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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Terceiros Sábados: Missas, amizades e conspirações contra a guerra colonial e a ditadura

Os católicos na luta contra a ditadura (15)

A 22 de Agosto de 2015, publiquei no Expresso/Revista E, um texto reconstituindo a rede dos Terceiros Sábados, que existiu em Portugal antes do 25 de Abril de 1974 e foi dinamizada por Nuno Teotónio Pereira e pela sua mulher, Natália Duarte Silva. No dia do funeral do arquitecto (esta sexta, às 13h30, da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, que ele desenhou, com Nuno Portas, para o cemitério do Lumiar, em Lisboa), reproduzo aqui esse texto:

Eram dezenas de católicos que reuniam numa casa de freiras, em Lisboa, para celebrar a fé e se apoiar mutuamente na luta contra o fascismo e a guerra colonial. Aqui se recordam contornos inéditos e nomes da rede dos Terceiros Sábados, uma história referida em muitas memórias mas nunca antes reconstituída de modo sistemático.

Foi já depois de 25 de Abril de 1974 e os dias eram de liberdade e entusiasmo. Mas aquele baptizado de cinco crianças foi em conjunto, porque aqueles cinco casais tinham cimentado laços, em conjunto, na luta pela liberdade, contra a ditadura e a guerra colonial, antes da revolução: nos terceiros sábados de cada mês, na casa das irmãs Franciscanas Missionárias de Maria (FMM), ao Campo Pequeno, em Lisboa, dezenas de pessoas encontravam-se para reflectir, trocar informação clandestina sobre a luta contra o regime e a guerra colonial, debaterem a fé e celebrar a eucaristia. Era a forma de se apoiarem mutuamente.
O baptizado, a 13 de Julho de 1974 – dois meses e meio depois da revolução – foi presidido pelo padre Joaquim Teles de Sampaio, que regressara no início de 1973 do Macúti (Moçambique), por denunciar massacres das tropas portuguesas na guerra colonial e já não se sentir em segurança. Isabel Pinto Correia e José Pereira Neto recordam que o seu filho, Pedro Neto, foi baptizado com, pelo menos, mais três crianças, enquanto a filha de Vitória e Joaquim Pinto de Andrade teve o rito de apresentação prévio ao baptismo.
A rede dos Terceiros Sábados reuniu durante perto de três anos, entre o final de 1970 ou início de 1971, até 1973. No Verão e Outono deste ano, uma vaga de prisões de pessoas ligadas ao BAC (Boletim Anti-Colonial) – Nuno Teotónio Pereira, Luís Moita, Maria da Conceição Moita, Luiza Sarsfield Cabral, entre outros – terá tornado arriscada a continuação da iniciativa.
Nos Terceiros Sábados, cruzavam-se percursos, objectivos e estratégias diferentes. Cada participante aparecia por convite ou por um empenhamento concreto. Mas o carácter de rede informal, em que o objectivo era a celebração da eucaristia, a reflexão sobre a fé e a partilha de informação, só permite reconstruir a experiência a partir de memórias, nem sempre coincidentes e necessariamente fragmentadas
É como um puzzle onde algumas peças já não encaixam bem umas nas outras, pelo desgaste do tempo ou pelas diferentes origens. E faz-se, na impossibilidade de reconstituir todo o grupo, através de memórias de pessoas, que, em alguns casos, dizem que tiveram uma participação residual, mas que aquele espaço as marcou para a vida.
É isso mesmo que diz Luiza Sarsfield Cabral, professora de português já na época, presa por causa do seu apoio ao grupo do BAC: os Terceiros Sábados foram uma experiência fundamental no fortalecimento do apoio mútuo entre católicos e da amizade entre pessoas.

A ideia: um suporte de fé para a luta contra o regime

Terá sido a insistência de Natália e uma conversa dela e do marido, o arquitecto Nuno Teotónio Pereira, com o padre Adriano Botelho, que levou à criação dos encontros. O padre Botelho estivera exilado na Argentina e era, então, capelão no Hospital da Parede. Adriano Botelho, que morreu em 1980, tinha sido pároco de Alcântara entre 1940 e 1960, criando várias iniciativas de apoio aos mais necessitados, numa zona de Lisboa onde predominavam operários e famílias pobres. As suas homilias e, em 1960, o facto de ter testemunhado em favor de dois envolvidos na “revolta da Sé”, forçaram-no ao exílio na Patagónia, durante cerca de três anos.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Prémio para reportagem sobre católicos portugueses e Igreja no Estado Novo

A reportagem Esplendores, que retrata a relação entre Igreja, Estado e sociedade, num retrato do Portugal de há 60 anos e das mudanças entretanto registadas sobretudo na região de Portalegre e do Alentejo, venceu o 17º Prémio Orlando Gonçalves.
Da autoria de Joaquim Franco, um dos colaboradores do RELIGIONLINE, investigador em Ciência das Religiões e jornalista dedicado à informação religiosa na SIC –, a reportagem (que pode ser vista aqui) faz uma ponte de 60 anos: em 1953, o poder político, local e nacional, convivia confortavelmente com o poder eclesiástico, numa cumplicidade quase inquestionável. Vários grupos de católicos e os movimentos de Acção Católica politizavam-se e desenhavam já um compromisso social nem sempre em sintonia com uma hierarquia maioritariamente comprometida com a situação. Era uma sociedade estratificada e conservadora. A economia do país começava a recuperar, mas havia perseguição e censura. Acentuava-se a emigração e o êxodo para o litoral.


Vindo das missões, Agostinho de Moura era feito bispo e nomeado para Portalegre, para suceder a D. António Ferreira Gomes, entretanto nomeado para o Porto. Na posse dos arquivos da SIC, Esplendores do episcopado, um filme realizado por profissionais que viriam a estar associados à fundação da RTP, registava naquele ano a entrada do bispo na diocese, em cortejo, desde a barragem de Castelo de Bode, inaugurada dois anos antes, até à sede episcopal de Portalegre.  
Seis décadas depois, recuperam-se memórias. Com o repórter de imagem de Hugo Neves e o editor de imagem Andres Gutierrez, Joaquim Franco fez agora o mesmo percurso que o bispo seguiu há 60 anos e encontrou uma diocese vítima do êxodo rural e abandonada pelo poder central. “Há 60 anos era um país de contrastes, 60 anos depois encontrámos o contraste entre as esperanças concretizadas, as lutas frustradas e os sonhos desfeitos” de uma geração, diz Joaquim Franco a propósito da reportagem.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

A luta dos católicos contra a ditadura (14) – A falta de lucidez da Igreja Católica em relação à guerra colonial

25 de Abril, 40 anos

(texto publicado a 21 de Abril de 1999, no Público, a propósito do livro Lisboa no Tempo do Cardeal Cerejeira – Um Testemunho, do padre Luís Mafra, assistente da Acção Católica; mantiveram-se as referencias temporais)



“Como a Igreja não tomava qualquer posição, dava a impressão de que estava a apoiar o Governo.” O padre Luís de Azevedo Mafra, antigo assistente de movimentos de Acção Católica no tempo do cardeal Cerejeira, sintetiza deste modo a atitude dominante da Igreja Católica e da sua hierarquia em relação ao regime do Estado Novo e aos diversos episódios da relação entre as duas instituições. Um livro de memórias e documentos faz um balanço de uma época.
“A grande base de sustentação do Estado Novo não foram tanto os nacionalistas, mas os católicos” e se, em relação ao regime e à guerra colonial, a Igreja Católica “tivesse sido mais lúcida, como alguns dos seus membros o foram, e tomado uma atitude, não revolucionária, mas mais justamente crítica, independente, corajosa e menos conformista, a situação não teria durado tanto tempo”.
Esta é uma ideia defendida por muita gente, mas ela adquire maior importância vinda de quem vem: o padre Luís de Azevedo Mafra, 72 anos, antigo assistente de movimentos de Acção Católica. No seu livro Lisboa no Tempo do Cardeal Cerejeira – Um Testemunho (ed. Centro de Estudos de História Religiosa/Universidade Católica Portuguesa), de onde a citação é retirada, o autor reúne um conjunto de notas e excertos dos seus diários pessoais, para recordar algumas facetas do antigo patriarca de Lisboa e o modo como ele agiu em diversos episódios de conflito entre a Igreja e o regime e referentes à estruturação pastoral do patriarcado.
Um deles foi a viagem do então Papa Paulo VI a Bombaim, na Índia, em 1964, que Salazar tomou como uma afronta, já que se realizava três anos depois de a União Indiana ter anexado as possessões portugueses no seu território (Goa, Damão e Diu). Para muitos católicos, o silêncio dos bispos em relação às críticas de Salazar ao Papa era muito constrangedor. E, por todo o país, padres e leigos pressionavam para que o episcopado tomasse uma posição de defesa do Papa.
O padre Mafra foi um dos que escreveu a Cerejeira nesse sentido, dando-lhe conta do embaraço de muitos católicos. “A situação era equívoca. Como a Igreja não tomava qualquer posição, dava a impressão de que estava a apoiar o Governo” nas críticas ao Papa, explica Luís Mafra. Na sequência da carta, o cardeal Cerejeira chamou o padre para conversar com ele e explicar-lhe as suas razões. “Foi um encontro elucidativo: ele não estava na disposição de clarificar as coisas, nadava em águas turvas pelo receio de trazer prejuízos para a Igreja. Negava que a Igreja estivesse do lado do Governo, mas receava que uma atitude crítica fosse prejudicial para a Igreja”. E conclui, em forma de síntese sobre o grau de simpatia de Cerejeira para com o regime: “Não era fascista, mas não era propriamente um democrata.”

“O falar pode fazer desabar tudo...”

No seu livro, o antigo assistente da Acção Católica cita o que registou no seu diário, reproduzindo os argumentos do patriarca de Lisboa: “[A Igreja] não porá nunca a hipótese de afirmar o que não é verdade ou de abdicar da defesa dos valores fundamentais. Mas, fora deste caso, não será mais sensato calar-se quando o falar pode fazer desabar tudo?”

terça-feira, 29 de abril de 2014

Os católicos na luta contra a ditadura (13) – Memórias de uma tripla libertação

25 de Abril, 40 anos

No programa Ecclesia, Maria da Conceição Moita e Jorge Wemans recordaram histórias e memórias da luta dos católicos contra o Estado Novo e do que significou a libertação do 25 de Abril. Para ver aqui:



Os 40 anos do 25 de Abril de 1974 continuam a motivar outras crónicas e textos. No DN de sábado passado, Anselmo Borges escrevia, sob o título 40 anos depois:

Precisamos de mais e melhor democracia. Temos de assumir todos mais responsabilidade na coisa pública. Precisamos de um consenso mínimo entre os partidos sobre temas fundamentais, como a reforma do Estado, a justiça social, o investimento reprodutivo para criar riqueza e emprego. Precisamos de insubordinação frente à plutocracia e de assegurar a dignidade de todos. Precisamos de erguer o futuro pela educação. Se, por insanidade do poder político, os sacrifícios entretanto feitos forem deitados a perder, é preciso preparar-se para o pior.
(o texto pode ser lido aqui na íntegra)

Na agência Ecclesia, também alguns investigadores fazem um curto balanço do impacto da revolução na Igreja Católica em Portugal:

(...) Jorge Revez dedica a sua reflexão aos chamados “vencidos do catolicismo”, crentes que, a seguir ao Concílio, colocaram grandes esperanças na reforma da Igreja, e inclusivamente na mudança de atitude da hierarquia católica face ao Estado Novo. (...)
“A efervescência daquele período revela-nos uma reconfiguração da identidade católica, em especial o relevo que as questões da liberdade e da cidadania assumem para alguns destes homens e mulheres”, conclui.
(o texto pode ser lido aqui na íntegra)


Sob o título Abril Católico, Fernando Calado Rodrigues dedica a sua crónica de sexta no Correio da Manhã aos trabalhos deste blogue sobre a luta dos católicos contra a ditadura; para concluir:

Quarenta anos depois, o país e a Igreja continuam a precisar que os leigos aprofundem os seus conhecimentos teológicos. Que debatam os problemas que afetam a humanidade à luz dos valores do Evangelho. E que se empenhem na “ação militante” contra a “ditadura dos mercados” e a “economia que mata”.
(o texto pode ser lido aqui na íntegra)


Próximo texto, dia 2 de Maio
A falta de lucidez da Igreja em relação à guerra colonial (anunciado inicialmente para dia 28 de Abril)

O texto anterior desta série pode ser lido aqui.


Textos anteriores do blogue: sobre as canonizações de domingo passado: crónica de frei Bento Domingues, notícia da homilia do Papa Francisco e um dossiê sobre o tema; e ainda uma notícia sobre a tenda de oração no Enterro do Ano da Universidade de Aveiro. 

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Os católicos na luta contra a ditadura (12) – Os 150 missionários que a PIDE queria expulsar

25 de Abril, 40 anos


Capa do Diário de Notícias de 28 de Março de 1974, 
com a notícia do comunicado dos bispos moçambicanos 
a demarcar-se dos Missionários Combonianos e do bispo de Nampula

Um relatório da PIDE elaborado 10 meses antes do 25 de Abril propunha que se prescindisse do trabalho missionário de vários institutos religiosos. Feitas as contas, a decisão levaria à expulsão de 155 padres. As autoridades não seguiram a sugestão mas, em Fevereiro de 1974, o regime acabou por mandar embora de Moçambique mais 11 missionários e um bispo. Por causa de um “imperativo de consciência”. 
(Texto publicado no Público de 23 de Abril de 1999; apenas foram actualizadas as referências temporais)

A situação político-religiosa de Moçambique em Junho de 1973, dez meses antes do 25 de Abril de 1974, era considerada pela PIDE/DGS como “causando graves apreensões” nas áreas das dioceses da Beira e de Tete. Num relatório pormenorizado sobre a presença da Igreja Católica naquele Estado “e suas implicações com a segurança”, a PIDE concluía que a situação ficaria melhor “se fosse possível prescindir dos Institutos de Burgos, Capuchinhos de Trento, Combonianos, Sagrado Coração de Jesus e Padres dos Sagrados Corações”.
Ao propor esta medida, o relatório da polícia política do Estado Novo estava a sugerir a expulsão de 155 missionários que trabalhavam em todo o território moçambicano. Nessa altura, o número total de padres a trabalhar em Moçambique (entre autóctones e estrangeiros) era de uns 550. O que, a concretizar-se a ideia expressa no relatório dirigido ao governador de Moçambique, significava expulsar mais de um quarto dos membros do clero católico. Isto, já depois de terem sido expulsos do território, entre 1971 e 1972, vários membros dos Padres Brancos, dos Padres de Burgos e dos Missionários Combonianos.
Na alínea c) do relatório, já citada, o director da delegação da PIDE em Moçambique acrescenta que, se se prescindisse dos missionários referidos, “beneficiariam as dioceses afectadas e as que se prevê virem a sê-lo”. E, se isso não se concretizasse, “a subversão violenta” iria estender-se “a novas áreas ainda não afectadas”, tudo levando a crer que surgiriam “implicações mais graves com a segurança”.
A informação nº 86/73/DI/2/SC-G.G., com 31 páginas dactilografadas, traça um panorama completíssimo do que era a posição dos missionários em relação ao estatuto da então colónia portuguesa, dos casos considerados mais perigosos para a segurança do Estado, das opiniões dos respectivos bispos e das missões que ofereciam preocupações às autoridades do Estado Novo.

Pides a fazer teologia

O relatório começava por se referir ao “estado da questão”, com um “vasto campo de análise em que factores de ordem religiosa, social e política se entrechocam, tornando o tema melindroso e difícil”. E entrava depois por conceitos teológicos: “Tendo em conta que o conceito de Igreja envolve não só a hierarquia mas também todos os católicos (binómio Igreja/Corpo Místico), a principal limitação que nos surge é a impossibilidade de seguirmos atentamente o comportamento político-religioso dos leigos. Alguns destes tentavam “a escalada de pastorais ultra-modernas à luz da actual doutrina social”. Mas, como não eram muitos, “os seus voos são perfeitamente controlados ou controláveis” pelos bispos.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Os católicos na luta contra a ditadura (11) - Tribuna Livre, ou o 25 de Abril dos padres

25 de Abril, 40 anos

A história do grupo de padres que condenou a ligação da Igreja ao Estado Novo e que os bispos proibiram de se reunir em Fátima – e a carta inédita que 106 padres de Lisboa escreveram ao cardeal Cerejeira dizendo-lhe quem e porquê deveria ser o seu sucessor como patriarca 
(texto publicado no Público a 18 de Abril de 1999; o texto foi mantido tal como publicado naquela data, incluindo todas as referências temporais)


Chamavam-se “Tribuna Livre”. Eram padres de vários pontos do país que, durante meses, abalaram o frágil equilíbrio em que se encontrava a Igreja Católica e não esconderam a sua oposição ao regime. Proibidos pelos bispos de se reunirem em Fátima, não desistiram, criticaram a colagem da hierarquia ao poder político e o medo que se vivia na sociedade e na instituição eclesiástica. Isto, dois anos depois de muitos deles terem assinado uma carta a propor quem devia substituir o cardeal Cerejeira como patriarca de Lisboa...


Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira (foto reproduzida daqui)

Há quase 30 anos, em Novembro de 1969, um grupo de 67 padres de cinco dioceses do país era forçado a procurar uma alternativa a Fátima para se poder reunir e pensar a sua missão numa sociedade em mudança.
Perante a emergência, o então prior do Entroncamento resolveu bem o problema: “Telefonaram-me à última hora. Era difícil arranjar alojamentos mas, nas missas de domingo, fiz um apelo a quem estivesse disponível para receber colegas meus e contratei um restaurante em frente da estação para as refeições”, recorda agora Carlos Leonel Santos, editor na Multinova.
Duas semanas antes, o cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, então patriarca de Lisboa, tinha sabido da preparação do encontro e escrevera uma carta ao clero da sua diocese a contestar a “obra dissolvente” que o encontro significava. O episcopado, entretanto reunido, manifestou-se também contra os padres “marginais”. Acto contínuo, o bispo de Leiria proibiu todas as casas religiosas de Fátima de receber o grupo. Perante a interdição, os organizadores decidiram manter a convocatória, mudando de lugar e recorrendo ao salão paroquial do Entroncamento.
Era um encontro com claro fundo político, admite Manuel Tiago Martins, 61 anos, então pároco de Tremez (Santarém) e hoje professor do ensino secundário em Queluz. “Mas o seu objectivo era fundamentalmente religioso. Pretendíamos reflectir sobre a nossa missão numa sociedade em mudança, na qual já se pressentia que era impossível aos padres continuarem a colaborar com a hierarquia [católica] ligada ao sistema.”
A realização do encontro não caía do céu, mas começara um ano antes: depois do Verão de 1968, um grupo de padres da diocese de Lisboa começou a encontrar-se mensalmente. Das conversas informais, para troca de ideias e de informação, rapidamente se passou à constituição do grupo “Tribuna Livre”. Apoio mútuo, partilha de reflexões, troca de informação dos vários grupos de oposição católica ao regime eram alguns dos fins que o grupo se propunha. Rapidamente surgiu a ideia de alargar o debate a padres de outros pontos do país, através da realização de um encontro que debatesse a “rentabilidade” evangélica do seu trabalho como padres.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Os católicos na luta contra a ditadura (10) - O "dedo" católico na libertação de Abril



Maria da Conceição Moita a ser libertada de Caxias, 
na noite de 26 de Abril de 1974

Maria da Conceição Moita era uma das pessoas que estava presa em Caxias no dia 25 de Abril de 1974. Detida a 6 de Dezembro de 1973, onze meses depois de ter lido, na Capela do Rato, o manifesto dos cristãos que ali decidiram permanecer em vigília de oração pela paz, ela recorda, nesta entrevista à Ecclesiaesses tempos da militância por um país livre, bem como os dias da sua prisão e da libertação.
Na conversa com Paulo Rocha, Conceição Moita diz que a liberdade reconquistada a 26 de Abril, já noite, “teve um significado pessoal enorme”. Era a saída do “cativeiro”, pois já tinha passado por sessões de tortura e dias de isolamento. Mas ela significou também “a libertação do meu país, que tanto desejava” e o “fim da ditadura e a conquista da palavra ‘liberdade’ que faltava”.
As encíclicas dos papas João XXIII e Paulo VI tiveram um papel importante na consciencialização de muitos católicos, recorda ainda Conceição Moita. Esses documentos “apontavam para a grande importância do desenvolvimento humano, da democracia e da vivência em liberdade, o que era incompatível com o que acontecia em Portugal” e com a guerra nas colónias, diz.
“Houve pessoas e marcos de referência. Mas a tomada de consciência da situação em que se vivia aconteceu em grupo. Aí debatíamos e combinávamos como ajudar outros cristãos a tomar consciência destas realidades, concertávamos estratégias para ações concretas”, recorda. “E estas ações foram cada vez mais importantes à medida que nos aproximávamos do 25 de abril. Aumentava o número de participantes, de vários quadrantes e com várias sensibilidades políticas que tomavam medidas quer pessoais quer em grupo para dar volta à situação”, aponta ainda, como também se conta no texto Histórias do catolicismo militante que salvou a Igreja.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Os católicos na luta contra a ditadura (9) - O bispo, o clero anti-regime e as estratégias da oposição católica

D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto entre 1952 e 1982, ficou conhecido pela sua carta a Salazar, que se tornou um emblema dos católicos que criticavam o Estado Novo e de outros sectores da oposição. Mas uma carta de D. António rejeitou, logo em 1958, qualquer tipo de aproveitamento. Um documento inédito, referenciado pelo investigador José Barreto e que divulguei no Público a 22 de Abril de 1999, confirmava a “acostumada postura direita do bispo”. Um texto que o jornal católico de então não divulgou e que a censura do regime também cortou.
(as partes do texto sobre os padres Américo Aguiar, Adriano Botelho e Alberto Neto reproduzem artigos que publicados no Público em 14 de Abril de 1994)


D. António Ferreira Gomes com o Papa João Paulo II 
(foto reproduzida daqui)

O antigo bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, demarcou-se publicamente do aproveitamento e da divulgação que a oposição a Salazar e ao Estado Novo fizera do “pró-memória” dirigido pelo bispo ao ditador. Numa carta dirigida ao arquitecto Artur Vieira de Andrade, responsável pela campanha da candidatura de Humberto Delgado às eleições presidenciais de 1958, D. António diz que, perante um “progressivo clima de densa confusão política que atingiu indevida mas gravemente a integridade doutrinal da Igreja e a sua independência temporal, com perigosos reflexos na desorientação de muitos católicos e no escândalo de outros”, se sentia na necessidade de “esclarecer doutrinas e definir posições” que relevavam da sua responsabilidade episcopal.
O documento foi referido por José Barreto, do Instituto de Ciências Sociais (ICS), no colóquio realizado em Lisboa, em Setembro último, sobre a figura de D. António Ferreira Gomes. Barreto anotou que ainda não viu o texto da carta publicado. É a cópia do documento, cedida pelo investigador, que aqui se divulga.
A “carta ao arquitecto”, datada de 12 de Setembro de 1958, era uma resposta a um pedido de audiência de Artur de Andrade, enquanto coordenador da candidatura de Delgado e representante pessoal do “general sem medo”. Um pedido que foi recusado por D. António Ferreira Gomes considerar que havia leituras mais perversas do memorando que escrevera a Salazar: “Que afirmações claras e intransigentes de independência política, professadas na definição do pensamento sociológico da Igreja, sejam tomadas como um outro compromisso temporal e adesão a qualquer parcialidade é tentativa que não pode passar sem o meu formal protesto.”
Uma afirmação que, na opinião de José Barreto, demonstra a tentativa do bispo de, “sem qualquer quebra da sua dignidade episcopal, demarcar-se publicamente do aproveitamento e da divulgação do seu escrito pela oposição”.
Uma retractação? Para o investigador do ICS, “não havia ali retractação de espécie alguma, mas tão somente a acostumada postura direita do bispo do Porto, bem como a reafirmação corajosa do seu pensamento.” A comprovar esta leitura, está o facto de o diário católico de então, as “Novidades”, não ter publicado a carta. E a própria Comissão de Censura cortou a possibilidade de o texto sair num boletim paroquial.
Depois desta carta escrita, houve várias movimentações entre o triângulo Salazar, Vaticano e D. António. O ditador tentou, através dos canais diplomáticos, que a Santa Sé demitisse o bispo do Porto. O arcebispo D. José da Costa Nunes, antigo patriarca da Índia, escreveu uma carta que D. António aceitou assinar, dirigida a Salazar, que “esboçava uma espécie de retractação” do bispo, “mas que acabava por não o ser nem claramente nem suficientemente”.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Os católicos na luta contra a ditadura (8) – Histórias do catolicismo militante que "salvou" a Igreja

25 de Abril, 40 anos

(texto que publiquei no Público de 14 de Abril de 1994, pelo 20º aniversário do 25 de Abril; há pequenos detalhes que hoje estão melhor esclarecidos pela historiografia – por exemplo, sobre o papel do cardeal Cerejeira – mas optei por manter o texto tal qual foi publicado, incluindo nas datas e referências temporais; o título original era Os católicos que “salvaram a Igreja - Histórias do catolicismo militante)


Capela do Rato, um dos lugares simbólicos da oposição católica ao Estado Novo (foto reproduzida daqui)

O empenhamento corajoso de alguns católicos favoreceu a Igreja no pós-25 de Abril, que deve a esses grupos o facto de se ter diluído a sua conivência ou o silêncio cúmplice com o regime do Estado Novo. Na altura da revolução, era uma Igreja em tensão e erosão aquela que se descobre: eram cada vez mais os católicos que se integravam em estruturas e movimentos de oposição ao Estado Novo e punham em causa o que consideravam o silêncio cúmplice da hierarquia em relação ao regime. E alargava-se a sangria de quadros válidos – clero formado com o Concílio Vaticano II, mas também muitos leigos que se iam afastando, e dos movimentos de Acção Católica como estruturas de massas.
A questão colonial era uma das razões que contribuía para o agravamento da tensão. Apesar da censura, chegavam ecos das posições tomadas por alguns bispos e missionários (Vieira Pinto, padres brancos, combonianos) e das denúncias por eles feitas dos massacres perpetrados pelos militares portugueses contra as populações civis.
Para preparar o acolhimento a Vieira Pinto, entretanto expulso de Moçambique, um grupo de largas dezenas de militantes católicos anti-Estado Novo reunir-se-ia, nas vésperas da revolução dos capitães, na mesma sala que, alguns dias depois, os soldados ocupariam para vigiar o quartel da GNR no Largo do Carmo, onde se refugiara Marcelo Caetano. Alguns anos antes, em 1967, quando Paulo VI visitou Fátima, um grupo de padres angolanos esteve para tentar entrar na nunciatura do Vaticano em Lisboa. Queriam protestar contra a sua deportação para a “metrópole” e pedir asilo político ao Vaticano. A acção falhou, porque um deles recuou na última hora.
Com a sociedade civil, a Igreja, a maioria dos fiéis e da hierarquia, estava “longe” da reflexão sobre a articulação entre a fé, a política e a cidadania, e limitava-se a ser o espaço onde se integravam práticas devocionais com o discurso da normalidade, do respeito pelas hierarquias e pela ordem. O debate teológico era um vazio, a participação individual e responsável era indesejada e o pluralismo era proscrito.
No dia 25 de Abril de 1974, os bispos estavam reunidos em Fátima...

Um encontro à espera do bispo

O bispo de Nampula, Manuel Vieira Pinto, estava para chegar a Lisboa, faz hoje [14 de Abril] precisamente 20 anos. Tinha sido expulso de Moçambique pelas autoridades, por causa das suas posições contra a guerra colonial. Poucos dias antes, o Movimento Justiça e Paz (MJP, nome dado a uma rede informal de católicos, que agrupava diversos grupos e pessoas e distribuía textos proibidos pela censura) convocou uma reunião para junto da Igreja de São Mamede, em Lisboa.
O problema é que a PIDE (polícia política do regime) soube do encontro. Os organizadores viram-se obrigados, à última hora, a alterar o plano. A solução foi alguns frades dominicanos – então empenhados em diversos grupos de oposição católica – distribuírem-se entre o Largo de São Mamede os locais que lhe davam acesso: Príncipe Real, Avenida da Liberdade e Largo do Rato. Sempre a andar entre aqueles pontos, iam avisando as caras conhecidas com quem se cruzavam: “Dirige-te para a Rua da Condessa”.

Na mesma sala dos soldados

Na Rua da Condessa, junto do Largo do Carmo, funcionava a sede diocesana de Lisboa de vários movimentos de Acção Católica. Em menos de uma hora, não havia ninguém em São Mamede e a sede da Condessa encheu-se com largas dezenas de oposicionistas católicos. Se a PIDE ali entrasse...
Dessa mesma sala, poucos dias depois, um grupo de soldados golpistas vigiou o quartel do Carmo, onde se refugiara o então primeiro-ministro Marcello Caetano.

sábado, 12 de abril de 2014

Os católicos na luta contra a ditadura (7) - Estava a preparar uma aula e a PIDE bateu-me à porta

25 de Abril, 40 anos
– um testemunho de Luiza Sarsfield Cabral

(Texto lido no Convento dos Dominicanos, na iniciativa do Movimento Não Apaguem a Memória e do Instituto S. Tomás de Aquino, a 22 de Fevereiro de 2014; as indicações entre [parêntesis recto] são elementos de informação acrescentados posteriormente)


Colectânea dos números 1 a 9 do Boletim Anti-Colonial, 
publicada já depois do 25 de Abril de 1974


Pediram-me um testemunho sobre a minha intervenção política antes do 25 de Abril... Digo quase sempre que sim a este tipo de solicitações, pois acho importante que não se “apague a memória”... Aceitei o convite também porque o interpretei como uma espécie de homenagem à Natália e ao Nuno Teotónio Pereira.
A minha actividade, nessa época, foi semelhante  à de muita gente. No Porto, trabalhei na Mojaf, pertenci à Cooperativa Confronto, depois vim para Lisboa, para a Faculdade de Letras, onde participei nas greves universitárias.
Conheci, então, a Natália e o Nuno Teotónio Pereira, que foram absolutamente determinantes numa maior responsabilização cívica e política de um grande número de pessoas, entre as quais me incluo. Desde então, fiquei sempre ligada ao grupo a que chamam “católicos progressistas”, embora ninguém, que eu saiba, se designe a si próprio desta maneira.
Entrei em contacto com o Direito à Informação, o Gedoc, a [Cooperativa] Pragma, fui várias vezes a Madrid com a Natália e o Nuno para reuniões com o grupo dos Cuadernos para El Dialogo, participei em muitos “terceiros sábados” – uma iniciativa, também da Natália e do Nuno: eram celebrações da eucaristia, que sendo autênticas, serviam de cobertura à troca de informação clandestina.       
Das várias actividades, lembro um fim-de-semana em Marvão, na casa do Nuno, em que um grupo de amigos (entre eles o frei Bento Domingues) se encontra num fictício piquenique à beira-rio, enquanto que a minha irmã Teresa e eu acompanhávamos dois amigos até à fronteira, onde “deram o salto” para Espanha para assim fugirem à guerra colonial. Depois, descemos até ao rio e regressámos a nado para junto das pessoas.
Era esta uma ajuda organizada que o casal Teotónio Pereira dava frequentemente.

Acerca do BAC (Boletim Anti-Colonial)

Moro num andar que tem duas portas de acesso, uma dá  para a casa e outra para um anexo praticamente independente. Em 1972, instalou-se aí o arquivo do BAC.
Lá trabalhavam o Nuno, o Luís Moita, o Manuel Brandão Alves (que viria a ser preso na Escola Naval da Marinha), o padre jesuíta José Sousa Monteiro e eu. Era sobretudo um trabalho de arquivo; havia muita documentação sobre África e a guerra colonial. Por questões de segurança, não sabia quem elaborava o boletim, nem quem o distribuía. Havia uma história combinada com o Nuno, em como alugava essa parte da casa a um agente técnico. Inventaram-se os pormenores do contracto e eu vendia essa história à família e amigos, que nunca desconfiaram de nada. Claro que a situação obrigava a cuidados. Nessa altura, não podia aceitar convites de certo risco, pelo que volta e meia era  criticada, diziam-me que me estava a “aburguesar”. Por exemplo, não fui à vigília da capela do Rato para não pôr em perigo aquilo que tinha em casa.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Os católicos na luta contra a ditadura (6) - A teologia, factor de dissensão e despertador de consciências

25 de Abril, 40 anos

A história de como, quase sem dar por isso, muitos cristãos começaram a ler e aprender teologia, passando da simples leitura ao debate sobre a relação entre fé e política e à acção militante contra a guerra de África. 



Debate da Cooperativa Pragma; foto reproduzida daqui

Nos cursos de Verão dos padres dominicanos, realizados na década de 1960, havia sempre um agente da PIDE. Mas, muitas vezes, a conversa era tão estimulante para os relatórios que ele tinha de escrever, que o agente da polícia política do Estado Novo acabava por adormecer.
Com muitos cristãos aconteceu o contrário: a teologia despertou-os. Desde finais da década de 1950, foram imensos os que descobriram, através de livros, cursos, encontros ou publicações clandestinas uma forma de agir militante na oposição ao regime. A teologia assumiu-se como um factor de dissensão.
“O pide achava aquilo uma chatice”, recorda frei Bento Domingues, um dos frades dominicanos envolvidos nas pregações teológicas que os dominicanos organizaram desde a década de 1950. Primeiro, com o Studium Sedes Sapientiae, desde 1953, em Fátima, e depois no Instituto Superior de Estudos Teológicos (ISET), que juntou várias congregações religiosas católicas, a partir de 1967. E, ainda, com os cursos de Verão, criados quase em paralelo e que ainda hoje se realizam, embora em modalidades diferentes das de então.
Em todas estas iniciativas, e em outras de diferentes âmbitos, o ensino da teologia constituiu-se como um ponto de partida para a dissensão e a militância contra o regime que governou em Portugal sob a forma de ditadura, até 25 de Abril de 1974 – passam agora 40 anos.
Esta história foi recordada em traços muito gerais por Bento Domingues na tertúlia Os católicos na luta contra a ditadura, realizada no passado dia 22 de Fevereiro, no Convento dos Dominicanos, em Lisboa. Mas ela tem vários preâmbulos e começou com a extinção, em 1910, da Faculdade de Teologia da única universidade do país, a de Coimbra. Continuou com a publicação de textos diversos de alguns pensadores, entre os quais A Largueza do Reino de Deus, do padre Joaquim Alves Correia. Ou ainda com as acções e tomadas de posição críticas de figuras como o padre Abel Varzim, no apoio aos operários, ou de Adriano Botelho, que chegou a testemunhar em favor de dois envolvidos na “revolta da Sé”, em 1959. E desenvolveu-se a partir do final da década de 1950, com episódios como a carta do bispo do Porto a Salazar, as revistas O Tempo e o Modo, Igreja e Missão e Concilium, o Círculo de Humanismo Cristão da editora Moraes, a cooperativa Pragma, o caso do Padre Felicidade Alves, a vigília na Capela do Rato contra a guerra colonial, as homilias do padre Alberto Neto ou o alargamento de debates, iniciativas, publicações, textos e grupos católicos de oposição ao regime.

A largueza da liberdade

A Faculdade de Teologia estava já numa situação “débil”, quando foi encerrada em 1910, após a instauração da República. O então bispo de Coimbra, Manuel de Bastos Pina, opunha-se à corrente galicana da faculdade, que aceitava algum controlo do Governo. O então jovem seminarista Manuel Gonçalves Cerejeira, que frequentou a faculdade e viria a ser patriarca de Lisboa, era também contra essa orientação, recorda Bento Domingues.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Os católicos na luta contra a ditadura (5) – Os católicos e os padres que ajudaram à “revolução”

25 de Abril, 40 anos


Padre Joaquim Alves Correia, 
autor de A Largueza do Reino de Deus

Há duas semanas, a agência Lusa lançou uma página na internet para assinalar os 40 anos do 25 de Abril de 1974. Além de recordar diversos aspectos e acontecimentos que levaram à revolução de há 40 anos, o conjunto de trabalhos procura também dar chaves de leitura para a evolução de Portugal nestas quatro décadas.
O dossiê inclui dois textos, da autoria de Sílvia Reis, que recordam o papel dos católicos no combate à ditadura. No primeiro trabalho, recorda-se o combate que começou com vozes isoladas como Joaquim Alves Correia e Abel Varzim, e que se foi alargando sobretudo a partir de 1958 – com as eleições em que participou Humberto Delgado e a carta de D. António Ferreira Gomes a Salazar – e, depois, durante a década de 1960 e até às vésperas do 25 de Abril, com diferentes acções e grupos muito críticos da guerra colonial. Esse texto pode ser lido aqui.

Entre essas iniciativas, contou-se o grupo Tribuna Livre, que começou por reunir vários padres de Lisboa. A rede alargou-se e culminou com o Encontro do Entroncamento, no qual estiveram presentes clérigos de várias dioceses e ordens religiosas. Um dos participantes, o padre Carlos Póvoa, diz que a oposição católica ao Estado Novo contribuiu, “com certeza”, para a queda do regime e a conquista da liberdade: “A Igreja ganhou com a revolução e nós ganhámos por sermos pessoas livres”. Este texto pode ser lido aqui.

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Dia 10 de Abril: A teologia como dissensão (texto anunciado inicialmente para dia 8)