sexta-feira, 6 de novembro de 2009

"O toque do presente"

"O toque do presente": com este título, escrevia ontem no jornal digital Página 1 o teológo e poeta José Tolentino Mendonça:

Como dizia Oscar Wilde, “o mais difícil de ver é o óbvio”. Sem dúvida, de todos os tempos interiores de que dispomos, o mais difícil de habitar é o tempo presente. O passado é um tempo até certo ponto confortável, pois está intacto mesmo quando o revemos nos seus ângulos dolorosos. O futuro também transmite essa impressão difusa de protecção. Mas o presente, o desafio do presente, o desafio do agora, da palavra, do sentimento, do gosto que é o meu presente, esse pede-nos quase sempre uma longuíssima viagem.
Há um texto de Cecília Meireles, intitulado “Canção Excêntrica” a que volto muito:

“Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.
Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.
Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço,
- do que faço, arrependida.”

É verdadeiramente uma canção excêntrica mas que, numa hora ou noutra, acabamos por trautear. Ela centra-nos na experiência do tempo, no seu extenso drama, aquilo que a sabedoria grega transmite com o mito de “Kronos”, o deus implacável que come os seus próprios filhos! Muitas vezes (demasiadas vezes) a vida é essa experiência de desgaste, de devoração, experiência inexorável de declive e perda. Aí não há espaço para o presente. Se o tempo é deglutição infi nita, só nos apercebemos dele quando passou. Compreendemos o que as coisas são quando elas já não são. Esta é a terrível mas sapiente imagem que o mito nos lega. Há, porém, outra palavra – uma palavra em que os textos cristãos das origens insistiram muito: “Kairos”, isto é, o tempo entrevisto como qualidade, oportunidade, lugar da revelação e da surpresa.
A nossa vida está entre estas duas categorias: o Kronos, esse tempo que nos cavalga, e o Kairos, esse tempo que nos reaproxima da vida como território da revelação criativa de nós próprios.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Crucificado

1. De novo se inicia uma onda de debates que parece querer retomar mais um episódio da novela global das mesquinhos tentativas de destruição da memória cristã do ocidente. Evocando retorcidas razões, cujo fundamento, à custa de tão encoberto, parece evidente, pretende-se de novo, agora a um nível dito europeu, eliminar símbolos religiosos (cristãos) de espaços públicos, de que sobressai, evidentemente, a imagem do crucifixo, que parece ser aquela que provoca mais incómodos – e como poderia não ser assim?
Da minha parte, não quero aqui debater razões de peso de ordem histórico-sociológica. Prefiro concentrar-me numa dimensão mais teológica, com resultados culturais que me parecem de monta e que, normalmente, não são abertamente discutidos – estratégia que faz parte do tal encobrimento dos fundamentos. De qualquer modo e a respeito da questão sócio-cultural, não resisto a deixar ao leitor duas citações de dois actuais (ainda) «mestres da suspeita», que sobre o tema me parecem insuspeitos, pois nem são crentes nem de «direita».
Num texto de Jürgen Habermas, sociólogo neo-marxista de Frankfurt, podemos ler: “Não acredito que nós, europeus, pudéssemos compreender seriamente conceitos como moralidade, pessoa, individualidade, liberdade e emancipação sem absorvermos a substância do pensamento histórico-salvífico de origem judaico cristã… Sem a mediação socializante… das grandes religiões mundiais, este potencial semântico poderá um dia tornar-se inacessível” (Nachmetaphysisches Denken).
Num outro texto, do conhecido sociólogo francês Alain Touraine, podemos também ler: “O ensino das religiões, das suas crenças como da sua história, não é certamente um atentado à laicidade; pelo contrário, é o silêncio imposto sobre as realidades religiosas que é um atentado inaceitável ao espírito de objectividade e de verdade de que a escola laica se reclama” (Pourrons-nous vivre ensemble?). Quem tiver ouvidos para ouvir… e inteligência sócio-histórica para compreender, que medite sobre o que eles, herdeiros da secularização, já conseguem dizer.

2. Mas a questão em debate pode assumir, ainda, outra vertente – ou outra face da mesma moeda. Afinal, o que pode significar o crucifixo?
Não se trata, para que sejamos claros, de um símbolo de marca religiosa, como os actuais símbolos de markting, de clube, ou mesmo de partido político. Se assim fosse, na actual proliferação dos «clubes» religiosos, seria legítimo não privilegiar o markting de nenhum – mesmo que a maioria esmagadora de cristãos, na sociedade portuguesa o pudesse, de algum modo, legitimar.
Mas o crucifixo, enquanto memória simbólica e imagética do Crucificado e de tudo o que Ele significa para o ser humano, pretende-se um símbolo universal. Por isso, interpela e dirige-se a todos, não apenas aos cristãos.
Nele denuncia-se, antes de mais, toda a violência vitimadora de inocentes, sejam eles quem forem: independentemente da raça, sexo, nação, religião, estado de vida, perfeição, idade, etc. Nele revela-se, para além disso, que Deus – neste caso, o Deus em que acreditam os cristãos – é solidário com essas vítimas de injustiça e que não se encontra do lado dos poderosos vitimadores. Nele anuncia-se, portanto, que, se assim é, essa vitimação e todo o sofrimento daí resultante não terão a última palavra sobre o destino do ser humano, mas que se realizará a promessa da vitória da justiça sobre a injustiça. Nele manifesta-se, para nós, que o caminho dessa vitória é, precisamente, o da solidariedade, sofredora, com todas as vítimas que, à nossa volta, nos interpelam com o seu grito – e não o trajecto vitorioso do herói que, exaltado culturalmente, rasga o caminho da vitória à custa da vitimação dos outros (a propósito, não resisto a aconselhar o leitor a que aprofunde o assunto, lendo sobretudo os textos de Johann Baptist Metz, sobre o sofrimento humano, e os textos de René Girard, sobre a violência e a vitimação – é pena que esses pensadores fundamentais não sejam inseridos no debate...).
Será que, numa cultura que se torna progressivamente apática ou insensível ao sofrimento das vítimas inocentes, o crucifixo se tornou incómodo e indesejado? Será que, numa sociedade que pretende esconder a dura realidade da injustiça e de outros modos de sofrimento, através de neutralização mediática e consumista, o crucifixo continua a ser – como sempre o foi – sinal de contradição e de denúncia da auto-satisfação em que nos pretendemos?
Se assim é e se, por essa razão, eliminarem o crucifixo da nossa paisagem e da nossa memória, cabe aos cristãos assumir profeticamente a mediação da voz silenciosa do Crucificado, anunciando corajosamente que o ser humano não se deixar neutralizar assim tão facilmente.

João Duque
Director Adjunto da Faculdade de Teologia – Núcleo de Braga
[texto publicado no site da diocese de Braga]

domingo, 1 de novembro de 2009

Podem roubar-nos tudo, menos a esperança

Aos 81 anos, Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix de Araguaia (Brasil), deu uma entrevista à revista Pueblos, aqui transcrita na íntegra, onde fala da pobreza, da teologia da libertação, do papel da política na transformação da realidade, do consumismo e ambiente. Numa das perguntas, os entrevistadores recordam um encontro de Casaldáliga com Fidel, há 20 anos, em que o líder cubano dizia que a teologia da libertação fez mais pela transformação da realidade latino-americana que milhões de livros sobre marxismo.

O bispo recorda a propósito: "Una de las críticas que se le hace a la Teología de la Liberación por parte de los conservadores es que se trata de una teología muy materialista, que se preocupa mucho de intereses materiales, de necesidades físicas y olvida el espíritu, la oración. Ante eso, yo reivindicaría tres o cuatro trazos que serían indispensables en la Iglesia de Cristo: el primero, la opción por los pobres; el segundo, conjugar fe y vida; el tercero, la Biblia en manos del pueblo; cuarto, la solidaridad auténticamente fraterna."

Vale a pena ler esta voz, que continua profética.

Tempo glorioso para a Bíblia

Na crónica deste domingo no Público, frei Bento Domingues regressa ao tema da Bíblia para se referir também a uma presença portuguesa na Escola Bíblica e Arqueológica de Jerusalém: a de frei Francolino Gonçalves. Excertos do texto:

1.Nos confrontos, que vi e li, com José Saramago, por causa das suas declarações sobre Deus, as religiões e a Bíblia, a insistência recaía sempre no mesmo: “Saramago pronuncia-se, de forma rotunda, acerca do que ignora”. Ele, pelo contrário, declarava que conhecia suficientemente a Bíblia e os malefícios das religiões para poder dizer o que disse.

Longe de mim pensar que estes confrontos, nos meios de comunicação – atingem multidões –, sejam totalmente inúteis, embora não possam vencer a sua inerente superficialidade. Nestes casos, cada um reforça as suas posições. Quem não gosta de Saramago fica confortado: ele pensa que sabe tudo e não sabe. Quem gosta dos seus livros, das suas opções políticas e culturais lamenta o tom dos seus pronunciamentos, mas não perde a fé no escritor. (...)

2. De qualquer modo, este foi um tempo glorioso para a Bíblia, em Portugal. Veremos se terá ou não consequências duradoiras.

(...) O famoso dominicano Marie-Joseph Lagrange (1855-1938) fundou, em 1890, no meio de suspeitas e proibições, a Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É o mais antigo centro de pesquisa bíblica e arqueológica da Terra Santa, estabelecido nos espaços do convento dominicano de St-Étienne, convento fundado, em 1882, sob o nome de Escola Prática de Estudos Bíblicos, sublinhando a sua especificidade metodológica. Coroando anos e anos de investigação e de publicações científicas, surgiu a famosa Bíblia de Jerusalém (1956). Na altura, os exegetas insistiram na sua grande diferença: além da tradução dos originais do hebraico, aramaico e grego, apontava a contextualização histórica, dentro do ambiente físico e cultural, relativo à época em que cada livro foi escrito. Era uma obra que reflectia "a união do monumento e do documento", na linha de Lagrange, ligando "a arqueologia, a crítica histórica e a exegese dos textos". (...)

3. O catolicismo português viveu bastante alheio não só à revolução que tinha acontecido na investigação da Bíblia e dos seus mundos, como ao próprio movimento bíblico das Igrejas. Já não estamos, propriamente, nessa situação. Sem pretender fazer a história da viragem, temos de realçar o grande trabalho que os Padres Capuchinhos começaram a desenvolver a partir de 1951. (...) Na Internet é fácil medir o volume desse esforço. (...)

Este ano, muitos portugueses foram surpreendidos com a nomeação do dominicano, Francolino Gonçalves, para a Comissão Bíblica Pontifícia. Não admira. Está há 40 anos, investigando e ensinando, na já referida Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. (...) É urgente que um conjunto de estudos de Francolino Gonçalves, absolutamente fundamentais, dispersos por revistas portuguesas de escassa tiragem, seja publicado numa edição que destaque a sua importância para a cultura nacional.

Seria injusto não haver Deus

Anselmo Borges escreveu neste sábado no DN sobre a morte e o mistério de Deus. Um excerto do texto que pode ser lido na íntegra aqui:

Para onde vão os mortos? Para o Silêncio. O mistério da morte é esse: dizemos que partiram, mas o que abala é não deixarem endereço. Na morte, a evidência é o cadáver. Mas quem se contenta com o cadáver? Por isso, a morte é o impensável que obriga a pensar e, enquanto formos mortais, havemos de perguntar por Deus.

Deus não é "objecto" de ciência, mas uma esperança, sobretudo quando se pensa nas vítimas inocentes. Como escreveu o agnóstico M. Horkheimer, um dos fundadores da Escola Crítica de Frankfurt, "se tivesse de descrever a razão por que Kant se manteve na fé em Deus, não saberia encontrar melhor referência do que aquele passo de Victor Hugo: uma anciã caminha pela rua. Ela cuidou dos filhos e colheu ingratidão; trabalhou e vive na miséria; amou e vive na solidão. E no entanto está longe de qualquer ódio e rancor, e ajuda onde pode... Alguém vê-a caminhar e diz: Ça doit avoir un lendemain!... Porque não foram capazes de pensar que a injustiça que atravessa a História seja definitiva, Voltaire e Kant postularam Deus - não para eles mesmos".

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Emmaüs festeja o seu sexagésimo aniversário

O movimento Emmaüs celebra hoje no Zénith, uma conhecida sala de espectáculos de Paris, o sexagésimo aniversário da criação por abbé Pierre da primeira comunidade em França. As comemorações alargam-se depois a toda a França, como conta o diário La Croix, que recorda que, embora tenha sido frequentemente visto, por sectores da Igreja católica, como um provocador, o abbé Pierre é um exemplo aos olhos dos responsáveis católicos.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Onde está Deus?

Saramago pode ter posto alguma gente a comprar um livro que tem um título várias vezes menor do que o nome do seu autor. Mas também suscitou o debate em torno de Deus.
Se Deus fosse pura ilusão ou mero vestígio em vias de esquecimento, improvável seria que tantas ondas se levantassem, contra e a favor. Saramago é astuto e, se as suas boutades forem mais do que marketing, como, apesar de tudo, julgo que sejam, não seria improvável que, no fundo, tudo o que diz fosse, também, mais do que a enunciação de uma certeza (essa, afinal, velhíssima e conhecida), a emergência de uma pergunta existencial.
Agora o que parece difícil, entre nós, é fazer um debate sobre Deus e as mediações que o tornam (ou não) presente no mundo e na vida que vão além dos parâmetros que eram referência nos séculos XVIII e XIX.
Algum jornalismo saliva e delira com uns sound bites que se metam com Deus e a religião, mas é preguiçoso a fazer trabalho de casa e a interrogar quem os profere, como faz noutras áreas da vida pública. Pelos vistos o problema não se manifesta apenas por cá, como sublinha a última edição do Observatório da Imprensa, do Brasil, a propósito de um texto há dias publicado no Estado de São Paulo.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Saramago e a Bíblia - no rescaldo de uma polémica

A polémica das afirmações de José Saramago prosseguiú nos últimos dias. Ainda hoje, no DN, João Miguel Tavares escreve sobre o tema, afirmando: "Saramago está convencidíssimo de que Deus não existe, mas também está convencidíssimo de que Deus é um pulha. A isto chama-se a lógica da batata. Espero que Saramago escreva um livro sobre ela um dia destes." No sábado, Anselmo Borges convocou o filósofo ateu e marxista Ernst Bloch para o debate. Na segunda-feira, no Expresso online, era publicado na íntegra o debate entre Saramago e José Tolentino Mendonça. E domingo, no Público, ficava a crónica de frei Bento Domingues, aqui reproduzida a seguir e intitulada "Confronto na afabilidade".

1.Seja qual for o interesse literário de Caim de José Saramago, as declarações feitas no seu lançamento foram interpretadas em registo publicitário: o importante não é que se diga bem ou mal; o importante é que se fale.

Neste sentido, o êxito das palavras de Saramago não podia ter sido maior e mais rápido. Pôs o país a falar daquilo que, segundo o escritor, Portugal ignora: a Bíblia. Há quem diga que ele estava feito com a Sociedade Bíblica e os representantes dos três monoteísmos (Judaísmo, Cristianismo e Islão). Dizendo o pior das Sagradas Escrituras, faz um dinheirão. Por outro lado, a Bíblia e o Corão, livros malditos, conseguem uma publicidade que a beatice das Igrejas dificilmente poderia conseguir. Se, além disso, a Bíblia é o livro mais editado, vendido e lido, as declarações malditas tornaram-se uma bênção para José Saramago. Embora em posições contrárias e por razões diversas, todos teriam ganho com a ignorância que mutuamente se atribuem.

O autor de Caim não percebe como é que a Bíblia se tornou um guia espiritual: está cheia de horrores, incestos, traições, carnificinas. É um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana. Apesar deste tiroteio, disse que não iria causar problemas, na Igreja Católica, porque os católicos não lêem a Bíblia, só a hierarquia e ela não está para se incomodar com isso. Admitia que o livro pudesse incomodar os judeus, mas isso pouco lhe importava.

Precipitou-se. Segundo o DN, ficou surpreendido com “a frivolidade dos senhores da Igreja. Não leram o livro e vieram logo, com insólita rapidez, derramar-se em opiniões e desqualificações, tanto da obra como do seu autor. Como falta de seriedade intelectual, não se poderia esperar pior. Compreendo que tenham de ganhar o seu pão, mas não é necessário rebaixarem-se a este ponto".

Terá Saramago, no duplo papel de carrasco e vítima, esquecido que a discussão ainda não está centrada no livro – poucos ainda o terão lido –, mas nas suas declarações de ódio às religiões e à Bíblia? Uns atribuem as suas declarações a um estado de acentuada senilidade, outros dizem que esse ódio é do foro psiquiátrico: como não teve nem tem coragem de denunciar as mortandades e os crimes do comunismo, transfere, para um passado muito longínquo, as atrocidades que, em nome dessa ideologia ateia, foram cometidas durante a sua própria vida.

2. Na troca de insultos, na resposta ao ódio com o ódio, ao mal com o mal, não se salta fora da lei de talião: “olho por olho, dente por dente” (Ex 21, 23-25 e par.).

Na boca de Jesus, nasceu outra “lei”: “amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, orai por aqueles que vos difamam”. Vem, depois, a versão positiva da “regra de ouro”: “Fazei aos outros o que gostaríeis que os outros vos fizessem” (Lc 6, 27-31 e par.). Paulo resume tudo num só mandamento: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Rm 13, 8-10). Não se pode construir, com estes e outros aforismos do mesmo género, um manual ou um catecismo de ingenuidade. Jesus Cristo também lembrou uma regra de paradoxal sabedoria no mundo de contradições em que vivemos: “sede simples como as pombas e prudentes como a serpente” (Mt 10, 16).

Quem tiver lido a Bíblia sabe que esta biblioteca de muitos géneros literários, construída ao longo de séculos, não é um manual nem de bons nem de maus costumes. Os seus autores humanos caíram, muitas vezes, na tentação de atribuir a Deus, que está para além de todo o nome, não só o louvor, mas também os seus desejos de vingança. Não se deve tomar a parte pelo todo. Ler exige saber ler.

3. Foi traduzido, de Enzo Bianchi que esteve há pouco em Portugal, um livrinho com um título – Para uma Ética Partilhada – que resume o seu conteúdo e constitui uma boa ajuda para esta época de crispações, delícia de alguns meios de comunicação colonizados pelas touradas, por cenários de sangue. O livro abre com uma interrogação: Será ainda possível um confronto na afabilidade? Parte de uma verificação: “Para todos os que se empenharam no diálogo entre crentes cristãos e não cristãos, entre católicos e «laicos», para os próprios católicos que acreditam no diálogo vivido na escuta, no esforço de não desprezar o outro, mas de encetar com ele um confronto na afabilidade, estes últimos tempos podem dizer-se – em linguagem bíblica – «dias maus»”.

Crentes e não crentes acusam-se, mutuamente, de intransigência e arrogância. Não desesperemos. José Saramago acaba de dizer, numa entrevista ao JL: “se a alguém ocorrer fundar uma internacional da bondade eu inscrevo-me. Ela é fundamental, e eu coloco-a acima de qualquer atributo humano, incluindo a inteligência e a sensibilidade”.

No final do seu livro, Enzo Bianchi coloca a questão fundamental: quem é o ser humano? Para onde vai? “Como pode viver numa sociedade que luta contra a barbárie e a favor da humanização? Das respostas que cada qual, a partir do seu património espiritual, souber dar depende, sem dúvida, o nosso futuro, mas também, já desde hoje, a qualidade da nossa vida pessoal e da convivência civil”.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A Bíblia, como um caroço de azeitona


Quem conhece a obra do escritor italiano Erri de Luca (além de outros títulos, "Montedidio", "Em Nome da Mãe" e "O Dia Antes da Felicidade" já foram publicados em Portugal), sabe que a sua é uma escrita de seda, puríssima. Dele acaba de ser publicado também, na Assírio & Alvim, "Caroço de Azeitona", onde este escritor (agnóstico, mas que sabe hebraico e já traduziu vários livros da Bíblia para italiano) fala de episódios e personagens da Bíblia. Fica aqui um aperitivo para a leitura apetitosa em forma de "Caroço de Azeitona":

Uma boa parte da humanidade não tem consciência de ter saído de Deus. Muito aflige o acto de confiança, antes do acto de fé. Permaneço, como não crente, alguém que passa pelas escrituras sagradas e não um residente. (...)

Ler as escrituras sagradas é obedecer a uma precedência do escutar. Começo as minhas manhãs com um punhado de versículos, para que o meu dia tenha um fio condutor. Posso depois dispersar-me durante o resto das horas correndo atrás do que tenho para fazer. No entanto, mantive para mim um penhor de palavras duras, um caroço de azeitona para andar a girar na boca."

ps - Erri de Luca está hoje em Lisboa a apresentar "O Dia Antes da Felicidade" e dará várias entrevistas a meios de comunicação social

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Mau costume

A Bíblia é um livro de "maus costumes", mas também de bons costumes. Um "catálogo de crueldade", mas também de sensibilidade e generosidade. Céptica, mostra o "pior da natureza humana". Utópica, revela confiança para lá da lógica humana e capacidade de perdão sem limites.

A Bíblia pode ser lida como um tratado de violência, mas também como um tratado de não-violência. Tem histórias de guerra e de paz. Adão e Eva. De traições e fidelidades. Caim e Abel. Dramas e alegrias. Paixões e desilusões. Sansão e Dalila. Alentos e desalentos, da metáfora erótica de Cântico dos Cânticos ao suplício de Job. Ameaças e bem aventuranças. David e Golias. Desespero e esperança, do Egipto à "Terra Prometida". O ferro nas mãos e o fogo nas palavras. Jesus e Barrabás. Intolerância e confiança. Da Sabedoria a Eclesiastes, "tudo tem o seu tempo" e há um tempo para tudo. Para a Vida e para a Morte.

Reduzir a Bíblia a meia dúzia de frases marcadas pelo preconceito religioso é uma desonestidade. Outros pensadores – que não chegam aos calcanhares do Nobel português –, noutros cenários religiosos, já fizeram o mesmo exercício de liberdade. Dizer que a Bíblia "é um manual de maus costumes" é um mau costume, mas uma boa estratégia de vendas.

(excerto de um artigo de opinião na SIC online, que pode ser lido na íntegra aqui)

domingo, 18 de outubro de 2009

No melhor Nobel cai a nódoa

José Saramago lê a Bíblia - e isso é uma boa notícia, porque a Bíblia é grande literatura, como sabe qualquer pessoa culta, mesmo quando não se é crente; e é um texto que acompanha a história da humanidade, através da poesia, da história, das parábolas.

José Saramago não sabe ler a Bíblia - e isso é uma péssima notícia, quando falamos de um prémio Nobel, que é suposto ser culto.

José Saramago tem boa memória - porque se lembra sempre da Inquisição e das Cruzadas, que todos sabemos que foram crimes.

José Saramago tem algumas falhas de memória - porque não se lembra das centenas de milhar de pessoas mortas por Estaline no gulag soviético.

Quando a leitura do mundo e da vida se fica por banalidades preconceituosas e ignorantes, só podemos lamentar...

Casamento católico em vias de extinção?

No artigo de hoje no Público, frei Bento Domingues escreve sobre o casamento católico e a forma esse acontecimento é preparado pela Igreja. Aqui fica o texto.

1.O alarme foi dado pelos meios de comunicação social baseado em dados estatísticos: em 10 anos, na diocese de Lisboa, os casamentos católicos baixaram 62%. Observaram-me que, se este ritmo se mantiver, em poucos anos, deixará de haver divórcios de casais católicos e um tema recorrente nestas crónicas – a situação dos divorciados na Igreja – também estará esgotado. É melhor, no entanto, não fazer previsões.

Dir-se-á que, depois de alguma alergia ao institucional, do proclamado desinteresse pela política, pelos partidos, pelos actos eleitorais, as instituições da Igreja e a Igreja como instituição também não poderiam fugir muito à tendência geral. Em parte assim será, mas o realce que a notícia teve, nos meios de comunicação social, dava a ideia de que o catolicismo, em Portugal, estaria em acentuado declínio e a hierarquia católica não poderia continuar a alimentar a ficção de que só existe o modelo católico de família que defende.

Não adianta muito pensar que este decréscimo brutal dos casamentos católicos seja apenas o fruto de políticas laicas acerca da família nem a sua estrepitosa divulgação seja regozijo com a perda de influência do catolicismo. Em Portugal, a liberdade religiosa não está em perigo, nem o direito ao casamento católico. A questão de fundo é outra: que fazer para que as famílias se transformem numa fonte de vida evangelizadora das novas gerações? A estatística citada sugere que as novas gerações só poderão receber uma herança se esta for um convite à invenção de novas formas de ser cristão.

2. Para a compreensão e vivência do casamento católico, surgiu, em Paris, em 1938, um inspirado movimento, obra do Padre Henri Caffarel (1903-1996). Em 2006 foi aceite o pedido de abertura do processo da sua beatificação.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o movimento expandiu-se e foi criada a revista "L'Anneau d'Or", divulgando a experiência das pequenas equipas e a sua espiritualidade. Em 1947, o movimento organizou-se e foi elaborado um documento fundador: a "Carta das Equipas de Nossa Senhora”, revista em 1976. Em 2002, o Pontifício Conselho para os Leigos reconheceu, finalmente, as Equipas de Nossa Senhora (ENS) como Movimento de Fiéis Leigos. O Movimento expandiu-se por todos os continentes. Entrou, em Portugal, em 1957.

Sessenta anos depois, são celebrados os êxitos imensos deste Movimento de espiritualidade conjugal, apesar das dificuldades e dos limites que a moral familiar oficial impõe. No entanto, muitos casais das ENS interrogam-se: onde teremos falhado para que alguns dos nossos filhos não se casem pela Igreja e nem os seus filhos querem baptizar? Andaram em colégios católicos, foram à catequese, alguns até foram catequistas, pertenceram a movimentos juvenis da Igreja e, depois, nada! Resta-lhes a consolação de que alguns valores essenciais informem as suas vidas.

3. Esta sensação de culpa não tem, por vezes, muita razão de ser. Já não estamos no tempo em que os pais e as mediações de formação da Igreja eram as únicas referências no crescimento dos filhos. Vivemos em sociedades abertas e os mais novos, para além da natural rebeldia da juventude, podem dizer aos pais, de forma clara ou velada: eu já não vou por aí.
Uma observação destas não pode servir, todavia, para a resignação dos pais, dos educadores católicos e da pastoral da Igreja no seu conjunto.

Tendo em conta o que está a acontecer, seria preciso, depois de um debate alargado a paróquias, dioceses, movimentos e universidades católicas, reunir um Concílio dedicado exclusivamente à moral familiar proposta na Igreja e ao reexame do que se passa nas outras religiões e nas diversas manifestações da sociedade civil.

Para o vigente Código de Direito Canónico, "O pacto matrimonial, pelo qual o homem e a mulher constituem entre si a comunhão íntima de toda a vida, ordenada por sua índole natural ao bem dos cônjuges e à procriação e educação da prole, entre baptizados foi elevado por Cristo nosso Senhor à dignidade de sacramento. Pelo que, entre baptizados, não pode haver contrato matrimonial válido que não seja, pelo mesmo facto, sacramento." (Cân. 1055).

As implicações teóricas e práticas desta apresentação do casamento merecem um amplo debate que não é para esta crónica. A pergunta que deixo é outra: que pretende quem procura celebrar um casamento católico e o que recusa quem, embora baptizado, não quer casar pela Igreja?
As dimensões de vida, a importância, as ambiguidades e mesmo os equívocos, que envolvem a opção por uma união de facto, um casamento civil ou um casamento religioso, não cabem em apreciações e valorizações esquemáticas.

É normal que a celebração do matrimónio suscite uma vontade de festa que não tem de ser uma exibição de riqueza real ou aparente. A Igreja, sem negar a importância de uma grande festa, deve propor, aos ricos, uma ocasião para repartir com os pobres. Os Encontros de Preparação para o Matrimónio (CPM), devem ajudar a perceber que os noivos não estão obrigados a promover a indústria dos “casamentos de sonho”.

O pecado original e a política

No seu artigo de sábado no DN, Anselmo Borges reflecte sobre o pecado original e a política. E escreve:

O risco é servir-se em vez de servir. Ou servir alguns apenas e não o bem comum. Corromper e deixar-se corromper. Não respeitar a separação de poderes e, concretamente, a independência do poder judicial. E que acontecerá quando o poder, mesmo conquistado legitimamente, se exerce sem competência intelectual, moral e técnica?
A tentação é tamanha que mesmo na Igreja se esqueceu a revolução única do cristianismo: Deus não se revelou como omnipotência abstracta, mas força infinita do amor criador. E Cristo disse: "Não vim para ser servido, mas para servir."

Aqui pode ler-se o texto completo.

sábado, 17 de outubro de 2009

Mário Mota Marques, memória de um homem bom

Mário Mota Marques morreu esta quinta-feira. Quem o conheceu, sabe que era um homem bom. Provavelmente bastará dizer isso acerca de alguém para dizer tudo e lhe prestar uma grande homenagem. Mas no povo de bahá há várias memórias em vídeo e em texto para quem quiser saber mais sobre aquele que, até há pouco tempo, era o responsável pela informação da Comunidade Bahá'í de Portugal.

O funeral foi este sábado. Vários responsáveis de diferentes comunidades religiosas estiveram presentes no velório e na despedida de Mário Mota Marques, recordando o seu grande empenhamento no diálogo inter-religioso e na promoção de um clima de paz entre as pessoas e as religiões.

Na escritura Bahá'í para a ocasião do martírio do Báb, lê-se: "Durante todos os dias de Tua vida estiveste imerso num oceano de angústias (...). No entanto, a despeito de tudo isso, exortaste todos os homens a obervarem o que Te fora prescrito por Aquele que é o Omnisciente, a Suprema Sabedoria..."

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Religião e Ciência

Intervenção de D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, no Ciclo de Conferências “Diálogos com a Ciência”, Reitoria da Universidade do Porto, 8 de Outubro de 2009.

Como importante será compreendermos como religião e ciência se tornam complementares e interactivas na melhor definição recíproca. Como geralmente acontece, o crescimento delas realiza-se como autêntica “crise de crescimento”: a afirmação da mentalidade científica exigiu a redefinição da esfera religiosa; e a persistência da religião, em sucessivas decantações, situou a ciência no seu campo específico, tanto em termos de método e objecto como em lúcida auto-limitação, para poder prosseguir com segurança e acerto.

Permiti-me um brevíssimo relance sobre o percurso da ciência ocidental, como melhor maneira de ilustrar o que vai dito sobre a complementaridade interactiva da religião e da ciência…

Fala-se de como se guardou o conhecimento antigo nas igrejas e mosteiros, como as universidades nasceram na órbita da Igreja, dos cientistas jesuítas, dos padres cientistas no século do Iluminismo, dos cientistas crentes... Ler aqui.

Imagem: Alberto Magno, "Doutor Universal"

sábado, 10 de outubro de 2009

Cesariny e a 'Salve, Rainha"

«A oração é uma forma de poesia, a poesia é uma forma de oração». Em Aspirina B, José do Carmo Francisco deixou um post sobre como via o peta Mário Cesariny essa antiga oração que dá pelo nome de "Salve, Rainha".

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Deus e eu conversamos todos os dias

Acaba de ser editado e é o primeiro livro infantil da Esfera dos Livros. Intitula-se Deus e eu conversamos todos os dias. É um livro de orações para crianças da autoria de Joaquín M.ª Garcia de Dios e tem o prefácio do padre Paulo Malícia, director do Departamento da Evangelização do Patriarcado de Lisboa. Na nota de apresentação, a editora explica que o livro mostra diferentes maneiras de conversar com Deus e acrescenta que o que nele é importante é fazer com que as crianças inventem as suas próprias orações.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Harvey Cox: [o presente e] o futuro da fé

Harvey Cox é um teólogo protestante, professor da Universidade de Harvard desde 1965, autor de best sellers como A Cidade Secular ou A Festa dos Loucos e acaba de publicar nos Estados Unidos da América "O futuro da fé" (Harper, 2009).
O facto foi pretexto para diversas entrevistas, nas quais o autor propõe leituras sobre o fenómeno religioso na actualidade, por parte daquele que alguns consideram um dos grandes teólogos do século XX.

Um aspecto interessante que ele conta na rubrica semanal Religion & Ethics, da cadeia PBS, refere-se ao crescimento do religioso na própria Universidade de Harvard. Segundo conta, quando iniciou actividade docente na instituição, há mais de 40 anos, a Universidade, com uma pequena escola de teologia, possuía uma oferta formativa diminuta. Hoje, além de uma escola e de um curso, a procura de formação supera largamente a oferta e, segundo Cox, é cada vez maior o número de estudantes que participam nos vários cultos, rezam, etc., não necessariamente vinculados a confissões religiosas. Trata-se de uma "curiosidade intelectual" mas também de uma "busca pessoal", acrescenta.

Para ouvir uma entrevista com Cox: AQUI.

domingo, 4 de outubro de 2009

"Muito mais do que uma cantora extraordinária"

"Muito mais do que uma cantora extraordinária". É assim que, muito justamente, o diário Clarín anuncia a morte de Mercedes Sosa. Recorda o jornal argentino que, "além de uma voz prodigiosa, tinha qualidades como a honestidade intelectual e o compromisso artístico. Prestigiada, com o tempo erigiu-se num símbolo da luta pela liberdade". "Gracias a la vida" é uma das suas mais conhecidas canções.





Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió dos luceros, que cuando los abro
Perfecto distingo, lo negro del blanco
Y en el alto cielo, su fondo estrellado
Y en las multitudes, el hombre que yo amo

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el oído, que en todo su ancho
Graba noche y día, grillos y canarios
Martillos, turbinas, ladridos, chubascos
Y la voz tan tierna, de mi bien amado

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido, y el abecedario
Con el las palabras, que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano y luz alumbrando
La ruta del alma del que estoy amando

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha, de mis pies cansados
Con ellos anduve, ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu patio

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió el corazón, que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes, que es el mismo canto
Y el canto de todos, que es mi propio canto
Y el canto de ustedes, que es mi propio canto

Obrigado Mercedes Sosa.