sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
A religião não se foi embora, só mudou de face e de lugar
Dois dos nomes de topo da sociologia religiosa contemporânea falaram em Lisboa das mudanças na religião na Europa secular e pós-moderna. Confessaram qual é o seu inimigo e referiram que a Europa repete hoje o discurso americano do século XIX
Morte de Deus? Retorno do religioso? Menos gente nas missas? O século XXI será religioso ou não? Esqueçam-se os chavões. A religião nunca deixou de estar presente na vida das pessoas e das sociedades. Thomas Luckmann, um dos mais importantes nomes da sociologia religiosa contemporânea, que esteve em Lisboa na semana passada, corta rente: "O religioso nunca se foi embora, só mudou a sua face."Autor de The Invisible Religion - The Problem of Religion in Modern Society (A Religião Invisível - O Problema da Religião na Sociedade Moderna), Luckmann abalou a análise sociológica da religião quando publicou a obra, em 1967. No livro, cunhava a expressão "religião invisível" e verificava que o fenómeno religioso mudara de lugar: da esfera pública para a individual.
Para Luckmann, a religião continuava a ter um lugar importante na vida das pessoas. Mas as suas manifestações principais tinham deixado de ser a frequência de uma igreja ou templo, passando a uma expressão cada vez mais pessoal e individualizada.
Menos de três décadas depois, em 1994, o espanhol José Casanova (radicado nos Estados Unidos desde 1973), publicou Public Religions in the Modern World (Religiões Públicas no Mundo Moderno). Para baralhar de novo, concluía que, na década de 80 do século XX, manifestações como o islão fundamentalista ou a teologia católica da libertação tinham devolvido a religião ao espaço público. Era a desprivatização do fenómeno.
Casanova esteve também em Lisboa onde, com Luckmann, falou sobre Sociedades seculares pós-modernas - mudanças religiosas na Europa, a convite do Instituto de Ciências Sociais. E, apesar de terem analisado diferentes realidades do fenómeno, Luckmann afirmou, ainda no debate, que partilha, com Casanova, "um inimigo intelectual comum: a teoria da secularização".
O espanhol decifra, em entrevista ao P2: "A teoria da secularização, que explicava este processo como a diminuição das crenças e das práticas religiosas, é uma visão muito pobre do que é o dinamismo moderno da religião."
Também em conversa com o P2, Thomas Luckmann acrescenta: "Para alguns, a sociedade tinha-se secularizado e agora dizem que há um retorno ao religioso. Não se trata disso."
É verdade: a prática religiosa diminui desde há décadas, na Europa, em todas as igrejas cristãs - e não apenas no catolicismo. "Ainda que aceitemos a diminuição enorme das práticas religiosas e das crenças oficiais nas sociedades europeias, isso não se explica por as sociedades serem mais modernas", diz Casanova.
Para o sociólogo espanhol, "o que a teoria da secularização dizia é que mais modernização leva necessariamente" a menos religião. "Esse é um modelo teórico muito pobre, não explica nada. Veja-se a sociedade americana: é a mais secular e também a mais religiosa."
Outro exemplo, aponta: na Dinamarca, a esmagadora maioria (96 por cento) das pessoas declara-se luterana; mas a frequência dos cultos dominicais da Igreja Luterana é residual. A realidade portuguesa não anda muito longe desta, com cerca de 20 por cento de pessoas que vão à missa ao domingo, apesar dos 90 por cento que se dizem católicos.
Rede e bricolage
Ambos, Luckmann e Casanova, têm centrado a sua análise no que se passa na Europa e Américas. Thomas Luckmann, de origem eslovena, leccionou na Áustria, Alemanha e Estados Unidos, vivendo hoje na Suíça. Verifica que, nos continentes europeu e americano, "privatização e dimensão pública da religião vão a par". Estruturalmente, afirma, "a religião mudou o seu lugar na sociedade e a sua relação com outras instituições e com a conduta da vida individual".
Para a socióloga francesa Danièle Hervieu-Léger, conceitos como liberdade pessoal e autonomia são também importantes. Em O Peregrino e o Convertido - A Religião em Movimento (ed. Gradiva), a socióloga utiliza expressões como "rede" ou "bricolage", para caracterizar a religiosidade sem compromissos hierárquicos ou comunitários muito fortes.
Na modernidade, explica Casanova, "as igrejas perdem o monopólio que tinham" - o da salvação num território concreto, como definia Max Weber. As chamadas seitas - que Hervieu-Léger define como a religião "incontrolável" - assumem-se como grupos de adesão voluntária e não-territorial. Mais ainda, a rede permite a construção de cumplicidades a partir do universo de cada pessoa. E a bricolage, acrescenta o sociólogo espanhol, permite que cada indivíduo "construa o mundo desde si, tomando daqui e dali e elaborando a sua própria religião".
O processo individual relaciona-se com dinamismos colectivos. Na Europa, houve igrejas oficiais em todos os Estados. "Nos EUA, nunca houve uma Igreja estatal ao nível federal", observa Luckmann. Ao contrário do que acontecia na Europa - "se se nasce num país católico ou luterano, fica-se católico ou luterano, a não ser que haja um processo de desvinculação" -, nos Estados Unidos a religião foi sempre objecto de uma escolha individual.
Na Europa, Luckmann apenas identifica modelos diferentes de relação entre Igreja e Estado se se entrar em detalhes: nesse caso, "haveria 50 modelos diferentes". Mas, observa, há pequenas diferenças entre a ortodoxia a Leste (Grécia, Sérvia, Bulgária, Rússia e Leste da Ucrânia), o anglicanismo como religião oficial no Reino Unido, o "recente des-estabelecimento" das igrejas na Europa do Sul e o des-estabelecimento comunista nos países de Leste.
Nos Estados Unidos, acrescenta Casanova, apesar de ter sido ali que se concretizou "o primeiro modelo de separação Igreja-Estado", a religião "esteve sempre presente na vida pública, com um papel político muito forte, à esquerda e à direita". "Nos movimentos de direitos civis dos negros todo o discurso é religioso, na direita conservadora o discurso é religioso", afirma. Exemplos recentes? A oração de um pastor baptista no momento da consagração da vitória eleitoral de Barack Obama ou o modo como o Presidente cessante justificou com uma espécie de nova cruzada a invasão do Iraque.
A realidade dos EUA, que na Europa seria encarada como promiscuidade entre religião e Estado, faz com que "nenhuma Igreja tenha privilégios na esfera pública, mas que haja liberdade total da religião na sociedade", nota José Casanova. O Estado nem sequer "tem direito a perguntar quantas religiões existem nem ninguém tem que ter qualquer autorização para criar uma igreja". Mais trabalho para os investigadores, portanto.
O sociólogo espanhol observa ainda que esse discurso religioso se fez muito no campo do Partido Democrata. Foi depois tomado pelos republicanos, com Ronald Reagan. "A crise do Partido Democrata coincidiu com o abandono desse discurso, que foi agora recuperado", processo que ajudou também na vitória de Obama. O processo de individualização da religião é uma "componente estrutural da religião nas sociedades americana e europeia, mas com histórias diferentes", observa Thomas Luckmann. Essa é a semelhança do fenómeno nos dois lados do Atlântico. Tal individualização - os sociólogos preferem este termo a privatização, "expressão mais negativa", diz Casanova - é positiva: "Os indivíduos fazem-se mais livres, porque assumem a sua autonomia também perante as instituições religiosas."
O processo de privatização das últimas três décadas teve outra consequência paradoxal: foi ele "a condição para que igrejas e religiões voltassem à esfera pública, já não como interlocutores privilegiados" do Estado, mas como "uma voz na esfera pública das sociedades, com direito a apresentar os seus valores e ideias, mas em que a sua voz é contrastada por outras vozes".
Do lado católico, Casanova situa a mudança no Concílio Vaticano II, quando a Igreja assumiu o seu "des-estabelecimento", perdendo a confessionalidade estatal. "Mas a Igreja Católica não aceitou nem aceitará nunca ser uma coisa privada, porque a moral é intersubjectiva. Aceitou perder a posição de confissão de Estado, aceitou não mobilizar partidos, mas nunca aceitaria perder o direito a ter uma voz pública."
O que se passa agora na Europa é que a entrada da Polónia e a possível integração da Turquia na União Europeia trazem, além dos imigrantes, novas realidades. Casanova comenta: "A Polónia, e sobretudo os imigrantes muçulmanos, trazem um discurso novo à esfera pública europeia. De repente, os países europeus, seculares e cristãos, confrontam-se com imigrantes que não são nem seculares nem cristãos."
A Turquia é um caso exemplar: "Antes era secular e menos democrática e agora é mais muçulmana e mais democrática. Foi a incorporação da massa turca, que era muçulmana, na política que levou o islão à esfera pública e que está a criar as condições reais para que a Turquia possa ser membro da UE."
Um processo em tudo semelhante ao dos partidos democratas-cristãos na Europa, nota Casanova: "Foram esses partidos que democratizaram as sociedades europeias depois da II Guerra Mundial. Através do partido religioso, deu-se a democratização do sistema."
Tal como a origem da construção europeia: "A UE foi um projecto democrata-cristão com a bênção do Vaticano, mesmo em França, onde os democratas-cristãos eram minoritários. O processo da UE está baseado em dois princípios: a reconciliação entre França e Alemanha e entre católicos e protestantes."
Turquia, caso exemplar
O caso turco e os imigrantes muçulmanos levaram mesmo o cardeal francês Jean-Louis Tauran, presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso, do Vaticano, a declarar que Deus regressou às sociedades europeias "graças aos muçulmanos". Foi esta "importante minoria" que pediu "espaço para Deus na sociedade", disse Tauran na faculdade de Teologia de Nápoles (Sul de Itália), citado na semana passada pela AFP.
Certo é que muitos europeus convivem mal com este Deus recolocado na praça pública pelos muçulmanos - ou, pelo menos, com uma certa imagem desse Deus. Mas José Casanova não vê nada de muito novo neste fenómeno: no século XIX, os Estados Unidos definiam-se como "um país cristão, mas com a esfera pública dominada pelos protestantes".
Os católicos, que começavam então a chegar da Irlanda, eram considerados antimodernos, anti-seculares e seguidistas do Papa de Roma. "Foi de tal modo que a Igreja Católica adoptou um discurso antimoderno e anti-secular. Mas, hoje, o discurso em relação aos católicos do século XIX está a repetir-se na Europa... em relação aos muçulmanos."
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Perdão, o contrário do esquecimento
Un desafortunado refrán japonés dice: “Lo pasado, tirarlo al agua”. Es como “borrón y cuenta nueva”. Pero el auténtico perdón no es borrón y cuenta nueva, sino cuenta renovada, a pesar de que no se pueda hacer borrón de lo pasado.
El olvido del mal pasado conlleva dos males: 1) creer que lo pasado, pasado está y... aquí no ha pasado nada. 2) permitir o fomentar su repetición en el futuro.
“Hay abusos del olvido...Bajo formas institucionales de olvido se cruza demasiado fácilmente la frontera con la amnesia... La amnistía se convierte en caricatura del perdón,.. Imponer como deber el olvido sería fomentar la amnesia... Conservar la frontera entre amnistía y amnesia favorece la integración de la memoria, el duelo y el perdón”.
Así hablaba el filósofo Paul Ricoeur en su magistral obra La memoria, la historia y el olvido (2000). Habría que recomendar su lectura a quienes hablan superficialmente, para recomendar a la ligera e irresponsablemente el consejo del olvido; se corre el riesgo de manipular la memoria y fomentar, con la amnesia, la repetición de los errores pasados.
Los humanos compartimos la doble experiencia de ser autores y víctimas del mal. En el primer caso, a la imputación y acusación sigue la exigencia de pena y castigo. En el segundo, el sufrimiento de las víctimas sube en forma de clamor pidiendo que hagamos algo para remediarlo, evitarlo y que no se vuelva a repetir.
Al reconciliarnos con el pasado, a pesar de lo que ocurrió, y al apostar creativamente por el futuro, a pesar de la incertidumbre, nos humanizamos.
El ensañamiento vindicativo y la renuncia a volver a empezar nos deshumanizan. La justicia rehabilitadora de la memoria histórica recuerda el mal para que no se repita. La imaginación creativa capacita para prometer no repetirlo.
Nadie puede perdonar en lugar de la víctima, dice el filósofo francés, ni podemos obligar desde fuera a las víctimas a que perdonen. Pero tampoco puede nadie sustituir al agresor para pedir perdón en su lugar, así como de poco servirá imponerle forzadamente un arrepentimiento que no le brote de dentro.
Pero oramos para que cada persona reconozca que “otro yo es posible”, que hay, dentro de quien fue capaz de lo peor, la capacidad de lo mejor. Que despierte en el criminal la capacidad latente de prometer no repetir la agresión. Que despierte en la víctima la capacidad de renunciar a la venganza. Que despierte en la sociedad entera la capacidad de hacer justicia rehabilitadora y reconciliadora (no vindicativa), pero sin olvidar, manteniendo viva la memoria histórica del mal para no repetirlo y de imaginar creativamente caminos para volver a empezar siempre de nuevo.
Quienes compartan la fe evangélica comprenderán que perdonar no es olvidar, sino orar y confiar en que es posible volver a empezar, aunque “lo hecho, hecho esté” (la persona asesinada no resucita) y lo recordemos, no para reabrir heridas, sino para que no se reproduzcan las agresiones.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Centenário de Messiaen na Sé de Lisboa
Nascido a 10 de Dezembro de 1908, Olivier Messiaen tornou-se mundialmente conhecido não só como compositor mas também como executante, fundamentalmente das suas próprias composições. A sua música caracteriza-se por um profundo sentimento religioso aliado a uma grande componente mística, continuando ainda hoje, dezasseis anos após a sua morte a servir de inspiração a várias gerações de intérpretes e compositores. A apresentação da sua obra integral para órgão na Sé Patriarcal de Lisboa surge no contexto da comemoração do centésimo aniversário deste compositor profundamente católico. Como introdução aos seus textos musicais o compositor propõe textos bíblicos e patrísticos para reflexão que serão comentados no contexto do concerto pelo Cónego Luís Manuel Pereira da Silva. Através da apresentação destes concertos pretende a Sé Patriarcal de Lisboa, com a colaboração do Instituto Gregoriano de Lisboa, dar a conhecer uma parte fundamental do património musical do século XX.
Terça, 2 de Dezembro de 2008, 21h30
Livre d’Orgue (1951-52)
Giampaolo Di Rosa/Roma-Porto
O terceiro concerto desta integral para órgão apresenta o ciclo mais complexo e abstracto que Messiaen dedicou ao seu instrumento de eleição durante mais de 60 anos. De carácter claramente especulativo e fazendo uso de várias técnicas combinatórias é resultado da influências dos cursos de Darmstadt, onde Messiaen também leccionou em 1951 e das paisagens montanhosas dos Alpes e Delfinato, local de criação deste ciclo. Este concerto traz mais uma vez até Lisboa Giampaolo Di Rosa, professor de Órgão da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa – Centro Regional do Porto. Detentor de uma carreira de reconhecido mérito internacional, Giampaolo Di Rosa divide o seu tempo entre a uma intensa actividade artística e a investigação científica na área da música. O concerto será comentado pelo próprio intérprete que nos tentará ajudar a compreender um pouco melhor a complexidade desta proposta musical de Messiaen.
Sábado, 6 de Dezembro de 2008, 21h30
Meditations sur le Mystère de la Sainte Trinité (1969)
Edite Rocha e Classe de órgão da Universidade de Aveiro
No seguimento da celebração do centenário do nascimento de Olivier Messiaen, associa-se a esta integral outra das principais instituições de ensino superior de música em Portugal. O quarto concerto desta Integral das Obras para Órgão de Olivier Messiaen resulta de um projecto concretizado pela classe de órgão da Universidade de Aveiro sob a orientação da professora Edite Rocha. O ciclo de nove meditações sobre o Mistério da Santíssima Trindade foi à data da sua composição a maior obra para órgão escrita pelo compositor. Inspirado pela reinauguração do seu instrumento de eleição na Igreja da Santíssima Trindade em Paris, e pelas improvisações realizadas nesse concerto inaugural, Messiaen funde neste ciclo elementos fundamentais na sua escrita para órgão. Ao combinar o canto dos pássaros com citações de temas do repertório de canto gregoriano e com técnicas típicas da sua linguagem musical, consegue criar uma das mais importantes obras para órgão do século XX.
Terça, 9 de Dezembro de 2008, 21h30
Livre du Saint Sacrement (I) (1984)
Filipe Veríssimo/Porto e João Santos/Leiria
Escrito em 1984 depois de uma encomenda da cidade de Detroit, o Livro do Santíssimo Sacramento é não só a maior obra para órgão de Olivier Messiaen, mas também a última escrita pelo compositor. Criado depois da ópera São Francisco de Assis (1975-83) que ocupou o compositor ao longo de oito anos é um regresso do autor à escrita para órgão em contexto litúrgico. Devido à sua duração total, superior a duas horas, este ciclo será apresentado em dois concertos distintos mas complementares. No primeiro desses concertos ouviremos dois organistas formados na Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, Centro Regional do Porto. Primeiramente ouviremos Filipe Veríssimo, mestre-de-capela e organista titular do órgão Jann da Igreja da Lapa no Porto, um dos instrumentos mais emblemáticos do nosso país. As intervenções musicais de Filipe Veríssimo serão intercaladas pelas de João Santos, professor de órgão em Leiria e organista titular de outro dos melhores instrumentos portugueses, o órgão Heintz da Catedral de Leiria. Trata-se de uma ocasião única de poder ouvir estes dois intérpretes em Lisboa no melhor instrumento da capital.
Quarta, 10 de Dezembro de 2008, 21h30
Missa em homenagem a Olivier Messiaen
António Esteireiro/Lisboa e Coro de Câmara e Coro Gregoriano do IGL
No dia 10 de Dezembro de 2008 celebraria Olivier Messiaen o seu centenário. Esta missa em homenagem a Olivier Messiaen repete o programa apresentado pelos mesmos intérpretes no último Festival Internacional de Órgão de Lisboa 2008, na Igreja de Nossa Senhora do Cabo em Linda-a-velha. A escolha do repertório para este recital tenta fazer uma síntese entre as várias práticas vividas por Olivier Messiaen na Igreja da Santíssima Trindade em Paris. Ao juntar no mesmo concerto obras do repertório solístico, com o Proprium gregoriano do dia e incluindo o motete O sacrum convivium, temos um pequeno vislumbre do contexto em que estas obras foram executadas originalmente. O repertório escolhido incide no período de composição que antecede a Segunda Guerra Mundial, em que foram compostos os primeiros três grandes ciclos para órgão. Os ciclos L’Ascension, La nativité du seigneur e Les corps glorieux fazem parte do repertório mais divulgado e executado de Messiaen. O Instituto Gregoriano de Lisboa é provavelmente a instituição portuguesa com maior tradição no ensino do órgão e da defesa e divulgação do repertório de canto gregoriano e associa-se a esta comemoração do centenário do nascimento de Messiaen através da realização deste concerto.
Sábado, 13 de Dezembro de 2008, 21h30
Livre du Saint Sacrement (II) (1984)
Markus Rupprecht/Regensburg
A segunda parte do Livre du Saint Sacrement, cuja primeira parte foi apresentada no dia 9 de Dezembro, é apresentada em Lisboa por um dos mais promissores talentos da nova geração de organistas alemães. Oriundo da Baviera, Markus Rupprecht dividiu o seu tempo de estudos entre Regensburg, Piteå na Suécia e Viena, trabalhando com alguns dos mais reputados pedagogos do nosso tempo, como são os casos de Hans-Ola Ericsson, Michael Radulescu e Franz Josef Stoiber. Um dos focos principais do seu repertório reside no domínio integral das obras para órgão de Messiaen, que durante este ano de 2008 o levou a apresentar-se em várias cidades europeias da Alemanha, Suécia e Áustria. Neste ciclo Messiaen faz uma síntese de todos os recursos musicais utilizados ao longo da sua carreira enquanto compositor. A utilização de vários tipos de modos, do canto de alguns pássaros da Palestina, aspectos relacionados com simbolismos, linguagem comunicável ou mesmo a métrica grega, fazem desta obra um monumento incomparável no repertório para órgão do século XX. A última parte deste ciclo traz-nos as meditações cuja temática se refere a episódios relacionados com a Eucaristia.
Domingo, 14 de Dezembro de 2008, 21h30
La Nativité du Seigneur (1935)
Classe de Órgão da Universidade de Évora
No penúltimo concerto desta celebração do centenário do nascimento de Olivier Messiaen, associa-se a esta integral outra das principais instituições de ensino superior de música em Portugal. Este concerto resulta de um projecto concretizado pela classe de órgão da Universidade de Évora sob a orientação do professor João Vaz. O ciclo de nove meditações dedicado à Natividade do Senhor foi escrito em Grenoble no ano de 1935. Sendo um dos ciclos mais apreciados pelo próprio compositor, foi uma das obras que mais reconhecimento internacional lhe trouxe, devido à forma inovadora como abordou a escrita para órgão. A utilização sistemática dos modos de transposição limitada, de um componente rítmica muito inspirada pelos ritmos hindus e de temas do repertório gregoriano modificados, tornaram este ciclo um dos mais importantes marcos da escrita para órgão na primeira metade do século XX.
Olivier Messiaen em Braga
Em Dezembro, no mês em que Olivier Messiaen nasceu há cem anos, no Auditório Vita, em Braga, presta-se uma homenagem ao singular compositor do séc. XX, que realizou em Portugal a estreia mundial de uma das suas obras, A Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Concertos
Integral das obras para Música de Câmara para instrumentos acústicos
Primeiro concerto
Dia 10, às 21.30 horas.
I Parte
Merle noir, para flauta e piano (1951) (c. 6’)
Fantasie, para violino e piano (1933) (c. 15’)
II Parte
Visions de l’Amén, para dois pianos (1943) (45’-50’)
I. Amen de la Création
II. Amen des étoiles, de la planète à l’anneau
III. Amen de l’Agonie de Jesús
IV. Amen du Désir
V. Amen des Anges, des Saints, du chant des oiseaux
VI. Amen du Jugement
VII Amen de la Consommation
Segundo concerto
Dia 13, às 21.30 horas.
I Parte
Theme et variations, para violino e piano (1932) (c. 10’)
Pièce pour piano et quatuor à cordes (c 4’)
II Parte
Quatuor pour la fin du temps, para violino, clarinete em si bemol, violoncelo e piano (45’-50’)
António Saiote, clarinete
Gerardo Ribeiro, violino
Marta Zabaleta, piano
Miguel Borges Coelho, piano
Nuno Inácio, flauta
Paulo Gaio Lima, violoncelo
Quarteto de Cordas de Matosinhos:
Vitor Vieira, I violino
Juan Maggiorani, II violino
Jorge Alves, viola
Marco Pereira, violoncelo
Colóquio
“Vivemos tempos sombrios”
Dia 11, às 21.30 horas.
Colóquio“Vivemos tempos sombrios”Dia 11, às 21.30 horas. “Vivemos tempos sombrios”, diz um verso de Bertolt Brecht. Foi em tempos sombrios que Olivier Messiaen viveu uma parte da sua vida, nos anos em que, prisioneiro num campo de concentração nazi, compôs o Quarteto para o Fim dos Tempos. Sobre esses “tempos sombrios” e sobre as mulheres e os homens que os testemunharam, realizar-se-á um colóquio com: João Pedro Oliveira, compositor e professor catedrático de Composição e Música Electrónica na Universidade de Aveiro; Teresa Martinho Toldy, teóloga; José Tolentino de Mendonça, director da colecção Teofanias, no âmbito da qual se publicaram obras de Simone Weil, Dietrich Bonhoeffer e Etty Hillesum, que testemunharam esses “tempos sombrios”; e João Duque, teólogo [moderador]
Filme
Le Charme des impossibilités [O Charme das impossibilidades]
Dia 12, às 21.30 horas.
O filme, que é exibido pela primeira vez em Portugal, conta a história da génese de uma obra musical, o Quarteto para o Fim dos Tempos, que foi composta e interpretada pela primeira vez, durante a Segunda Guerra Mundial, num campo de prisioneiros de guerra. Um compositor, três intérpretes com instrumentos em muito mau estado vão desafiar a detenção, a guerra, o frio, a fome, o tempo e tentar o impossível.
Nicolás Buenaventura Vidal é o realizador deste filme de 2006 em que participam o pianista François-René Duchâble, o clarinetista Paul Meyer, o violinista Régis Pasquier e o violoncelista Roland Pidoux.
[O filme tem 80 minutos e é exibido na versão original, com legendas em inglês]
sábado, 29 de novembro de 2008
Igreja, sexualidade e bioética
No lançamento do livro A Sexualidade, a Igreja e a Bioética. 40 anos de Humanae Vitae, de Miguel Oliveira da Silva, procurei reflectir sobre o paradoxo de, sendo o cristianismo uma religião do corpo – não diz a Bíblia que Deus criou os seres humanos em corpo e viu que era muito bom e não confessa a fé cristã que Deus assumiu em Jesus a corporeidade humana e que ela está presente, pela ressurreição, no seio da Trindade? –, em boa parte a má vontade contra a Igreja radicar na sua relação com o sexo. Como admitir, por exemplo, mesmo quando a saúde e a própria vida ficam ameaçadas, a proibição do preservativo?
O que envenenou a relação da Igreja com a sexualidade foi o choque entre o poder e o prazer, porque o prazer pode abalar o poder.
Concretamente, há a doutrina do pecado original, entendido não como o primeiro de todos os pecados – todos pecam –, mas como um pecado herdado de Adão e transmitido por geração, portanto, no acto sexual.
Depois, com a reforma gregoriana, século XI, foram-se erguendo as três colunas sobre as quais assenta, segundo Hans Küng, o paradigma católico-romano: papismo (poder centrado no Papa), celibatismo (celibato obrigatório por lei para os padres), marianismo (devoção a Nossa Senhora como compensação).
Como se determinou que tudo o que se refere ao sexo é por princípio matéria grave e como, por outro lado, não há ninguém que não tenha pelo menos pensamentos relacionados com o sexo e só o sacerdote ou o bispo podem perdoar os pecados, a confissão acabou por tornar-se não um espaço de reconciliação e paz, mas tantas vezes de opressão, e raramente uma instituição acabou por deter tanto poder sobre as consciências, criando infindos complexos de culpabilização. Quando se lê os manuais dos confessores e todos aqueles interrogatórios inquisitoriais, quase reduzidos ao campo sexual, percebe-se que muitos tenham começado a abandonar a Igreja por causa da confissão, considerada ofensiva dos direitos humanos.
No universo sexual, que, como escreve Miguel Oliveira da Silva, continua a ser "um imenso, incómodo e multifacetado mistério", é evidente que não vale tudo. Ele reconhece que "a sociedade ocidental vive um profundo e grave vazio ético em matéria de sexualidade".
De qualquer modo, a Igreja precisa de reconciliar-se com o mundo e a ciência, o corpo e a sexualidade. Mas enquanto se mantiver a lei do celibato obrigatório não estará todo o discurso eclesiástico sobre o tema debaixo do fogo da suspeita?
Nos seus Jerusalemer Nachtgespräche [Conversas Nocturnas em Jerusalém], o Cardeal Carlo Martini interroga precisamente esta lei e, depois de considerar os estragos da encíclica Humanae Vitae, reconhece que muitos esperam do Magistério uma palavra de orientação sobre o corpo, a sexualidade, o casamento e a família. "Procuramos um caminho para, de modo fiável, falar sobre o casamento, o controlo da natalidade, a procriação medicamente assistida, a contracepção."
Neste domínio da contracepção, o equívoco fundamental da encíclica Humanae Vitae encontra-se numa concepção de lei natural fixa, estática e centrada na biologia. Ora, por natureza, o ser humano é cultural e histórico e a própria realidade é processual. A sexualidade humana não pode ser vista apenas na sua vertente biológica. Como pode o Magistério fixar-se na biologia, esquecendo que, para ser verdadeiramente humana, a sexualidade envolve o biológico, o afectivo, a ternura, o amor, o espiritual?
Por outro lado, na perspectiva bíblica, não criou Deus o Homem como criatura co-criadora? Não é o Homem, por natureza, interventivo, aperfeiçoador e transformador da natureza? Então, no juízo moral, o critério não pode ser o natural identificado com o bem e o artificial identificado com o mal, mas a responsabilidade digna e a dignidade responsável. Aliás, quem defende os métodos contraceptivos naturais como os únicos legítimos deverá ser confrontado com a objecção: para lá da sua falibilidade, ainda serão naturais os métodos que têm a ver com uma descoberta e aproveitamento humanos dos períodos inférteis da mulher?
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
10 Milhões de estrelas pela paz
A Operação 10 Milhões de estrelas – Um gesto pela paz 2008, promovida desde há poucos anos pela Cáritas, pretende, tal como nas edições anteriores, sensibilizar as pessoas para os valores da paz e do apoio aos mais desfavorecidos, a partir da compra de velas que serão acesas na noite de Natal e de iniciativas diversas nas capitais de distrito. As verbas recolhidas este ano destinam-se a projectos de apoio ao desenvolvimento nas áreas da educação e da saúde, em Portugal, e de ajuda à integração dos povos pigmeus de Mongoumba, população minoritária da República Centro-Africana.
quarta-feira, 22 de novembro de 2006
Mudanças
Queiram visitar o novo espaço em http://religionline.blogsome.com. Nestes tempos de arrranque, estamos ainda à procura do estilo e do ritmo. Lá chegaremos. Com as achegas e a participação dos leitores.
quinta-feira, 26 de outubro de 2006
Religião e Media: equívocos e possibilidades
O jornalista, que falou na qualidade de galardoado com o Prémio John Templeton para o Jornalista Europeu de Assuntos Religiosos do ano 2005 (administrado pelo Departamento de Comunicações da Confêrencia das Igrejas Europeas e atribuído a este profissional pela segunda vez), apresentou um largo conjunto de casos e de experiências que lhe permitiram mostrar os preconceitos recíprocos que continuam a existir entre as Igrejas, designadamente a Católica, e os jornalistas.
A intervenção foi, na altura, comentada por Adelino Gomes, igualmente jornalista do Público, o qual recordou uma série de casos e de experiências ilustrativos do que era a relação entre a religião e os media até à altura do 25 de Abril de 1974.
O texto integral da conferência de António Marujo pode ser consultado no site da Conferência das Igrejas Europeias. A ele haveremos de voltar, pelas questões que coloca em debate.
quarta-feira, 25 de outubro de 2006
"De Deus ao nada"
"Resulta difícil entender la historia de nuestra cultura sin saber qué ha sido y cómo ha sido la religión en sus muchas variantes, y, lo que resulta más significativo, la religión constituye el mejor salvoconducto para conocer las fantasías e imágenes de las que nos hemos dotado" - nota ainda Sádaba.
Javier Sábada é Catedrático de Ética e Filosofía da Religião da Universidade Autónoma de Madrid.
O texto completo do artigo: aqui.
quinta-feira, 19 de outubro de 2006
Diálogos sobre Jesus no CRC
1º Jesus judeu da Palestina
24 de Outubro 2006
Isaac Assor
Pe. José Tolentino de Mendonça
2º Jesus profeta do Islão
28 de Novembro 2006
António Dias Farinha
Faranaz Keshavjee
3º Jesus nos Evangelhos apócrifos
19 de Dezembro 2006
Pe. João Lourenço
Pe. Joaquim Carreira das Neves
José Augusto Ramos
4º Jesus Cristo História e Fé
23 de Janeiro 2007
Maria Julieta, rscm
D. Manuel Clemente
quarta-feira, 18 de outubro de 2006
Onde está o teu irmão?
(in Eclesalia, a partir de títulos de El País, de 7.10.2006)
sexta-feira, 15 de setembro de 2006
Todo o discurso de Bento XVI feito na Universidade de Regensburg, na Alemanha, centrado nas "Três etapas do programa de des-helenização", merece ser lido com atenção.
É curioso observar como uma referência histórica que nem sequer é central ao argumento das palavras do papa pode suscitar tanto ruído. Mas isto é precisamente um sinal dos tempos que vivemos. Qualquer facto secundário pode converter-se em fósforo que ateia um incêndio. E, a esta hora, o papa já deve ter-se arrependido da referência que fez.
De resto, há uma ponto que não ficava mal na sem dúvida brilhante argumentação de Ratzinger: a referência ao facto de que também em nome da Cristandade - e porventura no preciso e polémico escrito referenciado no discurso - se quis recorrer à espada para fazer fieis, esquecendo que "to convince a reasonable soul, one does not need a strong arm, or weapons of any kind, or any other means of threatening a person with death...."
Aqui fica a transcrição da parte que está a levantar poeira em alguns sectores do islamismo:
"(...)
In this lecture I would like to discuss only one point -- itself
rather marginal to the dialogue itself -- which, in the context of the issue of
"faith and reason," I found interesting and which can serve as the starting
point for my reflections on this issue. In the seventh conversation ("diálesis"
-- controversy) edited by professor Khoury, the emperor touches on the theme of
the jihad (holy war). The emperor must have known that sura 2:256 reads: "There
is no compulsion in religion." It is one of the suras of the early period, when
Mohammed was still powerless and under [threat]. But naturally the emperor also
knew the instructions, developed later and recorded in the Koran, concerning
holy war. Without descending to details, such as the difference in treatment
accorded to those who have the "Book" and the "infidels," he turns to his
interlocutor somewhat brusquely with the central question on the relationship
between religion and violence in general, in these words: "Show me just what
Mohammed brought that was new, and there you will find things only evil and
inhuman, such as his command to spread by the sword the faith he preached." The
emperor goes on to explain in detail the reasons why spreading the faith through
violence is something unreasonable. Violence is incompatible with the nature of
God and the nature of the soul. "God is not pleased by blood, and not acting
reasonably ("syn logo") is contrary to God's nature. Faith is born of the soul,
not the body. Whoever would lead someone to faith needs the ability to speak
well and to reason properly, without violence and threats.... To convince a
reasonable soul, one does not need a strong arm, or weapons of any kind, or any
other means of threatening a person with death...."
Actualizações e complementos:
- Texto do discurso em espanhol
- Do editorial de El País, de 16.9:
"(...) Benedicto XVI es tan gran intelectual como su antecesor, Juan Pablo II,
era un gran político. Pero hay ocasiones en las que a un intelectual, en su afán
por exponer sus ideas, especialmente en un terreno tan complejo y tan
susceptible a malentendidos y manipulaciones como es la manifestación teológica
en la comparación entre dos religiones, le falla el instinto del político y
genera un conflicto allí donde no debiera haberlo ni le interesa a él mismo que
lo haya. Y no sólo lo hay, sino que es probablemente, desde el 11 de septiembre
de 2001, origen de inmensas tensiones entre concepciones de vida identificadas
con Occidente y el mundo musulmán. Es evidente así que, al ignorar el efecto que
sus palabras podían tener sobre una sociedad islámica, recelosa y por principio
hoy hiperrreactiva, ha sembrado una discordia que probablemente no
pretendía.(...)"
- Do editorial de hoje do DN, assinado por António José Teixeira:
"(...) A citação histórica presta-se a interpretações ambíguas. Desde logo
porque identifica islão com violência, o que não é desajustado de alguns
capítulos da História, mas não é exclusivo de nenhuma religião. O catolicismo
deu os seus contributos para a infâmia e nem por isso terá de ser identificado
como uma instituição delinquente.(...)".
Actualização: Palavras de desculpa de Bento XVI, na oração do Angelus, hoje, dia 17:
"Dear Brothers and Sisters,
(...)At this time, I wish also to add that I am deeply sorry for the reactions in some countries to a few passages of my address at the University of Regensburg, which were considered offensive to the sensibility of Muslims.
These in fact were a quotation from a Medieval text, which do not in any way express my personal thought.
Yesterday, the Cardinal Secretary of State published a statement in this regard in which he explained the true meaning of my words. I hope that this serves to appease hearts and to clarify the true meaning of my address, which in its totality was and is an invitation to frank and sincere dialogue, with great mutual respect. "
domingo, 3 de setembro de 2006
(uma entrevista do abade de Monserrate)
Josep Maria Soler, abade do mosteiro de Monserrate, na Catalunha, deu há dias uma desassombrada entrevista ao diário El País. Vale a pena ler, mesmo discordando. Porque o que mais sobressai, nas palavras do monge, é precisamente a capacidade de, com serenidade, colocar questões centrais da relação entre a Igreja (espanhola) e a sociedade [as perguntas da jornalista é que denotam um enviesamento e um primarismo verdadeiramente notáveis!].
Dois extractos, com a sugestão de uma leitura do texto integral:
"Pienso que es fácil percibir que un sector de la jerarquía católica tiene nostalgia del nacionalcatolicismo, sobre todo en ciertos círculos de la Conferencia Episcopal y, sin duda, en muchos de sus documentos y en muchas homilías. Y lo cierto es que ese nacionalcatolicismo añorado por ese sector de la jerarquía es algo del pasado. La Iglesia debe aprender a situarse en otro contexto social, y ese contexto, según la Constitución y desde la separación entre la Iglesia y el Estado, se define como un verdadero Estado laico que supone eso: una separación real entre lo que es el Estado y su lógico derecho a promulgar leyes, y lo que es la Iglesia y la misión de la Iglesia, que no tiene esa capacidad legislativa. Eso no quiere decir que la Iglesia deje de decir lo que crea que debe decir en relación con la dimensión trascendente de la persona, porque eso es enriquecedor para sociedad, pero teniendo siempre presente que en un Estado aconfesional o laico, la voz de la Iglesia es una voz que no puede imponer sus criterios a los legisladores".
" [...] hay un proceso que a ellos, a la jerarquía católica más conservadora, les preocupa muchísimo, yo diría que les desborda realmente, que es el proceso de secularización de la sociedad española. La cuestión sobre la que se debe interrogar la Iglesia no debe estar en relación con lo que ellos identifican como crisis de fe, sino en responder con honestidad a la pregunta de por qué no hemos sabido conectar el mensaje del Evangelio con las inquietudes de la gente. Eso es lo que debería preocuparles, lo que debería preocuparnos a todos. Desde mi punto de vista, ha fracasado el lenguaje, el planteamiento demasiado intransigente de ciertos temas que angustian al mundo moderno, y, sin duda, el no aceptar que, al final, el hombre decide libremente sobre su vida, diga lo que diga la Iglesia. Hoy, la Iglesia no está presente en la sociedad y, lo que es peor, cuando está presente, lo está de modo inadecuado, cuando no ridículo".
quinta-feira, 24 de agosto de 2006
Carla Machado
PUBLICO, 24.8.2006
Todos passamos a vida a desejar a vida que não temos. Queixamo-nos do emprego, dos colegas que são chatos, do chefe que não nos dá valor, do muito que trabalhamos e do ordenado que é fraco.Reclamamos do tempo, que chove e não se pode ir à praia, que não chove e faz mal à agricultura, do sol que é pouco ou demasiado, do suor, do frio e do vento, do calor que nunca mais se vai embora e do Verão que nunca mais chega.A família cansa-nos, mas odiamos quando esta nos ignora; dizemos mal do amigos sem os quais não sabemos passar; suspiramos pelo fim do serão em que as visitas se vão embora, mas despedimo-nos combinando um novo jantar.Estamos fartos dos filhos, mas passamos o tempo a falar deles e a mostrar as suas fotografias aos amigos. O barulho que fazem enlouquece-nos, mas o silêncio da sua ausência é insuportável.Queixamo-nos do marido ou da mulher, que não são como dantes, que nos irritam, que não nos surpreendem, mas suspiramos quando nos faltam e reclamamos quando fazem alguma coisa com a qual não contávamos.Estamos no Algarve a suspirar pela frescura do Minho, no Minho damos por nós desejosos da brisa costeira, na cidade irrita-nos o artificialismo e em Trás-os-Montes formigamos com a ânsia de fugir à ruralidade.E do país, todos nos queixamos do país até ao momento em que "lá fora" concluímos com um orgulho disfarçado que realmente "comer, comer bem, só mesmo em Portugal".De queixume em queixume, passamos pela vida muitas vezes sem deixar verdadeiramente que a vida nos atravesse. E só quando somos roubados ao quotidiano que tanto maldissemos damos conta do tempo que perdemos nos lamentos sobre o tempo que os outros nos fazem perder.Há pouco mais de um mês, numa consulta que era suposto ser de rotina, foi-me diagnosticado um tumor. Felizmente benigno, como soube após 24 horas de espera. E, tal como seria de prever, naquele momento inicial em que o espectro de algo mais grave ainda não tinha sido afastado, o meu pensamento imediato foi: "Mas afinal porque é que eu estou aqui, afundada em Braga a trabalhar, em vez de ter já há muito tempo fugido para Bora-Bora?" Passado contudo tal instante, e nas 23 horas que se seguiram, foi da vida normal que tive saudades antecipadas. A vida normal: trabalhar, ir ao cinema, abraçar quem amo, rir-me das pequenas parvoíces do quotidiano, ver a minha filha a dormir e sentir o seu cheiro.A vida normal está aqui mesmo ao lado. E aposto que Bora-Bora tem imensos mosquitos.
terça-feira, 4 de julho de 2006
O Fórum Abraâmico de Portugal, organização que congrega judeus, cristãos e muçulmanos com o objectivo de "quebrar preconceitos" e promover iniciativas no campo inter-religioso, é hoje apresentada ao fim da tarde em Lisboa.
A notícia vem hoje no Público, que acrescenta:
"Embora a ideia e a adesão à nova associação seja feita a título individual, ela será constituída por quatro responsáveis das diferentes comunidades: Abdool Vakil, da Comunidade Islâmica de Lisboa; José Oulman Carp e Esther Mucznik, presidente e vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa; e Peter Stilwell, padre católico e director da Faculdade de Teologia da UCP. A este núcleo inicial junta-se um outro grupo de fundadores, entre os quais o pastor protestante Dimas Almeida, o padre ortodoxo Alexandre Bonito e o professor universitário Luís Filipe Thomaz. "O objectivo é estimular o conhecimento das três religiões e respectivas comunidades, de modo a quebrar preconceitos", diz Peter Stilwell. "Trata-se de institucionalizar o que já existe", justifica ao PÚBLICO Abdool Vakil, a quem pertenceu a iniciativa de lançar a ideia. Envolvido há muito tempo no diálogo inter-religioso, Vakil considerou importante organizar uma associação que mostrasse que "na família abraâmica há muitas pontes". (...)
de jornalismo sobre temáticas religiosas
O jornalista do Público António Marujo recebe depois de amanhã, quinta-feira, em Lisboa, o prémio da Conferência das Igrejas Europeias para jornalistas da imprensa não-confessional que tratam informação religiosa.
Na cerimónia, que decorrerá às 18h30, na catedral da Igreja Lusitana (anglicana) de Lisboa, em Santos-o-Velho, conta com a participação do bispo D. Fernando Soares, Presidente do COPIC, Pamela Thompson, Vice-Presidente da Fundação John Templeton, Luca Negro, Secretário para as Comunicações da CEC, José Manuel Fernandes, Director do Público, e, claro, do jornalista premiado.
Na altura em que divulgou a notícia, o Público divulgou informações complementares que vale a pena relembrar:
"António Marujo venceu este prémio na edição de 1995, tornando-se agora no primeiro jornalista europeu a ser distinguido por duas vezes, refere o comunicado do gabinete de comunicação da CEC.
Entre os trabalhos que lhe valeram o prémio, com um valor monetário de cinco mil francos suíços (3227 euros), está uma entrevista ao padre, teólogo e poeta Tolentino Mendonça, intitulada "Jesus é um mistério fascinante, ainda em aberto" (26/02/05) e uma reportagem sobre o Congresso da Nova Evangelização, com o título "Bono Vox, bebedor de vinho e leitor da Bíblia" (11/09/2005)."Esta é a autêntica escrita sobre religião, mais do que a escrita ligada à Igreja, e é da melhor qualidade", afirmou um dos juízes do prémio, para quem o jornalista do PÚBLICO "não é fascinado pela Igreja, mas por algo mais profundo, que é o mistério da religião em si".
quinta-feira, 8 de junho de 2006
O diário El País traz hoje um texto de opinião de Daniel Jonah Goldhagen, intitulado El histórico fracaso de Benedicto XVI en Auschwitz, no qual defende as seguintes posições:
- Lo que tuvo de bueno [la visita del papa] a Auschwitz quedó anulado por el discurso que pronunció, que no mostró nada parecido ni a la sincera emoción de Brandt ni a la humildad de Juan Pablo, y que se apartó escandalosamente de lo que el propio Benedicto XVI ha llamado su obligación de decir la verdad. Por el contrario, el Papa emborronó la interpretación histórica, eludió la responsabilidad moral y rehuyó el deber político.
- Benedicto exoneró injustamente a los alemanes de su responsabilidad en el Holocausto y atribuyó la culpa exclusivamente a "una banda de criminales" que "usaron y abusaron" del pueblo alemán, engañado y presionado, como "instrumento" de destrucción. Lo cierto es que los alemanes, en general, apoyaron la persecución de los judíos, y muchos de los cientos de miles que la llevaron a cabo eran ciudadanos corrientes que actuaban de buen grado. No se puede atribuir la culpa del Holocausto, por completo o incluso principalmente, a una "banda criminal". Ningún especialista alemán, ningún político alemán, se atrevería hoy a proponer el relato mitológico que hace Benedicto XVI del pasado.
- Benedicto exoneró injustamente a los alemanes de su responsabilidad en el Holocausto y atribuyó la culpa exclusivamente a "una banda de criminales" que "usaron y abusaron" del pueblo alemán, engañado y presionado, como "instrumento" de destrucción. Lo cierto es que los alemanes, en general, apoyaron la persecución de los judíos, y muchos de los cientos de miles que la llevaron a cabo eran ciudadanos corrientes que actuaban de buen grado. No se puede atribuir la culpa del Holocausto, por completo o incluso principalmente, a una "banda criminal". Ningún especialista alemán, ningún político alemán, se atrevería hoy a proponer el relato mitológico que hace Benedicto XVI del pasado.
Está aberto o debate.
Complementos:
- Texto integral do discurso de Bento XVI em Auschwitz (em inglês)
- Leitura de John L. Allen Jr, jornalista do National Catholic Reporter. correspondente em Roma: Attempting to slay God was Auschwitz's greatest evil, pope says Benedict prayed that love would prevail over 'a spurious and godless reason' .
quinta-feira, 27 de abril de 2006
IMAGEM DO SAGRADO, IMAGENS DO MUNDO
O Centro de Reflexão Cristã promove, no próximo mês, as suas já conhecidas "Conferências de Maio", desta vez com o tema geral "Imagem do sagrado, imagens do Mundo". As sessões terão lugar no Centro de Estudos da Ordem do Carmo, na Rua de Santa Isabel, 128-130, Lisboa (Metro: Rato).
É o seguinte o calendário:
3 de Maio, 4ª feira, 18:30
A REPRESENTAÇÃO DO SAGRADO NO MUNDO DA IMAGEM
· Clara Menéres
· João Bénard da Costa
· Pe. Peter Stilwell
Moderador: Guilherme d?Oliveira Martins
10 de Maio, 4ª feira,18:30
PATRIMÓNIO DA FÉ E LIBERDADE CRIADORA
· Faranaz Keshavjee
· José Luís de Matos
· Nuno Teotónio Pereira
Moderador: José Leitão
17 de Maio, 4ª feira, 18:30
IMAGENS DO RELIGIOSO NA COMUNICAÇÃO SOCIAL
· Abdool Karim Vakil
· Esther Mucznik
· Pe. José Manuel Pereira de Almeida
Moderador: Fr. Bento Domingues
24 de Maio, 4ª feira,18:30
A LIBERDADE RELIGIOSA NUM MUNDO PLURAL
. Pastora Idalina Sitanela
. José Vera Jardim
. D. Manuel Clemente
Moderador: Maria Cristina Clímaco
domingo, 9 de abril de 2006
O Governo de Bush pretende restringir os direitos dos imigrantes ilegais a ponto de criminalizar quem os ajude. Se uma lei que está neste momento em apreciação (Sensenbrenner Bill 4437)fosse aprovada, poderia ser castigado quem desse uma sanduíche a um desses estrangeiros.
O cardeal Roger Mahony, de Los Angeles, que já tinha alertado para a possibilidade da desobediência civil, caso a lei avançasse, acaba de explicar melhor a sua posição, em entrevista dada ao correspondente em Roma da revista National Catholic Reporter. Um podcast da conversa com o jornalista John L. Allen Jr está também disponível.
Mahoney concretiza, neste seu combate, uma pastoral sobre a imigração, elaborada pelo episcopado norteamericano, que se resume em cinco pontos: 1) Global Anti-Poverty Efforts, 2) Reunifying Families, 3) A Temporary Worker Program, 4) Broad-Based Legalization, and 5) Restoring Due Process.
"(...) O mal físico talvez seja explicável; mas como compreender o mal moral? Porque é que não somos sempre bons e, pelo contrário, criamos infernos de desumanidade? Há aquele enigma que amargurava São Paulo: "Ai de mim, que sou um homem desgraçado, pois faço o mal que não quero e não faço o bem que quero!"(...)"
Anselmo Borges, in Diário de Notícias, 9.4.2006