A irmã Louise-Marie, no mosteiro de Santa Maria, das Monjas Dominicanas, em 1996
(foto de Luís Vasconcelos reproduzida do livro Vidas de Deus na Terra dos Homens)
Era alguém que, com a sua vida, falava do despojamento, da ternura
e da entrega. A irmã Luísa Maria (Mary Alice Tobin, de baptismo), que integrava
a comunidade do Mosteiro de Santa Maria, das Monjas Dominicanas, em Lisboa,
morreu este sábado, 27 de Janeiro. Tinha 90 anos, completados a 3 de Setembro
último (nascera nos Estados Unidos em 1927) e estava em Portugal há seis
décadas, tendo integrado o mosteiro dominicano de Fátima e, depois, o de
Lisboa. O seu funeral realiza-se esta segunda-feira, em Fátima.
A irmã Luísa Maria era uma mulher livre, um silêncio que se tornava presente pelo
sorriso, disse este domingo, na eucaristia de corpo presente, o padre José
Tolentino Mendonça. No mosteiro lisboeta, lugar de tranquilidade situado entre uma via rápida, prédios de
habitação e escolas, Luísa Maria (ou Louise-Marie) foi, com as restantes irmãs
da comunidade, o esteio de uma proposta que aliava interioridade e acolhimento,
reflexão e debate.
Uma proposta que, durante largos anos, se concretizou nos Encontros do Lumiar: uma vez por mês,
aos sábados, uma conferência seguida de debate construiu um património
espiritual, teológico, bíblico e cultural raro no catolicismo português. Nos desugeria
um cristianismo fundado nas suas raízes mais profundas, nos seus grandes
místicos e mestres espirituais, e com uma atenção acurada à actualidade e aos
sinais do tempo presente.
Por estar mais perto das pessoas, a irmã Luísa Maria dizia que
gostava mais de estar no mosteiro de Lisboa do que no de Fátima. “A comunidade
monástica deve estar inserida, viver com o povo, mantendo cada uma a sua
identidade.”
No livro Vidas de Deus na
Terra dos Homens (ed. Círculo de Leitores, 2000), publiquei uma reportagem
sobre o mosteiro, resultante de dois textos publicados no Público (em 3 de
Março de 1996 e 12 de Abril de 1998). Fica a seguir a reprodução dessa
reportagem.
MÃOS DE AMOR E DE INVENÇÃO
Trabalham apenas o suficiente para viver: colagem de ícones,
bolachas, compotas, bordados. São mãos de gestos de amor e invenção permanente.
Mas o essencial é a contemplação e a oração. Deus, esse mistério. Estão em
Lisboa, no meio da cidade, e às vezes têm que esperar o toque de alvorada do
quartel vizinho para começar a rezar. Vivem em clausura, mas esta é apenas para
se darem um sítio, nunca para se separarem das pessoas. Ficou para trás esse
tempo, quando as grades não permitiam sequer beijar pais e irmãos.
A irmã Madalena ainda se recorda que esteve 13 anos sem ir a casa.
Era a família que a ia visitar ao Mosteiro de Campanhã, no Porto. Os afectos
trocavam-se apenas pelos olhos, as saudades morriam nas mãos. “Nas grades nem
sequer cabiam umas mãos de criança, não podíamos dar as mãos.”
Mãos. As mesmas que hoje tecem o linho e bordam os panos e as
toalhas que a irmã Madalena, 60 anos, semeou e teceu, ainda miúda, em casa.
Juntamente com sua irmã – de sangue, de vida religiosa e, nesta manhã, também
de trabalho – Maria Soledade. O pente do tear ainda foi feito pela avó. O
linho, foram as duas desencantá-lo às arcas da família, em Riba de Mouro,
Monção. E trouxeram-no para o Mosteiro de Santa Maria das Monjas Dominicanas,
na Quinta do Frade, ao Lumiar, em Lisboa.



