominicanas e, depois, na casa das Irmãs Franciscanas, ao Campo Pequeno.
“Era uma maneira de trocarmos informação entre os diversos grupos, à sombra das reuniões sobre espiritualidade e de celebração da eucaristia”, lembra frei Bento, que nessa altura já estava envolvido na Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos.
“A finalidade era que aquele espaço fosse um alimento espiritual para os grupos católicos que criavam alternativas”, acrescenta, “de modo a que as acções dos grupos não se reduzissem a técnicas subversivas”.

Panfletos contra a guerra no São João do Porto

Um dos últimos episódios de luta católica contra a ditadura foi recordado por Manuel Pinto, então militante da Juventude Estudantil Católica e um dos autores deste blogue, num trabalho que publiquei na Visão História em Maio de 2013.
A 4 de Maio de 1973, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) publicou uma carta pastoral assinalando o 10º aniversário da encíclica Pacem in Terris, do Papa João XXIII, que tinha sido acolhida “como precioso testamento espiritual” do Papa Roncalli, que morreria a 3 de Junho de 1963, pouco depois de publicar aquele documento.