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quinta-feira, 26 de abril de 2018

Católicos, 25 de Abril e um pedagogo da democracia

A figura do padre Manuel Antunes, “sábio como poucos”, cujo centenário do nascimento começou a ser comemorado, e o papel dos católicos na resistência ao regime do Estado Novo foram evocados ontem, 25 de Abril, no programa Ecclesia, a propósito dos 44 anos da “revolução dos cravos”. Nesta segunda parte, José Leitão, presidente do Centro de Reflexão Cristã, recorda, em entrevista, a participação de muitos católicos quer na última fase da ditadura quer nos primeiros anos da construção da democracia. 
O programa pode ser visto aqui. 



sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Terceiros Sábados: Missas, amizades e conspirações contra a guerra colonial e a ditadura

Os católicos na luta contra a ditadura (15)

A 22 de Agosto de 2015, publiquei no Expresso/Revista E, um texto reconstituindo a rede dos Terceiros Sábados, que existiu em Portugal antes do 25 de Abril de 1974 e foi dinamizada por Nuno Teotónio Pereira e pela sua mulher, Natália Duarte Silva. No dia do funeral do arquitecto (esta sexta, às 13h30, da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, que ele desenhou, com Nuno Portas, para o cemitério do Lumiar, em Lisboa), reproduzo aqui esse texto:

Eram dezenas de católicos que reuniam numa casa de freiras, em Lisboa, para celebrar a fé e se apoiar mutuamente na luta contra o fascismo e a guerra colonial. Aqui se recordam contornos inéditos e nomes da rede dos Terceiros Sábados, uma história referida em muitas memórias mas nunca antes reconstituída de modo sistemático.

Foi já depois de 25 de Abril de 1974 e os dias eram de liberdade e entusiasmo. Mas aquele baptizado de cinco crianças foi em conjunto, porque aqueles cinco casais tinham cimentado laços, em conjunto, na luta pela liberdade, contra a ditadura e a guerra colonial, antes da revolução: nos terceiros sábados de cada mês, na casa das irmãs Franciscanas Missionárias de Maria (FMM), ao Campo Pequeno, em Lisboa, dezenas de pessoas encontravam-se para reflectir, trocar informação clandestina sobre a luta contra o regime e a guerra colonial, debaterem a fé e celebrar a eucaristia. Era a forma de se apoiarem mutuamente.
O baptizado, a 13 de Julho de 1974 – dois meses e meio depois da revolução – foi presidido pelo padre Joaquim Teles de Sampaio, que regressara no início de 1973 do Macúti (Moçambique), por denunciar massacres das tropas portuguesas na guerra colonial e já não se sentir em segurança. Isabel Pinto Correia e José Pereira Neto recordam que o seu filho, Pedro Neto, foi baptizado com, pelo menos, mais três crianças, enquanto a filha de Vitória e Joaquim Pinto de Andrade teve o rito de apresentação prévio ao baptismo.
A rede dos Terceiros Sábados reuniu durante perto de três anos, entre o final de 1970 ou início de 1971, até 1973. No Verão e Outono deste ano, uma vaga de prisões de pessoas ligadas ao BAC (Boletim Anti-Colonial) – Nuno Teotónio Pereira, Luís Moita, Maria da Conceição Moita, Luiza Sarsfield Cabral, entre outros – terá tornado arriscada a continuação da iniciativa.
Nos Terceiros Sábados, cruzavam-se percursos, objectivos e estratégias diferentes. Cada participante aparecia por convite ou por um empenhamento concreto. Mas o carácter de rede informal, em que o objectivo era a celebração da eucaristia, a reflexão sobre a fé e a partilha de informação, só permite reconstruir a experiência a partir de memórias, nem sempre coincidentes e necessariamente fragmentadas
É como um puzzle onde algumas peças já não encaixam bem umas nas outras, pelo desgaste do tempo ou pelas diferentes origens. E faz-se, na impossibilidade de reconstituir todo o grupo, através de memórias de pessoas, que, em alguns casos, dizem que tiveram uma participação residual, mas que aquele espaço as marcou para a vida.
É isso mesmo que diz Luiza Sarsfield Cabral, professora de português já na época, presa por causa do seu apoio ao grupo do BAC: os Terceiros Sábados foram uma experiência fundamental no fortalecimento do apoio mútuo entre católicos e da amizade entre pessoas.

A ideia: um suporte de fé para a luta contra o regime

Terá sido a insistência de Natália e uma conversa dela e do marido, o arquitecto Nuno Teotónio Pereira, com o padre Adriano Botelho, que levou à criação dos encontros. O padre Botelho estivera exilado na Argentina e era, então, capelão no Hospital da Parede. Adriano Botelho, que morreu em 1980, tinha sido pároco de Alcântara entre 1940 e 1960, criando várias iniciativas de apoio aos mais necessitados, numa zona de Lisboa onde predominavam operários e famílias pobres. As suas homilias e, em 1960, o facto de ter testemunhado em favor de dois envolvidos na “revolta da Sé”, forçaram-no ao exílio na Patagónia, durante cerca de três anos.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Papas ausentes, perigos presentes, liberdade na Páscoa e padres casados

O texto da série 25 de Abril – 40 anos, anunciado para hoje (Terceiros Sábados, uma rede de amizade e conspirações – uma reconstituição inédita) será publicado até final desta semana.

Crónicas

Nas crónicas de imprensa do fim-de-semana passado, estiveram em foco as canonizações de João XXIII e João Paulo II, proclamadas pelo Papa Francisco no dia 27 de Abril, em Roma. Sob o título Papas ausentes, Fernando Calado Rodrigues escreveu no CM:

Paulo VI foi o timoneiro que assumiu o leme do Concílio Vaticano II, convocado pelo seu antecessor, e o soube levar a bom porto. Ficou, assim, ligado à maior reforma da Igreja desde o concílio de Trento, quinhentos anos antes.
João Paulo I (...) Era um bom comunicador. Criou uma relação empática com as pessoas, que o cognominaram de “Papa do Sorriso”. Tal como Francisco, nas audiências gerais interagia com os assistentes, “entrevistava” crianças e jovens.
(o texto integral pode ser lido aqui)


No DN de sábado, Anselmo Borges escreve, sob o título Canonizações e seus perigos:

Num dos estudos mais fiáveis que se fizeram mostra-se que "de 1938 casos examinados de santos canonizados, 78% pertenceram à classe alta, 17% à classe média e só 5% à classe baixa".
E lá está a magnificência de uma canonização, que pode ferir a simplicidade do Evangelho. Quando se trata de canonizar papas, sobrevém o perigo da endogamia e da canonização do poder.
(o texto integral pode ser lido aqui)


Antes, no comentário às leituras do II Domingo da Páscoa (27 de Abril), Vítor Gonçalves escreveu também acerca da canonização. Sob o título Enviados, referiu ainda os 40 anos do 25 de Abril:

Por estes dias celebramos a liberdade que o 25 de Abril de 1974 “abriu”. E conjugamos de diversas formas a responsabilidade que toda a liberdade reclama. Assim na vida e na fé. A liberdade que a Páscoa de Jesus trouxe, é responsabilidade de todos pelo mundo novo que podemos construir. Ninguém deixou de ser enviado!
(o texto integral pode ser lido aqui)


Domingo passado, no Público, frei Bento Domingues escreveu sobre Padres casados na Igreja Católica? Depois de uma breve história sobre a definição do celibato no catolicismo, afirmava:

Dir-se-á, e com verdade, que a história já deu muitas voltas, já passou por fases muito diferentes, antes e depois do Concílio de Trento. Não se tendo conseguido respeitar a possibilidade de optar pelo celibato ou pelo casamento, as consequências estão à vista. As comunidades cristãs são privadas da Eucaristia, o sacramento dos sacramentos. Sem olhar de frente esta questão, continuaremos a lamentar obstáculos que nós próprios criamos.
(o texto integral pode ser lido aqui)



sexta-feira, 2 de maio de 2014

A luta dos católicos contra a ditadura (14) – A falta de lucidez da Igreja Católica em relação à guerra colonial

25 de Abril, 40 anos

(texto publicado a 21 de Abril de 1999, no Público, a propósito do livro Lisboa no Tempo do Cardeal Cerejeira – Um Testemunho, do padre Luís Mafra, assistente da Acção Católica; mantiveram-se as referencias temporais)



“Como a Igreja não tomava qualquer posição, dava a impressão de que estava a apoiar o Governo.” O padre Luís de Azevedo Mafra, antigo assistente de movimentos de Acção Católica no tempo do cardeal Cerejeira, sintetiza deste modo a atitude dominante da Igreja Católica e da sua hierarquia em relação ao regime do Estado Novo e aos diversos episódios da relação entre as duas instituições. Um livro de memórias e documentos faz um balanço de uma época.
“A grande base de sustentação do Estado Novo não foram tanto os nacionalistas, mas os católicos” e se, em relação ao regime e à guerra colonial, a Igreja Católica “tivesse sido mais lúcida, como alguns dos seus membros o foram, e tomado uma atitude, não revolucionária, mas mais justamente crítica, independente, corajosa e menos conformista, a situação não teria durado tanto tempo”.
Esta é uma ideia defendida por muita gente, mas ela adquire maior importância vinda de quem vem: o padre Luís de Azevedo Mafra, 72 anos, antigo assistente de movimentos de Acção Católica. No seu livro Lisboa no Tempo do Cardeal Cerejeira – Um Testemunho (ed. Centro de Estudos de História Religiosa/Universidade Católica Portuguesa), de onde a citação é retirada, o autor reúne um conjunto de notas e excertos dos seus diários pessoais, para recordar algumas facetas do antigo patriarca de Lisboa e o modo como ele agiu em diversos episódios de conflito entre a Igreja e o regime e referentes à estruturação pastoral do patriarcado.
Um deles foi a viagem do então Papa Paulo VI a Bombaim, na Índia, em 1964, que Salazar tomou como uma afronta, já que se realizava três anos depois de a União Indiana ter anexado as possessões portugueses no seu território (Goa, Damão e Diu). Para muitos católicos, o silêncio dos bispos em relação às críticas de Salazar ao Papa era muito constrangedor. E, por todo o país, padres e leigos pressionavam para que o episcopado tomasse uma posição de defesa do Papa.
O padre Mafra foi um dos que escreveu a Cerejeira nesse sentido, dando-lhe conta do embaraço de muitos católicos. “A situação era equívoca. Como a Igreja não tomava qualquer posição, dava a impressão de que estava a apoiar o Governo” nas críticas ao Papa, explica Luís Mafra. Na sequência da carta, o cardeal Cerejeira chamou o padre para conversar com ele e explicar-lhe as suas razões. “Foi um encontro elucidativo: ele não estava na disposição de clarificar as coisas, nadava em águas turvas pelo receio de trazer prejuízos para a Igreja. Negava que a Igreja estivesse do lado do Governo, mas receava que uma atitude crítica fosse prejudicial para a Igreja”. E conclui, em forma de síntese sobre o grau de simpatia de Cerejeira para com o regime: “Não era fascista, mas não era propriamente um democrata.”

“O falar pode fazer desabar tudo...”

No seu livro, o antigo assistente da Acção Católica cita o que registou no seu diário, reproduzindo os argumentos do patriarca de Lisboa: “[A Igreja] não porá nunca a hipótese de afirmar o que não é verdade ou de abdicar da defesa dos valores fundamentais. Mas, fora deste caso, não será mais sensato calar-se quando o falar pode fazer desabar tudo?”

terça-feira, 29 de abril de 2014

Os católicos na luta contra a ditadura (13) – Memórias de uma tripla libertação

25 de Abril, 40 anos

No programa Ecclesia, Maria da Conceição Moita e Jorge Wemans recordaram histórias e memórias da luta dos católicos contra o Estado Novo e do que significou a libertação do 25 de Abril. Para ver aqui:



Os 40 anos do 25 de Abril de 1974 continuam a motivar outras crónicas e textos. No DN de sábado passado, Anselmo Borges escrevia, sob o título 40 anos depois:

Precisamos de mais e melhor democracia. Temos de assumir todos mais responsabilidade na coisa pública. Precisamos de um consenso mínimo entre os partidos sobre temas fundamentais, como a reforma do Estado, a justiça social, o investimento reprodutivo para criar riqueza e emprego. Precisamos de insubordinação frente à plutocracia e de assegurar a dignidade de todos. Precisamos de erguer o futuro pela educação. Se, por insanidade do poder político, os sacrifícios entretanto feitos forem deitados a perder, é preciso preparar-se para o pior.
(o texto pode ser lido aqui na íntegra)

Na agência Ecclesia, também alguns investigadores fazem um curto balanço do impacto da revolução na Igreja Católica em Portugal:

(...) Jorge Revez dedica a sua reflexão aos chamados “vencidos do catolicismo”, crentes que, a seguir ao Concílio, colocaram grandes esperanças na reforma da Igreja, e inclusivamente na mudança de atitude da hierarquia católica face ao Estado Novo. (...)
“A efervescência daquele período revela-nos uma reconfiguração da identidade católica, em especial o relevo que as questões da liberdade e da cidadania assumem para alguns destes homens e mulheres”, conclui.
(o texto pode ser lido aqui na íntegra)


Sob o título Abril Católico, Fernando Calado Rodrigues dedica a sua crónica de sexta no Correio da Manhã aos trabalhos deste blogue sobre a luta dos católicos contra a ditadura; para concluir:

Quarenta anos depois, o país e a Igreja continuam a precisar que os leigos aprofundem os seus conhecimentos teológicos. Que debatam os problemas que afetam a humanidade à luz dos valores do Evangelho. E que se empenhem na “ação militante” contra a “ditadura dos mercados” e a “economia que mata”.
(o texto pode ser lido aqui na íntegra)


Próximo texto, dia 2 de Maio
A falta de lucidez da Igreja em relação à guerra colonial (anunciado inicialmente para dia 28 de Abril)

O texto anterior desta série pode ser lido aqui.


Textos anteriores do blogue: sobre as canonizações de domingo passado: crónica de frei Bento Domingues, notícia da homilia do Papa Francisco e um dossiê sobre o tema; e ainda uma notícia sobre a tenda de oração no Enterro do Ano da Universidade de Aveiro. 

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Os católicos na luta contra a ditadura (12) – Os 150 missionários que a PIDE queria expulsar

25 de Abril, 40 anos


Capa do Diário de Notícias de 28 de Março de 1974, 
com a notícia do comunicado dos bispos moçambicanos 
a demarcar-se dos Missionários Combonianos e do bispo de Nampula

Um relatório da PIDE elaborado 10 meses antes do 25 de Abril propunha que se prescindisse do trabalho missionário de vários institutos religiosos. Feitas as contas, a decisão levaria à expulsão de 155 padres. As autoridades não seguiram a sugestão mas, em Fevereiro de 1974, o regime acabou por mandar embora de Moçambique mais 11 missionários e um bispo. Por causa de um “imperativo de consciência”. 
(Texto publicado no Público de 23 de Abril de 1999; apenas foram actualizadas as referências temporais)

A situação político-religiosa de Moçambique em Junho de 1973, dez meses antes do 25 de Abril de 1974, era considerada pela PIDE/DGS como “causando graves apreensões” nas áreas das dioceses da Beira e de Tete. Num relatório pormenorizado sobre a presença da Igreja Católica naquele Estado “e suas implicações com a segurança”, a PIDE concluía que a situação ficaria melhor “se fosse possível prescindir dos Institutos de Burgos, Capuchinhos de Trento, Combonianos, Sagrado Coração de Jesus e Padres dos Sagrados Corações”.
Ao propor esta medida, o relatório da polícia política do Estado Novo estava a sugerir a expulsão de 155 missionários que trabalhavam em todo o território moçambicano. Nessa altura, o número total de padres a trabalhar em Moçambique (entre autóctones e estrangeiros) era de uns 550. O que, a concretizar-se a ideia expressa no relatório dirigido ao governador de Moçambique, significava expulsar mais de um quarto dos membros do clero católico. Isto, já depois de terem sido expulsos do território, entre 1971 e 1972, vários membros dos Padres Brancos, dos Padres de Burgos e dos Missionários Combonianos.
Na alínea c) do relatório, já citada, o director da delegação da PIDE em Moçambique acrescenta que, se se prescindisse dos missionários referidos, “beneficiariam as dioceses afectadas e as que se prevê virem a sê-lo”. E, se isso não se concretizasse, “a subversão violenta” iria estender-se “a novas áreas ainda não afectadas”, tudo levando a crer que surgiriam “implicações mais graves com a segurança”.
A informação nº 86/73/DI/2/SC-G.G., com 31 páginas dactilografadas, traça um panorama completíssimo do que era a posição dos missionários em relação ao estatuto da então colónia portuguesa, dos casos considerados mais perigosos para a segurança do Estado, das opiniões dos respectivos bispos e das missões que ofereciam preocupações às autoridades do Estado Novo.

Pides a fazer teologia

O relatório começava por se referir ao “estado da questão”, com um “vasto campo de análise em que factores de ordem religiosa, social e política se entrechocam, tornando o tema melindroso e difícil”. E entrava depois por conceitos teológicos: “Tendo em conta que o conceito de Igreja envolve não só a hierarquia mas também todos os católicos (binómio Igreja/Corpo Místico), a principal limitação que nos surge é a impossibilidade de seguirmos atentamente o comportamento político-religioso dos leigos. Alguns destes tentavam “a escalada de pastorais ultra-modernas à luz da actual doutrina social”. Mas, como não eram muitos, “os seus voos são perfeitamente controlados ou controláveis” pelos bispos.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Os católicos na luta contra a ditadura (11) - Tribuna Livre, ou o 25 de Abril dos padres

25 de Abril, 40 anos

A história do grupo de padres que condenou a ligação da Igreja ao Estado Novo e que os bispos proibiram de se reunir em Fátima – e a carta inédita que 106 padres de Lisboa escreveram ao cardeal Cerejeira dizendo-lhe quem e porquê deveria ser o seu sucessor como patriarca 
(texto publicado no Público a 18 de Abril de 1999; o texto foi mantido tal como publicado naquela data, incluindo todas as referências temporais)


Chamavam-se “Tribuna Livre”. Eram padres de vários pontos do país que, durante meses, abalaram o frágil equilíbrio em que se encontrava a Igreja Católica e não esconderam a sua oposição ao regime. Proibidos pelos bispos de se reunirem em Fátima, não desistiram, criticaram a colagem da hierarquia ao poder político e o medo que se vivia na sociedade e na instituição eclesiástica. Isto, dois anos depois de muitos deles terem assinado uma carta a propor quem devia substituir o cardeal Cerejeira como patriarca de Lisboa...


Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira (foto reproduzida daqui)

Há quase 30 anos, em Novembro de 1969, um grupo de 67 padres de cinco dioceses do país era forçado a procurar uma alternativa a Fátima para se poder reunir e pensar a sua missão numa sociedade em mudança.
Perante a emergência, o então prior do Entroncamento resolveu bem o problema: “Telefonaram-me à última hora. Era difícil arranjar alojamentos mas, nas missas de domingo, fiz um apelo a quem estivesse disponível para receber colegas meus e contratei um restaurante em frente da estação para as refeições”, recorda agora Carlos Leonel Santos, editor na Multinova.
Duas semanas antes, o cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, então patriarca de Lisboa, tinha sabido da preparação do encontro e escrevera uma carta ao clero da sua diocese a contestar a “obra dissolvente” que o encontro significava. O episcopado, entretanto reunido, manifestou-se também contra os padres “marginais”. Acto contínuo, o bispo de Leiria proibiu todas as casas religiosas de Fátima de receber o grupo. Perante a interdição, os organizadores decidiram manter a convocatória, mudando de lugar e recorrendo ao salão paroquial do Entroncamento.
Era um encontro com claro fundo político, admite Manuel Tiago Martins, 61 anos, então pároco de Tremez (Santarém) e hoje professor do ensino secundário em Queluz. “Mas o seu objectivo era fundamentalmente religioso. Pretendíamos reflectir sobre a nossa missão numa sociedade em mudança, na qual já se pressentia que era impossível aos padres continuarem a colaborar com a hierarquia [católica] ligada ao sistema.”
A realização do encontro não caía do céu, mas começara um ano antes: depois do Verão de 1968, um grupo de padres da diocese de Lisboa começou a encontrar-se mensalmente. Das conversas informais, para troca de ideias e de informação, rapidamente se passou à constituição do grupo “Tribuna Livre”. Apoio mútuo, partilha de reflexões, troca de informação dos vários grupos de oposição católica ao regime eram alguns dos fins que o grupo se propunha. Rapidamente surgiu a ideia de alargar o debate a padres de outros pontos do país, através da realização de um encontro que debatesse a “rentabilidade” evangélica do seu trabalho como padres.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Os católicos na luta contra a ditadura (10) - O "dedo" católico na libertação de Abril



Maria da Conceição Moita a ser libertada de Caxias, 
na noite de 26 de Abril de 1974

Maria da Conceição Moita era uma das pessoas que estava presa em Caxias no dia 25 de Abril de 1974. Detida a 6 de Dezembro de 1973, onze meses depois de ter lido, na Capela do Rato, o manifesto dos cristãos que ali decidiram permanecer em vigília de oração pela paz, ela recorda, nesta entrevista à Ecclesiaesses tempos da militância por um país livre, bem como os dias da sua prisão e da libertação.
Na conversa com Paulo Rocha, Conceição Moita diz que a liberdade reconquistada a 26 de Abril, já noite, “teve um significado pessoal enorme”. Era a saída do “cativeiro”, pois já tinha passado por sessões de tortura e dias de isolamento. Mas ela significou também “a libertação do meu país, que tanto desejava” e o “fim da ditadura e a conquista da palavra ‘liberdade’ que faltava”.
As encíclicas dos papas João XXIII e Paulo VI tiveram um papel importante na consciencialização de muitos católicos, recorda ainda Conceição Moita. Esses documentos “apontavam para a grande importância do desenvolvimento humano, da democracia e da vivência em liberdade, o que era incompatível com o que acontecia em Portugal” e com a guerra nas colónias, diz.
“Houve pessoas e marcos de referência. Mas a tomada de consciência da situação em que se vivia aconteceu em grupo. Aí debatíamos e combinávamos como ajudar outros cristãos a tomar consciência destas realidades, concertávamos estratégias para ações concretas”, recorda. “E estas ações foram cada vez mais importantes à medida que nos aproximávamos do 25 de abril. Aumentava o número de participantes, de vários quadrantes e com várias sensibilidades políticas que tomavam medidas quer pessoais quer em grupo para dar volta à situação”, aponta ainda, como também se conta no texto Histórias do catolicismo militante que salvou a Igreja.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

D. José: Uma voz tranquila no palco da democracia

Texto de António Marujo e Jorge Wemans


É hoje posto à venda o livro D. José Policarpo – Uma Voz Tranquila no Palco da Democracia (ed. Paulinas). Nele se recolhe uma entrevista que ambos fizemos ao então novo patriarca de Lisboa, em 1999, por altura dos 25 anos do 25 de Abril de 1974. Quinze anos depois, a entrevista mantém plena actualidade, pois os temas tratados – a democracia, o Estado social, o papel da Igreja na sociedade pluralista – estão agora, mais do que nunca, no centro do debate político e social.
Nessa entrevista, D. José apontava o 25 de Abril como um dos três momentos marcantes na história de Portugal – a par da fundação da nacionalidade e do ciclo das Descobertas. E admitia também, pela primeira vez, que pudesse haver mulheres ordenadas, na sequência de um processo de amadurecimento e discernimento no interior da Igreja.
Aqui pode ler-se uma notícia, dois excertos e o índice do livro.
A seguir, fica o esboço de um perfil da figura de D. José Policarpo.


Não foi um caminho fácil

Nem sempre o caminho foi fácil. Era o que ele dizia ao fazer o balanço da relação da Igreja com a sociedade nas últimas três décadas do século XX. Mas a síntese pode aplicar-se à vida e obra do próprio José da Cruz Policarpo, patriarca de Lisboa entre 1998 e 2013. Alguns dos momentos marcantes que protagonizou enquanto padre, bispo ou patriarca confirmam essa sua percepção de um caminho difícil. Perante os conflitos, os imperativos de consciência, as crises institucionais e as questões de fronteira procurou manter um estilo apaziguador servido pelo seu modo civilizado, culto, fluente. Ao contrário do que seria de esperar de um homem intelectualmente respeitado, evitou as rupturas e deixa sobretudo uma herança marcada por uma gestão à procura de equilíbrios e consensos. O que não significa que alguns dos seus gestos não tenham sido polémicos.
Um dos últimos episódios simbolizou alguns aspectos da sua acção, pensamento e carácter. Em Julho de 2011, quatro meses depois de completar 75 anos e de a Santa Sé lhe ter solicitado que continuasse como patriarca de Lisboa por mais um tempo, o patriarca de Lisboa recebeu uma carta do cardeal William Levada, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano, com uma séria reprimenda. Em causa, estava a afirmação de D. José, numa entrevista à revista da Ordem dos Advogados (OA), de que “não há nenhum obstáculo fundamental” à ordenação de mulheres. A carta do Vaticano obrigou-o a retractar-se publicamente: seria “doloroso” que tais palavras “pudessem gerar confusão” na adesão “à Igreja e à palavra do Santo Padre”, escreveu. O recuo foi notado ainda mais por se saber que, um mês antes, um bispo australiano tinha sido demitido por ter defendido a mesma opinião. E o Vaticano não hesitaria em novo castigo, mesmo perante um cardeal e patriarca.

sábado, 12 de abril de 2014

Os católicos na luta contra a ditadura (7) - Estava a preparar uma aula e a PIDE bateu-me à porta

25 de Abril, 40 anos
– um testemunho de Luiza Sarsfield Cabral

(Texto lido no Convento dos Dominicanos, na iniciativa do Movimento Não Apaguem a Memória e do Instituto S. Tomás de Aquino, a 22 de Fevereiro de 2014; as indicações entre [parêntesis recto] são elementos de informação acrescentados posteriormente)


Colectânea dos números 1 a 9 do Boletim Anti-Colonial, 
publicada já depois do 25 de Abril de 1974


Pediram-me um testemunho sobre a minha intervenção política antes do 25 de Abril... Digo quase sempre que sim a este tipo de solicitações, pois acho importante que não se “apague a memória”... Aceitei o convite também porque o interpretei como uma espécie de homenagem à Natália e ao Nuno Teotónio Pereira.
A minha actividade, nessa época, foi semelhante  à de muita gente. No Porto, trabalhei na Mojaf, pertenci à Cooperativa Confronto, depois vim para Lisboa, para a Faculdade de Letras, onde participei nas greves universitárias.
Conheci, então, a Natália e o Nuno Teotónio Pereira, que foram absolutamente determinantes numa maior responsabilização cívica e política de um grande número de pessoas, entre as quais me incluo. Desde então, fiquei sempre ligada ao grupo a que chamam “católicos progressistas”, embora ninguém, que eu saiba, se designe a si próprio desta maneira.
Entrei em contacto com o Direito à Informação, o Gedoc, a [Cooperativa] Pragma, fui várias vezes a Madrid com a Natália e o Nuno para reuniões com o grupo dos Cuadernos para El Dialogo, participei em muitos “terceiros sábados” – uma iniciativa, também da Natália e do Nuno: eram celebrações da eucaristia, que sendo autênticas, serviam de cobertura à troca de informação clandestina.       
Das várias actividades, lembro um fim-de-semana em Marvão, na casa do Nuno, em que um grupo de amigos (entre eles o frei Bento Domingues) se encontra num fictício piquenique à beira-rio, enquanto que a minha irmã Teresa e eu acompanhávamos dois amigos até à fronteira, onde “deram o salto” para Espanha para assim fugirem à guerra colonial. Depois, descemos até ao rio e regressámos a nado para junto das pessoas.
Era esta uma ajuda organizada que o casal Teotónio Pereira dava frequentemente.

Acerca do BAC (Boletim Anti-Colonial)

Moro num andar que tem duas portas de acesso, uma dá  para a casa e outra para um anexo praticamente independente. Em 1972, instalou-se aí o arquivo do BAC.
Lá trabalhavam o Nuno, o Luís Moita, o Manuel Brandão Alves (que viria a ser preso na Escola Naval da Marinha), o padre jesuíta José Sousa Monteiro e eu. Era sobretudo um trabalho de arquivo; havia muita documentação sobre África e a guerra colonial. Por questões de segurança, não sabia quem elaborava o boletim, nem quem o distribuía. Havia uma história combinada com o Nuno, em como alugava essa parte da casa a um agente técnico. Inventaram-se os pormenores do contracto e eu vendia essa história à família e amigos, que nunca desconfiaram de nada. Claro que a situação obrigava a cuidados. Nessa altura, não podia aceitar convites de certo risco, pelo que volta e meia era  criticada, diziam-me que me estava a “aburguesar”. Por exemplo, não fui à vigília da capela do Rato para não pôr em perigo aquilo que tinha em casa.